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segunda-feira, 28 de março de 2016

O DINAMISMO PASCAL DA VIDA HUMANA


  Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 



            No umbral da Semana Santa, escrevo refletindo sobre como o Mistério Pascal, centro da fé cristã, imprime na verdade sua marca ao movimento de toda a vida humana. Acostumamo-nos a uma visão invertida deste movimento.  Dizemos: tudo que nasce morre; para morrer, basta estar vivo.  Mas, na verdade, não percebemos que a frase deveria ser dita de outra maneira: tudo que morre vive; os mortos andam mais vivos que nunca.

            Temos para alimentar nossa reflexão alguns casos inspiradores.  O mundo amanheceu nesta terça-feira, dia 22 de março, com a terrível notícia dos atentados de Bruxelas.  Novamente o grupo terrorista ISIS reivindicou a autoria e integrantes de suas fileiras se explodiram ao mesmo tempo em que explodiam algumas dezenas de vidas e feriam muitas outras mais.  Aeroportos e metrôs passaram a ser lugares de medo, onde o terror pode estar à espreita em qualquer vagão, tornando a tensão insuportável.

            E, no entanto, como é bonito ver a solidariedade de toda uma cidade – a bela capital belga -  com as pessoas que, devido aos atentados, não puderam viajar e não têm onde ficar. Abriram suas casas, seus corações, sua presença, seus recursos.  O medo não tem a última palavra, mas a solidariedade ao outro sim.  E sem esquecer a dor e o luto causados pelos atentados podemos respirar, olhar-nos nos olhos e dizer: como é grande a obra de Deus no ser humano!

            O Brasil vive uma longa Sexta-feira Santa já há algum tempo.  O país parece sem rumo, perdido e desorientado.  Os índices nunca estiveram tão ruins, as denúncias de corrupção nunca foram tão agudas.  Os ânimos se acirram por todos os lados e sente-se cheiro de inimizade, de intolerância e até de ódio nas relações entre pessoas que antes pareciam amigas. 

            O clima é pesado, assustador.  A ameaça de golpe paira no ar.  Ao mesmo tempo, o cansaço de parte da população é compreensível.  O desemprego aumentou, o salário encolheu, o país parece à deriva.  E cada delação premiada traz novas surpresas nada agradáveis, que contribuem para o clima de sempre maior pessimismo.  Ambiente de perseguição, de paixão, de violência.

            E, no entanto, os sinais de vida brotam do seio de toda essa lama, essa incerteza, esse temor.  Adélia Prado, poetisa maior, ao final de um evento de poesia convoca seu público a rezar.  Busca uma oração que seja agradável a todas as religiões.  E dá início a um Pai-Nosso que, acompanhado por todos, termina em lágrimas da poeta e dos que a acompanham.  Reza pelo Brasil e sua fé é contagiante.

            A Santa Sé organiza um evento nas Nações Unidas para refletir e denunciar a violência contra a mulher.  Ouvem-se histórias incríveis de meninas violadas continuamente dentro e fora da família, na África e no Oriente Médio.  Com PowerPoint mostra-se uma realidade em que a mulher é moeda de troca, menos que uma mercadoria, pois é obrigada a ser virgem para poder casar e é violada para forçar às vezes um casamento que não deseja, mas é aprovado pela família porque o pretendente tem vacas para pagar o dote.  E por causa das vacas vai-se o equilíbrio mental e emocional, o futuro, a vida enfim de uma jovem na flor de seus quatorze, quinze anos. 

            Ao lado disso e respondendo a isso está o trabalho de duas mulheres: uma religiosa e uma leiga, uma de Uganda, outra do Congo, que dedicam a vida a recuperar essas meninas e conseguem verdadeiros milagres.  A essas que chegam às suas mãos após terem sido violadas, muitas vezes por homens diferentes e não se sentem mais acolhidas em lugar algum, fazem reencontrar o caminho da vida, da serenidade.  Abrem a elas um futuro ao lado dos filhos que geraram e pelos quais antes sentiam repulsa e rejeição.   

            As agressões da morte são respondidas com gestos de vida e de amor.  Este é o dinamismo pascal da vida humana.  A morte jamais terá a última palavra.  O ser humano é capaz de inúmeras crueldades, mas nunca estas serão mais fortes que a graça e o amor que o sustentam e inspiram.

            Na noite do próximo sábado, iremos todos cantar a “noite de alegria verdadeira, em que se uniu o céu à terra inteira”, a noite que viu emergir das trevas da morte Jesus de Nazaré, morto pela teocracia judaica e pela pax romana, em sinistra aliança contra seu projeto do Reino de Deus. Ao silêncio tenebroso que se seguiu ao grito do Crucificado seguiu-se o ressoar tonitruante da Palavra Interpretativa do Pai: Este é o meu Filho.  A morte não o retém em seu poder, porque maior do que ela é meu Amor.

               É um convite a confiar: a luz vence as trevas, a vida sobrepõe-se à morte, o amor é mais forte que tudo, o bem triunfa sobre o mal.  Porque, como diz o belíssimo texto do Precônio Pascal, “esta noite lava todo o crime/ liberta o pecador dos seus grilhões/ Dissipa o ódio e dobra os poderosos/ enche de luz e paz os corações. ”

               Alegre Páscoa para todos!

         Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do departamento de teologia da PUC-Rio,  teóloga, é autora de "O  mistério e o mundo -  Paixão por  Deus em tempo de descrença", Editora  Rocco. 
                     Copyright 2016 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>                    


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

AS CRISES DA NOSSA ÉPOCA


 por  Maria Clara Lucchetti Bingemer 


O tempo em que vivemos passa por várias crises. Uma delas  é a cultural. Tempo feito de incerteza, de insegurança a respeito de uma posição estável e sólida na sociedade, ou de uma identidade clara, esse é o nosso quotidiano. Por isso, o que é ou não certo, o que é ou não verdadeiro, hoje pluralizou-se… E os filósofos debatem o assunto, construindo não uma teoria da verdade, mas uma teoria das verdades, no plural, golpeando mortalmente o reino das certezas que imperava antes.

E porque a pluralidade das verdades deixou de ser algo contestável radicalmente é deixada para trás. E devido à possibilidade de diferentes crenças poderem ser consideradas e julgadas simultaneamente verdadeiras, e o serem de fato, a teoria da verdade, que se situa no centro da atenção dos pensadores, hoje, parece ter perdido muito da sua função de disputa em relação ao status de qualquer conhecimento diferente do filosófico.

A cultura ocidental tem sido duramente criticada – e com muita razão – por ser racista, sexista e imperialista… Mas não se pode deixar de afirmar que também é uma cultura muito preocupada pelo fato de ser racista, sexista e imperialista, etnocêntrica, paroquial e intelectualmente intolerante. Ou seja, é uma cultura que não gostaria de sê-lo, que não encontra mais referências seguras – como Deus, ou a Verdade, ou a Natureza das coisas – ao seu alcance para assumir o que afinal quer e/ou deve ser.

É precisamente esse legado, ou parte desse complexo legado, que emerge hoje de forma crescente. Não encontramos mais certezas ou verdades absolutas. Estamos em meio a uma pluralidade em que nada é categoricamente afirmado e o chão foge-nos sob os pés.

Enquanto os pré-modernos eram ensinados a ver a diferença com equanimidade e a aceitar a pluralidade preordenada das coisas como parte integrante da criação de Deus, a modernidade ensina que é possível excluir algumas realidades e construir um mundo de acordo com as próprias preferências, dentro do modelo de algumas ideias preconcebidas. Assim, foram sendo erigidos os edifícios modernos das grandes narrativas, cheios de certezas, conceitos rigorosos bem calcados e respaldados em relatos sem brechas ou inseguranças.

Um dos grandes desafios da pós-modernidade em que vivemos, talvez sem precedentes, é o fim disso que acabamos de descrever. Ou seja, a diversidade e a pluralidade em que estamos mergulhados, diversidade situada no interior de uma fraca, negligente e impotente institucionalização de diferenças, com as suas resultantes fugacidade, maleabilidade e curta sobrevida.

Se, antes, o desafio para a questão da identidade humana era como construí-la consistentemente e como dar-lhe uma forma que recebesse reconhecimento universal, hoje, o problema da identidade emerge, sobretudo, da dificuldade de sustentar qualquer identidade por um prazo mais longo, da virtual impossibilidade de encontrar uma forma de expressão da identidade que tenha possibilidade de ser reconhecida por toda a vida, e a resultante necessidade de não abraçar nenhuma identidade muito estreitamente, a fim de poder abandoná-la da maneira mais rápida possível. Tudo é passageiro, nada é certo ou firme. E o ser humano, que não tem vocação para o caos ou a anarquia, sente-se perdido no meio desta situação.

Assim, a cultura torna-se, mais que «valores» a defender ou ideias a promover, um trabalho a empreender sobre todo o tecido da vida social, a fim de manter a máquina do consumo oleada. «Trata-se de uma sociedade feita de “homens que querem ter alguma coisa”, e cada vez menos de homens e mulheres que “querem ser alguém”.

Em meio a essa crise cultural, as instituições que sempre compuseram o tecido social e promoveram a cultura ocidental encontram-se reconfiguradas apesar delas mesmas.  Assim acontece com uma das mais tradicionais e fundamentais instituições: a familia. Neste momento em que o Sínodo sobre a família acontece em Roma, a sociedade se pergunta: que respostas trará para uma cultura movediça e líquida como a nossa? São grandes as expectativas e maior ainda as esperanças.


 Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio
A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco.  
 Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


terça-feira, 6 de novembro de 2012

HILDEGARDA DE BINGEN: DOUTORA DA IGREJA

       
por MARIA CLARA BINGEMAN

 No último dia 7 de outubro, o  Papa Bento XVI proclamou doutora da Igreja uma extraordinária mulher:  Hildegarda de Bingen.  Alemã, nasceu em 1089 e morreu em 1179. Provinha  de uma família da pequena nobreza de Bermershein, que estava a serviço dos  condes de Sponheim. Desde muito pequena tinha visões extraordinárias e este  parece ter sido o principal motivo pelo qual seus pais a encaminharam à vida  religiosa. 

          Aos  oito anos de idade entrou  como oblata na abadia beneditina de  Disibodenberg, onde, em 1115, emitiu a profissão religiosa. Com a morte de  Jutta de Sponheim,  então magistra (mestra) do mosteiro, por volta de  1136, Hildegarda foi chamada a suceder-lhe. De saúde frágil, mas vigorosa no  espírito, comprometeu-se profundamente com uma renovação adequada da vida  religiosa. Era tal sua irradiação que trazia novas vocações ao mosteiro. Por  volta de 1150, fundou outro mosteiro na colina chamada Rupertsberg, nas  proximidades de Bingen, para onde se transferiu juntamente com vinte outras  irmãs. Em 1165,  instituiu outro em Eibingen, na margem oposta do Reno,  tendo sido  abadessa de  ambos.


          Personalidade  muito citada, mas de fato pouco conhecida pelo grande público moderno,  Hildegarda rompeu as barreiras dos preconceitos contra as mulheres e tornou-se  respeitada como autoridade em assuntos teológicos, louvada por seus  contemporâneos em altos termos. Atuou dentro do mosteiro, zelando pelo  progresso espiritual e a vida comunitária de suas irmãs, mas igualmente fora  dele.  Aí buscou fortalecer e propagar a fé cristã, enfrentando a heresia  cátara que crescia em sua época.  Seus escritos foram de grande  importância para a disciplina e a vida do clero de sua  época.

   Diferente das mulheres  de então, Hildegarda viajou para pregar em igrejas, catedrais e até mesmo em  praças públicas, primeiro autorizada pelo Papa Adriano IV e, posteriormente,  pelo Papa Alexandre III. Nos seus numerosos escritos, dedicou-se  exclusivamente a expor a revelação divina e a fazer conhecer Deus na limpidez  do seu amor. Esse conhecimento que transmitia, era fruto das numerosas visões  e graças místicas com que era dotada pelo próprio Deus.  A doutrina  hildegardiana é considerada eminente tanto pela profundidade e retidão das  suas interpretações, como pela originalidade das suas  visões.


          Para  ela, o universo era a resposta para as dúvidas da humanidade, e a humanidade  era a resposta para o enigma do universo. Mas, como ela escreveu, se a  humanidade não fizesse a pergunta, o Espírito Santo  não poderia  respondê-la. Por isso, acreditava na ciência e a praticava com rigor e  desvelo. Além de mística, teóloga e pregadora, foi poetisa e compositora  talentosa, deixando obra original de vulto. Também fez muitas observações da  natureza com uma objetividade científica até então desconhecida, especialmente  sobre as plantas medicinais, compilando-as em tratados onde abordou ainda  vários temas ligados à medicina e ofereceu métodos de tratamento para várias  doenças. Foi também compositora de música  sacra.


          A partir  de sua própria experiência de visões e conhecimento infuso, Hildegarda  transmite em sua doutrina a possibilidade real e autêntica do conhecimento de  Deus, considerando esta a tarefa fundamental da teologia. Embora Deus sempre  permanecerá mistério, pela fé o ser humano é capaz de aproximar-se dele e de  seu conhecimento. A criação desvela seu mistério, ao mesmo tempo em que não é  compreendida separadamente de Deus, já que a natureza só fornece informações  parciais, que devem ser plenificadas pela fé.
          Em sua  original antropologia, a monja, analisando o relato bíblico de Adão e Eva,  interpreta a causa do pecado original não na fraqueza e volubilidade de Eva,  como normalmente sói acontecer, mas na excessiva paixão de Adão em relação à  mulher que Deus lhe dera. E declara que a imitação de Cristo é a condição dada  a todo ser humano de viver uma vida plenamente virtuosa.  O Espírito  Santo será a garantia de que a existência humana pode e deve tornar-se  cristiforme.  


          Na Carta  Apostólica em que a declara doutora da Igreja, o Papa Bento XVI exalta as  virtudes e qualidades desta mulher que, segundo ele, “ tem um grande  significado para o mundo de hoje e uma extraordinária importância para as  mulheres. Em Hildegarda resultam expressos os valores mais nobres da  feminilidade: por isso também a presença da mulher na Igreja e na sociedade é  iluminada pela sua figura, tanto na ótica da pesquisa científica como na da  ação pastoral. A sua capacidade de falar a quantos estão distantes da fé e da  Igreja fazem de Hildegarda uma testemunha credível da nova evangelização.”  



Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o  espírito - ensaios sobre  ética,   mística e poética" (Ed.  Garamond), entre outros livros.

http://agape.usuarios.rdc.puc-rio.br

terça-feira, 8 de maio de 2012

O TRABALHO E A NOVA GEOGRAFIA



por Maria Clara



                      O Dia do Trabalho é ocasião sempre propícia para repensar a realidade do mundo e da sociedade em que se vive.  O trabalho é um elemento essencial na vida humana.  Pelo seu excesso, pela sua falta, pelo seu exercício, o ser humano se autocompreende e capta o sentido de seu papel no mundo.

            É por isso que celebrar o Dia do Trabalho, no último 1 de maio, em meio a tantas e tão aceleradas mudanças que acontecem sem cessar ao nosso redor, nos obrigam a repensar a situação e a configuração da condição humana que é a nossa hoje em dia.

            Quando caíram as utopias no ano de 1989, falou-se em “fim da história”.  Hoje se fala já do “fim da geografia”, sobretudo  para significar uma geografia que começa a ser reconfigurada e assiste ao final das fronteiras, graças, sobretudo, aos fenômenos da globalização e das migrações que redesenham as mesmas.

           Economicamente, esta nova geografia do mundo está longe de ser polarizada em termos Sul-Sul, ou tampouco Leste-Oeste, marca principal dos tempos da guerra fria; ou mesmo Norte-Sul, no sentido do velho paradigma das relações de dependência centro-periferia. A globalização vem se encarregando de transformar todas as formas de compartimentalização hemisférica, continental ou mesmo sub-regional do mundo. Ou seja, a geografia econômica tende a ignorar as geografias física e humana. Por exemplo, os “outsourcing” de contadores, engenheiros e os "call centers" na Índia redesenham o mapa do trabalho, que não mais pode ser entendido como antes.

            Um choque está, portanto, acontecendo entre o desenvolvimento desnorteado das forças produtivas da indústria e as relações de produção criadas para regularizá-las. A reconfiguração que isto provoca sobre o trabalho afeta a maneira mesmo de conceber esta categoria e do ser humano poder inserir-se nela.

            As migrações internacionais, atualmente, constituem um espelho das assimetrias das relações socioeconômicas vigentes em nível planetário. São termômetros que apontam para as contradições das relações internacionais e da globalização neoliberal. Tomando por base o referencial demográfico, vê-se que os deslocamentos migratórios fazem parte da natureza humana, mas são estimulados, quando não forçados, nos dias de hoje, pelo advento da tecnologia e pelo impacto da problemática econômica, nesta lógica inversa de sua preponderância em relação ao ser humano.

         A intensidade e a complexidade da mobilidade humana contemporânea trazem sérias interrogações em relação a suas causas. Trata-se de um fenômeno “espontâneo” ou “induzido”? Estamos diante de migrações “voluntárias” ou “forçadas”? Na realidade, tem-se a impressão de que a emigração maciça para os países do Norte do Mundo, antes que consequência da livre escolha de indivíduos, decorre diretamente da crise do atual modelo de globalização neoliberal que concentra as riquezas e subordina o capital produtivo e gerador de empregos ao capital especulativo financeiro. As pessoas emigram fundamentalmente em busca de trabalho e sustento que não encontram em sua região de origem.

      Neste novo panorama geográfico humano, a metáfora que parece mais adequada é a da esperança de chegar à terra prometida que teleologicamente fez da aventura de Abraão algo bem diferente do eterno retorno à Ithaca de Ulisses.  Os milhares de latinos que cruzam diariamente a fronteira americana ou as centenas de africanos que desembarcam nas costas mediterrâneas trazem consigo um sonho: o sonho americano, ou o trabalho em um país europeu desenvolvido.  Em suma, algo que para eles e elas é a terra prometida, com diversos componentes e elementos: trabalho, vida melhor para os filhos e descendentes etc.

      Aí se apóia o sonho moderno, a esperança moderna: chegar à terra prometida e ser parte de seu processo, trazendo junto consigo o sentimento de culpa e a sensação de fracasso de não andar suficientemente rápido. Esta culpa angustia e tritura interiormente, mas igualmente protege a esperança da frustração de ver que finalmente se apoiava sobre um sonho não real.  Por isso, a culpa nunca desaparece e mantém o ser humano em movimento. O que o espera, porém, não é a gratificação adiada, mas a impossibilidade de ser gratificado.

      Contando com meios extremamente avançados e sofisticados, o trabalho humano hoje em dia carrega em si, no entanto, muito de escravidão.  Todos os esforços para repensar essa situação e tratar de transformá-la são missão iniludível para as novas gerações.

    Maria Clara Bingemer
, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre  ética,   mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.  

Copyright 2012 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)