O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador JOÃO BATISTA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador JOÃO BATISTA. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

JOÃO BATISTA: O PROFETA INCORRUPTO


 Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

O Advento avança com sua proposta de conversão e seus protagonistas.  Um deles é o precursor, o profeta “maior do que todos os filhos de mulher”.  Neste tempo litúrgico, especialmente, sua figura se levanta como aquele que denuncia a corrupção em todos os níveis em que esta existe, mantendo-se inatingível por este verme que corrói a dignidade e a vida justa, levando à idolatria que adora falsas divindades e não o Deus verdadeiro. 

Em tempos de tamanha corrupção, faz-nos bem olhar para aqueles que a denunciam. E João Batista é um deles.  Do deserto já se ouvia sua voz clamando por conversão e mudança de vida.  Seu olhar de profeta via a corrupção acontecendo e ele sabia que a vida que é Deus mesmo se encontrava ameaçada. 

Corrupção vem do latim corrumpere, “destruir, estragar”. Em português, o substantivo feminino corrupção deriva do latim corruptĭo, com o sentido de «deterioração», processo ou efeito de corromper». E este substantivo pode significar:
a) deterioração, decomposição física, orgânica de algo ou putrefação; ou ainda b) modificação, adulteração das características originais de algo.

Desde tempos imemoriais, a corrupção está presente como possibilidade maléfica para o agir e o comportamento humanos.  Em sua ambiguidade, o ser humano, homem ou mulher, “deseja o bem, mas não o pratica; e não deseja o mal, mas o pratica”.  Assim já dizia Paulo de Tarso na Carta aos Romanos 7, 19.  Ser humano é ser dividido, é ser campo disputado, é ter inclinações em mais de uma direção e, portanto, dever exercitar a liberdade a cada minuto e a cada passo. 

Por sua vez, idolatria encontra sua raiz em ídolo, do grego “eidolon”, que significa aspecto, imagem mental, fantasma, aparição, assim como também imagem material, estátua.  E ainda de “eidos”, que é forma.  Ambos os termos se juntam a “latreia”, serviço, adoração e aí temos a palavra idolatria: o culto e o serviço prestados a algo que é falso. O ídolo é, então, uma representação da divindade, a qual se faz objeto de culto, usurpando essa imagem o lugar de Deus e recebendo em vez d´Ele a adoração ou o culto.
Para a Bíblia, o principal problema na idolatria é a traição. Não se trata de um erro metafísico, uma questão de ontologia, mas de ética. A questão chave não é o que as pessoas acreditam, mas como elas se comportam. A idolatria é principalmente uma forma de vida, não uma visão metafísica de mundo. Por esta razão, as principais metáforas bíblicas da idolatria são o adultério e a deslealdade sob todas as suas formas, inclusive a política.
Na Bíblia hebraica, a corrupção se torna próxima à idolatria porque, em qualquer de seus níveis, seja ele moral ou político, é sempre uma traição à verdade.  Ou seja, trata-se de pautar o comportamento, as atitudes, a ética sobre bases que não são verdadeiras.  Adora-se o não verdadeiro.  E essa não verdade corrompe a atitude da adoração que se presta e transborda em frutos envenenados de corrupção os mais diversos, sendo o pior deles a justificação de comportamentos daninhos aos mais vulneráveis e a exploração dos pequenos e pobres. 
Alguns profetas em Israel denunciaram esse estado de coisas. Por causa disso, foram perseguidos e mortos. Assim foi com João Batista, o profeta de palavras de fogo que chamava à conversão o povo infiel e reconheceu em Jesus que com ele andava alguém maior diante de quem era importante retirar-se.  “É preciso que Ele cresça e eu diminua”. 
O mesmo João Batista, mais tarde, quando Jesus já pregava o Reino de Deus pelas cidades e aldeias, denunciará a corrupção do rei Herodes, que tomara para si a mulher de seu irmão.  “Não te é lícito tê-la por mulher”, clamou João diante do rei. E foi preso.  Ganhou por isso o ódio de Herodíades, mulher de Herodes, que terminou conseguindo que sua jovem e sedutora filha Salomé pedisse a cabeça do profeta em uma bandeja de prata. 
Herodes – covarde como em geral o são os corruptos de todos os perfis – havia lhe prometido tudo que quisesse após a dança com que o encantara.  Tudo, mesmo que fosse mais do que a metade de seu reino.  Teve que conceder à ambiciosa jovem a vida do homem cuja cabeça valia mais do que a metade de um reino. 
Hoje a corrupção idolátrica maior não visa tanto a luxúria como a cobiça e o enriquecimento ilícito. A sociedade em que vivemos é corrupta.  E, portanto, idólatra. Deforma constantemente seu rosto e seu perfil vivendo na mentira, na clandestinidade e na espoliação descarada e iníqua dos mais pobres e vulneráveis. Acumula riquezas incalculáveis às custas da exploração daqueles que mal têm o que comer e que trabalham de sol a sol para ganhar um salário inferior a suas necessidades. Sendo corrupta, é igualmente idólatra.  Ama com verdadeira adoração as coisas materiais e as erige em ídolos que passam à frente dos verdadeiros valores. Transforma o mercado, o lucro, a riqueza em deus e vive da e na crença nesse Deus.  
Já o Papa Francisco afirma a aproximação entre corrupção e idolatria:   “A corrupção sempre encontra o modo para se justificar, apresentando-se como a condição “normal”, a solução de quem é “esperto”, o caminho para atingir os seus objetivos. Tem uma natureza contagiosa e parasitária, porque não se nutre do que de bom produz, mas do que subtrai e rouba. É uma raiz venenosa que altera a sã concorrência e afasta os investimentos. Enfim, a corrupção é um “habitus” construído sobre a idolatria do dinheiro e da mercantilização da dignidade humana... “ 
Que neste Advento a figura luminosa e incorruptível de João Batista nos abra os caminhos da justiça e da fidelidade, a fim de podermos construir um mundo e muito concretamente um Brasil menos deteriorado e putrefato para legar a nossos filhos e netos. 
A teóloga é autora Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial.
 Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


terça-feira, 23 de junho de 2015

JOÃO BATISTA, NA BÍBLIA E NAS FESTAS JUNINAS

Marcelo Barros


Nesses dias, em todo o Brasil, a cultura popular é tomada pelas festas juninas. São costumes pré-cristãos muito antigos que cultuavam a natureza na mudança de estação. Pouco a pouco, o Cristianismo adaptou essas festas e lhes deu um novo significado. As fogueiras, brincadeiras e cânticos tradicionais que, nos séculos antigos, representavam cultos à natureza passaram a ter como objetivo fazer memória do nascimento de São João Batista. Nas culturas andinas, nesses dias se celebra a festa do Sol: Inti Rami. Os índios resgatam suas culturas ancestrais e ligam a contemplação da natureza a presença de Deus que nos renova. Ele é como a luz e o calor de um fogo novo em meio à noite fria do inverno.

No Brasil, o povo que participa das festas juninas usam bandeira de São João menino e pouco sabem do que conta o evangelho. Mas, seja como for, através da fogueira, dos fogos e das brincadeiras, sinalizam o que  o evangelho revela: no meio da escuridão do mundo, João foi como uma fogueira que iluminou a presença da Luz que é Jesus. Os grupos de novena e folia sabem que o importante da narrativa do evangelho é anunciar que começa no mundo um tempo novo. O útero da mulher estéril (Isabel) se torna fértil e o pai mudo (Zacarias) se põe a falar. São sinais de que o mal não é inevitável e sempre um milagre pode ocorrer. A esterilidade nossa e do mundo pode se tornar fecunda. Os que não têm voz podem ser profetas de um mundo novo possível.

Ao ressaltar que o rio Jordão atravessa uma região desértica e ao valorizar o batismo como mergulho em uma vida nova, João Batista nos convida a valorizar a água como sinal de vida. Podemos descobrir, mesmo na aridez, oásis de fertilidade e caminhos de vida nova. Em meio a todas as dificuldades, podemos mergulhar no divino (isso é, batizados/as) e ser testemunhas da ação divina de transformação do mundo.

Para a fé cristã, João Batista é principalmente o profeta que aponta o Cristo presente no mundo. João Batista e Jesus de Nazaré reuniram pessoas consideradas socialmente pecadoras e não os religiosos. Esses não os aceitaram. Como naquele tempo, até hoje existe um tipo de espiritualidade que situa as pessoas em uma espécie de elite sagrada. Esses grupos se impõem uma série de ideais e metas que tentam alcançar através de exercícios espirituais. Esse tipo de espiritualidade tem seu valor, mas, muitas vezes, acaba centrando as pessoas nelas mesmas e no objetivo que querem alcançar. A verdadeira espiritualidade nada tem de atletismo espiritual. É amorosidade e capacidade de conviver solidariamente com os outros. Além disso, formar gueto espiritual não ajuda ninguém a perceber o negativo presente em sua vida. A pessoa constrói sua vida espiritual como um edifício sem alicerce. A qualquer momento, aqueles elementos íntimos que são negados e escondidos, mas nem por isso deixam de existir, vêm à tona e passam a dominar. Ao pedir conversão, João Batista nos lembra que temos de assumir nossas negatividades e trabalhá-las, nos descobrindo frágeis e divididos, mas sempre objetos prediletos do carinho divino.


Atualmente, corremos o risco de transformar o mundo inteiro em deserto. Nesses dias, o papa Francisco publicou sua carta encíclica sobre a Ecologia e a nossa responsabilidade comum diante do ambiente. Ele nos convida a ser profetas como João e mostrar que a sociedade capitalista está transformando o mundo inteiro em um imenso deserto. No entanto, nós, cristãos, pessoas de outras tradições espirituais, junto com todas as pessoas de boa vontade, podemos aprimorar o cuidado amoroso com a natureza e todos os seres vivos. Esse cuidado deve se espalhar assim como o rio Jordão atravessa a aridez da Palestina. Seria importante ligar as comemorações juninas com o cuidado com a natureza. As fogueiras não podem destruir a vegetação nem provocar incêndios. Devem iluminar nosso caminho para reconstruir um mundo mais feliz.  Temos também um deserto interior, um espaço de solidão e silêncio no qual precisamos entrar para acolher o divino e ser transformados por ele. Para nós também, João Batista continua a dizer: “No meio de vocês está alguém que vocês não conhecem e ele vai mergulhar a todos/as no Espírito de Amor”.

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países