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segunda-feira, 14 de maio de 2018

A MATERNIDADE E SEUS DISCURSOS






por Maria Clara Bingemer

             O Dia das Mães vem se tornando uma data sobretudo comercial. Produtos se propõem fazer mais felizes aquelas que um dia geraram filhos. Para além dos presentes, no entanto, a data relembra a experiência mais primordial da humanidade desde seus primórdios: a relação entre mãe e filho.

            Sendo nas sociedades primitivas algo natural, parte do ciclo biológico da vida que se reproduz e se multiplica, a maternidade passou a ser pensada pela razão e a cultura.  Para isso produziu discursos que atravessaram séculos e conheceram transformações segundo épocas e contextos.

            Nas grandes religiões encontra-se a presença de deusas mães que marcam as crenças com o selo da fertilidade e da fecundação. Seu ritmo é o da mãe terra com suas estações, mortes e renascimentos. Já as religiões monoteístas são urânicas, marcadas por movimento da revelação de um Deus único e transcendente invocado com nomes masculinos como Senhor, Forte Guerreiro, Pai.

            No discurso do Cristianismo, porém, há uma novidade introduzida pela maternidade: a pessoa da mãe de Jesus. O Cristianismo afirma que a pessoa divina do Verbo se encarna no ventre da jovem Maria de Nazaré.  É a mãe que dá carne, humanidade, a esse que os cristãos proclamam humano e divino. E esse mistério da maternidade divina configurará toda a tradição cristã.

            Paulo de Tarso, judeu filho de judeus, cidadão romano e primeiro teólogo, dirá na Carta aos Gálatas: “Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho nascido de mulher”. E por isso, porque inaugura uma plenitude transcendente dentro da temporalidade histórica, a relação da Mãe com o Filho é geradora de vida e sentido para a humanidade. Maria é mãe, gerando quem a gerou, sendo anterior ao filho em sua humanidade, mas posterior por sua divindade. Ultrapassa os limites da ginecologia e da biologia, sendo reconhecida e cultuada como virgem e mãe simultaneamente.

O imaginário religioso cristão cria assim uma nova matriz para uma rede de outras relações muito complexas: a de Deus com a humanidade, a do homem com a mulher, a do filho com a mãe entre outras muitas.  E deixa patente o fato de que o discurso sobre a maternidade da Virgem Maria foi, sem dúvida, o mais forte que o Ocidente já conheceu.

Forçoso é reconhecer, apesar disso, a grande contribuição que a crítica feminista tem feito com respeito ao mito do amor materno.  Chavões sobre a incondicionalidade do amor da mãe que se sacrifica até o fim pelo filho esquecendo-se de si própria, sintetizados no famoso “ser mãe é padecer no paraíso”, são hoje rejeitados.  Da mesma forma o antigo preconceito de a maternidade ser vista como único e irrevogável destino da vida de uma mulher não se sustenta atualmente.

As mulheres se emanciparam, entraram no espaço público e no mercado de trabalho.  As jovens mães muitas vezes dividem com os esposos e companheiros o cuidado dos filhos e combinam os deveres da maternidade com as obrigações profissionais. Algumas planejam sua maternidade, escolhem o tempo e o momento em que desejam procriar. Outras já não desfrutam desse privilégio.  Esmagadas pela pobreza ou pela violência ou por ambas, são engravidadas ainda adolescentes por um parente próximo que pode até ser o próprio pai, dentro de casa.

No entanto, é fato que nada ainda conseguiu substituir a experiência única de gerar e hospedar em seu próprio corpo outra vida. E por isso a primeira experiência de alteridade e relação que qualquer ser humano tem ou terá será aquela que se inicia no ventre materno.  Por mais traumática que seja, por mais negativa.  É o milagre de habitar em outro e ser por ele habitada que ali acontece. Do santo ao criminoso, do gênio ao iletrado, do rico ao pobre, todos, sem exceção, são - somos – filhos e filhas de mulher.  Temos mãe.

Muitas, além de termos mãe, somos mães.  Um dia sentimos pulsar outro coração junto ao nosso.  Vimos nosso corpo se transformar ao ritmo do outro que em nós crescia e se desenvolvia. E ao termo desse processo de intimidade e comunhão com a outra vida que em nós acontecia, vivemos a plenitude de dar à luz e receber em nossos braços aquele pequeno ser que nos fez e faz sentir que o mundo começa e recomeça.

Para todas, neste dia, desejo a consciência da graça de viver essa plenitude.  Não só para Maria de Nazaré chegou a plenitude dos tempos com o nascimento de seu Filho a quem deu o nome de Jesus, que quer dizer Deus salva. Em cada mãe que viveu a experiência do alumbramento, essa plenitude chegou.

Por isso é urgente recuperar o discurso da maternidade, algo obscurecido por discursos outros que predominam na modernidade e na secularização.  Se a maternidade não voltar a encontrar sua cidadania plena na vida humana hoje, é de se temer que caminhemos para uma perigosa decadência sem esperança de volta. 

Que se presenteiem as mães. Não esquecendo, porém, que para elas o maior presente já foi dado. Presente que é graça recebida chamada a converter-se em doação permanente.  Ser humana e mortal e ao mesmo tempo morada da vida.  Ser portadora do desejo do amor que é fértil e que se reproduz.  Ser frágil e perecível mas carregar em si o segredo da vida que não morre porque continua a acontecer para sempre e continuamente.

Feliz Dia das mães para todas.

 Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).  

 Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>




segunda-feira, 20 de novembro de 2017

MATERNIDADE ADIADA

        


Por Maria Clara Lucchetti Bingemer


                        A maternidade já não é mais encarada pela mulher como um destino que se abate sobre ela quando seu corpo dá o sinal vermelho da menstruação de que é possível engravidar.  Assim como no passado meninas ficavam grávidas dentro ou fora do casamento na mais tenra idade, desde o advento dos anticoncepcionais o tempo da mulher para acolher em seu corpo a semente de uma nova vida vem sendo alterado. 

          As mulheres devem tomar outras providências antes de serem mães, pensa a nova geração.  Terminar os estudos, ter uma carreira, ganhar dinheiro, ter proventos suficientes para sustentar-se com tranquilidade passam na frente cronologicamente de trazer um filho ao mundo.  E a maternidade vai sendo adiada. Parece que o número de mulheres que engravida após 40 anos aumenta significativamente e algumas celebridades – como Ivete Sangalo – grávida de gêmeas aos 45 anos – confirma essa tendência. 

            É inegável que o feminismo foi uma revolução altamente positiva para as mulheres.  Levantar a questão sobre a subordinação da qual a mulher é vítima em uma sociedade patriarcal, conscientizá-la sobre os papéis que lhe foram atribuídos secularmente e estimulá-la a lutar por seus direitos foram avanços inegavelmente valiosos.  E mesmo se hoje podemos tecer algumas críticas à configuração do feminismo da “primeira onda”, com suas reivindicações radicais, sua linguagem um tanto antimasculina e suas propostas antifamiliares e voltadas quase que somente para o trabalho e o salário, o fato é que o mundo seria outro se não tivesse havido a revolução feminista. 

            E, no entanto, apesar de tudo o que de positivo essa escola de pensamento trouxe para a sociedade de hoje, o mesmo feminismo, ao reler-se, descobre alguns pontos críticos no sistema de pensamento que criou e inclusive no impacto que teve na sociedade. Camile Paglia, conhecida pensadora feminista, em entrevista dada no Brasil, afirmou: “Muitas feministas de minha geração se opuseram com fervor a essa tendência de que as mulheres voltem a dedicar-se exclusivamente ao papel de mãe, mas eu não estou nada de acordo com essas feministas".  

            E segue: “Desde o final da década de 1960, há uma depreciação de quem quer ser mãe e mulher.  Para mim, o feminismo é a luta por oportunidades iguais para as mulheres.  Ou seja, remover qualquer obstáculo que perturbe o avanço na educação superior e no mercado de trabalho.  O feminismo deveria estimular escolhas e ser aberto a decisões individuais.  As feministas estavam erradas ao exaltar a mulher profissional como mais importante que a mulher mãe e esposa.  Uma geração inteira de profissionais americanas adiou a maternidade e quando finalmente decidiu engravidar, não pôde encontrar companheiro ou teve problemas de fertilidade. ” 

            Na verdade, a conhecida pensadora feminista afirma que faltou honestidade ao feminismo com respeito à realidade biológica que as mulheres devem enfrentar se querem unir maternidade a ambições profissionais.  Neste caso, a natureza entra em conflito com o idealismo moderno da igualdade sexual.  As feministas asseguraram às mulheres que haveria tempo suficiente para ter filhos mais tarde, com 40 ou mesmo 50 anos, após a estabilidade profissional.  Por um lado, a ciência avança, a vida dura mais e há mais técnicas de fertilização e acompanhamento pré-natal.  Mas, por outro, é conhecido o fato de que há mais riscos para a mãe e para a criança, à medida que a idade biológica da primeira avança. A fertilidade, a energia, a saúde não são as mesmas aos 20 e aos 40 anos. 

            Por isso, a infelicidade que muitas mulheres sentem hoje resulta, em parte, da incerteza sobre quem realmente são e o que querem ser e construir nesta sociedade materialista, obcecada com status e dinheiro, que espera que a mulher se comporte como homem e ainda seja capaz de amar como mulher. A dificuldade de encontrar parceiros passa um pouco por aí, com responsabilidades de ambos os lados.  Dos homens, que temem mulheres independentes, inteligentes e não submissas.  Das mulheres, que acham que podem tudo e se afastam da fonte do verdadeiro poder que ninguém pode tirar-lhes, que é o de dar a vida. 

O despertar para essa constatação às vezes acontece tarde. Não à toa conhecemos mais de um caso em que a mulher parte para a produção independente, fazendo-se inseminar e procriando sozinha com parceiro desconhecido.  Outras  congelam os óvulos para engravidar quando assim o desejarem: mais tarde, aos 40 ou 50 anos. Mas conseguirão? Será a mesma coisa ter um filho assim e não no contexto de uma relação amorosa? Qual será o perfil das crianças nascidas da maternidade adiada? 

Ainda não temos distância histórica para avaliar com precisão. No entanto, a avaliação sobre o feminismo hoje, embora muito positiva em certos aspectos, não pode deixar de reconhecer honestamente que há uma dimensão  extremamente narcisista que se mostra com mais evidência. 

            Adiar a maternidade pode ser uma opção.  Porém, arriscada.  Pode desembocar em uma realização feliz, mas também em enorme frustração.  Em todo caso, essa sociedade de maternidades tardias produzirá famílias mais reduzidas, onde a presença de várias crianças, irmãos e irmãs, não mais será a maioria.  Uma geração de filhos únicos parece apresentar-se em horizonte não muito distante.  Haverá que saber se será mais feliz do que a nossa ou do que a de nossos filhos.  

Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de  Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial.


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

MAMA ANTULA E A MATERNIDADE ESPIRITUAL

Por  Maria Clara Lucchetti Bingemer



            Os homens gostam, às vezes, de criticar certas características das mulheres.  Ora é a curiosidade, ora a dificuldade em ficar caladas, ora a emoção que ultrapassa a razão.  Há outra característica feminina criticada: a teimosia.  Mas creio que essa tem uma certa ambiguidade, pois nem sempre pode ser considerada algo apenas negativo.

            Assim parece ao menos ao Papa Francisco, que no último dia 27 de agosto proclamou beata  Maria Antonia de Paz y Figueroa, ou Maria Antonia de San José, mais conhecida como Mama Antula. Argentina de Santiago del Estero, começou a trabalhar desde muito jovem com os jesuítas, ajudava-os na organização de exercícios espirituais.

            Não era freira nem pertencia a nenhuma congregação.  Era apenas uma mulher de profunda  fé e um enorme amor pelos exercícios espirituais, que constatou fazerem bem a muita gente.  Por isso, reuniu um grupo de jovens mulheres que viviam em comum, rezavam e praticavam a caridade e ajudavam os jesuítas em seu trabalho apostólico.  Eram chamadas de “beatas” naquele tempo.  Hoje, são chamadas de leigas consagradas. 

            A santa teimosia de Maria Antonia, aliás Mama Antula, começou a destacar-se em 1767, com a expulsão dos jesuítas da Argentina. Saíram os jesuítas, mas não os exercícios espirituais, que continuaram a ser fiel e continuadamente pregados por Mama Antula.  Ajudada por um padre mercedário que assumia as tarefas próprias do sacerdote, tal como celebrar missa e confessar, ela continuava se ocupando, juntamente com suas companheiras, da organização de exercícios em todos os seus aspectos práticos, como conseguir um lugar, provisões e recursos, para que mais e mais pessoas fizessem aquela experiência que tanto a havia ajudado.

            Sua cidade ficou pequena para sua intensa atividade pastoral e spiritual, e ela partiu para outras cidades da Argentina.  Foi, então, que começaram a chamá-la de Mama Antula, pois viam nela uma espécie de maternidade espiritual.  Viajava caminhando descalça e pedindo esmolas.  E assim  multiplicavam-se os candidatos aos exercícios que organizava, às centenas.

            Como não podia deixar de ser, Maria Antonia sofreu desconfiança, rejeição por parte de várias pessoas, inclusive autoridades eclesiásticas.  Em Buenos Aires foi primeiro chamada de louca, fanática e bruxa.  Mas logo o mesmo bispo que a olhava com desconfiança autorizou seu trabalho e se converteu em grande admirador.  O vice-rei a proibiu de continuar suas atividades, porém ela continuava a realizá-las clandestinamente com cada vez mais adesões, inclusive agora de pessoas da nobreza e famílias abastadas.

            A teimosia dessa mulher transpunha todos os obstáculos.  Verdadeira peregrina da fé, seguia aquilo que considerava ser o chamado de Deus para sua vida, não se importando se a realidade parecia contradizer todas as suas pretensões e desejos.  Caminhou o país inteiro sozinha ou com algumas de suas companheiras.  Esse peregrinar físico era também, nela, um símbolo da peregrinação espiritual. 

            Quando os jesuítas foram expulsos da Argentina, declarados perigosos pelo rei da Espanha, ela continuou sua obra, sabendo que poderia ser condenada por rebeldia.  Sua teimosia foi ainda mais extraordinária quando a Companhia de Jesus foi suprimida pelo Papa Clemente XIV. Ela não queria contradizer o papa, mas não podia deixar de viver sua vocação, que era continuar a obra dos jesuítas e propagar os exercícios espirituais.

            Enquanto trabalhava incansavelmente, criava uma família espiritual.  Os jesuítas eram seus irmãos, um jovem exercitante irmão de um jesuíta, seu filho.  Às mulheres que a acompanhavam chamava de “irmãs de um mesmo parto”.  E todos, ela, eles e elas, eram filhos de uma mesma mãe, a Companhia de Jesus.  Ela era reconhecida como mãe.

            Sua aventura espiritual, filha de uma teimosia inquebrantável, não é por ela realizada de forma individual, mas como líder de uma comunidade espiritual. Manteve sempre a esperança sua e a dos que lhe eram próximos, esperando o retorno dos jesuítas e o renascer da ordem extinta pelo papa. E os grupos de jesuítas que durante o tempo da supressão continuavam clandestinamente a vida consagrada recebiam os ecos de sua atuação na ponta sul do planeta e isso era para eles uma esperança.

            Graças à sua teimosia criativa e à força inquebrantável de seu espírito, os jesuítas, ao retornarem, encontraram o trabalho de pregação dos exercícios mais vivo e dinâmico do que nunca.  Seu ministério havia deixado de restringir-se apenas ao âmbito da Companhia e se tornara universal, aberto a toda a Igreja.

            Graças à teimosia de uma mulher, a espiritualidade inaciana não foi expulsa do vice-reinado do Rio de la Plata juntamente com a Companhia.  As cartas que Mama Antula escrevia aos jesuítas exilados na Europa também mantiveram viva a memória da ordem supressa e ainda dispersa pelo mundo.

            Portanto, cuidado quando uma mulher se apaixona por uma causa ou mete na cabeça que tem que realizar alguma coisa.  Sua força é inquebrantável, nenhum perigo a amedronta e pode chegar muito longe, onde às vezes os homens desanimariam.

            A beatificação desta extraordinária mulher argentina diz muito sobre a capacidade e a qualidade humana das mulheres quando se dispõem a fazer acontecer no mundo o Reino de Deus.

 Maria Clara Lucchetti Bingemer é  professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 

 Copyright 2016 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

sexta-feira, 9 de maio de 2014

MATERNIDADE UNIVERSAL



por Maria Clara Lucchetti Bingemer

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     O Dia das mães é sempre precedido de tumulto. Lojas e ruas cheias, comércio aberto noite e dia, tentando atrair o consumidor incauto em suas malhas ávidas. As homenageadas mães enfrentam, como sempre,  filas para restaurantes lotados porque nesse dia "elas não devem trabalhar".

    Garanto que prefeririam dividir o trabalho durante o resto dos dias do ano e trabalhar alegremente no dia a elas dedicado, fazendo uma grande e saborosa refeição para os filhos queridos. Por isso e porque sua grande razão de viver é estar com estes que são frutos amados de suas entranhas, elas encararam com bom humor as filas e as multidões, e fazem sua comemoração curtindo as glórias da maternidade pelo menos neste dia celebrada.

     No entanto, hoje meu desejo é falar de outra maternidade, que não individual, mas corporativa.  Não por isso, porém, é menos profunda e admirável. Sua fecundidade pretende alcançar toda a humanidade e mesmo àqueles que não se confessam conscientemente seus filhos, estende a mão e propõe alianças em prol de causas justas e éticas como a paz, o diálogo entre os povos, a harmonia entre as religiões.

    Em seu regaço materno filhos de muitas raças e proveniências um dia foram acolhidos e assumidos, sem que lhes fizesse perguntas nem colocasse limites e interditos à sua filiação.  Por esses filhos se fez responsável, mãe e mestra, procurando conduzi-los e guiá-los no caminho da Verdade e da Paz.  Iniciou-os no mistério da Vida verdadeira, ensinando-lhes a sintaxe da fé, a gramática da esperança e a prática da caridade. Como todas as mães, seu relacionamento com os filhos não foi e nem é sempre pacífico. Há conflitos e dissensões na história de suas relações. Muitos filhos, antes fiéis e concordes, um dia discordaram de posições e ensinamentos seus.  Muitas vezes seu discurso soou antigo e ultrapassado aos filhos mais críticos ou mais novos, que lhe disseram este sentimento em alto e bom som.

    No entanto, como sempre acontece entre mães e filhos, essas crises em geral são superadas.  E os mesmos que muitas vezes foram críticos agudos do comportamento e da palavra materna e que não hesitaram em entrar em confronto aberto com ela, por outro lado não permitiram nem permitem jamais que outros a critiquem e
menosprezem.  Mesmo no fundo mais profundo do conflito, o amor materno-filial permanece.

     Desta mãe de braços sempre abertos, a Igreja, um dia nascemos para a fé e a vida nova em Jesus Cristo.  A ela pedimos humildemente o Batismo. E ela nos tomou nos braços e  nos mergulhou nas águas revoltas e profundas da paixão e morte de Jesus Cristo e dali nos ergueu  para a vida nova, na qual fomos configurados a Ele para sempre.  A partir daí, nossa identidade mais profunda passou a ser não nosso sangue, nossa raça, nossa carne e nossa cidade terrestre.  Mas sim a pessoa de Jesus Cristo, sua encarnação, vida, paixão, morte e ressurreição.

     A Igreja passou a fazer conosco o que fazem as mães: ensinar os primeiros passos na nova vida que iniciamos.  Ensinou-nos as palavras de Jesus, ensinou-nos a chamar Deus de Pai.  Pôs à nossa disposição a luminosa Palavra consignada na Escritura para guiar nossa vida; ofereceu-nos os sacramentos para nossa confirmação, consolo, reconciliação e alimento.  Nutriu-nos com a meditação dos mistérios da fé, o aprofundamento da palavra e a celebração da liturgia. Ensinou-nos a louvar, a rezar, a cantar.
 
     À medida em que íamos crescendo, foi nos ensinando a pedagogia de Deus, caminho para uma vida plena que culmina no amor. E nos foi alfabetizando na linguagem desse amor.  Esteve ao nosso lado nos momentos cruciais da nossa vida: nascimento, acesso à comunhão eucarística, envio à missão, casamento, ordenação, doença, morte.

     Assim como nos tomou nos braços ainda crianças para marcar-nos indelevelmente com a água batismal e o selo do Espírito Santo, assim também estará ao nosso lado antes de empreendermos a última e definitiva viagem ao encontro da Luz que não se apaga, do lado de lá das fronteiras da morte.  Sobre nossa fronte cansada a Mãe Igreja traçará uma vez mais o sinal da nossa salvação: o sinal da cruz e com seu carinho nos acompanhará na partida e na esperança da chegada.

     Portanto, por tudo e apesar de tudo, neste Dia das Mães é digno e justo celebrar a maternidade universal da Igreja. Sentimo-nos filhos de Deus na medida em que somos mais filhos seus.

 
Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

A   teóloga é autora de “Ser cristão hoje" (Editora Ave Maria).
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