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terça-feira, 23 de julho de 2019

VIVA BOLÍVAR E O BOLIVARIANISMO




Marcelo Barros

Nesses dias, assistimos a Venezuela resistir heroicamente aos ataques do Império norte-americano e à guerra de desinformação que os órgãos de comunicação oferecem contra o que acontece nesse país irmão. Por isso, é importante lembrar a herança que Simon Bolívar nos deixou e a proposta atual do Bolivarianismo para a Venezuela e que pode ser presente divino para todo o continente.

No início do século XIX, Simon Bolívar reuniu um exército para libertar os povos do continente da dominação do império espanhol e integrar os diversos países que se foram unindo em uma única pátria grande. Criou a República da Grande Colômbia que unia Venezuela, Equador, Bolívia, Chile, Peru e a atual Colômbia. Respeitava a autonomia de cada povo, integrado na confederação. Chegou a ajudar no Caribe a consolidação da independência do Haiti, primeiro povo libertado das Américas (1809).

Na Venezuela, durante toda a sua história, o ideal bolivariano sempre foi aceito e admirado por pessoas de todas as classes e de diversas correntes políticas. No entanto, a elite de todos os países sempre encontra formas de pensar a independência para os ricos, mas não para todos.  No mundo, a Venezuela é o segundo maior produtor de petróleo (logo abaixo do Golfo Pérsico). Durante quase duzentos anos, uma pequena elite dominou a Venezuela, entregando o petróleo do país aos Estados Unidos. A Venezuela, rica em petróleo, terra maravilhosa em diversidade de regiões e climas, sofria com imensa desigualdade social.

Desde as últimas décadas do século XX, sob a liderança de Hugo Chávez, o bolivarianismo ressurgiu como proposta de um novo Socialismo democrático e com rosto latino-americano. Esse movimento de retomada dos ideais do Libertador assumiu três metas importantes: 1 -  A integração de todos os povos e estados latino-americanos. 2 - A libertação de todos os colonialismos. 3 - A redução das desigualdades sociais na direção de um novo Socialismo democrático e a partir dos mais pobres.

Na primeira década desse século, mesmo adversários do governo bolivariano, reconheciam que nunca na Venezuela nenhum governo fez tanto pelos mais pobres. O governo implementou um plano de educação para todos, habitação digna e reforma agrária para os lavradores. Um profundo respeito e maior protagonismo social para as comunidades indígenas e afrodescendentes. Maior igualdade de gênero e complementariedade entre homem e mulher.

O governo bolivariano nacionalizou a maior riqueza do país, o petróleo. Determinou que todo o lucro vindo da venda do petróleo servisse à educação, construção de moradias e saúde da população mais pobre do país. Em 2002, a FAO declarou a Venezuela como país livre da fome e do analfabetismo. Dois anos depois, a ONU reconheceu oficialmente que a Venezuela Bolivariana tinha conseguido o índice de menor desigualdade social na América Latina. 

A elite que deixou de lucrar 400 % ao ano e o Império que perdeu sua hegemonia no continente não se conformaram. Principalmente, depois da morte do presidente Chávez (2013), a luta do Império e da elite venezuelana contra o bolivarianismo se acentuou. Comerciantes bloqueiam mercadorias e o Império construiu um bloqueio econômico para asfixiar o país, além da desinformação e todo tipo de mentiras contra o governo bolivariano. O resultado é um país dividido e extremamente violado pela guerra comercial desonesta e pela propaganda. Apesar de toda essa violência e da realidade difícil que os pobres enfrentam, o povo resiste heroicamente e o governo democrático ganha todas as eleições.  

A respeito da integração latino-americana, em julho de 2011, em Caracas, liderados pelo presidente Hugo Chávez, 33 representantes de países irmãos criavam oficialmente a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC) que reúne 33 países da América do Sul, América Central  e Caribe em um caminho de cooperação solidária, integração continental e autonomia frente ao Império.

O Império norte-americano financiou a vitória da direita em vários países latino-americanos e colaborou diretamente com o golpe que derrubou a democracia no Brasil. Assim, os organismos de integração latino-americanos foram destruídos ou simplesmente ignorados. No Brasil, na Argentina e em outros países, governantes voltam a bater continência à bandeira do Império e a ele entregar de graça todas as nossas riquezas.  
Para irmãos e irmãs solidários com a Venezuela e que desejam a integração latino-americana, posso testemunhar duas coisas:

1 – A primeira é que defender o Bolivarianismo não é apenas defender o governo venezuelano. É assumir uma proposta que vem das bases do povo, das comunidades indígenas e afrodescendentes. Em uma de suas circulares, dirigidas a um grupo de amigos e auxiliares, já em 1965, na época do Concílio e escrevendo em Roma, Dom Helder Camara defendia o Bolivarianismo, ao qual o papa Francisco também já aludiu com simpatia.

2 – Mesmo quem tem críticas ao governo venezuelano pode saber que a oposição atual na Venezuela é dez vezes pior em todos os aspectos do que o governo que ela combate e a eventual vitória da oposição fecharia para toda a América Latina qualquer possibilidade de autonomia diante do império norte-americano.

Por tudo isso, é responsabilidade de quem nutre uma espiritualidade libertadora, assumir mesmo que seja criticamente um apoio aos movimentos libertadores latino-americanos.

Em 1815, Simon Bolívar, o libertador da pátria grande que é a América do Sul, em sua “Carta de Jamaica”, considera o elemento religioso como aglutinante da alma americana e formula “a necessidade urgente de uma união de nossos povos, ligados por elementos culturais e religiosos comuns”. Assim, 236 anos depois do nascimento de Simon Bolívar, nesse 24 de julho, com todo o coração e nossa solidariedade ao povo da Venezuela, somos convocados/as para gritar: Viva Simon Bolívar, viva o Bolivarianismo!

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 15 de setembro de 2015

DEMOCRACIA DAS RUAS

por Marcelo Barros



Ao festejar, nessa segunda feira, a data da independência do Brasil, a imensa maioria do povo brasileiro está consciente de que a emancipação política do império português foi importante, mas apenas como início de um processo a ser permanentemente aprofundado e atualizado. A independência política formal só se completa com uma verdadeira libertação social e econômica. Tudo isso está ligado a uma autonomia cultural e até à liberdade espiritual das pessoas e das comunidades.

Em cada sete de setembro, enquanto se repete o desfile militar de outros tempos, como se o militarismo fosse  a solução para a liberdade, há mais de 25 anos, organizações sociais e comunitárias têm ido à rua para manifestar seu anseio por uma libertação integral. É o Grito dos Excluídos. Em muitas cidades brasileiras, ano após ano, essa manifestação popular tem mostrado que o problema político brasileiro não consiste em colocar ou tirar presidente. Sem dúvida, é importante contar com um poder executivo sensível e capaz de ouvir os gritos da rua. No entanto, o mais importante é um sistema político que possibilite a participação de todos. O sistema democrático representativo deve ser aprimorado por uma profunda democracia social e participativa de todos os brasileiros.  Além disso, é fundamental reformar as leis que permitem abusos no sistema de eleição, como o fato de empresas privadas financiarem campanhas de candidatos. Como diz frei Betto: “Nós votamos e as empresas elegem”.

Desde agosto, o Brasil tem visto manifestações de rua que reúnem milhares de pessoas. No domingo 16 de agosto, a grande manifestação foi das pessoas e grupos que são contra o governo. No dia 20, outra grande manifestação protestava contra qualquer tentativa de golpe. Em ambas, a maioria dos/das manifestantes criticava diversas  medidas do governo. Infelizmente, apesar de, durante a última campanha eleitoral, a presidente ter prometido dialogar com a sociedade, ela tem se revelado praticamente autista. Não aceita dialogar com a esquerda que confiou nela e a elegeu. Tenta agradar à direita que, de todos os modos, nunca a aceitaria. São pessoas e grupos que querem derrubá-la. Não porque ela não mantém uma política energética superada, ou porque não liga para a Ecologia, ou não defende as comunidades indígenas. Esses não são os pontos aos quais a oposição é sensível. Simplesmente não a querem. Por outro lado, não parecem saber o que querem, já que o Brasil presidido por Michel Temer ou por Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, terceiro na linha da sucessão, não parece ser o sonho da maioria dos brasileiros.

Nas últimas décadas, na América Latina, as organizações de base do campo e da cidade suscitaram uma nova proposta de caminho para a sociedade. Baseado no paradigma indígena do Bem Viver coletivo como objetivo do Estado, buscam uma forma nova e mais democrática de um verdadeiro socialismo. Desde o movimento dos índios de Chiapas e os círculos de cultura espalhados pelos bairros de periferia de várias cidades do continente, surgiu a proposta de um novo bolivarianismo. Em 1965, em suas cartas escritas de Roma, durante a última sessão do Concílio Vaticano II, Dom Helder Camara já aludia a esse movimento de integração latino-americana e que se inspira nas propostas de Simon Bolívar, o libertador.  As mesmas elites que, com razão ou sem razão, rejeitam Dilma, Lula e o PT, demonizam ainda mais Hugo Chávez, Nicolas Maduro, Evo Morales, Rafael Correa e qualquer bolivarianismo  que, no continente, queira mudar as desigualdades sociais e ameace os privilégios que a elite sempre teve.

Em meio a tudo isso, é bom saber que o próprio papa Francisco tem se pronunciado a favor das propostas do Bolivarianismo: a  integração latino-americana, a libertação do imperialismo e a busca de um caminho novo para uma sociedade alternativa. Para isso, propôs às Igrejas e à toda sociedade dialogar com os movimentos sociais organizados. Assim, caminharemos para uma nova realidade social, baseada na justiça, paz e comunhão com a nossa casa comum, a Terra.    

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países 

terça-feira, 3 de março de 2015

O QUE É MESMO O BOLIVARIANISMO

Por Marcelo Barros


A versão de alguns meios de comunicação social e de muitos  políticos, empenhados em evitar qualquer transformação libertadora para o povo é que o maior desastre que, atualmente, acontece na América Latina é o Bolivarianismo. Até um ministro do STF afirmou que o risco para o Brasil seria cair no Bolivarianismo. Outro dia, em uma reunião de comunidade eclesial de base, senhoras da periferia se perguntavam: “Que diabo é essa história de Bolivarianismo e por que é tão perigoso?”

Quem, pela primeira vez, me falou de Bolivarianismo foi o arcebispo Dom Helder Camara. Em 1965, em uma carta circular, ele escreveu a seus colaboradores: “Monsenhor Dell´Acqua, secretário do papa (Paulo VI), me recebeu carinhosamente. A problemática da América Latina lhe era familiar. (...) Entende e estimula o novo Bolivarianismo, no sentido do esforço conjunto para a independência econômica do Continente, em articulação sempre maior com o 3º Mundo e abertura para o mundo inteiro”. (68a Circular, Roma 17/ 11/ 1965). Mais tarde, em outras duas cartas, Dom Helder retoma o assunto. Explica que o Bolivarianismo recebeu esse nome da figura de Simon Bolívar, o Libertador, que, no início do século XIX, a partir da Venezuela, conseguiu com seu exército, libertar do império espanhol, quase toda a  América Latina. 

Na memória e na consciência do povo venezuelano, o Bolivarianismo sempre se manteve vivo, mas foi retomado de modo renovado, no começo dos anos 70, em ambientes populares e no meio de jovens militares nacionalistas, em busca de mais justiça social e de um país verdadeiramente independente. A Venezuela vivia uma imensa desigualdade social. Uma pequena elite era dona de todo o país e gozava seus lucros em Miami e Paris. Do estrangeiro, dominavam a imprensa, a companhia de petróleo e todas as riquezas do país. E as Forças Armadas eram usadas como apoio para garantir os privilégios dos mais ricos e como caminho de riqueza e corrupção para oficiais, além de sustentar governos corruptos. Por perceber isso, oficiais da Academia Militar de Caracas começaram a dar aos jovens militares uma formação humanista e crítica a esse sistema. E ali, em 1971, aos 17 anos, entrou Hugo Chávez. Ele vinha de Barinas, interior do país. Era um jovem forte e inteligente. Nesse ambiente que suscitava o diálogo entre militares e intelectuais civis, em pouco tempo, Hugo Chávez passou a conhecer bem a história da Venezuela e da América Latina. Incorporou, em seu coração e para toda a vida, os ideais de Simon Bolívar e de outros homens e mulheres que lutaram pela igualdade social e pela libertação do povo. A partir daí, ele e vários companheiros, criaram nas periferias de Caracas “círculos bolivarianos”. Eram grupos de discussão, parecidos com os “círculos de cultura”, propostos por Paulo Freire em sua metodologia de alfabetização. Espalharam-se por toda Venezuela e, pouco a pouco, se uniram a movimentos populares, camponeses e indígenas que queriam mudar o país. Muitos desses grupos eram comunidades cristãs, animadas por pessoas ligados à Teologia da Libertação[1]. Em 1991, Chávez e seus companheiros tentam tomar o poder e são presos. Quando saem da prisão, vão diretamente para os bairros populares e continuam o trabalho de conscientização e preparação das mudanças. Com o aumento da consciência social e da educação das bases, Hugo Chávez e seus companheiros vencem as eleições democráticas de 1999. Propõem para o país o Bolivarianismo, baseado em três caminhos: 
1o – libertar a Venezuela e toda a América Latina do imperialismo. 
2o – integrar o continente latino-americano em uma comunidade de países independentes, mas unidos.
 3o – caminhar na direção de uma maior igualdade social e um socialismo democrático, a partir das raízes indígenas. A maioria dos venezuelanos acatou a proposta. 

Em menos de dez anos, o povo votou uma nova Constituição Bolivariana. E na América Latina, Chávez suscitou organismos de integração que hoje fazem do nosso continente o único no qual, a partir do ano 2000, a pobreza não aumentou. Segundo a ONU, a Venezuela foi o país latino-americano que mais conseguiu diminuir as desigualdades sociais. No dia 06 de março, os latino-americanos que buscam uma justiça nova para todos, recordam os dois anos do falecimento do presidente Chávez. O povo da Venezuela garante a continuidade do projeto ao qual ele consagrou a vida. E quanto mais a história olhar à distância, mais o colocará como um dos maiores homens do nosso tempo.




[1] - Esses dados são tirados do livro do jornalista norte-americano BART JONES, Hugo Chávez, da origem simples ao ideário da revolução permanente, São Paulo, Novo Conceito, 2008, p. 97. 


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países