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terça-feira, 21 de maio de 2019

DEUS NO TRIBUNAL DO MUNDO



Por Marcelo Barros

Mesmo quem não é advogado, não pode ficar indiferente ao ver alguém a quem se ama ser tão mal falado. Em tempos de fake-news, as pessoas cujo nome é envolvido em notícias falsas correm para desmascarar a mentira. No entanto, há um nome usado impunemente e não há como impedir. Muito antes de existir internet e guerras de quarta geração nas quais as armas são os meios de comunicação, já o nome de Deus era usado para legitimar ditaduras, justificar colonialismos, provocar violências, guerras e massacres. Na América Latina, ditadores militares tomaram o poder a serviço do império norte-americano e, para garantir os privilégios da elite econômica, usavam o nome de Deus. Nas eleições presidenciais que o Brasil viveu em 2018, a maioria das pessoas religiosas optou não apenas por um caminho conservador e indiferente à causa dos mais pobres. Mais do que isso: votou na extrema-direita, enquanto a maioria dos ateus e das pessoas sem religião votou na democracia. 

Grupos evangélicos e pentecostais, com seus pastores, assim como católicos com padres e até bispos votaram conscientemente na proposta da violência, da discriminação e do ódio como caminho político. Já em 1968, o pastor secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas que reúne mais de 300 Igrejas evangélicas e ortodoxas, declarou: “Os cristãos que negam a sua responsabilidade social com os empobrecidos do mundo cometem pecado contra a fé tão grande quanto os que negam a ressurreição de Jesus”. Quem de fora analisa essa realidade só pode dar razão ao cineasta norte-americano Woody Allen quando declara: “Deus deve ser um cara bom, mas os amigos dele, eu não recomendaria”.   

O uso do nome de Deus para legitimar o mal é antigo. Tão antigo que, na Bíblia, a primeira palavra que Deus dá quando, no monte Sinai, faz aliança com os hebreus que tinham saído da escravidão, é a ordem: “Não pronuncies o nome divino”. A tradição católica traduziu isso no mandamento: “Não usar o nome de Deus em vão”... Mas quem garante quando o uso do nome divino é em vão ou é justo?”. Durante séculos, em nome de Deus, papas, bispos, padres e pastores justificaram o direito dos impérios europeus colonizarem os povos do sul. Legitimaram guerras e crueldades humanas. Não foi somente na Idade Média que as cruzadas tinham como lema: Deus vult! Deus quer!

Atualmente, o presidente do Brasil repete como bandeira eleitoral a mesma afirmação de Hitler na Alemanha nazista: Deus acima de todos! E uma de suas ministras afirma ter visto Jesus em uma goiabeira. E tanta devoção unida a uma política contra os direitos dos mais pobres e favorável a todo tipo de preconceito só pode gerar em qualquer pessoa crítica um horror a esse deus mesquinho, cruel e discriminador.

No tempo do nazismo, Martin Buber, espiritual judeu, afirmava: “Nenhuma palavra tem sido tão mal usada e massacrada na história do que o nome de Deus. No entanto, exatamente por isso, não podemos deixa-la assim suja e mal falada. Temos de resgatá-la e devolvê-la ao seu uso correto como expressão de amor gratuito e solidário”.  

Paul Tillich, um dos maiores teólogos evangélicos do século XX afirmava: “O nome da profundidade e do fundo infinito, inesgotável de todo ser é Deus. Esta profundidade é o próprio sentido da palavra Deus. Se vocês virem o que há de mais importante e profundo na cultura e na vida de alguém ou de um povo, vocês estão tocando no mistério da presença de Deus”. 


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A Bíblia no tribunal da vida



Por Marcelo Barros.


     No domingo passado, último do mês de setembro, as comunidades católicas celebram anualmente o dia da Bíblia. É um convite para que se valorize cada vez mais a importância da Bíblia na vida de quem crê. No ano passado, as agências norte-americanas noticiaram que Ernie Chambers, senador por Nebraska, abriu na justiça dos Estados Unidos, um processo criminal contra Deus por provocar o terrorismo dos grupos fanáticos e por ter distribuído um livro considerado sagrado, a Bíblia, que, de acordo com a acusação, serve para transmitir intolerância e discriminação dos crentes contra pessoas e grupos de outras religiões. 

     No Brasil, essa acusação contra Deus não foi formalizada em algum tribunal, mas Deus e a Bíblia são, cada dia, acusados de discriminação religiosa e intolerância. Quase diariamente, em alguma região do Brasil, em nome de Deus e da Bíblia, se cometem atos de agressão a pessoas e grupos de religiões afrodescendentes e outras tradições espirituais. Nesses dias, em uma favela do Rio de Janeiro, traficantes, ditos “evangélicos” expulsaram moradores pelo fato de que seguem a religião do Candomblé. E dizem agir assim em nome da Bíblia.  

      É, então, fundamental que as pessoas de paz e que creem em Deus como Espírito de Amor e não como senhor guerreiro e intolerante possam fazer um mutirão para reinterpretar a Bíblia de outro modo. Ler a Bíblia como um livro que legitima intolerâncias é interpretá-la fora do seu contexto histórico. A Bíblia é uma coleção de escritos, poemas, orações e cartas que foram escritas por muitas pessoas e diversas comunidades que a redigiram durante mais de mil anos. Embora, por causa do contexto cultural e histórico, haja sim palavras e textos que pregam a intolerância, a maioria dos escritos bíblicos procura testemunhar uma palavra divina que ilumina a história vivida pelo antigo povo de Deus de Israel e chama as pessoas para serem mais humanas e amorosas. 

      A humanidade tem em seu tesouro cultural muitos livros sagrados, documentos importantes para muitas religiões antigas e algumas mais novas. De todos os livros sagrados, a Bíblia é o único aceito e assumido como revelação divina por duas religiões diferentes: o Judaísmo e o Cristianismo. Em si mesma, a Bíblia é um livro inter-religioso e no qual aparece uma grande diversidade de culturas e crenças. O Novo Testamento é a parte especificamente cristã que conta como as primeiras comunidades de discípulos e discípulas de Jesus ligaram a história bíblica com a experiência vivida por Jesus e que ele nos chama a viver. 

     
     Ao ler, hoje, essas páginas, podemos descobrir não somente como Deus conduziu o povo antigo de Israel para uma terra e um projeto de vida comunitária, mas como essa história, hoje, pode nos ajudar na construção de um mundo de justiça e paz. Nas páginas da Bíblia, há uma evolução da revelação divina que culmina no Novo Testamento: “Deus é amor. Quem ama vive com Deus e Deus vive com essa pessoa” (1 Jo 4, 16).
Todas as religiões merecem o mais profundo respeito e carinho. Do seu modo, cada uma significa uma resposta amorosa que as diversas culturas humanas dão ao amor divino. Cada uma tem uma pedagogia própria para tornar as pessoas que as seguem mais humanas e mais capazes de amar. No Brasil, as religiões afrodescendentes merecem mais ainda nossa admiração porque foram elementos fundamentais da resistência das comunidades negras, no meio dos maiores sofrimentos e perseguições. Deram às pessoas a confirmação de sua identidade de filhos e filhas muito queridos de Deus. Ao falar com os discípulos depois da ceia, Jesus afirmou: “Na casa do meu Pai, há muitas moradas” (Jo 14, 2). As diversas religiões são como pousos ou lugares de reabastecimento dessa casa de Deus que é o universo. 


 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


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