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terça-feira, 24 de setembro de 2019

BIBLIOTECA VIVA DA JUSTIÇA E DO AMOR





Por Marcelo Barros

Neste próximo domingo, o último de setembro, as comunidades católicas festejam o Dia da Bíblia. É ocasião para recordarmos o bem que, na Igreja Católica, desde o começo do século XX, o Movimento Bíblico tem feito. Provocou a renovação de todo o jeito de ser da Igreja, de sua missão e da espiritualidade. Foi um dos pilares do Concílio Vaticano II.

A Bíblia nasceu em meio aos empobrecidos de Israel. No entanto, durante séculos, ficou em poder de intelectuais e pessoas abastadas. O medo de heresias e interpretações erradas fazia com que os católicos quase não pudessem ter acesso à Bíblia, a não ser em língua latina. Só a partir de meados do século XX, nos ambientes católicos, se espalharam, em nossas línguas, traduções da Bíblia. Apesar disso, a leitura bíblica ainda era restrita a quem estuda. Quem a interpretava fazia isso a partir do poder.

Em tempos de ditaduras, generais tomavam o poder, jurando sobre a Bíblia. Citando páginas bíblicas, papas e bispos organizaram exércitos para a guerra contra infiéis e queimaram hereges na fogueira. Até hoje, movimentos fundamentalistas e fanáticos se inspiram na Bíblia para defender o patriarcalismo, a homofobia e até mesmo o racismo. Tradicionalistas judeus se apoiam em  textos bíblicos para  apoiar a guerra de Israel contra o povo palestino. O governo dos Estados Unidos usa a Bíblia para justificar imperialismo e opressão. No Brasil e em outros países, pastores cristãos baseiam-se na Bíblia para condenar religiões negras e tradições indígenas. Leem ao pé da letra condenações da Bíblia aos ídolos estrangeiros e as aplicam às religiões dos pobres e oprimidos.

Ecologistas culparam a Bíblia pela destruição da natureza e ameaça à vida no planeta Terra. De fato, a Bíblia, lida ao pé da letra ensina que Deus criou o ser humano como “senhor da criação”, com poder sobre os animais e a terra. Entre todos os seres, o humano seria o único criado “à imagem e semelhança de Deus” (Cf. Gn 1, 28; Sl 8).

De fato, as Igrejas cristãs têm uma dívida enorme com a humanidade. Não basta afirmar que esses males têm sido produzidos por uma leitura equivocada da Bíblia, que em si não justificaria esses males. Lamentavelmente, grande parte da hierarquia católica, de pastores evangélicos e de grupos cristãos de todas as Igrejas ainda pregam o evangelho de forma dogmática e arrogante. Agem de forma que dão razão a quem pensa que a Bíblia é arma para quem suscita violências e sofrimentos à humanidade e ao planeta. É preciso purificar a leitura bíblica e o modo como se fala de Deus. É preciso revelá-lo como Amor e Compaixão e não como um déspota que impõe a sua vontade e castiga impiedosamente quem não o obedece. Tem sido justamente esse o esforço do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), cujo aniversário de 40 anos estamos comemorando nesse ano. Por iniciativa de frei Carlos Mesters e um pequeno grupo de amigos e amigas, o CEBI começou em Angra dos Reios, RJ, por uma roda de conversa entre pessoas que amam a Bíblia. Pouco a pouco, essa iniciativa se espalhou por todo o Brasil e outros países.

O Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) parte do princípio de que a Bíblia é a escritura da palavra de Deus. É como uma partitura musical que só se torna música à medida que é executada. Assim, a Bíblia só se revela palavra divina à medida que é proclamada e vivida nas comunidades.

Jesus agradeceu ao Pai ter escondido os seus segredos aos sábios e entendidos do mundo e os ter revelado aos pequeninos. A eles e elas, Jesus revelou um Deus diferente, Pai que nos ama com amor maternal. Se é Deus, só pode ser amor e misericórdia. Nunca será ser vingativo e intolerante. Quer de nós amor e não nenhum sacrifício. Jesus tinha explicado que não basta espalhar a semente. Ela só será fecunda e dará fruto se cair em terreno favorável.

O CEBI sempre defendeu que o terreno melhor para se ouvir e praticar a palavra de Deus é a comunhão com os mais pobres. É a partir da vida dos oprimidos que, na leitura comunitária e orante da Bíblia, vamos discernindo a  revelação de um projeto divino de justiça, amor e vida para a humanidade e todo o universo. Na América Latina, multidões leem a Bíblia para encontrar força de viver. Em anos recentes, em vários países do continente, muitas pessoas foram presas e assassinadas por terem lido a Bíblia e nela descoberto que deviam consagrar suas vidas à transformação do mundo.

Se continuamos a amar a Bíblia e acolhemos sempre sua mensagem é porque, como lembrava o papa Paulo VI: “para se encontrar a Deus, é fundamental se encontrar o ser humano”.
  

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br  


terça-feira, 23 de julho de 2019

VIVA BOLÍVAR E O BOLIVARIANISMO




Marcelo Barros

Nesses dias, assistimos a Venezuela resistir heroicamente aos ataques do Império norte-americano e à guerra de desinformação que os órgãos de comunicação oferecem contra o que acontece nesse país irmão. Por isso, é importante lembrar a herança que Simon Bolívar nos deixou e a proposta atual do Bolivarianismo para a Venezuela e que pode ser presente divino para todo o continente.

No início do século XIX, Simon Bolívar reuniu um exército para libertar os povos do continente da dominação do império espanhol e integrar os diversos países que se foram unindo em uma única pátria grande. Criou a República da Grande Colômbia que unia Venezuela, Equador, Bolívia, Chile, Peru e a atual Colômbia. Respeitava a autonomia de cada povo, integrado na confederação. Chegou a ajudar no Caribe a consolidação da independência do Haiti, primeiro povo libertado das Américas (1809).

Na Venezuela, durante toda a sua história, o ideal bolivariano sempre foi aceito e admirado por pessoas de todas as classes e de diversas correntes políticas. No entanto, a elite de todos os países sempre encontra formas de pensar a independência para os ricos, mas não para todos.  No mundo, a Venezuela é o segundo maior produtor de petróleo (logo abaixo do Golfo Pérsico). Durante quase duzentos anos, uma pequena elite dominou a Venezuela, entregando o petróleo do país aos Estados Unidos. A Venezuela, rica em petróleo, terra maravilhosa em diversidade de regiões e climas, sofria com imensa desigualdade social.

Desde as últimas décadas do século XX, sob a liderança de Hugo Chávez, o bolivarianismo ressurgiu como proposta de um novo Socialismo democrático e com rosto latino-americano. Esse movimento de retomada dos ideais do Libertador assumiu três metas importantes: 1 -  A integração de todos os povos e estados latino-americanos. 2 - A libertação de todos os colonialismos. 3 - A redução das desigualdades sociais na direção de um novo Socialismo democrático e a partir dos mais pobres.

Na primeira década desse século, mesmo adversários do governo bolivariano, reconheciam que nunca na Venezuela nenhum governo fez tanto pelos mais pobres. O governo implementou um plano de educação para todos, habitação digna e reforma agrária para os lavradores. Um profundo respeito e maior protagonismo social para as comunidades indígenas e afrodescendentes. Maior igualdade de gênero e complementariedade entre homem e mulher.

O governo bolivariano nacionalizou a maior riqueza do país, o petróleo. Determinou que todo o lucro vindo da venda do petróleo servisse à educação, construção de moradias e saúde da população mais pobre do país. Em 2002, a FAO declarou a Venezuela como país livre da fome e do analfabetismo. Dois anos depois, a ONU reconheceu oficialmente que a Venezuela Bolivariana tinha conseguido o índice de menor desigualdade social na América Latina. 

A elite que deixou de lucrar 400 % ao ano e o Império que perdeu sua hegemonia no continente não se conformaram. Principalmente, depois da morte do presidente Chávez (2013), a luta do Império e da elite venezuelana contra o bolivarianismo se acentuou. Comerciantes bloqueiam mercadorias e o Império construiu um bloqueio econômico para asfixiar o país, além da desinformação e todo tipo de mentiras contra o governo bolivariano. O resultado é um país dividido e extremamente violado pela guerra comercial desonesta e pela propaganda. Apesar de toda essa violência e da realidade difícil que os pobres enfrentam, o povo resiste heroicamente e o governo democrático ganha todas as eleições.  

A respeito da integração latino-americana, em julho de 2011, em Caracas, liderados pelo presidente Hugo Chávez, 33 representantes de países irmãos criavam oficialmente a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC) que reúne 33 países da América do Sul, América Central  e Caribe em um caminho de cooperação solidária, integração continental e autonomia frente ao Império.

O Império norte-americano financiou a vitória da direita em vários países latino-americanos e colaborou diretamente com o golpe que derrubou a democracia no Brasil. Assim, os organismos de integração latino-americanos foram destruídos ou simplesmente ignorados. No Brasil, na Argentina e em outros países, governantes voltam a bater continência à bandeira do Império e a ele entregar de graça todas as nossas riquezas.  
Para irmãos e irmãs solidários com a Venezuela e que desejam a integração latino-americana, posso testemunhar duas coisas:

1 – A primeira é que defender o Bolivarianismo não é apenas defender o governo venezuelano. É assumir uma proposta que vem das bases do povo, das comunidades indígenas e afrodescendentes. Em uma de suas circulares, dirigidas a um grupo de amigos e auxiliares, já em 1965, na época do Concílio e escrevendo em Roma, Dom Helder Camara defendia o Bolivarianismo, ao qual o papa Francisco também já aludiu com simpatia.

2 – Mesmo quem tem críticas ao governo venezuelano pode saber que a oposição atual na Venezuela é dez vezes pior em todos os aspectos do que o governo que ela combate e a eventual vitória da oposição fecharia para toda a América Latina qualquer possibilidade de autonomia diante do império norte-americano.

Por tudo isso, é responsabilidade de quem nutre uma espiritualidade libertadora, assumir mesmo que seja criticamente um apoio aos movimentos libertadores latino-americanos.

Em 1815, Simon Bolívar, o libertador da pátria grande que é a América do Sul, em sua “Carta de Jamaica”, considera o elemento religioso como aglutinante da alma americana e formula “a necessidade urgente de uma união de nossos povos, ligados por elementos culturais e religiosos comuns”. Assim, 236 anos depois do nascimento de Simon Bolívar, nesse 24 de julho, com todo o coração e nossa solidariedade ao povo da Venezuela, somos convocados/as para gritar: Viva Simon Bolívar, viva o Bolivarianismo!

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br