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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

ORAR, ARAR




 Frei Betto

        Há muitos modos de orar. Sedutora incompletude, orar é sempre insatisfação, algo além do mais íntimo de mim mesmo. Um gosto de sal arde por baixo da língua. Um gosto de Sol aquece o peito e deixa saudade, profunda saudade daquele ser que não sou. E, no entanto, somente sou sendo Aquele que não sou e se fez humano, e se torna em meu espírito o ser que sou e devo ser.
        Orar é arar, sulcar o mais profundo de meus sentimentos e pensamentos, deixar que as sombras se esvaneçam para dar lugar à luz.
        A oração é prenúncio e caminho de plenitude. Todos os orantes são ciganos em busca do Inacessível. Deus se encontra onde menos se espera. Vaga mundo. Está lá no mais ínfimo e no mais pleno. Aqui e agora.
        Orar é tornar-se presente. Saudade é sempre ausência. Futuro, busca do que não se possui. Espera do que se sonha. Presente é ser o que se é sendo o que não se é, e sim o que se é naquele que É. 
        Jamais deve o orante projetar que transpira ou aspira santidade. Nem almejar galgar os píncaros das virtudes. Basta acolher o Transcendente como a terra se deixa fecundar pelas sementes.
        Deus dorme à soleira da porta, como cão que vigia e aguarda. Fiel, jamais abandona a casa que o abriga.
        A oração não pode ser medida pela extensão das palavras. Nem pela beleza litúrgica. Tampouco pela harmonia dos cânticos ou ausência de conflitos. Porém, quando comunitária, deve ser alegre e festiva.
        Já no século IV recomendava-se que os coros infantis fossem acompanhados por instrumentos musicais, danças e guizos. Aos olhos da comunidade, coros dançantes evocavam bailados angélicos. No século III, Clemente de Alexandria descrevia, em sua Carta aos Gentios, uma cerimônia de iniciação cristã na qual havia tochas, cantos e danças de roda, "juntamente com os anjos". Eusébio de Cesareia (+ 339) narra como os cristãos comemoraram a vitória de Constantino dançando diante de Deus: "Com danças e hinos nas cidades e no campo, eles davam a honra primeiro ao Deus do Universo... e depois ao piedoso imperador".
        Hoje, temos vergonha do corpo e dos movimentos do corpo. A racionalidade moderna transformou-nos em anjos barrocos: enormes cabeças sobre corpos disformes. Louvamos a Deus com discursos articulados. No entanto, na relação de amor entre um homem e uma mulher as palavras contam menos do que os gestos. Por que já não sabemos ser alegres na relação amorosa com Deus? Como os sisudos monges de Umberto Eco, em O Nome da Rosa, consideramos o riso um atributo demoníaco? Segundo Dante, no inferno não há esperança nem riso; no purgatório não há riso, mas resta a esperança; e no céu, a esperança já não é necessária, tudo é riso. 
        Felizmente, há quem ouse quebrar os limites cartesianos que nos prendem à confinada área de uma liturgia ortofônica, repetitiva, recitativa (por isso os protestantes não usam o verbo rezar, derivado de recitar, e sim orar) para alçar voo ao amplo espaço da gratuidade amorosa. 
        Ao deixar a prisão política, em fins de 1973, as monjas beneditinas de Belo Horizonte acolheram-me com um espetáculo de dança animado por uma noviça que viera do balé da Bahia. Elas entendiam de liturgia.
        Oração é ação, inalação, respiração, conspiração, sublimação, encarnação, conversão, revolução e, sobretudo, paixão.
        Oro não somente quando medito, peço, falo ou usufruo do silêncio que acarinha meu espírito. Oro não apenas no silêncio que me absorve, como vigília permanente, sono desperto, morte gestando vida. Oro, sobretudo, quando o Espírito vem em socorro de minha fraqueza, como escreveu São Paulo. “Pois não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis” (Romanos 8, 26).

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Paralela/Companhia das Letras), entre outros livros. 


quinta-feira, 1 de junho de 2017

COMER, AMAR, ORAR


por Frei Betto


       Há três coisas inerentes aos seres humanos: nutrição, sexualidade e espiritualidade. São as fontes de nossa existência. Pela nutrição, desenvolvemos e asseguramos a saúde; pela sexualidade, preservamos e multiplicamos a espécie; pela espiritualidade, transcendemos a nós mesmos, relacionando-nos com a natureza, o próximo e Deus.

       Sem ingerir alimentos ninguém vive. De nossos cinco sentidos, o paladar é o primeiro a ser ativado. Ainda na fase intrauterina sugamos os nutrientes maternos. Por isso, este é o mais arraigado dos sentidos. Ao mudar de país, modificamos hábitos, adotamos outro idioma etc., mas jamais trocamos de paladar. Como a linguagem, ele é fator primordial de identificação. Na Austrália ou no Alasca, um brasileiro experimenta indizível prazer ao comer arroz com feijão ou manga e abacaxi.

       A comensalidade é o mais humano de nossos atos. Nenhum outro animal cuida de preparar os alimentos e, em seguida, sentar em torno da mesa acompanhado de seus semelhantes. Só nós, humanos, fazemos do preparo dos alimentos uma arte – a culinária. E um ritual – estar à mesa e obedecer a um ritual: talheres, guardanapo, pratos, travessas... E nada pior do que comer sozinho. Comer é comungar, partilhar. É ação ressurrecional. A carne que nos alimenta é um animal que morreu para nos dar vida, assim como a salada, um vegetal, ou o arroz e feijão, cereais... A vida é sempre reciclável. Em torno da mesa dou ao outro algo de mim mesmo. Ele se “alimenta” do meu ser, assim como eu do dele.

       A sexualidade pode ser sublimada, reprimida, mas nunca ignorada. É o reflexo da idade que a vida tem em nosso planeta: cerca de 3,5 bilhões de anos. Ela assegura a cadeia geracional que veio se aperfeiçoando desde as trilobitas até o ser humano. É a mais significativa manifestação de que a vida é um fenômeno intrinsecamente comunitário.

       A libido, como ensinou Freud, pode ser canalizada, mas não descartada. Nem Jesus deixou de ter pulsão sexual. A questão é saber em que nível se manifesta a nossa sexualidade, como porno, eros, filia ou ágape. Como porno (donde pornografia) o meu prazer é a sua degradação; como eros (donde erotismo) o meu prazer é também o seu; como filia (donde filia + sofia = amizade à sabedoria, filosofia), o prazer reside na amizade, na cumplicidade; como ágape, nossos prazeres culminam na felicidade, na comunhão espiritual entre dois seres que se amam.

       Graças à ciência moderna, a sexualidade não está mais atrelada à procriação, o que permite que  exista como sacramento amoroso, de interação física da comunhão espiritual. O inverso é perverso: a sexualidade como mero prazer físico, imediato, sem mediação da subjetividade.

       Espiritualidade é a janela de nossa vocação à transcendência. Podemos canalizá-la para o consumismo, o mercado, o poder ou escolher o dinheiro no lugar de Deus (Mateus 6, 24), mas ela está sempre presente, pois imprime sentido à nossa subjetividade e, portanto, à existência. Portanto, precede a experiência religiosa, assim como o amor antecipa e fundamenta a instituição familiar. Convém lembrar: Deus não tem religião.

A vida espiritual nos induz à comunhão com Deus e reativa a nossa potencialidade amorosa. O caminho mais curto não é ser amoroso com o próximo para, em seguida, amar a Deus. Ao contrário, invadidos pelo amor de Deus transbordamos amor na direção do próximo.

       A comunhão com Deus tem duas vias. A mais em voga imagina que Deus é alcançável pela escalada de nossas virtudes morais. Quanto mais puros e santos, mais próximos estaremos de Deus. A via evangélica adota a direção contrária. Deus é amor e irremediavelmente apaixonado por cada um de nós. Nenhum pecado faz com que ele se afaste de nós e deixe de nos amar. Portanto, basta-nos abrir o coração ao amor divino.

       É como a relação de um casal: o homem se sente tão amado e ama tanto a sua mulher que não consegue deixar de ser fiel. Assim é a relação com Deus. Em respeito à nossa liberdade, ele espera apenas que decidamos nos abrir mais ou menos ao seu amor, que é terno. E o método mais fácil a essa abertura é a oração, em especial a meditação, que nos permite descobrir Deus no âmago de nosso ser, e no serviço aos mais pobres, sacramentos vivos da presença de Cristo.

Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros.

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