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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

LIBERAÇÃO DAS ARMAS: UMA REFLEXÃO TEOLÓGICA



 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Em 2005, chorei e lamentei o resultado do plebiscito.  Depois de lutar em várias frentes pelo fim da liberação do posse de armas e de sua comercialização, tive que amargar, junto com outros tantos, a derrota por larga margem.  Os que defendiam a comercialização de armas e sua posse venceram.
Agora, o presidente assina o decreto que legitima não só a posse de arma, chegando a facultar a uma mesma pessoa possuir até quatro armas de fogo.  O choro e o lamento recrudescem com mais força.  Parece que o Brasil caminha cada vez mais célere em direção a converter-se em um país bélico e violento.
São de impressionar os argumentos para o decreto que legitima posse de armas. Embora os defensores desta medida digam ser uma iniciativa que mitigará  a violência, isso é conhecido e largamente desmentido por todas as estatísticas.  Mais armas geram mais violência e também mais mortes.  Que o digam as mulheres, cujos assassinatos proliferam exponencialmente no país e que agora terão que conviver com companheiros não apenas violentos e agressivos, mas armados.  As mortes de mulheres certamente vão aumentar no Brasil com essa medida. 
Mas há mais: armas de fogo, letais e mortíferas, são comparadas a carros, que podem ter acidentes, e a liquidificadores, que podem machucar dedos de crianças.  Creio que há uma profunda diferença entre os objetos comparados aqui. Um carro tem a finalidade de transportar.  Se mal dirigido ou se abalroado por outro veículo ou qualquer outra causa, pode sofrer um acidente e eventualmente provocar ferimentos e morte.  Um liquidificador é um eletrodoméstico que tem a finalidade de fazer sucos ou vitaminas com vários legumes ou sopas etc. Eventualmente, se uma criança escapa do controle da mãe ou do responsável e coloca o dedo em seu motor, pode machucar-se. 
Já arma de fogo tem como finalidade ferir e matar.  Este é o seu objetivo e para isso será usada.  Quando portada por um adulto, pode atirar em legítima defesa ou por vingança, ou outro qualquer motivo.  Mas quando manipulada por uma criança, pode transformar o que era uma inocente brincadeira em uma tragédia sem tamanho.
Não pretendo aqui repetir as inúmeras análises já feitas brilhantemente por tantos jornalistas e comentaristas das mais diversas áreas. Restrinjo-me à minha área de conhecimento que é a teologia cristã.  E pergunto: como pode um governo que tanto valoriza o Evangelho, que reivindica em várias situações e várias instâncias o respaldo de Deus para suas decisões e ações, tomar medidas que vão em direção contrária a tudo que a Palavra de Deus proclama com força e insistência? A liberação da posse de armas contraria as propostas mais centrais do Evangelho de Jesus e, portanto, da Bíblia cristã.
O uso de armas, quaisquer que sejam elas, sempre foi questionado pelo Deus da Revelação cristã e radicalmente condenado por Jesus de Nazaré em quem os cristãos reconhecem o Filho de Deus e Deus mesmo. 
Em momento algum de sua pregação e ministério, Jesus solicitou ou permitiu aos que o seguiam como discípulos que apelassem para a violência. No Jardim das Oliveiras, já bem próximo à sua prisão, o Mestre repreendeu a atitude dos discípulos que faziam uso da espada.  E esse texto se encontra em mais de um evangelho: “embainha a tua espada”, diz João 18,10; “pois todos os que tomam a espada morrerão pela espada”, dirá Mateus 26,52.  A mensagem é clara:  não pode ser instrumento de salvação o que traz a morte. 
Muito significativa ainda é a atitude de Jesus relatada apenas em Lucas 22,49-51: diante da pergunta dos seus “Senhor, devemos ferir com a espada? ” E à ação de usá-la decepando a orelha do soldado romano, Jesus respondeu curando o que foi ferido, mesmo sendo um “inimigo”. Trata-se de reação não apenas de repreensão. Mais ainda: de reparação que o Mestre, às portas da morte, assumiu diante da tentativa de violência praticada por um dos discípulos. Com isso vemos o Evangelho dizendo: não basta não concordar com a violência e não portar instrumentos que a provoquem e efetuem; é necessário reparar seus danos, curar suas feridas. Jesus diz “Basta”. Trata-se aqui de um “basta” a toda e qualquer tentativa de violência, mesmo que seja na melhor das intenções, que no caso dos discípulos, era de salvar o Mestre dos soldados que vinham prendê-lo.
A mim, particularmente, em todos os episódios que antecederam a assinatura do decreto, chocou-me a atitude de padres que defendem o porte de armas e que entram em escolas de tiro para aprender a usá-las. Argumentam que atirar em legítima defesa é moral, porque mata não um inocente, mas um agressor.  E exortam os fiéis a liberar-se do complexo de culpa e da ideologia pacifista.
Com todo respeito, creio que sobre isso o evangelho é bem claro.  Para um cristão, a violência não se justifica nunca. E se queremos – como é fato – que a segurança e a paz reinem em nosso país, o caminho certamente não é o de facilitar venda e posse de armas.  Mas sim trabalhar para que haja mais justiça, a fim de que haja menos violência. Como já dizia São Paulo VI: “o desenvolvimento é o novo nome da paz. ” Justiça e paz andam de mãos dadas e não se pode construir uma sem a outra.” 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de  de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.
 Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


terça-feira, 7 de julho de 2015

ARMAS E (IN)SEGURANÇA

Marcelo Barros



Dizem que depois da aprovação da diminuição da idade penal de 18 para 16 anos, a próxima luta do Presidente da Câmara e seus aliados será por uma revisão do Código Penal afim de ampliar o acesso dos cidadãos a armas de fogo. Um dos argumentos é que os bandidos estão armados e as pessoas honestas não têm armas para se defender. Querem armar todo mundo. Como se facilitar a posse e o uso de arma de fogo desse mais segurança à população e automaticamente diminuísse a incidência de crimes. Estudos revelam o contrário: onde se usam mais armas de fogo, há aumento de crimes de morte e mais violência.

O uso generalizado de armas de fogo tem consequências trágicas para quem usa, para quem não usa e até para quem lhe é contrário. Em geral, as pessoas que são favoráveis às armas consideram como o ideal a sociedade dos Estados Unidos da América do Norte: basta olhar as estatísticas sobre crimes com armas de fogo nesse país para compreender. Facilitar o uso de armas pela população, ao invés de diminuir, aumentou muito a violência. Atualmente, nos Estados Unidos e em outros países muitos tentam voltar atrás e ter uma legislação mais rígida.

Conforme reportagem do Courrier International, nos  Estados Unidos, país no qual o acesso a armas de fogo é mais fácil, de 2004 a 2014, as estatísticas contaram 750 mil pessoas gravemente feridas por armas de fogo. Foram mais de 320 mil pessoas mortas por balas. A cada ano, 11 mil norte-americanos/as são assassinados com armas de fogo e 20 mil se suicidam do mesmo modo. Centenas de crianças morrem vítimas de acidentes com armas de fogo. A cada ano têm aumentado casos nos quais alguém entra em um cinema ou escola atirando em todo mundo.

Argumentos humanitários, éticos e religiosos não convencem as pessoas a mudarem de opinião. Como em nosso país, também, nos Estados Unidos, o argumento mais aceito para deter essa cultura de viver armados e usar armas como se fossem brinquedos não é a sacralidade da vida, nem a ética do amor e do respeito ao outro. O único argumento ao qual a maioria parece sensível é o econômico. A cada ano, o Estado tem um grande prejuízo econômico com crimes e acidentes provocados com armas de fogo. Porém, as indústrias de armas de fogo impedem a publicação de dados sobre o que as vítimas e suas famílias sofrem por causa de armas. Em um editorial de 07 de abril desse ano, a revista médica Annals of Internal Medicine declarou: “Nos Estados Unidos, as armas são um dos mais graves problemas de saúde pública[1]”. Essa obsessão por armas de fogo custa aos EUA a cifra anual de 229 bilhões de dólares (não milhões). Cada pessoa morta chega a custar em média seis milhões de dólares em gastos com segurança, hospitais e processos jurídicos. E a cada ano, morrem 31 mil pessoas, vítimas de armas de fogo. (repetição do que vem no parágrafo acima)

Apesar de que, atualmente, na América Latina e Caribe, não há nenhuma guerra declarada, as taxas de homicídio no continente são comparáveis às de zonas de guerra. Conforme a agência da ONU contra as drogas e o crime organizado, dez por cento da população do planeta vivem na  América Latina. No entanto, no nosso continente acontecem, a cada dia, 30 % dos homicídios de todo o mundo. A cada dia, são assassinadas mais de 300 pessoas. No domingo 21 de junho, o site da UOL tinha como uma das manchetes: “Brasil é campeão mundial no número de assassinatos”. As causas são diversas, como o tráfico de drogas e o crime organizado, mas a ONU descobriu que isso explica apenas uma parte do problema. O mais grave é a cultura da violência e a facilidade com que as pessoas têm acesso às armas de fogo.

No Brasil, em comunidades situadas em áreas de risco, os projetos que mais conseguiram libertar as pessoas e superar a violência foram projetos educacionais e artísticos que acreditaram nas pessoas e investiram em salvá-las e não em matar. Na Índia, sem nunca usar arma de fogo, o Mahatma Gandhi libertou o seu país da Inglaterra, na época, o império mais rico e bem armado do mundo. Nos anos 60, o pastor Martin Luther King conseguiu vencer as leis de discriminação racial nos Estados Unidos sem jamais usar uma arma. Ambos fizeram isso em nome da fé. Gandhi como fiel do Hinduísmo, Luther-King como cristão. Gandhi considerava Jesus o mais importante defensor da não violência. Ao contrário disso, no Congresso brasileiro, em geral, financiados por empresas de armamentos, vários deputados e senadores que mais defendem o uso generalizado de armas de fogo são os que se autodenominam “evangélicos”. Na Câmara Federal, a bancada da bala quase se confunde com a da Bíblia.

Bote fé nisso. Graças a Deus, a cada dia aumenta o número de cristãos que ligam a sua fé com a vida e leem o evangelho como mensagem de amor e não violência ativa. 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países



[1] - Cf. MARK FOLMAN, JULIA LURIE, JAEAH LEE e JAMES WEST, Ces très cheres armes de feu, (tradução do ingles) in Courrier International, 1281, du 21 à 27 mai 2015, pp. 28- 30.