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terça-feira, 6 de outubro de 2020

A MEMÓRIA PERIGOSA DE FRANCISCO DE ASSIS

 

Marcelo Barros

Neste domingo, ao celebrar a festa de São Francisco de Assis, o Papa Francisco quis ir à colina de onde, há mais de 800 anos, partiu o movimento franciscano. Ali, ele assinou uma encíclica, dirigida a todos os seres humanos. Na carta Todos somos irmãos e irmãs, o papa deixa claro que a vocação fundamental das Igrejas e comunidades cristãs é “reunir na unidade todos os filhos e filhas de Deus, espalhados pelo mundo” Cf. Jo 11, 52).

Desde o século XIII até hoje, Francisco de Assis tem sempre impressionado crentes e não crentes porque, em seu modo de ser e de viver, encarnou, de modo radical, o evangelho de Jesus. Naquela época, na qual a Igreja se tinha tornado um poder ao lado de outros, em uma sociedade profundamente desigual e injusta. Francisco revelou que o evangelho não é apenas religioso. É um modo de viver em oposição aos valores de um mundo sem amor. Para Francisco, o evangelho significou encontrar Cristo nas pessoas mais pobres e testemunhar o amor divino a toda humanidade, independentemente de raça, de cultura ou religião. Chamou de irmãos e irmãs até os animais e os elementos da natureza.

Ao propor um encontro com economistas jovens sobre a economia de Francisco e Clara, o papa deixa claro que considera Francisco um criador de energias e processos dinâmicos influenciadores e preparadores da construção de formas novas de viver, conviver, crer e organizar a sociedade.

Desde que São Francisco constituiu o seu movimento leigo, exigiu de todos os membros um voto: não possuir nem portar nenhum tipo de armas. A história conta que esta opção franciscana provocou nos séculos seguintes certa crise de falta de combatentes em algumas regiões da Europa. Hoje, o Brasil se transforma em uma pátria armada, como diz Gregório Duvivier.

O santo de Assis é também referência de novo estilo de convivência na sociedade e nas Igrejas. Foi a partir de São Francisco que as ordens religiosas aprenderam a fazer capítulos, reuniões nas quais a comunidade assume a cabeça, (caput), a direção comum e tem a autoridade máxima. Os ministérios se tornam realmente serviços e de caráter sempre temporário e não mais vitalícios como nas ordens antigas. Daí vem a noção de sinodalidade, caminhar juntos. Na linha do santo de Assis, o papa Francisco insiste que esta deve ser a forma normal da Igreja e escolhe a sinodalidade como assunto do próximo sínodo que, cada vez mais, passa a ser não só dos bispos, mas de toda a Igreja. Na realidade de nossas dioceses e paróquias, ainda são muitos os bispos e padres que não sabem bem do que se trata. Comportam-se mais como representantes de uma instituição sagrada do que como testemunhas da boa notícia de que Deus inspira para o mundo inteiro um novo modo de ser. Em sua época, São Francisco teve muita dificuldade de ser compreendido por seus próprios irmãos e, em determinado momento de sua vida, foi considerado por muitos como um santo, mas irreal e de certa forma superado. Como nunca ocorreu a nenhum outro papa, atualmente, oposições e ataques ao papa Francisco surgem claramente em meio à própria hierarquia romana e em meio ao clero católico. 

Em sua mensagem à assembleia geral da ONU, por ocasião do 75º aniversário das Nações Unidas, o papa Francisco insistiu em nortear como a humanidade pode organizar a vida após esta pandemia. Sua mensagem retoma muito da mensagem de São Francisco ao insistir que somente a partir do cuidado com os mais pobres e vulneráveis se pode construir um futuro digno para a terra. Ao contrário do governante brasileiro que negou a destruição da Amazônia, o papa denunciou o descumprimento dos acordos com relação à Ecologia e pediu proteção para a Terra, casa comum da humanidade e para a  vida de todos  os seus habitantes.

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

 

 

 

terça-feira, 27 de agosto de 2019

PROFECIA, MEMÓRIA PERIGOSA



Por Marcelo Barros

Nessa semana, no Brasil, as comunidades cristãs e as pessoas que buscam a justiça lembram com saudade de três bispos que exerceram sua missão de modo profético e nos deixaram no mês de agosto. No dia 27, celebramos o 20º aniversário da partida de Dom Hélder Câmara (1999), arcebispo emérito de Olinda e Recife, profeta da não violência e da ação justiça e paz. Sete anos depois, (2006), na mesma data, partiu Dom Luciano Mendes de Almeida (2006), arcebispo de Mariana, MG, considerado pai dos pobres e que, com sua sabedoria, ajudou muito a Igreja Católica na América Latina. Na mesma data, em 2017, falecia, em Belo Horizonte, Dom José Maria Pires, ex-arcebispo de João Pessoa e pioneiro da pastoral das comunidades afrodescendentes no Brasil.

Esses profetas viveram e atuaram em tempos difíceis de um Brasil sob ditadura militar e dentro de uma Igreja Católica, dominada pelo conservadorismo e pela tendência de centralização autoritária.

Atualmente, no Brasil, temos uma realidade política difícil que favorece a desigualdade social, a marginalização dos povos indígenas, das comunidades negras e de todos os mais pobres. Do outro lado, em Roma, na coordenação das Igrejas de comunhão católico-romana, temos o papa Francisco que propõe o modelo de uma Igreja Sinodal e a valorização das Igrejas locais. A esses bispos profetas, não teria sido necessário o papa Francisco pedir que fossem à periferia e tornassem a Igreja pobre e dos pobres. Eles já viviam isso por convicção de fé e por terem sido confirmados nesse caminho pelo Concílio Vaticano II e pela conferência latino-americana de Medellín (1968). Dom Luciano se tornou bispo depois do Concílio. Dom José Maria foi ordenado bispo durante o Concílio, mas assumiu a arquidiocese de João Pessoa dois anos depois do Concílio (1967). Durante o Concílio, Dom Hélder liderou um grupo de mais de 40 bispos que, no dia 16 de novembro de 1965, se reuniu em Roma e assinou um compromisso de viver como pobres e ajudar a Igreja a se inserir no meio dos pobres como Igreja serva, pobre e missionária. empobrecidos.

Há mais de seis anos, o papa Francisco se tornou bispo de Roma. Ele revalorizou os princípios fundamentais da renovação eclesial do Concílio Vaticano II: o caráter de Igreja particular de cada diocese, a responsabilidade de todos os bispos junto com o papa pela Igreja Universal e a necessidade da Igreja retomar o diálogo amoroso e humilde com a humanidade, que, há 60 anos, o papa João XXIII iniciou e que, a partir do final dos anos 70, foi interrompido.

Retomar agora o diálogo com a humanidade é mais exigente do que exige a capacidade de interpretar os sinais dos tempos atuais e escutar os apelos e clamores do mundo dos pobres. Para isso, é preciso uma coragem profética que Dom Helder Camara, Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom José Maria Pires tiveram.  A eles, o papa Francisco não precisaria pedir que se libertassem do clericalismo. Eles se fizeram irmãos do povo e se viam como pessoas comuns. Junto com outros bispos do seu tempo, souberam superar preconceitos e dialogar com a parte da humanidade que procura a transformação social e tem fome e sede de justiça e de um mundo mais igualitário e livre.

Na história, muitas vezes, a ideia de transformação social esteve ligada a ódio, violência e luta armada. Hoje, precisamos resgatar a meta de uma revolução social e política baseada em valores humanos e em uma nova ética. Essa revolução deve radicalizar a democracia, tornando-a mais verdadeira e profunda. Toma a educação como tarefa prioritária para transformar o mundo e, principalmente, deve partir dos mais pobres. Por isso, valoriza as culturas indígenas e negras e se solidariza a todas as forças que trabalham pela transformação social da América Latina e Caribe.

Quem é cristão participa desse processo, fazendo a memória perigosa dos nossos profetas e profetizas. Figuras como as de Dom Helder Camara, Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom José Maria Pires nos animam nesse caminho e nos lembram o que escreveu Paulo aos romanos: “Não se conformem com esse mundo, mas o transformem pela renovação de suas mentes” (Rm 12, 1).


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


segunda-feira, 7 de maio de 2018

VIDA PERIGOSA



 por Maria Clara Lucchetti Bingemer

       Já bem dizia o grande escritor João Guimarães Rosa pela boca do jagunço Riobaldo, no grande romance Grande Sertão Veredas, que viver é muito perigoso. Referia-se, porém, aos perigos existenciais, que cercam o cotidiano humano, obrigado a lidar com surpresas, riscos, atropelos e obstáculos.  Não falava diretamente da verdadeira roleta russa que passou a significar a existência humana nas cidades brasileiras.

            Falo das cidades sem esquecer nem menosprezar o campo.  Ali também o risco campeia e surpreende na emboscada, na atalaia, na bala que atinge aquele ou aquela que menos espera, como foi o caso da missionária Dorothy Stang, morta em 2005, ao dirigir-se a uma reunião de oração com a Bíblia na mão. Mas, residente urbana que sou, falo daquilo que passou a ser a vida nas grandes cidades do nosso país.

            O que origina minha reflexão neste momento é o incêndio e queda do prédio Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo, na madrugada do feriado do Dia do Trabalho.  Ao que parece a origem do incêndio e consequente desabamento foi uma briga de casal no quinto andar, seguida de uma explosão de panela de pressão.  No entanto, o pastor da igreja luterana vizinha ao prédio afirma que há muito tempo observava que o mesmo se encontrava cada vez mais inclinado para a rua.  Havia avisado às autoridades, mas providências não foram tomadas.

            E o que aconteceu diante de nossos olhos estupefatos foi aquele prédio de 24 andares dissolvendo-se em chamas quando caía, qual um castelo de cartas. Os moradores eram desabrigados, sem teto, que ocupavam o prédio por não terem onde morar.  Muitos não poderiam celebrar o Dia do Trabalho por estarem desempregados.  Viviam em pequenos espaços separados por divisórias improvisadas de madeirite e papelão, cujo aluguel pagavam com ajuda de familiares, amigos etc.  Hoje encontram-se duplamente espoliados.  Além de não terem trabalho, tampouco têm teto.

            Vários foram obrigados a passar a noite na rua, experimentando a surpresa de estar vivos, mas de haver perdido tudo.  Foram os esforços de uma vida que o fogo levou sem deixar vestígios. Quando saírem da estupefação em que se encontram, terão de recomeçar do zero uma vez mais. E viver sem saber se o perigo estará à espreita em um trem descarrilado, em um tiroteio com balas perdidas a esmo que atingem alvos não buscados, em um ônibus tomado por assaltantes, em um prédio condenado que finalmente desaba.

            As cidades brasileiras submetem seus moradores a situações de perigo cada vez maiores.  No Rio de Janeiro, não se pode ir a determinado lugar porque no caminho está havendo tiroteio.  E assim como se busca nos aplicativos do celular o caminho mais curto para chegar ao destino, busca-se igualmente o caminho onde haja menos probabilidade de passar por um tiroteio, ser atingido e nunca mais chegar. 

            As redes sociais converteram-se em alerta para situações de perigo acontecendo dentro do perímetro urbano. Não apenas tiroteios, mas arrastões, rolés, assaltos.  Enviam-se fotos de assaltantes que tentaram entrar em residências disfarçados de técnicos, entregadores de pizza etc.

            Nada, porém, é comparável ao que esse perigo constante faz com as vidas dos pobres. Se é verdade que todos os moradores das cidades maiores do Brasil estão permanentemente submetidos a tais situações, aqueles cuja vida é uma insegurança permanente experimentam essa periculosidade diuturna em muito maior proporção. 

            Agora mesmo o centro de São Paulo está cheio de pessoas que moravam no prédio desabado. Alguns se recusaram a ir para abrigos e preferiram dormir na rua.  O tempo vai esfriando e ficarão expostos à intempérie e às temperaturas baixas, ao relento.  Na pressa para escapar do fogo e salvar a vida não puderam levar nada a não ser a roupa que vestiam.  Agora dependem da caridade de vizinhos e moradores da cidade que lhes oferecem alimentação, abrigo, agasalhos. 

           Não se sabe ao certo a origem do incêndio.  Nem se tem um diagnóstico preciso sobre as condições do prédio.  Possivelmente já estivesse frágil e instável, vulnerável a qualquer acontecimento inesperado.  O fogo acabou de derrubá-lo e o país viu, estarrecido, a fragilidade de sua estrutura. Os prédios vizinhos causam medo.  Não estarão na mesma situação.

            Seguimos nós todos, teimosamente, insistindo em viver neste país.  Acreditamos que vale a pena, que é possível melhorar.  Acontecimentos como este, no entanto, mostram com evidência assustadora que ser brasileiro é, a cada dia que passa, uma aventura sempre mais perigosa.

 Maria Clara Lucchetti Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco), entre outros livros.

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