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terça-feira, 2 de setembro de 2014

CONSTRUIR ESPAÇOS DE LIBERDADE E DIREITO




Por Marcelo Barros
 
“Ocupar praças e ruas por liberdade de direitos” é o tema do 20o Grito dos Excluídos, a ser realizado no próximo domingo, 07 de setembro, dia da Pátria, em todas as capitais e muitas cidades do Brasil. Esse momento celebrativo encerra uma série de reuniões, eventos e mobilizações que ocorreram durante todo o ano. O objetivo é manter as comunidades e movimentos sociais unidos na caminhada em defesa dos seus direitos de cidadania. De fato, “ocupar praças e ruas por liberdade de direitos” é um modo de fazer avançar no Brasil a democracia participativa e direta, na qual todos os cidadãos são protagonistas, sem diminuir a importância da democracia parlamentar e representativa. 

Atualmente, em plena campanha eleitoral, é importante termos critérios justos para eleger nossos representantes, no poder executivo e também nos diversos níveis do legislativo. No entanto, queremos que eles nos representem e não nos substituam. Por isso, durante essa Semana da Pátria, todos os/as brasileiros/as, de alguma forma, ligados/as aos movimentos sociais, estão votando no Plebiscito Popular que pede uma Constituinte exclusiva e soberana para a Reforma Política. Em pesquisa recente, a maioria do povo brasileiro já se expressou favorável a uma reforma política no sistema parlamentar brasileiro. Agora, se trata de votar no Plebiscito Popular que pede a eleição de uma Constituinte exclusiva e soberana para fazer essa reforma. A consulta popular, efetuada em todo o país, durante essa semana, foi preparada por uma ampla discussão democrática e contribuiu muito para formar uma mais profunda consciência de cidadania em todo o nosso povo. 

Nas cidades gregas antigas, a Ágora era a praça da cidade ou o pátio, onde se realizavam as discussões públicas. Ali, os cidadãos tomavam as decisões sobre o rumo a seguir para toda a cidade. Na cultura do antigo Oriente Médio e no Israel bíblico, as cidades eram rodeadas de muros. Na porta principal de entrada, havia um pátio onde se reuniam os cidadãos para os julgamentos de pessoas aprisionadas ou suspeitas de crimes. Também ali se tomavam as decisões de paz ou de guerra em relação a cidades vizinhas. O problema era que, naquele mundo, só eram considerados cidadãos os homens adultos, casados e proprietários de terra. Mulheres, adolescentes e crianças, além de estrangeiros e lavradores sem terra não eram cidadãos e não tinham direitos constitucionais. Não participavam da ekklesia, assembleia dos cidadãos. 

Foi justamente esse nome (ekklesia) que, nos meados do século I de nossa era, Paulo de Tarso tomou do mundo grego para denominar as comunidades de discípulos e discípulas de Jesus. A partir de então, essas comunidades de periferia urbana que não faziam parte das assembleias do Império, passaram a se constituir como “assembleias de Jesus Cristo” ou Igrejas, nome que a História guardou para designar as comunidades cristãs.  Nos primeiros séculos, o termo Igreja designava principalmente as assembleias locais de cristãos/ãs reunidos/as como comunidades fraternas. O termo que mais caracterizava a vida dos cristãos/ãs era a participação plena na comunidade. (Em grego, o termo koinonia (participação), em nossa linguagem habitual, se traduz por “comunhão”. Atualmente, por motivos históricos e culturais, a maioria das Igrejas cristãs mantém um caráter hierárquico que recorda mais as monarquias medievais do que a profecia de um mundo novo que queremos construir. No entanto, se a Igreja é sinal do amor divino no mundo, deveria ser sempre uma espécie de ensaio, ou modelo de organização fraterna que se poderia propor para o mundo todo. Às vezes, uma leitura fundamentalista de alguns textos bíblicos faz alguns pastores afirmarem que a Igreja não deve ser uma democracia. Ao ouvir isso, o bispo Dom Pedro Casaldáliga sempre responde: “De fato, a Igreja não pode ser uma simples democracia. Tem de ir muito além disso. Deve ser uma comunhão”. É esse exercício concreto de participação que os movimentos sociais ensaiam no Grito dos Excluídos e que somos todos chamados a viver ao votarmos no Plebiscito popular que pede uma Constituinte exclusiva e soberana para a Reforma Política do sistema brasileiro.    

   Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.  


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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Juventude e o grito dos excluídos




Por Marcelo Barros

      “Juventude que ousa lutar constrói o projeto popular!” é o lema do 19º Grito dos Excluídos que, no 07 de setembro, acontecerá em todo o Brasil. Para as mobilizações, manifestações de rua e atividades que acontecerão, o Grito convoca especialmente a juventude, categoria social que mais sofre as consequências da sociedade excludente em que vivemos. As estatísticas mostram que, no Brasil de hoje, a juventude é a categoria social mais frágil do ponto de vista das perspectivas de vida e aquela a qual mais se cobram iniciativas. 

     Quando me encontro com jovens, sempre me pergunto que possibilidades de vida digna e justa a sociedade oferece à juventude. Se falamos de trabalho, 3, 7 milhões de jovens brasileiros não têm emprego fixo, o que representa 47% do total de desempregados do país. Em todo o Brasil, muitos jovens vivem situações de subemprego, realizam biscates, sem nenhuma segurança. Muitos rapazes e moças vivem em situação de exclusão social, com pouco acesso ou até nenhum aos bens culturais, sociais e as mínimas condições para uma vida digna. Além do mais a juventude é a maior vítima da prostituição, do tráfico e uso de drogas e da violência urbana. 

     Sem dúvida, o Brasil avançou socialmente nos últimos dez anos. Entretanto, até aqui, mesmo governantes eleitos para transformar as estruturas e governar para todos os brasileiros acabam concedendo à maioria da população apenas as migalhas que sobram das mesas dos patrões, como são os programas emergenciais de bolsa família, segurança alimentar, auxilio moradia e outros. Enquanto isso, o filé mignon da economia continua a serviço dos interesses de uma elite minoritária cada vez mais rica. Os banqueiros chegam a ter lucros de 400% ao ano, enquanto a Câmara e o governo trabalham meses e meses para definir o aumento mínimo possível a ser permitido ao salário dos trabalhadores. 

      Recentemente, diante da insatisfação de milhões de pessoas que foram às ruas para protestar contra os excessivos gastos com a Copa e a falta de investimento em educação, saúde e transporte urbano, a  presidente da República prometeu dialogar com os movimentos populares e propôs a organização de um plebiscito para a reforma política e para uma nova Constituinte. No dia seguinte, voltou atrás. Agora, todo esse projeto está reduzido a um referendo controlado pelo interesse dos mais conservadores. 

     Cada vez mais, os movimentos sociais veem claro: sem mudança profunda na própria estrutura do Estado, não haverá transformações substanciais da sociedade e não se terá justiça nas cidades e no campo. Nesse ano, o 19º Grito dos Excluídos ocorre nessa delicada conjuntura nacional. Ele convoca as organizações de articulação da juventude e da sociedade em geral a se juntarem para lutar pacificamente pela construção de um projeto popular. Ao descrever mais concretamente essa meta, o Grito evoca o direito de todas as pessoas ao acesso a políticas públicas de qualidade, propõe-se a exigir mais recursos públicos para os direitos sociais; lutar por justiça social e ambiental e defender os bens comuns (água, terra, minérios, sementes, etc). O Grito considera urgente denunciar as formas de organização e exploração do capital que se mostram com novas roupagens, nos megaprojetos (hidroelétricas, portos, rodovias, arenas) e nos megaeventos como Copa do Mundo e Olimpíadas. Quer ainda construir espaços de unidade dos movimentos do campo e da cidade e garantir a importância de cada um dentro da organização e da luta popular.  

      São objetivos amplos e exigentes. Entretanto, o fato de nos comprometermos com eles nos faz de nós o que o evangelho chama de “construtores/as da paz”. Jesus proclama abençoadas por Deus e felizes todas as pessoas que têm fome e sede de justiça. E promete que herdarão no mundo o reinado divino, no qual “a justiça e a paz correrão pela terra como um rio a saciar nossa sede e nos aliviar a vida” (Cf. Is 65).

 Marcelo Barros , monge beneditino, teólogo e escritor. Tem 44 livros publicados.
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