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terça-feira, 28 de setembro de 2021

A Bíblia no banco dos réus

 

Marcelo Barros


 

Neste último domingo de setembro, as comunidades católicas festejam o Dia da Bíblia. No entanto, já há 50 anos, todo setembro é considerado mês da Bíblia. Nele, cada ano, grupos e comunidades aprofundam algum tema, ligado a um livro bíblico. Em 2021, o livro escolhido foi a Carta aos Gálatas e o lema tirado do hino batismal que ocupa o centro da carta: “Pois, todos vós sois UM só em Cristo Jesus” (Gl 3, 28).

Este lema pode ajudar as comunidades a descobrirem na Bíblia resposta para os conflitos que opõem cristãos entre si quando se defrontam com a realidade social e política do país.  

Desde o começo do Cristianismo, as comunidades eclesiais sempre  tiveram em seu seio pessoas e grupos com diferentes posições sociais e políticas. E as Igrejas cristãs veem a catolicidade como sua vocação, porque devem ser capazes de conviver com as diversidades. 

Pelos anos 50 do primeiro século, na região que atualmente compreende a Turquia, Paulo fundou algumas comunidades cristãs. Nelas, havia crentes de diversas culturas. Alguns membros, de origem judaica, defendiam que para ser cristãos, todos deveriam obedecer às leis do Judaísmo. Outros, vindos das culturas locais e de religiões orientais se sentiam mais livres. Diante do conflito entre os dois grupos,  Paulo não ficou neutro. Tomou posição por uma Igreja aberta e em saída, como propõe o papa Francisco, mas respeitou a diversidade. Primeiramente, a sua carta insiste que “judeus ou gregos, escravos ou livres, homens ou mulheres, todos que somos batizados no Cristo somos iguais e devemos ser unidos (UM só) em Cristo” (Gl 3, 27- 28). A partir da igualdade de todos, Paulo defende a liberdade. Não proíbe cristãos de cultura judaica a obedecerem às normas do Judaísmo, mas esses não têm direito de exigir isso dos outros. A fé em Cristo é força libertadora “Foi para que sejamos livres que Cristo nos libertou” (Gl 5).

Na nossa realidade, a proposta das comunidades aprofundarem a leitura e interpretação da carta aos gálatas pode ajudar a impedir que a Bíblia seja usada como pretexto para o racismo religioso. Podemos interpretar a Bíblia de diversas formas. Cada leitura é sempre parcial e pode ser completada. No entanto, ninguém tem direito de usar a Bíblia e a fé em Jesus como pretexto para perseguir e atacar comunidades de cultos afro-brasileiros ou de outras religiões. A Bíblia não justifica posturas moralistas e discriminatórias contra a igualdade de gêneros e a diversidade sexual. Não é honesto ler ao pé da letra um texto escrito há mais de dois mil anos e em outro contexto cultural e geográfico para justificar posições antropocêntricas que veem o ser humano como superior à natureza. 

Lamentavelmente, parte da hierarquia católica, como também de pastores evangélicos e grupos de diversas Igrejas ainda pregam o evangelho de forma dogmática e arrogante. Ao fazerem isso, continuam o caminho dos colonizadores que usaram a Bíblia para justificar a violência da conquista. Dão razão a quem usa a Bíblia como arma que legitima opressões e dores à humanidade e ao planeta. É preciso purificar a leitura bíblica e o modo como se fala de Deus. É preciso revelá-lo como Amor e Compaixão e não como déspota que impõe a sua vontade e castiga impiedosamente quem não o obedece.

No Brasil, há mais de 40 anos, esse esforço de libertar a Bíblia de uma leitura fundamentalista levou um grupo de cristãos e cristãs a fundarem o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI). A inspiração e a iniciativa vieram do querido irmão, frei Carlos Mesters, profeta da leitura libertadora da Bíblia, que neste próximo outubro, completará 90 anos, dos quais a maioria a serviço da Bíblia e das comunidades da caminhada.  

O Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) parte do princípio de que a Bíblia é a escritura da palavra de Deus. É como uma partitura musical que só se torna música à medida que é executada. Assim, a Bíblia só se revela palavra divina à medida que é proclamada e vivida nas comunidades.

O CEBI sempre defendeu que o terreno melhor para se ouvir e praticar a palavra de Deus é a comunhão com os mais pobres. É a partir da vida dos oprimidos que, na leitura comunitária e orante da Bíblia, vamos discernindo a  revelação de um projeto divino de justiça, amor e vida para a humanidade e todo o universo. Se continuamos a amar a Bíblia e acolhemos sempre sua mensagem é porque, como lembrava o papa Paulo VI: “para se encontrar a Deus, é fundamental se encontrar o ser humano”.

 

 

 

 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

SOBRE A LEITURA DA BÍBLIA: UMA MEDITAÇÃO

  


Kinno Cerqueira [1]

 

Tenho a impressão de que a Bíblia é o livro menos lido no mundo. Alguém que esteja em posse de certos dados estatísticos dirá, com toda razão, que incorro num contrassenso. Afinal, a afirmação de que a Bíblia é o livro mais vendido, distribuído e lido no mundo tornou-se proverbial em nosso tempo. E os colportores incumbidos de salvar o mundo orgulham-se do sucesso de seu trabalho...

Que significado os estatísticos e colportores dão ao verbo ler? O mais simplório (im)possível, é claro. Absolutamente seguros de sua insuperável precisão conceitual, nomeiam de leitura a reprodução mecânica da combinação dos sons silábicos que compõem as palavras do texto bíblico. Vamos rir ou chorar? Vocês decidem.

Há duas circunstâncias que frequentemente levam uma pessoa a entrar em contanto com a Bíblia. A primeira é quando um evangelista/catequista lhe oferta uma Bíblia durante um processo de investidas proselitistas. A segunda se dá quando alguém, rompendo com o cristianismo de tradição católica, adere a uma igreja protestante, onde recebe uma Bíblia ou é aconselhado a comprar uma.

Nos dois casos, a Bíblia já aparece lida e interpretada. No primeiro, a pessoa recebe a Bíblia como signo da verdade absoluta à qual é interpelada a submeter-se. No segundo, como Palavra de Deus que lhe é dada como sinal de sua supremacia frente a quaisquer expressões religiosas que ocorram fora do limiar de sua nova igreja. 

Não raras vezes, apresenta-se um “plano de leitura” para que, no decurso de um ano, as pupilas crentes conheçam a verdade absoluta, nas filigranas, da primeira à última página, sílaba a sílaba. O critério para aferir a precisão da leitura é o grau de concordância entre esta e a nefasta obtusidade do pastor da igreja. E assim a leitura acontece, com aquela liberdade que é tão própria de marionetes sob mãos de marionetistas.  

A minha proposta é que, a partir de hoje, não se diga mais que a Bíblia é o livro mais lido no mundo. Não se exasperem comigo, senhores estatísticos, colportores, evangelistas e pastores, pois eis que lhes proponho uma alternativa mais honesta: a Bíblia é o livro mais silabado do mundo.

Ler é um ato hermenêutico, ou seja, um processo interpretativo, e a liberdade lhe é condição de genuína realização. Hipotecar a liberdade hermenêutica em função de uma leitura “correta” é o mesmo que vendar os olhos para não errar o caminho. Hipotecada a liberdade e vendados os olhos, resta fiar-se em decisões alheias.

A leitura ocorre quando o leitor se assume como sujeito, isto é, quando o leitor se emancipa em relação ao discurso do outro, libertando-se da condição de subalterno, abjeto, dejeto. A leitura crente, que não passa de uma insossa silabação, é um processo de afirmação da subalternidade, de adesão à obtusidade, de embrutecimento do espírito, de suspensão do pensamento próprio, de sacrifício das retinas no altar da obediência.

Até quando se levará adiante tamanha brutalidade psíquica? Até quando se torturarão as subjetividades sob o signo da Bíblia? Até quando quisermos. Até quando dissermos que basta. Até quando retirarmos nossas cabeças de debaixo das solas que nos esmagam. Até quando a rebeldia nos for mais doce que a obediência. Até quando nossos olhos amarem mais a policromia do mundo que o preto e branco da religião. Até quando ler for um salto de liberdade nos abismos do espanto poético, da beleza que redime, da vida que se reticencia... Até quando a ninguém for dada a última palavra.

 

[1] Pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) para a área de estudos bíblicos.

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

TOMAR A BÍBLIA AO PÉ DA LETRA

 



 

Frei Betto

 

       Nenhum livro sofre mais abuso de ser tomado em vão do que a Bíblia. (...) Jesus criticou duramente os fariseus por tomarem a Bíblia ao pé de letra, como pagar o dízimo, e deixarem de lado o que importa – a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mateus 23,23).

       Todo texto deve ser lido dentro de seu contexto. Pinçar a frase de um autor para embasar uma afirmativa é correr o risco de adulterar o sentido da narrativa. Antes de fazer da frase bandeira de minhas convicções, um mínimo de honestidade intelectual exige que eu pergunte qual o sentido na narrativa, o que o autor quer dizer, qual o significado das palavras.

       Nenhum livro sofre mais abuso de ser tomado em vão do que a Bíblia. Palavra de Deus para nós cristãos, judeus e muçulmanos, descontextualizá-la é violá-la. Há pessoas tão apegadas à letra do texto bíblico (e não ao Espírito, como sugere o apóstolo Paulo) que, por ignorância, acreditam mesmo que toda a humanidade decorre de um casal, Adão e Eva. Não se dão conta de que a Bíblia jamais teve a pretensão de fazer ciência. É um livro religioso, escrito em diferentes épocas e à luz de distintas culturas. Adão, em hebraico, significa homem feito de barro; Eva, vida. O Gênesis quer apenas nos ensinar que, graças ao Criador, a vida humana brotou da natureza.

       Ler a Bíblia fora do contexto pode induzir o fiel desavisado a odiar seu pai e sua mãe para aderir a Jesus (Lucas 14, 26). Um cristão tinha por hábito sortear, toda manhã, um versículo dos evangelhos como motivação espiritual. Ao abrir o texto em “Amai o próximo como a si mesmo”, adotou, naquele dia, postura mais atenciosa com a faxineira, o ascensorista e a copeira do escritório. 

       Dia seguinte caiu-lhe o versículo 5 do capítulo 27 de Mateus, sobre a culpa de Judas: “E ele foi e se enforcou”. Ciente de que a vida é o dom maior de Deus, permitiu-se outra chance. Deparou-se com o último versículo da parábola do Bom Samaritano: “Vá e faça o mesmo”. 

       Ora, como Deus não quer o mal, ele se deu uma última oportunidade. Veio-lhe este versículo da paixão de Jesus em João: “O que tem a fazer, faça depressa” (13, 27)...

       O teólogo e biblista Marcelo Barros conta a história de um pastor que, em Los Angeles, mantém um programa de TV muito apreciado nas manhãs de sábado. Um dia, o pastor leu no auditório a carta que recebera:

       “Caro pastor Jeffrey, me chamo Jonathan Pierce. Tenho 40 anos e frequento a Igreja Batista da North Street. Há alguns dias, ao chegar em casa, encontrei minha esposa deitada com outro homem. Rompi o casamento e abandonei o lar. Minha filha adolescente deu razão à mãe, com o pretexto de que sou muito ausente e minha esposa tem direito de ser feliz”.

       “Nesse momento de grande sofrimento, recebi ajuda de um amigo de infância que é gay e sempre me quis como companheiro. Penso em fazer uma experiência nova neste caminho. No entanto, o pastor de minha Igreja avisou que eu teria de deixar a comunidade. Por isso, lhe escrevo para perguntar se o senhor receberia a mim e ao meu companheiro em sua Igreja”.

       Após ler a carta, o pastor respondeu: 

       “Caro Jonathan. Podemos aceitá-lo em nossa Igreja se você rejeitar o pecado e renunciar ao vício. Seguimos a Bíblia Sagrada e, de acordo com Levítico 20, versículo 13, se um homem deita com outro homem ambos cometem abominação e devem ser eliminados da comunidade. Portanto, se você desistir deste mau caminho e se converter, será bem-vindo em nossa Igreja. Deus o abençoe”. 

       No sábado seguinte, o pastor abriu o programa com fisionomia tensa, e explicou aos telespectadores: “Meus irmãos, a Justiça do Estado da Califórnia me obriga a ler aqui esta carta:”

       “Caro pastor Jeffrey, quero agradecer sinceramente ao senhor por ter me orientado e me guiado para o texto sagrado da Bíblia neste momento difícil que estou vivendo. O senhor citou o capítulo 20, versículo 13 do Levítico, para mostrar que não posso participar da Igreja se deito com outro homem, e isso me foi muito útil. Agradeço muito. Principalmente porque abri a Bíblia e li o capítulo. E descobri que o senhor tem toda razão. O versículo 13 diz que se eu dormir com outro homem devo ser morto. Mas, achei maravilhoso descobrir, no mesmo livro, capítulo 20, versículo 10, que a minha mulher e o homem que se deitou com ela devem ser apedrejados, e minha filha, que me rejeitou como pai e tomou posição contra mim, também (versículo 9). Portanto, venho com esta carta afirmar que renuncio a viver relações homoafetivas, mas faço questão de apedrejar minha mulher adúltera, o homem com o qual ela se deitou e a minha filha rebelde. Como sei que o senhor cumpre a Bíblia Sagrada ao pé da letra, então, peço que junte as pedras, porque no próximo sábado, às nove da manhã, na hora do culto, chegarei aí com minha mulher e minha filha amarradas e nuas, como manda a lei de Deus, e também com o homem pecador. E nós, crentes de Deus, vamos apedrejar os três até morrerem. E aí, sim, cumpriremos o capítulo do Levítico que o senhor me ensinou a ler. Muito obrigado. Atenciosamente, Jonathan Pierce”.  

       Jesus criticou duramente os fariseus por tomarem a Bíblia ao pé de letra, como pagar o dízimo, e deixarem de lado o que importa – a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mateus 23,23).

 

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de quarentena” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

“ABRE TUA MÃO PARA TEU IRMÃO” (Dt 15,11):

 



uma reflexão sobre o tema do Mês da Bíblia 2020 [1]

 

por Kinno Alves Cerqueira [2]

 

Nunca deixará de haver pobre na terra;

é por isso que eu te ordeno:

abre a mão em favor do teu irmão,

do teu humilde e do teu pobre

em tua terra (Dt 15,11) [3]

 

 

1 Para começar

Desde 1971, a Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil consagrou o mês de setembro para o estudo da Bíblia. A cada ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, elege um livro a ser lido e um lema-chave que sirva como ponto de partida para a leitura a ser empreendida. Neste ano de 2020, quando já entrevemos o jubileu de ouro do Mês da Bíblia, o livro a ser lido é o Deuteronômio e o lema-chave escolhido, “Abre tua mão para teu irmão” (Dt 15,11).  

O Mês da Bíblia não é um espaço para simplesmente venerarmos um conjunto de livros antigos que não raras vezes nos causa estranheza. Na verdade, o Mês da Bíblia é o nosso mês, pois nas páginas da Bíblia redescobrimos nossa própria história com suas belezas e limitações, mas sobretudo como horizonte de possibilidades, de sonhos, de conversão da vida...

 

2 Habitar os jardins

Não raras vezes, aproximamo-nos da Bíblia como um taxonomista a identificar espécimes de flores que lhe são trazidas de jardins nos quais ele nunca esteve. Não haveria um caminho mais belo a ser feito? Há que se caminhar, despretensiosa e amorosamente, ao interior dos jardins bíblicos, ali onde, a um só tempo, os perfumes embriagam-nos e os espinhos despertam-nos a consciência.

Na alameda florida, nossos olhos se fecham e nossas mãos não se podem esquivar do toque sensitivo que engendra o despertar da pele, a redescoberta do corpo como lugar de acolher, desdizer e redizer o que descobrimos de nós na Palavra e da Palavra em nós [4].

 

3 Viagens sem mapas

O ato de acolher, desdizer e redizer faz nascer a coragem de permitirmo-nos viajar por dentro de nós mesmos sem bússolas nem mapas. De caminhos traçados por outrem, descobrimo-nos a nós mesmos como caminho inaudito, realidade pouco sabida e sempre pressentida a interrogar-nos sobre o que somos.           

 

4 Somos mãos

A frase “Abre tua mão” (Dt 15,11) é um tanto escorregadia, pois facilmente ouvimo-la como sendo uma referência à mão em seu sentido estritamente laborioso ou, quando muito, como alusão à dimensão operativo-pragmática de nosso existir. Na Bíblia, porém, o vocábulo “mão” (hebr. יָד) forma uma constelação de sentidos: “mãos, antebraço, pênis; lado, próximo, margem, lugar, força; monumento, eixos de roda, suportes, encaixes, parte” [5].

Daí por que não seja estranho que leiamos na Bíblia que é a “mão” de YHWH que cria a liberdade dos hebreus escravizados (Dt 5,15; 6,21; 7,8; 9,26), a beleza do luar grinaldado de estrelas (Sl 19,1-2), a ousadia profética (Is 26,11), a palavra desnudante das tramas dos homens (2 Rs 3,15). As mãos humanas ameaçam o status dos deuses (Gn 3,22) e divinizam selfs (Dt 4,28), derramam sangue inocente (Gn 14,11) e arrepiam os corpos dos amantes (Ct 2,6; 5,4), amesquinham a vida (Gn 37,22) e dão-lhe o sabor de leite e mel (Dt 6,3).    

Como vemos, a semântica bíblica dilata, potencia e complexifica o sentido da palavra “mão” a ponto de salvar-nos da estreiteza de sentido que nos impede de vislumbrar a potente complexidade que somos nós: somos mãos, nossas mãos somos nós com tudo o que sentimos, desejamos e miramos.

 

5 A aventura de abrir-se   

“Abre tua mão” (Dt 15,11) aparece-nos, pois, como uma voz a chamar-nos para aceder à bela aventura de abrir-se desde dentro para acolher os apelos que nos vem das vidas que estão diante de nós. Trata-se de suspender as respostas para dar lugar ao inusitado da vida, de perder as palavras para reencontrá-las renascidas noutros corpos, refazer a vida diante de outras vidas, enfim, de acolher o outro a partir do outro, para que no outro descubramos mais de nós e em nós, mais do outro.

 

6 A radicalidade da descoberta

A aventura na qual nos lançamos culmina na radical descoberta de que somos irmãos: (...) “abre tua mão em favor do teu irmão” (Dt 15,11). A corresponsabilidade que emerge dessa descoberta comporta tanta força que “os outros” tornam-se “meus outros” e os humildes, os pobres e a terra, “meus humildes”, “meus pobres” e “minha terra”. Descortina-se diante de nós a possibilidade de tornarmo-nos pessoas, ou seja, seres humanos em inter-relação cosmocizante [6].    

 

7 Abonitar a vida

O assombro de tal descoberta e nossa subsequente adesão ao chamado para tornarmo-nos pessoas inscrevem-nos no interior de um sonho repetidamente consignado na encantada imagem de “uma terra que mana leite e mel” (Ex 3,8; Dt 6,3). Tal imagem não descreve a qualidade solo-climática de uma terra, mas sublinha a fartura, símbolo da paz, como possibilidade sempre presente para um povo formado por pessoas que exercem a corresponsabilidade traduzida na partilha. Trata-se, pois, de um sonho a um só tempo poético e político de “abonitamento da vida”.

 

7 Esperança nos passos, sonhos nas mãos

A esperança de um sonho não reside na quietude desinteressada nem em análises sofisticadas da realidade. A poetisa Cora Coralina escreveu [7]:

Desistir?

Eu já pensei seriamente nisso,

mas nunca me levei realmente a sério.

É que tem mais chão nos meus olhos

do que o cansaço nas minhas pernas,

mais esperança nos meus passos,

do que tristeza nos meus ombros,

mais estrada no meu coração

do que medo na minha cabeça.

 

Entre a realidade e o sonho estamos nós, gente que, de mãos dadas, leva a esperança nos passos, a boniteza nos olhos, os sonhos nas mãos...

 

 

Notas:

[1] Contribuição apresentada por ocasião da live Como organizar o Mês da Bíblia nas comunidades, promovida pelo Grupo de Pesquisa Cristianismo e Interpretações da Pós-graduação em Teologia (PPGTEO) da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), em 29 de AGO de 2020. 

[2] Mestrando em Teologia do Programa de Pós-graduação em Teologia (PPGTEO) da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Bolsista da CAPES. Integrante do Grupo de Pesquisa Cristianismo e Interpretações do PPGTEO da UNICAP.  Assessor do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) em Pernambuco. E-mail: kinno_cerkeira@hotmail.com

 

[3] BÍBLIA. A Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulinas, 2002.

 

[4] Poder-se-ia dizer: acolher, desfigurar e transfigurar.

[5] KIRST, N. et al. Dicionário Hebraico-Português e Aramaico-Português. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2014, p. 85.   

[6] O termo “cosmocizante” designa a qualidade do que cosmociza, isto é, que transforma uma determinada realidade (caótica) em cosmos. 

[7] Poema disponível em: <https://sonho_realidade.blogs.sapo.pt/tag/cora+coralina> Acesso em 28 AGO 2020.

 

quarta-feira, 1 de abril de 2020

PÁGINAS DA BÍBLIA E DA VIDA





Kinno Cerqueira [1]

A Bíblia é uma colcha feita com retalhos de muitas vidas, muitos amores, muitos sonhos, muitas histórias. E porque nasceu da vida, a Bíblia, no lugar de apresentar conceitos e ideias, prefere aventurar-se na semântica das imagens, dos sentimentos, dos cheiros, dos lugares, das perguntas, dos silêncios... Por conta disso, a leitura da Bíblia solicita a reabilitação de todos os nossos sentidos, visto que sua semântica da vida quer penetrar nada menos que a totalidade do nosso corpo.

Uma vez habitados pelo colorido de tal semântica, somos reenviados por esta à vida concreta. Agora, não mais impermeáveis, porém, totalmente porosos para fruir os sabores da vida dantes recobertos pelo fino véu da insensibilidade imposta pela célere rotina.

Diante da reclusão domiciliar imposta pela pandemia por Covid-19, os últimos dias têm sido, para muitos, um momento de redescobrir que “tudo é Bíblias”, para usar uma expressão da poetisa Adélia Prado. Principiamos, nesse período que ainda não se findou, a redescoberta de que a vida, assim como a Bíblia, é um tecido de imagens e sussurros, de cheiros e sabores, de aventuras e amores, de perguntas e silêncios que nos convidam a uma dança apaixonada em louvor à irrepetível e misteriosa beleza de cada instante.

Paira sobre o mundo a iminência da morte. A vida descortina-se diante de nós qual flor que pressente a proximidade do fim da estação primaveril. Descobrimos que tempus fugit (o tempo foge!). Mas não só! Apercebemo-nos, antes de tudo, de que a vida, tal qual a Bíblia, convida-nos a fazer de nossas vidas poemas de amor nos lábios do tempo.

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.




quinta-feira, 29 de março de 2018

LEITURA LITERAL DA BÍBLIA


por Frei Betto

       Para os cristãos, a Bíblia é Palavra de Deus. Todo texto, porém, é lido a partir de um contexto no qual o leitor extrai o pretexto, o efeito da leitura em sua vida.

       O lugar social no qual se situa o leitor influi em seu lugar epistêmico. Por isso, o mesmo texto bíblico é interpretado de modo diferente se lido na academia ou em uma Comunidade Eclesial de Base.

       Na tentativa de evitar hermenêuticas equivocadas, cabe à autoridade religiosa indicar a interpretação correta. Isso, entretanto, não é solução. A autoridade não é isenta de múltiplas influências. Durante séculos a Igreja Católica aceitou a versão criacionista, segundo a qual procedemos todos de Adão e Eva. Darwin e o evolucionismo comprovado pela ciência demonstraram que somos todos descendentes de macacos.

       Ler a Bíblia fora do contexto pode induzir o fiel desavisado a odiar seu pai e sua mãe para aderir a Jesus (Lucas 14, 26). Um cristão tinha por hábito sortear, toda manhã, um versículo dos evangelhos como motivação espiritual. Ao abrir o texto em “Amai o próximo como a si mesmo”, adotou, naquele dia, postura mais atenciosa com a faxineira, o ascensorista e a copeira do escritório.

       Dia seguinte caiu-lhe o versículo 5 do capítulo 27 de Mateus, sobre a culpa de Judas: “E ele foi e se enforcou”. Ciente de que a vida é o dom maior de Deus, permitiu-se uma segunda chance. Deparou-se com o último versículo da parábola do Bom Samaritano: “Vá e faça o mesmo.”

       Ora, como Deus não quer o mal, ele se deu uma última oportunidade. Veio-lhe este versículo da paixão de Jesus em João: “O que tem a fazer, faça depressa” (13, 27)...

       A leitura literal da Bíblia ou a pescaria de versículos que tira o texto de seu contexto, é hoje utilizada para fundamentalistas bradarem que a Bíblia condena a homossexualidade. Ora, em toda ela há apenas três versículos que podem ser interpretados nessa linha (Gênesis 19, 1-28; Levítico 18, 22; Romanos 1, 26-27).

       Ainda que houvesse mais versículos, há que levar em conta que a Bíblia foi escrita dentro de uma cultura patriarcal, machista, e nem tudo que ela diz pode ser tomado ao pé da letra. Caso contrário, os fiéis não poderiam, hoje, comer carnes de porco, coelho, lebre e mariscos, proibidas em Levítico 11. Nem produtos embutidos (Atos 15, 19-29).

       O apóstolo Paulo proíbe que homens preguem com a cabeça coberta (1 Coríntios 11, 4). Quantos bispos não o fazem ostentando a mitra? Paulo assinala que estar casado e ser bom marido é requisito para ser eleito bispo (1 Timóteo 3,2). E ainda recomenda que nos submetamos a toda autoridade, ainda que ditatorial (Romanos 13, 1-2).

       “A letra mata, o Espírito vivifica” (2 Coríntios 3,6), proclama o mesmo Paulo. E o próprio Jesus ousou nos posicionar em uma nova óptica quanto aos textos do Antigo Testamento: “Ouviram o que foi dito; eu porém afirmo...” (Mateus 5).

       A fidelidade à Palavra de Deus não se coaduna com a intolerância, o preconceito e a discriminação. E Deus só se faz presente onde há amor (1 João 4,16).

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus – fé e espiritualidade no mundo atual” (Paralela), entre outros livros.
Copyright 2018 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com)

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A VELHA BÍBLIA E A NOVA ARQUEOLOGIA

por Frei Betto



      Os relatos bíblicos do Antigo Testamento são históricos? Abraão, Isaac, José, Moisés e Davi existiram de fato ou são criações literárias como Ulisses, Dom Quixote e Hamlet?

      Até meados do século XIX, pastores, sacerdotes, teólogos dedicados à pesquisa com a picareta em u’a mão e a Bíblia na outra eram a maioria dos arqueólogos... Desde então, as investigações sobre a historicidade dos relatos passou a depender de uma arqueologia descomprometida de interesses religiosos.

      Novas técnicas são, agora, utilizadas, como o carbono 14, a fotografia aérea, o geo-radar (que revela dados do subsolo), o paleomagnetismo (baseado na inversão da polaridade da Terra),  os métodos de potássio árgon, datação radiométrica, medição da idade da matéria orgânica, termoluminiscência (para calcular a antiguidade da cerâmica), e a interpretação de idiomas antigos, o que quebra a mudez de inúmeros documentos.

      Hoje se questiona se houve, de fato, a suposta migração de tribos provenientes da Mesopotâmia rumo ao oeste, com destino a Canaã. A arqueologia ainda não encontrou nenhum indício daquele deslocamento massivo de população.

      As histórias dos patriarcas bíblicos (2000-1700 a.C.) estão repletas de camelos (Gênesis 24, 10). Ora, o dromedário só foi domesticado no fim do 2º milênio antes da nossa era e teve de esperar mais mil anos para ser utilizado como animal da carga no Oriente Médio.

      É fato histórico o êxodo, a travessia do deserto, ao longo de quarenta anos, pelos hebreus libertados do Egito? Desde o século XVI a.C. o Egito ergueu, das margens do Nilo até Canaã, fortes militares. Nada escapava àquelas guarnições. E quase dois milhões de israelitas em fuga não lhes poderiam passar despercebidos. No entanto, nenhuma estela da época registra aquele movimento migratório. Tal multidão não poderia ter atravessado o deserto sem deixar vestígios. O que se encontram são ruínas de casarios de 40 a 50 pessoas, nada mais. A menos que a horda de escravos libertos, alimentada pelo maná que caía do céu, jamais tenha se detido para dormir e comer...

      Os hebreus nunca conquistaram a Palestina. Sempre viveram ali. Os primeiros israelitas eram pastores nômades instalados nas regiões montanhosas de Canaã desde o século XII anterior à nossa era. Ali, umas 250 comunidades, muito reduzidas e isoladas uma da outra, viveram da agricultura. Eram tribos que passavam, com facilidade, do sedentarismo ao nomadismo.

      Supõe-se que, em fins do século VII a.C., funcionários da corte hebraica foram encarregados de compor uma saga épica, composta de uma coleção de relatos históricos, lendas, poemas e contos populares, para servir de fundamento espiritual aos descendentes da tribo de Judá. Criou-se, assim, uma obra literária, em parte elaboração original, em parte releituras de versões anteriores.

      O conteúdo do Pentateuco ou da Torá teria sido elaborado 15 séculos depois do que se supõe. Os líderes de Jerusalém iniciaram uma intensa campanha de profilaxia religiosa e ordenaram a destruição dos santuários politeístas de Canaã. Ergueu-se o Templo para que fosse reconhecido como o único local legítimo de culto do povo de Israel. Daí resulta o monoteísmo moderno.

      No período persa (538-330 a.C.), o povo hebreu, após o exílio na Babilônia, viveu na pequena província de Yehud. Estava fragilizado econômica e politicamente. Seu Deus havia sido derrotado pelo do império babilônico. Como conciliar tamanha frustração com o sonho de ser o único povo eleito de Javé? Graças ao persa Ciro, que os libertou, os hebreus recuperaram a autoestima ao criar uma coletânea de relatos sobre as façanhas do Deus único, histórico, supranacional e senhor do Universo.

      De Abraão a Davi, a narrativa bíblica é um mito fundacional, assim como Virgílio, em sua Eneida, criou a fundação mítica de Roma por Eneias. Os vencidos reescreveram a história, destacaram-se em uma epopeia acima de todos os povos e resgataram a própria identidade.

      Portanto, a Bíblia não caiu do céu. É obra de um povo sofrido, cujo sentimento religioso o levou a se empenhar em descobrir um novo rosto de Deus e recriar sua identidade histórica. Isso, sim, foi um milagre.

      Tais descobertas científicas não abalam a fé, exceto a daqueles que baseiam suas convicções históricas nos relatos bíblicos. A fé, como o amor, é uma experiência espiritual, um dom divino, e quando madura não se apoia nas muletas da ciência, assim como a matemática e a física não dispõem de equação que possa explicar o que une duas pessoas que se amam.

Frei Betto é escritor, autor de “Um Deus muito humano” (Fontanar), entre outros livros.

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terça-feira, 23 de junho de 2015

JOÃO BATISTA, NA BÍBLIA E NAS FESTAS JUNINAS

Marcelo Barros


Nesses dias, em todo o Brasil, a cultura popular é tomada pelas festas juninas. São costumes pré-cristãos muito antigos que cultuavam a natureza na mudança de estação. Pouco a pouco, o Cristianismo adaptou essas festas e lhes deu um novo significado. As fogueiras, brincadeiras e cânticos tradicionais que, nos séculos antigos, representavam cultos à natureza passaram a ter como objetivo fazer memória do nascimento de São João Batista. Nas culturas andinas, nesses dias se celebra a festa do Sol: Inti Rami. Os índios resgatam suas culturas ancestrais e ligam a contemplação da natureza a presença de Deus que nos renova. Ele é como a luz e o calor de um fogo novo em meio à noite fria do inverno.

No Brasil, o povo que participa das festas juninas usam bandeira de São João menino e pouco sabem do que conta o evangelho. Mas, seja como for, através da fogueira, dos fogos e das brincadeiras, sinalizam o que  o evangelho revela: no meio da escuridão do mundo, João foi como uma fogueira que iluminou a presença da Luz que é Jesus. Os grupos de novena e folia sabem que o importante da narrativa do evangelho é anunciar que começa no mundo um tempo novo. O útero da mulher estéril (Isabel) se torna fértil e o pai mudo (Zacarias) se põe a falar. São sinais de que o mal não é inevitável e sempre um milagre pode ocorrer. A esterilidade nossa e do mundo pode se tornar fecunda. Os que não têm voz podem ser profetas de um mundo novo possível.

Ao ressaltar que o rio Jordão atravessa uma região desértica e ao valorizar o batismo como mergulho em uma vida nova, João Batista nos convida a valorizar a água como sinal de vida. Podemos descobrir, mesmo na aridez, oásis de fertilidade e caminhos de vida nova. Em meio a todas as dificuldades, podemos mergulhar no divino (isso é, batizados/as) e ser testemunhas da ação divina de transformação do mundo.

Para a fé cristã, João Batista é principalmente o profeta que aponta o Cristo presente no mundo. João Batista e Jesus de Nazaré reuniram pessoas consideradas socialmente pecadoras e não os religiosos. Esses não os aceitaram. Como naquele tempo, até hoje existe um tipo de espiritualidade que situa as pessoas em uma espécie de elite sagrada. Esses grupos se impõem uma série de ideais e metas que tentam alcançar através de exercícios espirituais. Esse tipo de espiritualidade tem seu valor, mas, muitas vezes, acaba centrando as pessoas nelas mesmas e no objetivo que querem alcançar. A verdadeira espiritualidade nada tem de atletismo espiritual. É amorosidade e capacidade de conviver solidariamente com os outros. Além disso, formar gueto espiritual não ajuda ninguém a perceber o negativo presente em sua vida. A pessoa constrói sua vida espiritual como um edifício sem alicerce. A qualquer momento, aqueles elementos íntimos que são negados e escondidos, mas nem por isso deixam de existir, vêm à tona e passam a dominar. Ao pedir conversão, João Batista nos lembra que temos de assumir nossas negatividades e trabalhá-las, nos descobrindo frágeis e divididos, mas sempre objetos prediletos do carinho divino.


Atualmente, corremos o risco de transformar o mundo inteiro em deserto. Nesses dias, o papa Francisco publicou sua carta encíclica sobre a Ecologia e a nossa responsabilidade comum diante do ambiente. Ele nos convida a ser profetas como João e mostrar que a sociedade capitalista está transformando o mundo inteiro em um imenso deserto. No entanto, nós, cristãos, pessoas de outras tradições espirituais, junto com todas as pessoas de boa vontade, podemos aprimorar o cuidado amoroso com a natureza e todos os seres vivos. Esse cuidado deve se espalhar assim como o rio Jordão atravessa a aridez da Palestina. Seria importante ligar as comemorações juninas com o cuidado com a natureza. As fogueiras não podem destruir a vegetação nem provocar incêndios. Devem iluminar nosso caminho para reconstruir um mundo mais feliz.  Temos também um deserto interior, um espaço de solidão e silêncio no qual precisamos entrar para acolher o divino e ser transformados por ele. Para nós também, João Batista continua a dizer: “No meio de vocês está alguém que vocês não conhecem e ele vai mergulhar a todos/as no Espírito de Amor”.

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A Bíblia no tribunal da vida



Por Marcelo Barros.


     No domingo passado, último do mês de setembro, as comunidades católicas celebram anualmente o dia da Bíblia. É um convite para que se valorize cada vez mais a importância da Bíblia na vida de quem crê. No ano passado, as agências norte-americanas noticiaram que Ernie Chambers, senador por Nebraska, abriu na justiça dos Estados Unidos, um processo criminal contra Deus por provocar o terrorismo dos grupos fanáticos e por ter distribuído um livro considerado sagrado, a Bíblia, que, de acordo com a acusação, serve para transmitir intolerância e discriminação dos crentes contra pessoas e grupos de outras religiões. 

     No Brasil, essa acusação contra Deus não foi formalizada em algum tribunal, mas Deus e a Bíblia são, cada dia, acusados de discriminação religiosa e intolerância. Quase diariamente, em alguma região do Brasil, em nome de Deus e da Bíblia, se cometem atos de agressão a pessoas e grupos de religiões afrodescendentes e outras tradições espirituais. Nesses dias, em uma favela do Rio de Janeiro, traficantes, ditos “evangélicos” expulsaram moradores pelo fato de que seguem a religião do Candomblé. E dizem agir assim em nome da Bíblia.  

      É, então, fundamental que as pessoas de paz e que creem em Deus como Espírito de Amor e não como senhor guerreiro e intolerante possam fazer um mutirão para reinterpretar a Bíblia de outro modo. Ler a Bíblia como um livro que legitima intolerâncias é interpretá-la fora do seu contexto histórico. A Bíblia é uma coleção de escritos, poemas, orações e cartas que foram escritas por muitas pessoas e diversas comunidades que a redigiram durante mais de mil anos. Embora, por causa do contexto cultural e histórico, haja sim palavras e textos que pregam a intolerância, a maioria dos escritos bíblicos procura testemunhar uma palavra divina que ilumina a história vivida pelo antigo povo de Deus de Israel e chama as pessoas para serem mais humanas e amorosas. 

      A humanidade tem em seu tesouro cultural muitos livros sagrados, documentos importantes para muitas religiões antigas e algumas mais novas. De todos os livros sagrados, a Bíblia é o único aceito e assumido como revelação divina por duas religiões diferentes: o Judaísmo e o Cristianismo. Em si mesma, a Bíblia é um livro inter-religioso e no qual aparece uma grande diversidade de culturas e crenças. O Novo Testamento é a parte especificamente cristã que conta como as primeiras comunidades de discípulos e discípulas de Jesus ligaram a história bíblica com a experiência vivida por Jesus e que ele nos chama a viver. 

     
     Ao ler, hoje, essas páginas, podemos descobrir não somente como Deus conduziu o povo antigo de Israel para uma terra e um projeto de vida comunitária, mas como essa história, hoje, pode nos ajudar na construção de um mundo de justiça e paz. Nas páginas da Bíblia, há uma evolução da revelação divina que culmina no Novo Testamento: “Deus é amor. Quem ama vive com Deus e Deus vive com essa pessoa” (1 Jo 4, 16).
Todas as religiões merecem o mais profundo respeito e carinho. Do seu modo, cada uma significa uma resposta amorosa que as diversas culturas humanas dão ao amor divino. Cada uma tem uma pedagogia própria para tornar as pessoas que as seguem mais humanas e mais capazes de amar. No Brasil, as religiões afrodescendentes merecem mais ainda nossa admiração porque foram elementos fundamentais da resistência das comunidades negras, no meio dos maiores sofrimentos e perseguições. Deram às pessoas a confirmação de sua identidade de filhos e filhas muito queridos de Deus. Ao falar com os discípulos depois da ceia, Jesus afirmou: “Na casa do meu Pai, há muitas moradas” (Jo 14, 2). As diversas religiões são como pousos ou lugares de reabastecimento dessa casa de Deus que é o universo. 


 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


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