O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador esperar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador esperar. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de novembro de 2020

COMO DAR GRAÇAS E ESPERAR

 



Marcelo Barros

No Brasil, o dia de ação de graças, instituído pelo governo brasileiro, não tem a mesma importância que tem nos Estados Unidos. Lá a data é celebrada desde o século XVII e é feriado. A cada ano, governo e sociedade consagra a quarta quinta-feira de novembro para agradecer a Deus as suas vitórias. O agricultor agradece a Deus a boa colheita; assim como o comerciante,  a prosperidade do comércio. Quem ganhou nas recentes eleições deve estar agradecendo a vitória. A ação de graças pode ser coletiva, mas por vitórias individuais ou de grupos que se sentem protegidos. Pouco importam os outros. Em meio a uma sociedade de milhões de pessoas que não garantem nem o pão nosso de cada dia, alguém sai às ruas com um carro de luxo no qual está escrito: Este carro foi Jesus que me deu. Os mais bem sucedidos agradecem a Deus os seus ganhos e convencem os que perderam que, se não ganharam foi porque não mereciam. Nos séculos passados, os senhores agradeciam pela quantidade de negros que tinham conseguido comprar e pelos territórios indígenas que tinham roubado das tribos originais. Até hoje, esta ação de graças está expressa nas palavras escrita nas células do dólar e reproduzida em alguns bancos e estabelecimentos comerciais: “Nós confiamos em Deus”. 

Para quem tem algum senso crítico, esta religião civil tem pouco a ver com o evangelho. Por isso, no nome do mesmo Jesus, irmãos e irmãs de várias Igrejas combatem o armamentismo espalhado pelo país, o imperialismo do governo e a falsa ética cristã da sociedade dominante.

No Brasil, em 1965, um ano depois do golpe militar pelo qual tomou o governo, o presidente Castelo Branco determinou a celebração nacional do dia de ação de graças, na mesma data dos Estados Unidos e encarregou o Ministério da Justiça de coordenar esta celebração. 

Um Deus que legitima iniquidade não é o Deus de Jesus. Conforme a Bíblia, “oferecer a Deus orações e ofertas baseadas em injustiças, é como tirar a vida de um filho imaginando que assim se agradaria ao pai” (Eclo 34, 18 ss).

É verdade que 2020 tem sido um ano de muitos desafios e de imensos sofrimentos para toda a sociedade. Como o papa Francisco chamou a atenção em sua carta encíclica Somos todos irmãos e irmãs, a pandemia pôde ceifar mais vidas e trazer mais sofrimentos porque a maioria dos países tinha desarticulado o seu sistema público de saúde e a solidariedade internacional quase não funcionou. O vírus contagia, por igual a pobres e ricos. No entanto, encontra mais vítimas entre as pessoas que vivem amontoadas em habitações irregulares, sem saneamento básico, sem acesso à água potável e sem condições mínimas de se protegerem. 

De todo modo, temos muitos motivos para dar graças e para reconhecer a ação divina atuando na nossa vida. A ação de graças é boa e deve ser uma atitude permanente de quem crê, mas se nos deixamos realmente mover pelas orientações de amor do Espírito de Deus. Podemos agradecer a resistência cotidiana do nosso povo, os gestos e manifestações de solidariedade que crescem nas periferias e nos ambientes humanos mais desafiadores. Podemos agradecer o fato de que ainda quando a realidade parece sem saída, optamos sempre por alimentar a esperança.  

Quem procura ligar fé e vida aprende a discernir nos acontecimentos do dia a dia os sinais da presença íntima e discreta do Espírito que atua através das pessoas que aceitam ser instrumentos da atuação divina. Mesmo no meio das situações mais adversas, é possível esperar contra tudo o que seria a expectativa normal. A realidade é, de fato, problemática. No entanto, optamos por crer. Por isso vivemos a esperança da realização do projeto divino no mundo e ninguém poderá nos roubar a confiança de que o reino de Deus virá. Isso se concretizará aqui e agora, no fato de que outro mundo será, sim, possível. Conforme o apóstolo, essa esperança tem três características: não se corrompe, não se desgasta, nem se dilui (1 Pd 1, 3- 12). Ela nos convoca a nos manter unidos/as em comunidades e a antecipar nos sinais da celebração litúrgica aquilo que queremos viver no dia a dia do mundo: a comunhão.

 A cada ano, quatro semanas antes do Natal, portanto, a partir do próximo domingo, as Igrejas cristãs mais antigas começam um novo ciclo de celebrações que formam o chamado “ano litúrgico”, com o tempo chamado “Advento”. Seu objetivo é preparar a festa do Natal e realimentar nas pessoas a esperança da realização do projeto divino de paz e justiça eco-social aqui e agora.  


 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

 

 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

RESISTIR, ESPERAR, INVENTAR

Por Marcelo Barros


Esse foi o tema geral do 7o Fórum Mundial de Teologia e Libertação em Montreal, no Canadá. Durante quase uma semana, Montreal abrigou o 12o Fórum Social Mundial. Pela primeira vez, esse encontro dos movimentos sociais e da cidadania internacional se reuniu em um país rico do norte do mundo. Ligado ao fórum social, teólogos/as cristãos de várias Igrejas se reuniram em um Fórum Mundial de Teologia e Libertação para refletir sobre como viver a fé e testemunhar a esperança em meio a esse mundo tumultuado e cheio de desafios. Esse encontro de teólogos/as reuniu mais de 400 pessoas, de todas as províncias do Canadá e ainda irmãos e irmãs, vindos de 23 países do mundo.

Nunca como agora tem sido tão importante nos reunir e nos animar na resistência e na esperança. O mundo está mergulhado na maior crise ecológica de sua história. Essa crise, provocada pelo sistema social e econômico que a sociedade dominante impõe à maioria da humanidade tem consequências terríveis para o planeta e torna a sociedade cada vez mais desigual e injusta. Em 2015, um relatório da Oxfam, instituição ligada à ONU, confirma que menos de 20% da população se apropria de 94% de todas as riquezas do mundo. E mais da metade dessa riqueza está nas mãos de apenas 1% da humanidade.

Não podemos ser coniventes com esse modo de organizar o mundo e, ao mesmo tempo, nos sentimos frágeis para mudá-lo imediatamente. Por isso, a resistência se torna um imperativo para esses tempos difíceis. Essa palavra (resistência) foi o termo usado na França ocupada pelos alemães nazistas. A resistência era, então, a organização de grupos clandestinos nos quais as pessoas arriscavam a vida para esconder judeus e suas crianças da sanha assassina dos nazistas e também para empreender ações armadas para libertar o país. Agora, apesar de não termos um regime nazista, temos uma ditadura econômica. E não é mais apenas um país que é ocupado. Esse modo cruel e assassino de organizar a sociedade domina e maltrata continentes inteiros. E conta com o apoio dos grandes meios de comunicação para convencer a população que não há alternativas e a única forma de organizar o mundo é essa.

Quem tem consciência ética não pode ser conivente com essa situação. Atualmente, entrar na resistência significa revelar ao mundo as contradições e a face cruel do sistema que tenta apresentar-se como ético. Mesmo se somos obrigados a viver nesse mundo, de acordo com suas regras e valores, podemos nos esforçar por nos manter o mais possível livres e comprometidos em defender a liberdade de nossos irmãos e irmãs mais frágeis. Gandhi e Martin-Luther King propunham para a resistência dois princípios fundamentais da ação não violenta: a não cooperação com o sistema e a desobediência civil. Como não podemos fazer isso sozinhos e isolados, precisamos nos integrar nos grupos que buscam outro mundo possível e promovem ações comunitárias alternativas.

No latim, resistir (resistere) é um modo novo de existir (ex-sistere) no sentido de manter-se de pé diante das dificuldades.  No plano pessoal, isso exige de nós um estilo de vida simples, baseado na cooperação e não na competição. Supõe que fortaleçamos os laços de partilha e amizade. Ao mesmo tempo, precisamos nos abrir, cada vez mais, à arte e à beleza da natureza. Assim, manteremos nosso equilíbrio pessoal na relação justa entre silêncio e palavra, tempo e infinito. Uma canção chilena nos adverte:

"Deixa de pensar que tudo está perdido,
 Torna a descobrir que sempre há um motivo,
Deixa de pensar que não tem sentido,
Volta a imaginar que os rios sempre dão para o mar".


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 



quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O ATIVO ESPERAR DA VIGILÂNCIA



Por Marcelo Barros


A cada ano, as Igrejas cristãs mais antigas dedicam as semanas antes do Natal a cultivar a expectativa da realização do projeto divino no mundo. Lembrar o nascimento de Jesus na festa do Natal é um modo de afirmar que a promessa feita por Deus de um mundo renovado pela justiça e pela paz é atual e possível. Ele se realiza por iniciativa divina, mas através de nós. Por nosso modo de viver, devemos testemunhar que ele vem e podemos apontar sinais concretos de sua vinda. É claro que isso pede de nós sermos capazes de ver sinais da madrugada que vem mesmo na mais escura das noites.

No tempo da ditadura brasileira, Geraldo Vandré cantava: “Quem sabe faz a hora. Não espera acontecer”. Ele tinha razão em rejeitar uma esperança passiva e acomodada de quem, passivamente, espera que, por si mesmas, as coisas aconteçam. Não é essa a perspectiva da fé cristã. Menos ainda a nossa forma de viver esse tempo de espera, ao qual, cada ano, a celebração do Natal nos convida. Desde antigamente, as Igrejas denominam as semanas anteriores ao Natal de tempo do Advento. Em latim, advento significa “vinda”. Conota um modo de esperar muito particular. Propõe aguardarmos a realização do projeto divino no mundo, do mesmo modo como, a cada noite, o guarda noturno espera ansiosamente que o dia desponte. Essa espera vigilante é ativa e colabora para que o dia nasça em paz. Como a tradição cristã acentua que é a manifestação da presença de Jesus que marcará a chegada definitiva do reinado divino, os evangelhos nos convidam a esperá-lo como servos que aguardam, preparados e atentos, a vinda do Senhor.

Até hoje, há cristãos que reduzem o Natal a uma memória sentimental do nascimento do menino Jesus. Nunca foi essa a perspectiva pela qual as Igrejas celebraram o Natal. Os antigos pastores ensinavam que não adianta lembrar o nascimento de Jesus em Belém se, hoje, não fizermos do nosso ser interior um presépio para acolher não apenas o menino Jesus, mas o projeto pelo qual, um dia, ele nasceu nesse mundo. Para isso, é preciso que leiamos a nossa fé e interpretemos toda a Bíblia como revelação desse projeto. Há cristãos que se mantêm na fé por costume ou por conveniência religiosa. Apesar de serem pessoas religiosas, não veem claro esse projeto divino em suas vidas. Por causa disso, muitas vezes, não têm clara a sua missão no mundo. Falta-lhes um motivo maior pelo qual viver. Ao mesmo tempo, há pessoas não religiosas que não creem em Deus e, de algum modo, descobrem em suas vidas, esse projeto de paz, justiça e cuidado amoroso da natureza.

As Igrejas cristãs celebram o Natal no mesmo mês em que as sinagogas judaicas recordam a festa de Hanuká, aniversário da dedicação do templo de Jerusalém e da retomada da independência do povo de Deus no tempo dos Macabeus. Provavelmente, foi durante essa festa que, um dia, Jesus foi ao templo e chocou os sacerdotes e pessoas religiosas. Expulsou dali os vendedores de animais para os sacrifícios. Fez isso para mostrar que Deus não precisa de templos, nem de sacrifícios religiosos.

Tanto a tradição cristã quanto outros caminhos religiosos ensinam que o templo da presença divina no mundo é todo ser vivo e todo o universo como sinal de uma inteligência amorosa que conduz cada ser à vida e a tudo governa. A memória do nascimento de Jesus de Nazaré na festa do Natal não é apenas para enganarmos nossa solidão com um aumento do consumo, mas para armarmos um presépio vivo em nosso coração e vermos todo o universo como templo vivo da presença divina no mundo.

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.