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terça-feira, 17 de abril de 2018

JUSTIÇA, TERRA E PAZ, FONTES DO BEM VIVER



por Marcelo Barros

Esse é o tema da Semana dos Povos Indígenas de 2018 que, em nosso país, se realiza anualmente, nos dias próximos ao 19 de abril que, desde 1940, é celebrado como "Dia do Índio". Em todas as regiões do Brasil, se promovem encontros e eventos que a   judem a população a redescobrir os povos indígenas e a se solidarizar com eles. De norte a sul, o Brasil deu nomes indígenas a cidades, praças e centros comerciais, mas como memória de personagens antigos da História. De fato, as estimativas atuais ensinam que, quando os conquistadores chegaram à nossa terra,  aqui habitavam cerca de quatro milhões de pessoas distribuídas em mais de mil povos. 

A colonização foi responsável por um verdadeiro genocídio. Apesar disso e de todos os sofrimentos e perseguições sofridas, os índios resistem e, desde os anos 90, veem crescer sua população. Conforme o censo mais recente, atualmente no Brasil existem mais de 900 mil índios, pertencentes a 305 povos conhecidos. Além deles, existem ainda mais de 70 tribos isoladas que não têm nenhum contato com nossa sociedade. Se no tempo da colônia, todo o país era deles, em nossos dias, 1.116 áreas são reconhecidas como territórios indígenas, nas quais, desde tempos imemoriais, vive um ou várias comunidades indígenas. De todos esses territórios, até hoje, somente 398 áreas foram demarcadas e legalizadas. E mesmo dessas terras confirmadas pela lei, muitas delas continuam invadidas por garimpeiros, fazendeiros e latifundiários. 

Até hoje, os Guarani Kaiowá, expulsos de seu território por fazendeiros, se sentem chamados pelo Espírito a voltar a suas terras consideradas sagradas. E eles dizem que voltam para viver ou para nelas morrer. E, de fato, muitos homens, mulheres e crianças, têm sido assassinados e ali enterrados. Os fazendeiros fazem isso imaginando que assim os expulsam. No entanto, quanto mais matam índios, mais a terra se torna sagrada pelo sangue dos que caíram e os parentes dos falecidos nunca a deixarão.   
Essa Semana dos Povos Indígenas nos ajuda a descobrir que muitos índios (no Brasil, 325 mil) vivem nas periferias das cidades e muitos deles estão misturados no meio da nossa população mais pobre. Alguns jovens índios frequentam nossas escolas e cada vez mais temos índios formados em diversas profissões liberais. 

O tema dessa Semana dos Povos Indígenas nos lembra que a Paz está intimamente ligada à Justiça e ao direito à posse da Terra. Sem acesso ao seu território, um povo não pode viver sua cultura própria e, pouco a pouco, se dispersa e desaparece. A Justiça, a Paz e o direito à Terra estão intimamente ligados e são fontes do Bem Viver, proposta que, hoje, é compreendida como um paradigma civilizatório para toda a humanidade. 

Todas as pessoas de boa vontade e que têm fome e sede de justiça sabem que o cuidado com a Terra, a Água e a natureza deve ser a prioridade de qualquer sociedade sadia. A educação, a saúde e a dignidade de vida do povo devem ser confirmados como objetivos do Estado. Muitos setores lutam por uma radicalização da democracia participativa e direta. Cada vez mais um número maior de pessoas está convencido de que os povos indígenas têm muito a nos ensinar nesse caminho. Essa Semana de Povos Indígenas, ao proporcionar ocasião de diálogos e maior escuta dos índios pode nos ajudar a aprofundar esse caminho. A raiz de tudo isso é a redescoberta de uma cultura amorosa que, antropologicamente, se compreende como uma espiritualidade humana. Nesse tempo pascal, quem é cristão pode ouvir Jesus ressuscitado afirmar em relação aos índios: "Tudo aquilo que fizerdes a um desses pequeninos é a mim que fazeis" (Mt 25, 40). 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A erosão das fontes de sentido




 por LEONARDO BOFF

Já foi dito, com verdade, que o  ser humano é devorado por duas fomes: de pão e de espiritualidade. A fome de pão é saciável. A fome de espiritualidade, no entanto, é insaciável. É feita de valores intangíveis e não materiais como a comunhão, a solidariedade, o amor, a compaixão, a abertura a tudo o que é digno e sagrado, o diálogo e a prece ao Criador.
Esses valores, secretamente ansiados pelos seres  humanos, não conhecem limites em seu crescimento. Há um apelo  infinito que lateja dentro de nós. Somente um infinito real pode nos fazer repousar. A excessiva centralização na acumulação e no desfrute de bens materiais acaba por produzir grande vazio e decepção. Foi o que concluiram analistas da universidade Lausane. Algo em nós grita por algo maior e mais humanizador.
     É nesta dimensão que se coloca a questão do  sentido da vida. É uma necessidade humana encontrar um sentido coerente. O vazio e o absurdo produzem angústia e  sentimento de estar só e desenraizado. Ora,  a sociedade industrialista e consumista, montada sobre a razão funcional, colocou no centro o indivíduo e seus interesses particulares. Com isso, fragmentou a realidade, dissolveu qualquer cânon social, carnavalizou as coisas mais sagradas e ironizou ancestrais convições, chamadas de “grandes narrativas”, consideradas metafísicas essencialistas, próprias de sociedades   de outro tempo. Agora funciona o “anything goes”, o vale tudo dos vários tipos de racionalidade, de posturas e de leituras da realidade.  Criou-se o relativismo que afirma que nada conta definitivamente.
     A isso se chamou de pós-modernidade que para mim representa a fase mais avançada e decadente da burguesia rica mundial. Não satisfeita de destruir o presente, quer destruir também o futuro. Ela se caracteriza por um completo descompromisso de transformação e de um professado desinteresse por uma humanidade melhor. Tal postura se traduz por uma ausência declarada de solidariedade para com o destino trágico de milhões que lutam por terem uma vida minimamente digna, de poderem morar melhor do que os animais, de terem acesso aos bens culturais que lhes enriqueçam a visão do mundo. Nenhuma cultura sobrevive sem uma narrativa coletiva que confira dignidade, coesão, ânimo e sentido à caminhada coletiva de um povo. A pós-modernidade nega irracionalmente esta dado originário.
     No entanto, por todas as partes do mundo, as pessoas  estão elaborando significados para suas vidas e padecimentos, buscando  estrelas-guias que lhes dêem   um norte e lhes abram um porvir esperançador. Podemos viver sem fé, mas não sem esperança. Sem ela se esta está a um passo da violência, da banalização da morte e, no limite, do suicídio.
     Ora as instâncias que historicamente representavam a construção permanente do sentido, entraram modernamente em erosão. Ninguém, nem o Papa, nem Sua Santidade o Dalai Lama podem dizer seguramente o que é bom ou mau para esta quadra planetária da história humana.
     As filosofias e outros caminhos espirituais respondiam por esta demanda fundamental do humano. Mas elas, em grande parte, se fossilizaram e perderam o impulso criador. Sofisticam-se cada vez mais sobre o já conhecido, sempre de novo repensado e redito mas desfibradas de coragem para projetar novas visões, sonhos promissores e utopias mobilizadoras. Vivemos um “mal-estar da civilização”, semelhante àquele do ocaso do império romano, descrito por Santo Agostinho em “A Cidade de Deus”.  Nossos  “deuses”  como os deles já não são mais críveis. Os novos “deuses” que estão despontando não são vigorosos o bastante para serem reconhecidos, venerados e lentamente ganharem os altares.
     Estas crises só são superadas quando se fizer uma nova experiência do Ser essencial de onde se deriva uma espiritualidade viva. Vejamos alguns lugares onde os “novos deuses” se anunciam  e uma nova percepção do Ser aparece.
      Por mais críticas que lhe devemos fazer no seu aspecto econômico e político, a globalização é, antes de tudo, um fenômeno antropológico que se expressaria melhor por planetização: a humanidade se descobre uma espécie, habitando uma única Casa Comum, o planeta Terra, com um destino comum. Tal fenômeno vai exigir uma governança global para gestionar os problemas coletivos. É algo novo.
     Os Fórums Sociais Mundiais que a partir do ano 2000 começaram a se realizar a partir de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, revelam uma particularíssima irrupção de sentido. Pela primeira vez na história moderna, os pobres do mundo inteiro, fazendo contraponto às reuniões dos super-ricos na cidade suiça de Davos, conseguiram acumular tanta força e capacidade de articulação que acabaram aos milhares se encontrando primeiro em Porto Alegre, depois em outras cidades do mundo, para apresentar suas experiência de resistência e de libertação, para trocar experiências de como  criam microalternativas ao  sistema de dominação imperante, como alimentam um sonho coletivo para gritar:um outro mundo é possível, um outro mundo é necessário. É algo novo.
     Nas várias edições dos Fóruns Sociais Mundiais, em níveis regional e internacional, se notam os brotos do novo paradigma de humanidade, capaz de organizar de forma diferente a produção, o consumo, a preservação da natureza e a inclusão de toda a humanidade num projeto coletivo que garanta um futuro de vida e de esperança para todos. Dai a sua importância: do fundo do desamparo humano está emergindo uma fumaça que remete a um fogo interior do lixo ao qual foram condenadas as grandes maiorias da humandiade. Esse fogo é inapagável. Ele se transformará numa brasa e num clarão a iluminar um novo sentido para humanidade. Oxalá.

*Leonardo Boff teólogo e filósofo é autor de Tempo de transcendência, Vozes 2010.