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sábado, 4 de dezembro de 2021

Santos e Heróis do Povo

 


                                                                           


Prof. Martinho Condini

 

Em 25 de novembro (dia em que se comemorou os 86 anos da Intentona Comunista de 1935) a Comissão de Educação do Senado inscreveu o nome do Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

O fato em si causa muita alegria a freireanas, freireanos e demais admiradores de sua obra e história.

O educador Paulo Freire aparece neste livro em pleno desgoverno do Capetão Cloroquina. Período em que estamos tendo uma sistemática desconstrução de Paulo Freire nas redes sociais de maneira grotesca e ignorante. Nessa conjuntura estar neste livro é uma conquista importante não só para Freire, mas para todas e todos que de alguma maneira estão envolvidos com sua história, sua obra, mas principalmente com a sua práxis, ou melhor, com a práxis freireana.

Vale a pena lembrar que neste ano das comemorações do seu centenário, foram centenas as homenagens a Paulo Freire no Brasil e no mundo.

Como indagou um amigo em um grupo de uotesape:

Será que Paulo Freire queria ser visto como Herói da Pátria?

Vou mais além, será que Freire queria estar neste livro?

Acredito que seria interessante que Paulo Freire desse uma olhadinha no livro antes de entrar, talvez ele poderia se sentir desconfortável ao lado de alguns nomes que possam estar lá. Mas acredito que alguns nomes que estão lá muito lhe agrade, como: Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Sepe Tiaraju, Anna Nery, Anita Garibaldi e Chico Mendes dentre outros.

Mas fico pensando como Freire se sentiria em estar no livro junto com os principais militares que comandaram a carnificina da Guerra do Paraguai, dentre eles: marechal carioca Luís Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias), Almirante Joaquim Marques Lisboa (Almirante Tamandaré), Almirante Francisco Manuel Barroso (Almirante Barroso), Marechal Luiz Osório, Brigadeiro Antonio Sampaio, estão todos lá.

Sinto falta neste livro dos soldados brasileiros que foram para as batalhas dessa estúpida guerra, será que é porque a maioria dos soldados eram negros? A eles foi prometida a liberdade ao retornarem, mas ela nunca ocorreu. Muito pelo contrário, muitos desses negros que participaram dessa guerra foram assassinados pelo próprio governo brasileiro, para não lhes dar a liberdade. 

Tenho minhas dúvidas se Freire gostaria de estar no mesmo livro que Dom Pedro I, Marechal Deodoro da Fonseca, Padre José de Anchieta e o ditador Getúlio Vargas (que entregou Olga Benário aos nazistas, grávida, e após o nascimento da criança foi enviada para a câmara de gás).

Mas estou convencido que Paulo Freire ficaria muito contente e satisfeito se o seu nome fosse incluído num outro livro. O de um grande amigo e companheiro que o levou para trabalhar na PUCSP quando ele voltou do exílio após 16 anos, e lá lecionou por 17 anos, até o seu falecimento.

 Me refiro ao arcebispo de São Paulo,  Dom Paulo Evaristo Arns, que escreveu o livro Santos e Heróis do Povo, que numa suposta reedição com certeza teria o nome de Paulo Freire. Aí sim acredito que Freire estaria verdadeiramente homenageado e entre as suas companheiras e companheiros de luta e resistência.

 O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

PAULO VI E OSCAR ROMERO PROCLAMADOS SANTOS




Por Frei Betto

       O papa Francisco elevou aos altares da Igreja Católica dois novos santos, o papa Paulo VI, que ocupou a cátedra de Pedro por 15 anos (1963-1978), e monsenhor Oscar Ranulfo Romero, arcebispo de San Salvador assassinado a tiros pela ditadura de seu país, em 24 de março de 1980.

       Nutro gratidão pelos dois. Sob o pontificado de Paulo VI um grupo de frades dominicanos brasileiros foi preso, em 1969, pelo regime militar, conforme mostra o filme “Batismo de sangue”, dirigido por Helvécio Ratton, e baseado em livro de minha autoria editado pela Rocco.

       Alguns cardeais e bispos abraçaram a versão policial tão logo fomos detidos, acusados de “terroristas”. Não foi o caso de nossos superiores em Roma. Vieram nos visitar na prisão e, convencidos do arbítrio ditatorial, mantiveram informado o papa Paulo VI. Este nos presenteou com um rosário feito de sementes de azeitonas do Horto das Oliveiras, em Jerusalém, e um afetuoso cartão manuscrito. E leu minhas cartas da prisão, editadas na Itália antes mesmo de serem publicadas no Brasil.

       Contrariado com o fato de o cardeal Agnelo Rossi, de São Paulo, haver assumido a versão dos algozes e negar que houvesse torturas no Brasil, Paulo VI o removeu do país e, para o seu lugar, nomeou Dom Paulo Evaristo Arns. Este nos deu todo apoio, e se destacou com um dos mais corajosos defensores dos direitos humanos, como o comprovam sua atuação no caso Vladimir Herzog e na autoria, junto com o reverendo Jaime Wright, do clássico livro “Brasil, nunca mais” (Vozes), no qual são denunciados os métodos hediondos do regime militar.

       Paulo VI coleciona, entre outros méritos, os de ter dado continuidade ao Concílio Vaticano II, convocado por seu antecessor, João XXIII, e que impulsionou a renovação da Igreja Católica, e publicar a encíclica “Populorum progressio” (1967), documento pilar da teologia da libertação, que ressalta a dimensão política da fé cristã e acentua o conceito de pecado social.

       Conheci monsenhor Romero em janeiro de 1979, na cidade mexicana de Puebla, durante a conferência episcopal latino-americana, inaugurada pelo papa João Paulo II. Presenteei-lhe com minhas “Cartas da prisão” (Fontanar). Perseguido pelos militares que governavam El Salvador, ele agradeceu: “É possível que eu tenha de aprender a escrever cartas assim”, disse sorrindo.

       Não teve tempo. Foi assassinado, em plena celebração eucarística, por quem acreditava que a força das armas tem o poder de silenciar a força da verdade.

       Monsenhor Romero era um bispo conservador, vinculado à elite de seu país, e preconceituoso em relação à teologia da libertação. Desconfiado das aulas bíblicas de um sacerdote progressista, postou-se atrás da cortina do auditório para confirmar, de ouvido próprio, as heresias exegéticas do palestrante. O efeito resultou contrário. O arcebispo se convenceu de que a leitura da Bíblia pela ótica dos oprimidos aproxima a fé da essência da revelação divina. E se tornou vez e voz daqueles que, em El Salvador, foram privados de direitos, liberdade e vida.

       Canonizar um cristão, proclamar a sua dignidade de santo, não significa exaltá-lo à perfeição. Somos todos limitados e marcados pelo pecado. A Igreja considera santidade o fato de esses cristãos terem sido testemunhas dos valores evangélicos. Seguiram com ousadia o caminho indicado por Jesus. Assumiram virtudes heroicas, como a de enfrentar, sem temor, toda sorte de acusação e perseguição.

       São elevados aos altares não para serem adorados, e sim servir de exemplo a todos que, como Jesus, dão suas vidas “para que todos tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10).

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Anfiteatro), entre outros livros.



quarta-feira, 7 de maio de 2014

UMA LINHA DE MONTAGEM DE SANTOS NO VATICANO



Por Juracy Andrade


     De santo carimbado pelo Vaticano já estamos fartos. Nos últimos anos, a canonização de santos do agrado desse ou daquele papa tomou rumos aberrantes. João Paulo 2º, responsável por um grande e grave retrocesso na volta da Igreja a suas origens apostólicas, entre outras aberrações, canonizou figuras no mínimo estranhas. Por exemplo, Josemaría Escrivá de Belaguer, fascistoide, franquista e fundador do polêmico Opus Dei; o italiano Frei Pio de Pietrelcina, franciscano, acusado de fraudes e vida irregular; centenas de colonos lusitanos massacrados por holandeses no Rio Grande do Norte. Outra calamidade é a proteção do papa polonês ao padre mexicano Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo e acusado, com provas, de ter abusado sexualmente de seminaristas e ser viciado em drogas, entre outras “manifestações de santidade”. Esse costume de reconhecer pessoas oficialmente como santas, dignas das honras dos altares, foi inventado aí pelo século 11. Lembremos que esse costume de altares e santos colocados em altares não tem nada a ver com o cristianismo primitivo. Você não vê nenhum altar nem santo nas catacumbas de Roma, por exemplo (só os colocados depois).

     O papa Francisco, que tanto tem feito avançar a Igreja de Cristo, encontrou vários processos de canonização em andamento e, certamente por estar tão atarefado, não teve tempo para dar um freio de arrumação nesse tão estranho costume de carimbar santos ou supostos como tais com a chancela burocrática do Vaticano. Já canonizou até o Padre Anchieta, colonialista e verdugo amador de hereges. Acaba de canonizar seus predecessores João 23 e João Paulo 2º, dando, como frisa Frei Betto, uma no cravo a outra na ferradura. Já que o papa polonês Wojtyla vinha sendo empurrado atabalhoadamente para os altares pela viúva Cúria Romana, ele decidiu canonizar também aquele que, à revelia da Cúria, convocou o Concílio dos anos 1960, que iniciou um processo de profunda renovação eclesial, abruptamente freado principalmente por João Paulo 2º e Bento 16. É justamente o Hermano Francisco que lhe dá agora novo impulso e vigor.

     Essa linha de montagem de santos muito contribui para um maior afastamento, em vez de aproximação, dos cristãos ortodoxos e de outros dissidentes do romanismo. Também o acréscimo de novos dogmas aos proclamados pelos concílios realizados até o cisma do século 11, que dividiu a Igreja de Cristo entre Roma e Constantinopla. Seguindo a lógica tortuosa e alheia à vontade de Jesus Cristo da mistura entre Igreja e Império Romano, uma vez que o Império se dividira entre Roma e Constantinopla, era forçoso que houvesse também dois papas. O papa de Roma já se proclamara proprietário da Igreja, em detrimento do pastoreio do Colégio Apostólico. A pretexto de filigranas teológicas, reforçadas pela insistência de Roma em ter uma ampla jurisdição sobre todas as igrejas do mundo, foi-se ampliando o fosso entre o papa de Roma e o patriarca de Constantinopla.

     Sendo patriarca Miguel Cerulário, o papa enviou a Constantinopla um legado em 1054 depois de as igrejas latinas na capital do Império do Oriente terem sido fechadas. Sem acordo. Seguiram-se excomunhões mútuas entre Roma e Constantinopla e a coisa azedou de vez com o saque de Constantinopla, em 1204, pela 4ª Cruzada, com 55 anos de imposição de Roma ao Oriente. Assim mesmo, houve tentativas de reconciliação nos concílios de Lyon a Florença, frustradas. Em 1453, os turcos, maometanos, tomaram Constantinopla iniciando o longo Império Otomano. As excomunhões mútuas só foram levandas em 1965 pelo papa Paulo 6º e o patriarca Atenágoras. Brigar é fácil. Difícil, no contexto de poder e confusão entre religião e Estado, é a união tão desejada pelo nosso Mestre Jesus.


Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

quinta-feira, 24 de abril de 2014

SANTOS CANÔNICOS E ANÔNIMOS

por Frei Betto

    
 Domingo, 27 de abril, o papa Francisco proclamará como santos, dignos de ocupar lugar nos altares, os papas João XXIII e João Paulo II.

     Quem conhece os bastidores da Igreja Católica sabe que se trata de uma no cravo e outra na ferradura. João XXIII, à revelia da Cúria Romana, convocou o Concílio Vaticano II (1962-1965). Pôs o pé no acelerador da renovação. João Paulo II enfiou o pé no freio. Tinham concepções diferentes quanto ao papel da Igreja. As atas do Concílio comprovam que o então bispo Wojtyla, futuro João Paulo II, votou com os conservadores, derrotados pelas decisões conciliares.

     Foi na Idade Média, a partir do século XI, que se iniciou o costume de canonizar cristãos falecidos sob a aura de santidade. Criou-se toda uma burocracia vaticana em função disso. Até lobbies em Roma. Basta pesquisar o processo que canonizou Escrivá, o polêmico fundador da Opus Dei.

     Processos de canonização são dispendiosos. Obedecem a uma série de critérios, como a comprovação de que o candidato operou, lá da glória celestial, ao menos um milagre. Em geral curas que escapam à explicação da ciência.

     Nos últimos tempos essa exigência tem sido relegada. Não consta que João XXIII tenha feito, até agora, algum milagre. Se o fez, foi quando vivo: o Vaticano II. João Paulo II teria curado uma religiosa que, na verdade, nutria devoção por outro santo, segundo confessou uma colega dela... E o padre Anchieta, canonizado dia 3 de abril, também foi dispensado do milagre comprobatório.

     Os santos foram, de fato, pessoas acima de todo mal? Ora, como diz o papa Francisco, somos todos pecadores, e precisamos de muita oração. Como canta Chico Buarque, “Procurando bem / Todo mundo tem pereba / Marca de bexiga ou vacina / E tem piriri, tem lombriga, tem ameba / Só a bailarina que não tem” (Ciranda da Bailarina). Entretanto, há fiéis, como Francisco de Assis e tantos anônimos, que se destacaram por uma existência coerente com o que Jesus pregou e testemunhou.

     A canonização de Anchieta é oportuna? Há quem duvide, pois ele favoreceu o colonialismo lusitano no Brasil, ao contrário de meu confrade, Bartolomeu de las Casas que, na América hispânica, se opôs à empresa colonialista espanhola. Em carta ao governador-geral Mem de Sá, definiu os indígenas como "lobos vorazes, furiosos cães e cruéis leões que nutriam o ávido ventre com carnes humanas."

     À exceção de Judas, todos os apóstolos de Jesus são considerados santos. Nem por isso os evangelhos encobrem seus defeitos: Pedro negou Jesus três vezes; Tomé duvidou; Tiago e João não se opuseram que a mãe, Salomé, pressionasse Jesus para privilegiá-los no Reino...

     É a devoção popular que faz os santos, ainda que Roma não os reconheça. É o caso, no Brasil, do Padre Cícero; do índio Sepé Tiaraju, que dá nome ao município gaúcho de São Sepé; Nhá Chica (já beatificada); e a menina Odetinha.

     Na Igreja primitiva só os mártires, aqueles que derramaram seu sangue em nome da fé cristã, eram tidos como santos, como é o caso, no Brasil, de frei Tito de Alencar Lima, morto há 40 anos em decorrência das torturas sofridas sob a ditadura. Sua tumba é das mais visitadas no cemitério de Fortaleza.
     O papa Paulo VI chegou a cassar um dos santos mais populares da Igreja: Jorge. A reação da coroa britânica e da Geórgia obrigou-o a voltar atrás.

     “Até o papa tem pecados”, disse Francisco na audiência de 29/05/2013. Santo não é, portanto, quem é perfeito, e sim aquele que, em meio às contradições, erros e defeitos, faz de sua capacidade de amar um serviço libertador a quem sofre ou vive excluído e oprimido. Isso vale também para quem tem uma fé distinta da professada pelos cristãos ou é ateu, conforme diz Jesus no Evangelho de Mateus (25, 36-41).

     Há muito mais santos anônimos neste mundão de Deus do que supõe a nossa vã teologia.

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Paralela), entre outros livros.
  http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
Copyright 2014 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los, propomos assinar todos os artigos do escritor. Contato – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com)

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Linha de Montagem para fabricar Santos



Por Juracy   Andrade



     O que é um santo, para o cristão? Uma pessoa que, por sua vida e testemunho, ganhou a veneração do povo de Deus, como ocorreu durante muitos séculos antes que os papas tomassem para si o direito de dizer quem é santo ou não, de acordo com normas burocráticas e ideologias políticas incapazes de apreciar o carisma da santidade. Parece que o Hermano Francisco ainda não atentou pra isso, pois se anuncia aí a canonização às pressas do papa Wojtyla (João Paulo 2º), grande paladino anticomunista, como o foi também o papa Pacelli (Pio 12), que preferia claramente o nazifascismo ao comunismo. E não há só canonizações individuais duvidosas. O padre mexicano Marcial Maciel, que criou a Legião de Cristo, é candidato, apesar de acusado de pedofilia, mas era muito apreciado pelo papa polonês e também pelo papa alemão. Tem também as beatificações ou canonizações no atacado, em linha de montagem, como ocorreu há cinco anos, quando Bento 16 beatificou, de uma lingada, 498 espanhóis (padres e leigos) fuzilados durante a Guerra Civil que devastou a Espanha de 1936 a 1939, opondo os que defendiam o governo republicano legitimamente eleito e os insurgentes fascistas do general Franco, que levaram a melhor com a ajuda de Hitler. O papa alemão os considera “mártires”, mas o que eles fizeram na verdade foi financiar e organizar o levante franquista. Do lado dos republicanos, também houve muitos religiosos mortos por se oporem ao franquismo, mas Ratzinger não os vê como “mártires”.

     Não lembro se foi no papado de Wojtyla ou no de Ratzinger, mas também mereceu a santificação uma quantidade grande de católicos supostamente “martirizados” no sul do Rio Grande do Norte durante a ocupação holandesa no Nordeste. Mas, eles foram mortos por serem católicos (no Recife, conviveram em paz, na mesma época, calvinistas holandeses, católicos portugueses e judeus) ou por se oporem aos holandeses? Donde se pode concluir que é a política, mais que a religião, que orienta os burocratas do Vaticano na escolha de “santos” impostos à força a toda a Igreja.

     E tem o caso escandaloso do Padre Pio, muito venerado na Itália e desmascarado por um livro do historiador Sergio Luzzato (Miracoli e politica nell’Italia del Novecento). Também mal visto pelo papa Roncalli (João 23, aquele que convocou o Concílio dos anos 1960), o qual deixou anotações em que diz que toda aquela conversa de pretensos estigmas que Padre Pio expunha nas mãos, como um Cristo crucificado, não passa de “um imenso engano” e que “suas relações condenáveis com os fiéis provocam um desastre de almas”. Para João 23, a amizade de Padre Pio com algumas mulheres não era assim tão espiritual e inocente. Em suas anotações sobre o caso, disse que “há cerca de 40 anos, essa contaminação atingiu centenas de milhares de almas, imbecilizadas em proporções inverossímeis”. Inúteis anotações. Seu substituto Paulo 6º não tomou nenhuma providência e, finalmente, João Paulo 2º  elevou Padre Pio às honras dos altares. Cadê a infalibilidade? Foi também o papa Wojtyla que carimbou como santo o fundador da organização secreta Opus Dei, nascida à sombra do fascismo franquista na Espanha, o padre fascistoide Josemaría. Escrivá.

     Na limpeza que o Hermano Francisco está fazendo nas Estribarias de Áugias reinstaladas na colina do Vaticano após o grande trabalho de Hércules, está faltando essa de que santo é santo, política e ideologia são outra coisa. Como ele tem se mostrado um autêntico servo dos servos de Deus, título ostentado por tantos papas para fingir humildade e melhor poder dominar a Igreja de Cristo, podemos aguardar isso dele. E talvez não esteja longe o dia em que o papa será apenas o bispo de Roma (como Francisco gosta de se apresentar) e que teremos uma Igreja sem papa (ver artigo do teólogo Leonardo Boff neste Porta-Voz), de braços mais abertos à unidade pregada pelo nosso mestre Jesus Cristo. Num grande concílio verdadeiramente ecumênico se congregariam patriarcas orientais e líderes de outras igrejas cristãs fiéis ao Evangelho em busca da unidade perdida quando a Igreja de Roma aliou-se a um decadente Império Romano e deu no que deu.

Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia
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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Bruxas ou Santos?



 Por Maria Clara Bingemer
 
    Às vezes tenho saudades de alguns espetáculos teatrais ou musicais que vi na minha juventude: Naquele tempo, “a escola era risonha e franca”, e havia só amanhã e nenhum ontem. Lembro-me, quando começava a crítica ao imperialismo americano a ganhar espaço entre a minha geração, do show de Ary Toledo intitulado “Por que me ufano do meu país”.

     Ali, entre canções e piadas de sua autoria, o artista lançava farpas contra a mania que o povo brasileiro tem de imitar o grande irmão do norte. E dizia, já mais para o final do show, que o brasileiro, “embora pense como americano, embora dance como americano... tem uma coisa que o distingue dos demais: personalidade, personalidade...” E por aí ia a crítica.

     Não faço coro irrestrito ao que dizia o cáustico Ary, porque acho que nesses anos todos de ditadura, de luta pela democracia, de democracia efetiva, e de abertura cultural, crescemos muito.  E nossa personalidade também.  Mas vamos confessar aqui baixinho e que ninguém nos ouça:  algo daquele espírito mimético ainda nos resta. 

     E, para confirmar, digo: estou perplexa.  Pois li recentemente, em um de nossos maiores jornais, a notícia que a festa do Halloween, celebrada com esmero e empenho nos EUA no dia 31 de outubro, ganha cada vez mais espaço aqui. Será possível? Esta, sim, é tradição totalmente importada e que não tem nada a ver com nossas raízes.  E mais: não creio que seja assim tão positiva.

     O Dia das bruxas ou Halloween é um evento tradicional e cultural, que ocorre basicamente em países anglófonos, sobretudo nos Estados Unidos, Canadá, Irlanda e Grã Bretanha.  E tem como base e origem as celebrações dos antigos povos celtas. A festa tem duas origens, uma pagã e outra cristã. E em ambas encontramos o cristianismo seja como assimilador da tradição pagã, seja como criador de uma celebração posteriormente paganizada.

     A versão pagã tem origem em uma festa celta cujo objetivo era dar culto aos mortos. Aliás, aí encontramos uma das primeiríssimas manifestações religiosas da humanidade.  Procurar comunicação com os que já se foram, celebrar os mortos, ritualizar seu sepultamento é um dos primordiais testemunhos da relação do ser humano com a Transcendência e sua intuição original de que a vida não acaba no bios, mas se estende para além do tempo cronológico de duração.  Nesse espírito, celebravam os celtas sua festa.  Para eles, os mortos ficam em um lugar de felicidade perfeita, sem fome nem dor. 

      A festa cristã de todos os santos começou com a celebração dos mártires, que se multiplicaram nos primeiros séculos do cristianismo e finalmente encontraram um dia determinado para realizar sua celebração.  Seria o dia de “Todos os mártires”. Por volta do ano 600, o Papa Bonifácio IV transformou um templo romano dedicado a todos os deuses (o famoso Panteão que visitamos em Roma) em templo cristão e o dedicou a “Todos os Santos”.  Ou seja, às testemunhas de Jesus Cristo, àqueles e àquelas que nos precederam na fé. O dia 1 de novembro, que é atualmente o dia da festa, foi confirmado como tal porque era o dia da dedicação da capela de Todos os Santos na Basílica de São Pedro em Roma.

     Como toda festa grande da Igreja Universal, esta tinha sua vigília, ou seja, a preparação da festa no dia anterior, que é 31 de outubro. Encontramos aí a fonte da posterior paganização da festa, pois daí nasceu a terminologia Halloween, em inglês, que queria dizer All Hallow’s Eve (Vigília de todos os santos), sofrendo depois corruptelas que foram dar no atual Halloween.
Minha memória e cultura não chegam ao ponto de saber como por essa brecha entraram as bruxas, essas senhoras feias e narigudas, vestidas de preto e montadas em vassouras, que metem medo às criancinhas.  Vi quando pequena a genial peça de Maria Clara Machado “A bruxinha que era boa” e adorei.  É a desmistificação da crença nas bruxas que – desculpem – não existem. 

     A festa de todos os santos nos lembra para que fomos criados: para o amor e a beleza, para a partilha e a alegria.  Não para ter medo de bruxas e fantasmas, que são produto da imaginação e não têm o direito de assustar as crianças.  Sobretudo quando se trata de uma festa que nada tem a ver com nossa cultura, que gosta de celebrar santos, sobretudo Maria, a mãe de Jesus, a dos muitíssimos nomes: Aparecida, de Nazaré, dos Navegantes etc. E os amigos de Jesus: Antônio de Pádua, Francisco de Assis e Clara, Inácio e Paulina.  E os outros muitos e muitas que ainda não foram canonizados.

      Nada contra as brincadeiras feitas pelas crianças.  Mas precisa ser com bruxas?  E precisa ser calcada na imitação de uma cultura outra que não a sua?  Desejo a todos e todas uma bela celebração de todos os santos e santas, nossos irmãos que nos precederam marcados com o sinal da fé.  E aos que choram seus mortos, consolo e paz, na esperança da ressurreição.  Amém.

 Maria Clara Bingemer é professora do departamento de teologia da PUC-Rio. A   teóloga é autora de “Ser cristão hoje" (Ave Maria).
  Copyright 2013 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>