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terça-feira, 19 de outubro de 2021

Nomes e vocações da América Latina

 Marcelo Barros


 

No Brasil, quem pergunta às pessoas por que o 12 de outubro é feriado descobre que a maioria das pessoas pensa que é devido ao fato de ser “dia das crianças”. Uma ou outra liga o feriado à Nossa Senhora Aparecida. No entanto, nesta data se recorda a chegada de Cristóvão Colombo e dos europeus no 12 de outubro de 1492. É o motivo pelo qual nos países latino-americanos de língua espanhola, se chama “o dia da raça”. Desde a comemoração do 5º centenário da conquista em 1992, em muitos países do continente, é no 12 de outubro que os movimentos sociais organizam o Grito dos excluídos e excluídas, em sua expressão continental. Essas manifestações sociais têm significado uma articulação de unidade entre movimentos de base nos diversos países do continente. É algo inédito e que retoma o sonho de Simon Bolívar e de José Martí de transformar este imenso continente em uma única “pátria grande”, “Nuestra América”.

De fato, na primeira década deste século XXI, sob a liderança do saudoso presidente Hugo Chávez, os governos mais ligados às bases populares criaram diversos organismos de articulação e diálogo, não só de mercado comum, mas de colaboração nas áreas de saúde, educação e culturas. Agora, há poucos dias, López Obrador, presidente do México, convocou em seu país uma nova reunião de cúpula da CELAC (Confederação de Estados da América Latina e Caribe). A partir desse diálogo, os países membros retomam um caminho comum que, últimos anos, tinha sido interrompido pela ação deletéria de governos golpistas, como, no Brasil, temos tido experiências.

Em todo o continente, podemos celebrar uma bela articulação dos povos originários. Abya Yala era o nome que no seu idioma original, o povo Kuna, natural da Serra Nevada, no norte da Colômbia e atualmente residente na costa leste do Panamá, dá ao conjunto de todas as regiões da atual América. Abya Yala significa “Terra Viva”, ou ainda “Terra que floresce”.

Para os povos andinos, desde a conquista, o mundo está de cabeça para baixo e é necessário reconstituir o Pachacuti, ou seja, o equilíbrio de amor representado pela energia da Pachamama, (que os afrodescendentes chamam de Axé) o amor que fecunda o universo.

Em nossos dias, a civilização ocidental afunda em uma crise multifacetada e com consequências trágicas. Para a sustentabilidade do planeta e a justiça eco-social entre os povos, precisamos de uma nova aliança da humanidade. A redescoberta e o diálogo com as culturas dos povos originários e suas tradições podem ser fonte de sabedoria e bem-viver para todos os seres humanos. No entanto, para que este diálogo possa ser justo e fecundo, é fundamental assumirmos a história e realizarmos uma purificação da memória.

Em cada país e no conjunto do continente, o genocídio dos povos indígenas não foi só uma tragédia do passado. Em janeiro de 2018, em Puerto Maldonado, na Amazônia peruana, o papa Francisco afirmou que, nunca como agora, os povos indígenas tiveram suas culturas e suas existências tão ameaçadas. É essa história que nos mostra de forma profunda o livro “Abya Yala, Genocídio – Resistência – Sobrevivência dos povos originários do atual continente americano” de Marcelo Grondin e Moema Viezzer (Ed. Bambual, 2021). No entanto, o livro mostra também que, a cada dia, a resistência indígena redescobre sua identidade original e quer refazer a energia vital de amor que a conquista e as diversas etapas de colonização violentaram.

Celebremos este 12 de outubro como dia da resistência e da nossa identidade comum. Somos povos irmanados no novo bolivarianismo que consiste na libertação dos imperialismos, integração solidária de todos os povos do continente e caminho para um novo socialismo, baseado na democracia radical do Bem-viver, inspirado nos povos originários. Conforme Dom Helder Camara expressou uma de suas cartas circulares em 1965: “O novo boliviarianismo merece o apoio das Igrejas cristãs e de todas as pessoas que querem testemunhar o amor divino pela humanidade”.

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

 

 

 

terça-feira, 13 de outubro de 2020

AS VEIAS INTERROMPIDAS DA AMÉRICA LATINA

 

por Marcelo Barros

 

A cada 12 de outubro, o continente latino-americano recorda o aniversário da chegada dos colonizadores espanhóis ao continente e o começo da colonização. Para os povos indígenas, invadidos e escravizados pelos colonizadores, a conquista foi uma das mais violentas e cruéis da história. Cálculos atuais mostram que o genocídio contra os índios matou 70 milhões de pessoas (Cf. GRONDINO, Marcelo e VIEZZER, Moema, O maior genocídio da história da humanidade, mais de 70 milhões de vítimas entre os povos originários das Américas, Ed. Toledo, 2018).

Não deixa, então, de ser espantoso que em 2018, em Puerto Maldonado, no Peru, o papa Francisco tenha dito em seu discurso: “Neste momento da história em que vivemos, os povos indígenas estão ameaçados em sua existência humana e cultural, mais do que em outras épocas”.

 Como estratégia para melhor dominar, os conquistadores criaram fronteiras e países diferentes. Por isso, em todas as tentativas e lutas de libertação, sempre esteve presente o sonho da unidade da grande Abya Yala, nome com o qual os povos Maya chamavam o continente. No começo do século XIX, Simon Bolívar, o libertador, chamava o continente: “Nuestra América”. Algumas décadas mais tarde, José Marti, pensador e líder independentista cubano, a chamava de “Pátria grande”. Ambos consagraram as suas vidas a este ideal da independência e da unidade. No entanto, a ideologia dos impérios estava interiorizada em muitos colonizados e a ambição da elite de cada país foi mais forte.  Ainda hoje, países do continente disputam linhas de fronteiras e outras divisões.

Desde o final do século XX, o governo bolivariano do presidente Hugo Chávez na Venezuela e, mais tarde, os governos de Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador, com a colaboração do governo brasileiro na primeira década deste século, coordenaram grande esforço de integração da região. Foram fundados diversos organismos de diálogo e integração do continente, no nível dos governos, no âmbito do comércio e da solidariedade comum. Países como o Equador, a Bolívia e a Venezuela tinham alcançado um novo patamar de distribuição social de renda. Tinham implementado uma justa reforma agrária e priorizavam a participação de todos os cidadãos no destino do país. Desde 2016, isso foi atacado. As veias que faziam do continente um só organismo tiveram sua comunicação interrompida e destruída.

Vários governos atuais de nossos países se orgulham em ser lacaios do Império que quer dominar o continente. O governo dos Estados Unidos não perdoa Cuba e Venezuela por terem se libertado da exploração a que eram submetidos em sua história. Ambos os países são castigados com um bloqueio comercial criminoso. Os Estados Unidos financiam a guerra midiática que diariamente espalha notícias falsas e coloca os próprios povos do país contra seu governo. Cuba e Venezuela resistem, mas a um preço altíssimo. Assim mesmo continuam o seu caminho de solidariedade. Agora na pandemia, ambos nos dão o exemplo de países que cuidam dos seus povos. Além disso, Cuba se esmerou em vencer o bloqueio e mandar médicos para ajudar em vários países do mundo.

No Brasil, o governo é cada vez mais subserviente ao império norte-americano. A elite que sempre se negou a qualquer diálogo de integração volta a usar o fantasma do Comunismo. 

Ao contrário, nestes dias, o papa Francisco publicou a nova carta-encíclica Todos somos irmãos e irmãs. Nesta carta, o papa propõe a humanidade retomar a cultura da solidariedade fraterna, exercitar a amizade social e compreender que os bens indispensáveis à vida devem ser considerados como bens comuns da humanidade e estão acima dos interesses individuais. Essa irmandade universal é realização do projeto divino para o mundo. Qualquer que seja a religião ou caminho espiritual, todas as pessoas que buscam a paz e a justiça eco-social são chamadas a discernir qual passo devemos dar depois dessa pandemia. Mesmo agora,  em meio a todos os torvelinhos da política e para além das pandemias e das tempestades do dia a dia, precisamos testemunhar e colaborar com o desejo divino de ver a humanidade reconciliada como uma só família e em comunhão com o planeta Terra e todos os seres vivos.  

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

  

quinta-feira, 16 de abril de 2020

A FACE SOCIAL DA AMÉRICA LATINA E DO BRASIL




                             Por Frei Betto

Hoje, dos 7,7 bilhões de habitantes do planeta, 569 milhões  vivem na América Latina. Segundo a Oxfam, a pandemia deve aumentar o número de pobres em nosso Continente, de 162 milhões para 216 milhões, mais 54 milhões de pessoas com renda diária inferior a US$ 5,5. Na extrema pobreza sobrevivem, atualmente, 67,5 milhões. Número que poderá chegar a 90,8 milhões.

A pandemia com certeza afetará o comércio internacional, em especial a navegação mercante. O declínio da produção na China já afeta diretamente Brasil, México, Chile e Peru. Como evitar aglomerações em um navio que passa dias em alto mar? As infecções em cruzeiros marítimos foram comuns. Portanto, é possível que o transporte de alimentos de um país a outro sofra considerável redução, seja porque o exportador haverá de segurar sua safra para a população local, seja porque o importador verá diminuir o fluxo de envio de cargas e, se conseguir comprar, terá de pagar preços exorbitantes. Em resumo, isso significa aumento da fome no mundo.

       Segundo a Oxfam, a pandemia poderá jogar mais de 500 milhões de pessoas na pobreza, caso os governos não criem com urgência sistemas de renda mínima e de proteção social. O número de pessoas que poderão passar a ter renda diária inferior a US$ 5,5 aumentaria dos atuais 3,38 bilhões para 3,9 bilhões, ou seja, mais 547 milhões.

Em 2019, enquanto a economia global cresceu em média 2,5%, o PIB da América Latina oscilou 0,1%, ficou estagnado. A  Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) prevê que a queda em 2020 será de 1,8%.

Dados do Banco Mundial, divulgados nos primeiros dias de abril, revelam que, no Brasil, o total de pessoas em extrema pobreza (que sobrevivem com menos de US$ 1,90 por dia) saltou de 9,250 milhões em 2017 para 9,300 milhões em 2018. A renda mensal dessas famílias não ultrapassava, em 2019, R$ 150.

       O aumento da miséria no Brasil se deve à combinação entre baixa escolaridade e poucas oportunidades de empregos. A taxa de desemprego entre os extremamente pobres é de 24%. Ou seja, uma em cada quatro pessoas desse grupo que buscam trabalho não consegue se empregar. Hoje, mais de 12 milhões de brasileiros estão desocupados.

Isso aumenta a taxa de desalento desse grupo. É o que demonstra a fila de espera de 1 milhão de pessoas para ingressar no Bolsa Família, que hoje atende 14 milhões de famílias, cerca de 60 milhões de pessoas. O que comprova o fracasso das políticas públicas para superar a crise da economia que afeta o Brasil nos últimos anos.

Entre 2014 e 2018, a população que sobrevivia em condição de miséria no Brasil aumentou 67%. Entre 15 países do Continente, só houve piora nesse indicador na Argentina, Equador e Honduras, além do Brasil. Já em países como Uruguai, Peru e Colômbia, a extrema pobreza foi reduzida. No México, o número de pessoas sobrevivendo na miséria recuou de 4,6 milhões (2014) para 2,2 milhões (2018).

       Em 2017, 19 milhões de brasileiros tinham renda individual de US$ 3,20 (R$ 253 por mês, na cotação da época). Em 2018, esse contingente subiu para 19,2 milhões. Já na faixa dos que tinham renda diária de US$ 5,50 (R$ 434 mensais) houve  recuo: de 42,3 milhões de pessoas em 2017, passou para 41,7 milhões em 2018.

Isso demonstra que, como sempre acontece, a crise afetou principalmente os mais pobres. Entre os extremamente pobres,  40% vivem na zona rural, e apenas 1/3 dessas famílias tem alguma renda do trabalho, segundo o Banco Mundial.

Já a classe média deu sinais de recuperação. As famílias que vivem com menos de US$ 5,50 por dia moram, em geral, em cidades e 80% têm emprego. A maioria é autônoma e sem carteira assinada, enquanto 25% trabalham no setor formal e contam com benefícios, como salário família e abono salarial.

O Brasil viveu profunda recessão entre 2014 e 2016. A partir daí teve início uma tímida recuperação. Com a pandemia, esse quadro tende a cessar e se agravar, aumentando a pobreza e a miséria.

A população pobre, que depende mais da renda informal, será a mais prejudicada pelo isolamento social imposto pela pandemia. A menos que as medidas anunciadas pelo governo, como a ampliação do Bolsa Família e a renda básica de R$ 600 aos mais pobres, realmente funcionem.

A crise deve aprofundar também a desigualdade de renda. Segundo o Banco Mundial,  em 2018 aumentou a distância entre ricos e pobres. Os que detêm 20% da  renda do país recuperaram suas perdas. Se não forem adotados mecanismos de proteção social, como a renda mínima, a situação tende a se agravar.

A esperança é que a pandemia, que não faz distinção de classe, ensine que o Estado tem, sim, papel preponderante para assegurar aos mais pobres e vulneráveis uma ampla e eficiente rede de proteção social. Menos ajuste fiscal e mais justiça social.

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros.

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

NOSSA AMÉRICA LATINA





                                                   por  Frei Betto

  
        A América Latina, com 638 milhões de habitantes, é hoje a região de maior desigualdade no mundo. Após uma década de redução da pobreza e da desigualdade, os índices voltam a preocupar, devido à sonegação fiscal e o corte de programas sociais. Como as economias nacionais retrocederam, hoje 20% da população são considerados vulneráveis. E 122 milhões de pessoas que deixaram a pobreza, mas não conseguiram se incluir na classe média, podem perder o pouco que obtiveram. 
        Em 2002, 44,5% dos latino-americanos viviam na pobreza, dos quais 11,2% na miséria. Hoje, entre a pobreza e a miséria vivem 30% da população do Continente, ou seja, 210 milhões de pessoas.
        Nenhum outro continente foi tão oprimido quanto o americano. Na Ásia predominam olhos puxados. Na África, a população negra. Aqui escasseia quem possua traços indígenas. Já no primeiro século da colonização continental calcula-se que 70 milhões de índios foram massacrados pelos colonizadores europeus.
        Desde 2014 há forte queda da participação latino-americana no comércio mundial, e redução relativa do preço dos principais produtos sul-americanos. Alguns países puxam o aumento da desigualdade na região: de longe, a Venezuela, pela recessão econômica sem precedentes, e também Brasil e Argentina. 
       Graças a governos progressistas instalados no Continente a partir de 1998, desde 2003 mais de 72 milhões de latino-americanos deixaram a pobreza, segundo dados da Oxfam. Isso ocorreu devido ao aumento do salário mínimo e dos gastos públicos em políticas sociais, e o aprimoramento da educação fundamental.
       Esse reempobrecimento da população decorre não apenas de fatores econômicos, como o fim do boom das commodities, mas também de redução das políticas sociais, em especial nos países afetados por golpes parlamentares, como Honduras, Paraguai e Brasil, e que nos últimos anos foram governados por presidentes neoliberais, como Argentina e Chile.     
        Em matéria de educação, o Brasil ainda não atingiu o patamar médio dos países latino-americanos. Aqui os alunos do ensino médio permanecem na escola cerca de quatro horas por dia. A média continental é de seis horas.
       A América Latina não encontrou ainda  seu modelo de desenvolvimento sustentável. Todos os países continuam na dependência de suas exportações, ou seja, sujeitos aos interesses das nações metropolitanas e às oscilações do mercado. 
       O Continente não terá futuro enquanto não alcançar justiça fiscal, ou seja, o imposto progressivo (quem ganha mais, paga mais), a redução da corrupção e o aumento dos gastos em políticas sociais.
        No Brasil, o retrocesso nos índices sociais aumenta com a aprovação das reformas trabalhista e previdenciária, que cortaram substancialmente direitos conquistados nas últimas sete décadas. Levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), com base em dados do Portal do Orçamento do Senado, publicado em julho, demonstra que os cortes de verbas promovidos por Bolsonaro nos seis primeiros meses de governo pouparam setores historicamente privilegiados como Legislativo e Judiciário, e se concentraram em áreas relacionadas com a garantia de direitos humanos. Habitação, educação, defesa e direitos da cidadania foram as áreas mais atingidas pela política de cortes de recursos que, de janeiro a junho deste ano, já somam R$ 31 bilhões. Isso significa menos emprego, menos moradia, menos saúde e educação, menos pão na mesa do brasileiro.

Frei Betto é escritor, autor de “Ofício de escrever” (Rocco), entre outros livros.
  
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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019



Por Marcelo Barros

O que adianta a ONU consagrar a cada ano o 20 de fevereiro como dia mundial da justiça social se aceita que a desigualdade social e econômica seja cada vez mais escandalosa e brutal? Não é possível se esperar justiça social em um mundo no qual 60 famílias possuem o equivalente à renda de mais de três bilhões de pessoas, isso é, a metade de toda a população mundial. Na América Latina, na primeira década desse século, alguns governos progressistas e mais ligados aos pobres conseguiram diminuir a pobreza e reduzir a desigualdade social. Na segunda metade dessa década, por eleições mais ou menos democráticas, ou através de golpes de Estado, o Império e seus aliados conseguiram retomar o poder no continente. A partir de então, todos os índices sociais se agravaram com o aumento da pobreza e da desigualdade social.   
Há nove anos, em Caracas, o presidente Hugo Chávez fundava a  CELAC, Comunidade de Estados da América Latina e Caribe. Era uma comunidade de 33 países independentes. A CELAC representa quase 600 milhões de pessoas, habitantes da América Latina e Caribe. Ali se discutiam os problemas que afetam o mundo e especificamente a América Latina e Caribe. Integrava-se com outros organismos como a ALBA (Aliança Bolivariana Latino-americana) para a integração econômica dos países e a UNASUL, União das Nações da América do Sul. A primeira providência dos novos governantes de direita, assim que assumiram o poder no Paraguai, no Brasil, na Argentina, no Equador e em outros países, foi esvaziar e destruir os organismos de integração continental para retomar a relação de dependência e subserviência ao patrão imperial.

A eles pouco importa que a pobreza extrema atinja atualmente quase 10% da população latino-americana e chegue a quase 20% no Caribe. O Haiti continua o país mais pobre do continente e é um dos dois mais empobrecidos e explorados do mundo. Além disso, apesar de que o continente tem uma das maiores quantidades de terras cultiváveis e férteis do planeta, atualmente serve como palco de imensa destruição da natureza, provocada pelas empresas de mineração. Afinal, 65% das reservas de todo o lítio do mundo estão na Bolívia e Peru, assim como as maiores reservas de estanho. O Brasil guarda uma das mais ricas reservas de ferro, o Chile é um imenso depósito de cobre. O México tem 42% das minas de prata do mundo. Mas, embora não sejamos de nenhum modo favoráveis à destruição dos territórios para fins de mineração, o pior ainda é que tudo isso está servindo apenas para enriquecer empresas multinacionais e uma pequena elite que delas se beneficiam. Não resultam de modo algum em melhoria de vida para a população do país, menos ainda para os trabalhadores explorados nessas minas. Acima de tudo, é catastrófica a destruição das florestas, terras férteis e rios que abastecem de água regiões inteiras do país. No dia 25 de janeiro, o rompimento da barragem de dejetos da Vale do Rio Doce em Brumadinho, MG,  nada teve de acidente. Era uma tragédia prevista e anunciada. Apesar de saber dos riscos, a empresa preferiu ganhar dinheiro sobre a destruição de toda a natureza em uma imensa região afetada e a perda de centenas de vidas humanas. 

Há décadas, Eduardo Galeano escreveu “As veias abertas da América Latina” para denunciar a situação de exploração da terra e dos povos do continente, assim como a dependência que mantínhamos em relação aos impérios do mundo. Atualmente, com a atual investida do Império, a dominação das empresas multinacionais que ditam as leis do mercado e governos que não representam as maiorias da população, as veias da América Latina continuam abertas e sangrando. Mais do que isso: estão sendo objeto de verdadeiro processo de vampirização, bem simbolizado nos antigos filmes de terror.

Nossa única esperança é que a própria sociedade civil e as suas organizações sociais se unam e articulem em uma ação cidadã para velar por estruturas mais justas. É urgente a consolidação de processos que fortaleçam a articulação das diversas categorias de trabalhadores/as, em vista de uma forma nova e alternativa de organização social e de democracia participativa.

Nas Igrejas cristãs, apesar dos setores que, em nome de Deus, se aliam à direita e aos que oprimem os pobres, a palavra de Jesus no evangelho continua ecoando e provocando mudanças: “O sopro divino veio sobre mim e me envia a anunciar a libertação de todas as pessoas oprimidas” (Lc 4, 14ss). A luta pela justiça social só se dará de verdade a partir da libertação que, como afirmaram os bispos católicos em Medellín (1968) é “libertação de cada pessoa humana em todas as suas dimensões pessoais e libertação de toda a humanidade (Med. 5, 15).


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 25 de julho de 2017

A AMÉRICA LATINA E A FÉ

por Marcelo Barros


Para os povos da América Latina e Caribe, o mês de julho traz recordações históricas importantes. No 26 de julho de 1953, ao conquistar o quartel de Moncada, Fidel Castro e seus companheiros iniciavam a vitória da revolução cubana contra a ditadura de Fulgencio Batista, apoiado pelo governo dos Estados Unidos. No 19 de julho de 1980, os sandinistas entraram vitoriosos em Manágua e derrotaram definitivamente a ditadura de Somoza.

Essas datas são marcantes. No entanto, para os cristãos latino-americanos, certamente a memória mais  básica é a de que, em 17 de julho de 1566, falecia Bartolomeu de las Casas, primeiro bispo de Chiapas, no sul do México. Ele foi o grande defensor da dignidade dos índios contra o sistema colonizador e escravagista. Era um senhor de escravos que se converteu à fé cristã e se tornou frade dominicano. Ele constatou que os povos indígenas estavam sendo dizimados e os sobreviventes escravizados, pelos conquistadores espanhóis e em nome da fé cristã. Isso o fez defender a dignidade dos índios contra a escravidão. Diante do rei da Espanha e do delegado do papa, ele pregou: nos corpos dos índios escravizados, é o próprio Jesus Cristo que é explorado e maltratado pelos que se dizem cristãos.

Ao olhar a história, cinco séculos depois, podemos lamentar que, ao protestar contra a escravidão indígena, Las Casas não tenha sabido denunciar o próprio sistema colonizador. Alguns até o acusam de ter aceito que a escravidão dos índios nas minas de prata e nos engenhos de cana de açúcar fosse substituída pelo tráfico e escravidão dos negros africanos. Essa acusação não procede porque, ao morrer em 1566, Las Casas não chegou a antever esse problema. O tráfico de africanos sequestrados para ser escravos na América só floresceu a partir das últimas décadas do século XVI. Seja como for, em nossos dias, os escritos desse grande missionário são referência para uma nova concepção intercultural de missão e de leitura da história a partir das vítimas e não dos vencedores. 

Atualmente, tem sido difundida uma espiritualidade cristã que se chama  lascasiana.  Compreende a missão não como conquista de adeptos e sim como diálogo que valoriza a presença divina em toda realidade humana. Por isso, respeita a diversidade das culturas. A espiritualidade se fundamenta na realidade e tem como objetivo não a religião em si e sim a vida de todas as pessoas, especialmente aquelas que têm sua dignidade humana não reconhecida e seus direitos humanos espezinhados.
Ainda em nossos dias, aqui no Brasil, povos indígenas continuam massacrados, vítimas de um modelo de progresso que olha os índios como estorvo para a concentração de terras, o agronegócio e os lucros das grandes empresas. Nesse ano, no Mato Grosso do Sul e no Maranhão, a perseguição aos povos indígenas fez diversas vítimas. Em abril, o massacre de índios Canela e um filme francês sobre a perseguição aos Guarani Kaiowá foram notícias em todo o mundo.

Las Casas nos recorda que defender a vida e a liberdade dos índios, além de ser uma questão de justiça humana é também uma exigência espiritual da fé cristã. O papa Francisco tem repetido que não devemos aceitar projetos de desenvolvimento que não levem em consideração o respeito aos índios, aos migrantes e a todos os empobrecidos do mundo, vítimas desse sistema que, como diz o papa, "é assassino". Em 1815, Simon Bolívar, o libertador da pátria grande que é a América do Sul, em sua “Carta de Jamaica”, considera o elemento religioso como aglutinante da alma americana. Ali, ele formula “a necessidade urgente de uma união de nossos povos, ligados por elementos culturais e religiosos comuns”. Viver isso hoje é retomar uma espiritualidade lascasiana atualizada e libertadora.


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

RETROCESSOS NA AMÉRICA LATINA


Por Frei Betto



      A vitória eleitoral de Macri, novo presidente da Argentina, é mais um passo da América Latina rumo ao neoconservadorismo. O processo de desmonte das políticas neoliberais, tão em voga nas décadas de 1980 e 1990, teve início com a eleição de Chávez na Venezuela, em 1998.

      Em seguida, foram eleitos vários presidentes progressistas: Lula no Brasil, Lugo no Paraguai, Zelaya em Honduras, Funes em El Salvador, Bachelet no Chile, Morales na Bolívia, e Mujica no Uruguai. Cuba e Nicarágua foram pioneiras nesse processo.
      Esse avanço neutralizou a proposta da Alca e favoreceu a criação de instituições de articulação regional e continental, como Aliança Bolivariana, Unasul, Celac, e fortaleceu o Mercosul.

      No conjunto da América Latina, as condições sociais melhoraram significativamente, com a redução da miséria absoluta.

      Ser de esquerda em um mundo dominado pela direita é quase como se manter virgem no bordel. A ascensão das forças progressistas na América Latina, na virada dos séculos XX e XXI, despontou como a ocasião de desmontar a tese de Robert Michels (1911), de que todo partido de esquerda que trafega nas vias da legalidade burguesa é inevitavelmente cooptado por ela.

      Em dois países a direita enveredou pelo atalho do golpismo, e interrompeu a possibilidade de reformas pela via democrática: Honduras (2009) e Paraguai (2012). Nos demais, a direita tem sido beneficiada por erros dos governos progressistas.
      Com exceção de Cuba e da Bolívia, todos eles acreditaram poder segurar o violino com a esquerda e tocar com a direita... O que se vê é um concerto desafinado.

      Ainda que políticas sociais tenham sido implementadas com êxito e livrado milhões de pessoas da miséria, as reformas estruturais, quando feitas (infelizmente não é o caso do Brasil), não foram suficientes para criar um modelo alternativo ao neodesenvolvimentismo consumista.

      A economia permaneceu com todas as suas características neocoloniais, de exportação de produtos primários, agora denominados commodities. Não se criou um mercado interno sustentável, nem se reduziu a desigualdade social, ainda que tenha havido aumento do poder aquisitivo dos pobres.

      O erro principal, porém, foi não complementar a inclusão econômica com a inclusão política. Os benefícios aos mais pobres vieram como iniciativa do Estado e não como conquista do povo. Não se organizou politicamente o pobretariado. Não se conscientizou o oprimido. Não se fez da grande massa de eleitores protagonistas políticos. A exceção é a Bolívia, onde há o mais consistente governo progressista da América Latina. E o é justamente por priorizar, no arco de alianças políticas, os movimentos sociais.

      A Argentina pode ser a primeira peça do dominó a tombar. Brasil e Venezuela se destacam no alvo dos neoliberais.

      Em um mundo que, ameaçado pelo terrorismo, troca a liberdade pela segurança, e cujo poder financeiro (especulação) se sobrepõe ao industrial (produção), e no qual a ambição de consumo prevalece sobre o direito à cidadania, os governos progressistas se omitiram quanto à única via capaz de garantir-lhes sustentabilidade: formação e organização política de suas bases eleitorais. Muitos partidos se deixaram contaminar pela corrupção, e não cuidaram da “alfabetização política”.

      Eis que o sonho ameaça virar pesadelo. A menos que a esquerda perca a vergonha de ser de esquerda.

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

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terça-feira, 13 de outubro de 2015

NOSSA GRANDE PÁTRIA

Por Marcelo Barros


Essa semana começou por um feriado comum a toda a América Latina. Nos países de língua hispânica, o 12 de outubro recorda a chegada dos colonizadores espanhóis ao continente e o começo da colonização. Os impérios chamaram esse fato “o encontro de dois mundos”. Para os povos indígenas, invadidos e escravizados pelos colonizadores, foi mais um violento atentado a todos os direitos humanos do que uma descoberta ou integração. Fez parte da astúcia dos conquistadores dividir para melhor governar. Eles colocaram os povos do continente uns contra os outros e criaram fronteiras para melhor dominá-los. Sempre que surgiu algum movimento de libertação dos povos explorados, seus líderes compreenderam: o primeiro passo para isso é a integração e a unidade de todo o continente. Nesse sentido, no começo do século XIX, Simon Bolívar, o libertador, chamava o continente: “Nuestra América” e algumas décadas mais tarde, José Marti, pensador e líder independentista cubano, a chamava de “Pátria grande”. Apesar de todas as tentativas de integração, até aqui a ideologia dos impérios e a ambição da elite de cada país foram mais fortes. Ainda hoje, países do continente disputam linhas de fronteiras. Há divisões sobre o direito ao  acesso da Bolívia ao mar.

Nesses dias, a Venezuela enfrenta conflitos dolorosos com vizinhos mais ligados aos interesses do império do que à preocupação com a unidade continental.

Atualmente, no Brasil, os movimentos sociais sabem que, além das questões nacionais que dividem partidários do governo e a oposição ligada aos grandes meios de comunicação, existe para a direita organizada o fantasma do que eles chamam de bolivarianismo, mesmo sem saber bem do que estão falando. O governo brasileiro, mesmo nos bons tempos do PT, nunca assumiu de modo claro, os pressupostos do processo bolivariano que levou a Bolívia, o Equador e a Venezuela a um novo patamar de distribuição social de renda, reforma agrária e participação de todos os cidadãos no destino do país. No entanto, mesmo sem se engajar profundamente no processo, colaborou com os esforços de integração do comandante Hugo Chávez. Não precisou da mediação do papa Francisco para entrar em diálogo com o governo cubano e colaborar de várias maneiras para pôr fim ao bloqueio assassino que isolou Cuba do resto da “pátria grande”. Por causa dessa política externa, hoje, temos a ALBA (Aliança Bolivariana dos Povos da América) no lugar dos tratados de livre comércio impostos pelos Estados Unidos. E a CELAC (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos) tem mais força e credibilidade do que a velha OEA, ainda dominada pelos interesses do império. Por tudo isso, o Império norte-americano não perdoa e paga seus funcionários para desacreditar os governos progressistas latino-americanos e mesmo os que timidamente como fez o governo brasileiro ousou sair de sua proteção opressora.

Há 25 anos, um pequeno mas eficiente instrumento da integração cultural dos povos do continente tem sido a Agenda Latino-americana. É um livro publicado em forma de agenda porque relembra o que se comemora a cada dia do ano e deixa um espaço para que cada pessoa ou grupo planeje sua atividade naquele dia, semana ou mês. No entanto, a Latino-americana é mais do que uma agenda comum. Ela propõe um tema para cada ano e convida intelectuais e militantes do mundo inteiro ligados/as à América Latina para tratar desse assunto a partir de diversos enfoques e sempre na linha do “ver, julgar e agir”.

A Agenda Latino-americana se tornou mundial. Sem deixar de ser pensada a partir da América Latina, procura olhar o seu tema em uma perspectiva que une o continente e o mundo. Nesse ano, a Latino-americana 2016 tem como tema geral “Desigualdade e Propriedade”. Como sempre começa por uma carta introdutória, assinada por Dom Pedro Casaldáliga e José Maria Vigil. E nos apresenta 50 textos de autores/as diferentes que nos fazem refletir e nos convidam a assumir propostas de esperança e transformação do mundo. Uma novidade é integrar entre os autores as propostas do papa Francisco, proclamadas no seu 2o encontro com os/as representantes de movimentos sociais na Bolívia. No Brasil, a Agenda Latino-americana é editada pela Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil que tem sede em Goiânia.

Agenda significa um programa para o próximo ano. O das pessoas que seguem uma espiritualidade ligada à realidade é discernir, em meio a todos os torvelinhos da política e as tempestades do dia a dia, como testemunhar e colaborar com a agenda de Deus (paz, justiça e cuidado com a Terra) a se realizar no mundo e nas nossas vidas.


terça-feira, 3 de março de 2015

O QUE É MESMO O BOLIVARIANISMO

Por Marcelo Barros


A versão de alguns meios de comunicação social e de muitos  políticos, empenhados em evitar qualquer transformação libertadora para o povo é que o maior desastre que, atualmente, acontece na América Latina é o Bolivarianismo. Até um ministro do STF afirmou que o risco para o Brasil seria cair no Bolivarianismo. Outro dia, em uma reunião de comunidade eclesial de base, senhoras da periferia se perguntavam: “Que diabo é essa história de Bolivarianismo e por que é tão perigoso?”

Quem, pela primeira vez, me falou de Bolivarianismo foi o arcebispo Dom Helder Camara. Em 1965, em uma carta circular, ele escreveu a seus colaboradores: “Monsenhor Dell´Acqua, secretário do papa (Paulo VI), me recebeu carinhosamente. A problemática da América Latina lhe era familiar. (...) Entende e estimula o novo Bolivarianismo, no sentido do esforço conjunto para a independência econômica do Continente, em articulação sempre maior com o 3º Mundo e abertura para o mundo inteiro”. (68a Circular, Roma 17/ 11/ 1965). Mais tarde, em outras duas cartas, Dom Helder retoma o assunto. Explica que o Bolivarianismo recebeu esse nome da figura de Simon Bolívar, o Libertador, que, no início do século XIX, a partir da Venezuela, conseguiu com seu exército, libertar do império espanhol, quase toda a  América Latina. 

Na memória e na consciência do povo venezuelano, o Bolivarianismo sempre se manteve vivo, mas foi retomado de modo renovado, no começo dos anos 70, em ambientes populares e no meio de jovens militares nacionalistas, em busca de mais justiça social e de um país verdadeiramente independente. A Venezuela vivia uma imensa desigualdade social. Uma pequena elite era dona de todo o país e gozava seus lucros em Miami e Paris. Do estrangeiro, dominavam a imprensa, a companhia de petróleo e todas as riquezas do país. E as Forças Armadas eram usadas como apoio para garantir os privilégios dos mais ricos e como caminho de riqueza e corrupção para oficiais, além de sustentar governos corruptos. Por perceber isso, oficiais da Academia Militar de Caracas começaram a dar aos jovens militares uma formação humanista e crítica a esse sistema. E ali, em 1971, aos 17 anos, entrou Hugo Chávez. Ele vinha de Barinas, interior do país. Era um jovem forte e inteligente. Nesse ambiente que suscitava o diálogo entre militares e intelectuais civis, em pouco tempo, Hugo Chávez passou a conhecer bem a história da Venezuela e da América Latina. Incorporou, em seu coração e para toda a vida, os ideais de Simon Bolívar e de outros homens e mulheres que lutaram pela igualdade social e pela libertação do povo. A partir daí, ele e vários companheiros, criaram nas periferias de Caracas “círculos bolivarianos”. Eram grupos de discussão, parecidos com os “círculos de cultura”, propostos por Paulo Freire em sua metodologia de alfabetização. Espalharam-se por toda Venezuela e, pouco a pouco, se uniram a movimentos populares, camponeses e indígenas que queriam mudar o país. Muitos desses grupos eram comunidades cristãs, animadas por pessoas ligados à Teologia da Libertação[1]. Em 1991, Chávez e seus companheiros tentam tomar o poder e são presos. Quando saem da prisão, vão diretamente para os bairros populares e continuam o trabalho de conscientização e preparação das mudanças. Com o aumento da consciência social e da educação das bases, Hugo Chávez e seus companheiros vencem as eleições democráticas de 1999. Propõem para o país o Bolivarianismo, baseado em três caminhos: 
1o – libertar a Venezuela e toda a América Latina do imperialismo. 
2o – integrar o continente latino-americano em uma comunidade de países independentes, mas unidos.
 3o – caminhar na direção de uma maior igualdade social e um socialismo democrático, a partir das raízes indígenas. A maioria dos venezuelanos acatou a proposta. 

Em menos de dez anos, o povo votou uma nova Constituição Bolivariana. E na América Latina, Chávez suscitou organismos de integração que hoje fazem do nosso continente o único no qual, a partir do ano 2000, a pobreza não aumentou. Segundo a ONU, a Venezuela foi o país latino-americano que mais conseguiu diminuir as desigualdades sociais. No dia 06 de março, os latino-americanos que buscam uma justiça nova para todos, recordam os dois anos do falecimento do presidente Chávez. O povo da Venezuela garante a continuidade do projeto ao qual ele consagrou a vida. E quanto mais a história olhar à distância, mais o colocará como um dos maiores homens do nosso tempo.




[1] - Esses dados são tirados do livro do jornalista norte-americano BART JONES, Hugo Chávez, da origem simples ao ideário da revolução permanente, São Paulo, Novo Conceito, 2008, p. 97. 


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países