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quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

CRÔNICA DE UM GENOCÍDIO ANUNCIADO

Frei Betto

 

       Tudo indica que o Brasil será o último país a ter a sua população imunizada contra a Covid-19 e, em breve, haverá de superar os EUA em número de mortos, devido ao descaso do governo Bolsonaro. Nesta terceira semana de janeiro, já temos mais de 212 mil vítimas fatais. A cada dia, mais de mil pessoas morrem contaminadas pelo coronavírus. 

       Bolsonaro sofre de tanatomania, tendência patológica de satisfação com a morte alheia. Agora a situação se agrava com a falta de oxigênio e leitos nos hospitais. Terrível paradoxo: falta oxigênio aos pacientes dos estados do Amazonas e do Pará, ambos na Amazônia, tida como pulmão do planeta. Muitos morrem por asfixia. E ironia do destino: Maduro, execrado pelo governo, reabastece o Amazonas de oxigênio.

       Todo esse quadro necrófilo resulta da inoperância de um presidente e de um governo genocida. O Brasil tem Ministério da Saúde, mas não tem ministro. Desde a posse de Bolsonaro, em janeiro de 2019, os dois médicos que ocuparam o cargo não permaneceram por não concordarem com a indiferença do presidente diante da pandemia e por ele recomendar recursos preventivos sem comprovação científica, como a cloroquina. O atual ministro, general Pazuello, não é médico, e pouco depois de ser empossado admitiu que, até então, desconhecia o SUS, Sistema Único de Saúde, que atende gratuitamente a população e é considerado exemplar. Agora, porém, o SUS está de mãos atadas por falta de vacinas e profissionais de saúde.

        No início da pandemia, enquanto o mundo se alarmava, Bolsonaro declarava que se tratava de uma “gripezinha”. Recusou-se a coordenar a mobilização dos brasileiros para evitar a disseminação da doença. E incentivou, com seu exemplo, as aglomerações, criticou o uso de máscara (chegou a proibir a entrada no palácio de quem estivesse de máscara) e desaconselhou medidas preventivas, como o isolamento, a lavagem cuidadosa das mãos e sua higienização frequente com álcool em gel . Foi preciso a Suprema Corte facultar a governadores e prefeitos o direito de desempenhar essa coordenação. 

       Como Bolsonaro saboreia o macabro cheiro da morte, jamais se preocupou com a vacinação do povo brasileiro.  Deu a entender que a Covid-19 mata preferencialmente os pobres (o que economizaria recursos das políticas sociais), os portadores de comorbidades e os idosos (o que reduziria o déficit do SUS e os gastos com a Previdência Social). Contudo, devido à pressão popular, o governo se viu obrigado a correr atrás das vacinas.

       As vacinas até agora disponíveis são produzidas em dois países, Índia e China, há meses destratados pela família Bolsonaro. O chanceler Ernesto Araújo, adepto do terraplanismo, declarou que a China havia produzido intencionalmente o “comunavírus”. Aliado aos países ricos, o Brasil se recusou a apoiar a proposta da Índia na OMC para quebrar a patente das vacinas. Em outubro de 2020, Bolsonaro assegurou: “Alerto que não compraremos vacina da China”. Seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, em novembro, acusou o governo chinês de utilizar a tecnologia 5G para espionar.  

       As poucas vacinas que chegaram ao nosso país, menos de 10 milhões de doses para a população de 212 milhões, vieram da China e foram compradas pelo Instituto Butantan, renomada instituição científica de São Paulo. A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), do Rio, tenta comprar da China o IFA (insumo farmacêutico ativo) sem que haja, até agora, confirmação de possibilidade de entrega. 

       É preciso que todos saibam do genocídio promovido pelo governo Bolsonaro. Mais de 50 pedidos de impeachment do presidente estão parados nas gavetas do Congresso Nacional. Vivemos, hoje, num país que não tem governo, não tem política de saúde, não tem suficientes vacinas, cilindros de oxigênio e leitos nos hospitais, não tem leis favoráveis ao lockdown e contrárias às aglomerações. Precisamos todos nos mobilizar para salvar o Brasil e os brasileiros.

 Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros.

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

ÚLTIMA CRÔNICA DE NATAL EM TEMPOS DE CORONAVIRUS"

 


 

Frei Aloísio Fragoso


 

    Terminado o tempo litúrgico do Natal, permanece a sua Verdade essencial: "Nasceu-nos um Menino. Um Filho nos foi dado. Seu nome é Conselheiro Admirável, Deus Forte, Príncipe da Paz" Is.9,5

     A partir deste anúncio do profeta, só nos cabe fazer uma leitura do presépio original, com a visão transparente da Fé. Descartem-se teologias, filosofias, tecnologias, porque nenhuma ciência possui a força sobrenatural do olhar de uma criança pedindo para viver ou dos braços de uma mãe imolando-se a si mesma para dar-lhe vida. Reste apenas a pura contemplação.

 

    O Natal é a festa da simplicidade de Deus, só acessível aos simples de coração. Na simplicidade podemos desobstruir nosso espírito da sobrecarga de medos, rancores, ressentimentos, e lutar e até sofrer sem perder o gosto da festa da vida. Como as crianças. Precisamos de combatentes capazes de combater cantando. Necessitamos de bons contadores de lendas e anedotas, da mesma forma como necessitamos de inteligências lúcidas. Todo nascimento é, por si mesmo, uma festa. Dar e receber retomam cores novas.

 

    A singeleza do Natal, retratada na figura do Menino Jesus, condena todo cinismo e insensibilidade, bem como toda ideologização do seu mistério, que busca saídas cômodas. Deus não está por trás dos sofrimentos humanos. Deus não é provedor das riquezas acumuladas por ínfimas minorias sob o olhar mendicante dos excluídos. Ao nascer pobre, Jesus deixa claro de que lado Ele está.

 

     A  simplicidade dos pastores em torno ao presépio denuncia a cobiça dos falsos  pastores. Hoje em dia eles voltam a proliferar convertidos  em mercenários da Fé. Tentam convencer os simplórios de que Deus mandou o seu Filho porque não precisa de nós para nos redimir. Basta que lhe paguemos em dinheiro e submissão a conta de seus milagres televisivos. Como se Deus, em troca de ouro e prata, tivesse desistido de nossa parceria para construir a salvação.

 

     A despeito de tudo isso, o Natal é a festa do perdão de Deus. Além de enviar seu Filho Unigênito, Ele o mandou com este recado: "eu não vim para julgar, vim para salvar." Ele não nos condena, é a própria consciência que nos condena, se fazemos uso dela; se dela não fazemos uso, então que nos condene o olhar do pobre!

     Desde então, o que de melhor temos a fazer é acolher o dom que se oferece: o dom desta fraqueza aparente do Menino Deus, que transforma em força nossa fraqueza real. E assim matar nossa fome do Absoluto. Nossa fome é uma só e é indivisível: fome-de-pão-fome-de-vida-fome-de-Deus.

 

     Era uma vez uma aldeia perdida no meio de montanhas. Engastada ao pé de um imenso rochedo. A natureza tinha esculpido neste rochedo uma gigantesca figura, muito semelhante à figura de um homem. Por causa de suas dimensões enormes, por causa também de sua expressão real e grandiosa, aquele rochedo reinava sobre toda a região. Os habitantes olhavam para ele como se fosse um ser vivo. Com o tempo criou-se uma lenda que passava de boca em boca, de geração em geração e dizia o seguinte: um dia um homem de maravilhosa bondade, assemelhando-se, traço por traço, à figura da montanha, vai aparecer em nosso povoado, vai derramar suas virtudes, espalhar seus grandes benefícios. Ele será o nosso Redentor.

     Um adolescente da aldeia ficou tão impressionado com essa estória, que não parava mais de refletir e levantar os olhos para a montanha. Todo momento que tinha livre corria para perto da figura e se punha a contemplar e a pensar: como será ele? O que dirá? O que fará? Como vai nos libertar?  Nesse estado de espírito, perseverou, ano após ano, até chegar à idade de homem feito.

     Eis que, um belo dia, ao dirigir-se ele para a praça da aldeia, os moradores ergueram os olhos e tiveram uma grande surpresa. Os traços da figura da montanha resplandeciam  nele. Ele era o Libertador.

     De tanto contemplar o objeto de seus sonhos e da esperança do seu povo, ele acabou incorporando suas formas e fazendo a lenda virar realidade.

     É assim que devemos contemplar o mistério do Natal.

 Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.