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terça-feira, 15 de setembro de 2015

DEMOCRACIA DAS RUAS

por Marcelo Barros



Ao festejar, nessa segunda feira, a data da independência do Brasil, a imensa maioria do povo brasileiro está consciente de que a emancipação política do império português foi importante, mas apenas como início de um processo a ser permanentemente aprofundado e atualizado. A independência política formal só se completa com uma verdadeira libertação social e econômica. Tudo isso está ligado a uma autonomia cultural e até à liberdade espiritual das pessoas e das comunidades.

Em cada sete de setembro, enquanto se repete o desfile militar de outros tempos, como se o militarismo fosse  a solução para a liberdade, há mais de 25 anos, organizações sociais e comunitárias têm ido à rua para manifestar seu anseio por uma libertação integral. É o Grito dos Excluídos. Em muitas cidades brasileiras, ano após ano, essa manifestação popular tem mostrado que o problema político brasileiro não consiste em colocar ou tirar presidente. Sem dúvida, é importante contar com um poder executivo sensível e capaz de ouvir os gritos da rua. No entanto, o mais importante é um sistema político que possibilite a participação de todos. O sistema democrático representativo deve ser aprimorado por uma profunda democracia social e participativa de todos os brasileiros.  Além disso, é fundamental reformar as leis que permitem abusos no sistema de eleição, como o fato de empresas privadas financiarem campanhas de candidatos. Como diz frei Betto: “Nós votamos e as empresas elegem”.

Desde agosto, o Brasil tem visto manifestações de rua que reúnem milhares de pessoas. No domingo 16 de agosto, a grande manifestação foi das pessoas e grupos que são contra o governo. No dia 20, outra grande manifestação protestava contra qualquer tentativa de golpe. Em ambas, a maioria dos/das manifestantes criticava diversas  medidas do governo. Infelizmente, apesar de, durante a última campanha eleitoral, a presidente ter prometido dialogar com a sociedade, ela tem se revelado praticamente autista. Não aceita dialogar com a esquerda que confiou nela e a elegeu. Tenta agradar à direita que, de todos os modos, nunca a aceitaria. São pessoas e grupos que querem derrubá-la. Não porque ela não mantém uma política energética superada, ou porque não liga para a Ecologia, ou não defende as comunidades indígenas. Esses não são os pontos aos quais a oposição é sensível. Simplesmente não a querem. Por outro lado, não parecem saber o que querem, já que o Brasil presidido por Michel Temer ou por Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, terceiro na linha da sucessão, não parece ser o sonho da maioria dos brasileiros.

Nas últimas décadas, na América Latina, as organizações de base do campo e da cidade suscitaram uma nova proposta de caminho para a sociedade. Baseado no paradigma indígena do Bem Viver coletivo como objetivo do Estado, buscam uma forma nova e mais democrática de um verdadeiro socialismo. Desde o movimento dos índios de Chiapas e os círculos de cultura espalhados pelos bairros de periferia de várias cidades do continente, surgiu a proposta de um novo bolivarianismo. Em 1965, em suas cartas escritas de Roma, durante a última sessão do Concílio Vaticano II, Dom Helder Camara já aludia a esse movimento de integração latino-americana e que se inspira nas propostas de Simon Bolívar, o libertador.  As mesmas elites que, com razão ou sem razão, rejeitam Dilma, Lula e o PT, demonizam ainda mais Hugo Chávez, Nicolas Maduro, Evo Morales, Rafael Correa e qualquer bolivarianismo  que, no continente, queira mudar as desigualdades sociais e ameace os privilégios que a elite sempre teve.

Em meio a tudo isso, é bom saber que o próprio papa Francisco tem se pronunciado a favor das propostas do Bolivarianismo: a  integração latino-americana, a libertação do imperialismo e a busca de um caminho novo para uma sociedade alternativa. Para isso, propôs às Igrejas e à toda sociedade dialogar com os movimentos sociais organizados. Assim, caminharemos para uma nova realidade social, baseada na justiça, paz e comunhão com a nossa casa comum, a Terra.    

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Recado das ruas

   por FREI BETTO

     As manifestações de rua no Brasil fundem a cuca de analistas e cientistas políticos. Dirigentes partidários e lideranças políticas se perguntam perplexos: quem lidera, se não estamos lá?
     Recordo quando deixei a prisão, em fins de 1973. Ao entrar, quatro anos antes, predominava o movimento estudantil na contestação à ditadura. Ao sair, encontrei um movimento social – Comunidades Eclesiais de Base, oposição sindical, grupos de mães, luta contra a carestia – que me surpreendeu. Do alto de meu vanguardismo elitista fiz a pergunta: como é possível se nós, os líderes, estávamos na cadeia?

    Como essa mesma perplexidade Marx encarou a Comuna de Paris, em 1871; a esquerda francesa, o Maio de 1968; e a esquerda mundial, a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética, em 1989.
    “A vida extrapola o conceito”, já dizia meu confrade Santo Tomás de Aquino, no século 13. Agora, aqui no Brasil, todas as lideranças políticas encaram confusas e despeitadas as recentes manifestações de rua. Com a mesma interrogação invejosa que a esquerda histórica do Brasil mirou o surgimento do PT em 1980: que história é essa de, agora, os proletários quererem ser a vanguarda do proletariado?

    Historicamente eram os líderes da esquerda brasileira homens oriundos da classe média (Astrogildo Pereira, Mário Alves e João Amazonas), dos círculos militares (Prestes, Gregório Bezerra, Apolônio de Carvalho) e da intelectualidade (Gorender e Caio Prado Júnior). Marighella foi das raras lideranças provenientes das classes populares.

    O recado das ruas é simples: nossos governos se descolaram da base social. Para usar uma categoria marxista, a sociedade política se divorciou da sociedade civil, risco que previ e analisei no livro “A mosca azul– reflexão sobre o poder” (Rocco, 2005).
   A sociedade política – executivo, legislativo e judiciário – se convenceu de que representava de fato o povo brasileiro, e mantinha sob seu controle os movimentos de representação da sociedade civil, como ocorre, hoje, com a UNE e a CUT.
     Nem só de pão vive o homem, alertou Jesus. Embora 10 anos de governo petista tenham melhorado as condições sociais e econômicas do Brasil, o povo não viu saciada sua fome de beleza – educação, cultura e participação política.
    O governo petista optou por uma governabilidade assegurada pelo Congresso Nacional – onde ainda perduram os “300 picaretas” denunciados por Lula. Desprezou a governabilidade apoiada nos movimentos sociais, como fez Evo Morales, com êxito, na Bolívia.

     Assim, nosso governo aos poucos perdeu os anéis para conservar os dedos. Acreditou que tudo permaneceria como dantes no quartel de Abrantes. Seja porque a oposição anda enfraquecida por suas próprias disputas internas, seja porque considera Eduardo Campos e Marina Silva meros balões de ensaio.
O que nem a Abin (olhos e ouvidos secretos do governo) previu foi o súbito tsunami popular invadindo as ruas do Brasil em pleno período da Copa das Confederações– quando se esperava que todos estivessem com a atenção concentrada nos jogos.
    Agora ogoverno inventa o discurso de que sem partidos não há política nem democracia. Ora, basta uma aula de história de ensino médio para aprender que a democracia nasceu na Grécia muitos séculos antes da era cristã, e mais ainda do aparecimento de partidos políticos.

    Hoje, a maioria dos partidos nega a democracia ao impedir um governo do povo com o povo. Não basta pretender governar para o povo e, assim, considerar-se democrata. O povo nas ruas exige novos mecanismos de participação democrática, enquanto manifesta sua descrença nos partidos. Estes são intimados a renovar seus métodos políticos ou serão atropelados pela sociedade civil.

     Eis o recado das ruas: democracia participativa, não apenas delegativa, ou seja, governo do povo, com o povo e para o povo. Isso não é utopia, desde que não se considere modelo perpétuo o pluripartidarismo e se admita que o regime democrático pode e deve ganhar novos desenhos de participação popular nas esferas de poder.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.http://www.freibetto.org/> twitter:@freibetto.

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