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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

AS ELEIÇÕES ATUAIS À LUZ DA HISTÓRIA ANTIPOVO



Por Leonardo Boff


Nada melhor do que ler as atuais eleições à luz da história brasileira na tensão entre as elites e o povo. Valho-me da uma contribuição de um sério historiador com formação em Roma, em Lovaina e na USP de São Paulo o Pe. José Oscar Beozzo, uma das inteligências mais brilhantes de nosso clero.
Diz Beozzo: “a questão de fundo em nossa sociedade é a do direito dos pequenos à vida sempre ameaçada pela abissal desigualdade de acesso aos meios de vida e pelas exíguas oportunidades abertas às grandes maiorias do andar debaixo.

Como nos ensina Caio Prado Júnior, nossa sociedade desigual repousa sobre quatro pilares difíceis de serem movidos: a) a grande propriedade da terra concentrada nas mãos de poucos de tal modo que não haja terra “livre” e “disponível” para quem trabalha ou para os que eram seus donos originários; b) o predomínio da monocultura; c) a produção voltada para o mercado externo (açúcar, tabaco, algodão, café e hoje soja; d) o regime de trabalho escravo.
A independência de Portugal não alterou nenhum destes pilares. Os que naquela época sonharam com um Brasil diferente, propunham a troca da grande pela pequena propriedade nas mãos de quem trabalhava; da monocultura para a policultura; da produção para o mercado internacional por outra voltada para o autoconsumo e para o abastecimento do mercado interno; do trabalho escravo pelo trabalho familiar livre. Isso pôde acontecer em quenas regiões da serra gaúcha e de Santa Catarina, com colonos alemães, italianos, poloneses, hoje um campo mais democratizado.

Houve geral oposição dos grandes proprietários escravistas a qualquer dessas medidas e foram matados a ferro e fogo levantes populares que apontavam para qualquer medida democratizante na economia, na política e sobretudo nas relações de trabalho. Basta rememorar algumas dessas revoltas: a insurreição dos escravos Malês na Bahia, a Balaiada no Maranhão, a Cabanagem na Amazônia, a revolução Praieira em Pernambuco, a Farroupilha no Sul.

A monarquia caiu menos por seus anacronismos do que pela Lei Áurea que lhe retirou o apoio dos barões do café escravocratas e das chamadas classes “produtoras”, como se os produtores não fossem os escravos que trabalhavam.
A revolução de 30, com seu viés nacionalista, mesmo que parcialmente, deslocou o eixo do país do mercado externo para o interno; do modelo agrário exportador para o de substituição de importações; do domínio das elites exportadoras do café do pacto Minas/São Paulo, para novas lideranças das zonas de produção para o mercado interno, como as do arroz e charque do Rio Grande do Sul; do voto censitário, para o voto “universal” (menos para os analfabetos, naquela época ainda maioria entre os adultos), do voto exclusivamente masculino para o voto feminino; das relações de trabalho ditadas apenas pelo poder dos patrões para a sua regulação, pelo menos na esfera industrial com a criação do Ministério do Trabalho e das leis trabalhistas voltadas para a classe operária . Não se conseguiu tocar o domínio incontornável dos proprietários de terra na regulação das relações de trabalho dentro de suas propriedades, o que só vai acontecer depois de 1964.

Getúlio implantou uma política corporativista de apaziguamento entre as classes e de “cooperação” entre capital e trabalho, entre operários e os capitães da indústria em torno de um projeto de industrialização e defesa dos interesses nacionais. Ele criou as bases para o Brasil moderno.

Nesta campanha eleitoral certos meios de comunicação criaram o motto: “Fora PT”. Busca-se acabar com a “ditadura” do PT, para deixar campo livre para instaurar a “ditadura do mercado financeiro”. O que realmente incomoda? A corrupção e o mensalão?

A meu ver, o que incomoda, em que pesem todos seus limites, são as medidas democratizantes como o Pro-Uni, as cotas nas universidades para os estudantes vindos da escola pública e não dos colégios particulares; as cotas para aqueles cujos avós vieram dos porões da escravidão; a reforma agrária, ainda que muito aquém de tudo o que seria necessário, como sempre nos lembrou Dom Tomás Balduino; a demarcação e homologação em área contínua da terra Yanomami contra a grita de meia dúzia de arrozeiros apoiados pelo coro unânime dos latifundiários e do agronegócio, assim como todos os programas sociais do Bolsa Família, ao Luz para Todos, ao Minha Casa, minha Vida, o Mais Médicos e daí para frente.

Nunca incomodou a estes críticos que o Estado pagasse o estudo de jovens estudantes de famílias ricas que deram a seus filhos boa educação em escolas particulares, o que lhes franqueou o acesso ao ensino gratuito nas universidades públicas aprofundando e consolidando a desigualdade de oportunidades. Esse estudo custa mensalmente ao Estado no caso de cursos como o de Medicina de seis a sete mil reais. Nunca protestaram essas famílias contra essa “bolsa-esmola” dada aos ricos, e que é vista como “direito” devido a seus méritos e não como puro e escandaloso privilégio. São os mesmos que se recusam a ser médicos nos interiores e nas periferias que não dispõem de um médico sequer.
Os que sobem o tom dizendo que tudo no país está errado, em que pese a melhoria do salário mínimo, a criação de milhões de empregos, a ampliação das políticas sociais em direção aos mais pobres, a criação do Mais-Médicos, posicionam-se contra as políticas do PT que visam a assegurar direitos cidadãos, ampliar a democratização da sociedade, combater privilégios e sobretudo colocar um pouco de freio (insuficiente a meu ver) à ganância e à ditadura do capital financeiro e do “mercado”.

É esta a razão do meu voto para outro projeto de país, que atende às demandas sempre negadas às grandes maiorias. É por isso, que votei Dilma no primeiro e o farei no segundo turno, respeitando as ponderações e escolhas dos que enxergam um caminho diferente e viável para o momento atual” (jbeozzo@terra.com.br). É esse também o meu pensamento.


Leonardo Boff escreveu Hospitalidade: direito e dever de todos, Vozes, Petrópolis 2005.
 É filósofo e teólogo, escritor, assessor do projeto Cultivando Agua Boa da Itaipu Binacional  e um dos co-redatores da Carta da Terra

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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

MAFALDA: UMA GRANDE MENINA



Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 

 
Incrível, querida Mafalda, que você já esteja com meio século de existência.  Parece que foi ontem que travei conhecimento com você e sua turma de crianças diferenciadas.  E desde o primeiro momento, confesso que me apaixonei por você, tão idealista, com seu jeito politizado e, ao mesmo tempo, terno.

Você, querida Mafalda, na verdade é uma apaixonada pelas pessoas e pelo mundo.  Você ama os outros e as coisas que existem ao seu redor.  Por isso mesmo é muito exigente com elas.  Os primeiros a sentir o peso de sua exigência são seus pais.  Como você deve tê-los enchido de ansiedade, menina de cabelos pretos e olhar perscrutante.  Suas perguntas os deixam de olhos abertos a noite toda, sem conciliar o sono, indagando-se o que você quer dizer e aonde quer chegar.

Mas ao mesmo tempo, com toda a sua crítica a tudo e todos em sua casa – a começar pela sopa tão odiada “que é para a infância o que é o comunismo para a democracia” –, você ama seus pais e os olha com uma ternura que perdoa suas limitações e acolhe suas imperfeições na difícil arte de te amar.  Seu irmãozinho Guille é objeto igualmente de sua ternura e desde pequeno já começa a assimilar sua visão crítica do mundo e da realidade.  Vai longe esse menino!

Com sua turma de amigos já brinquei muitas vezes e entrei na roda do teimoso e pão-duro Manolito, da alienada Susanita, do terno Felipe...junto com você. Sempre foi uma delícia ver como você interage com eles, amiga, companheira, mas também verdadeira, sabendo levantar a voz e ser crítica quando é necessário. Às vezes a insensibilidade de Susanita, ou as “viagens” de Felipe impacientam você, que vai então refugiar-se no seu quarto e pensar, pensar e mais pensar.  Porém, muitas vezes você se diverte com eles como criança da sua idade e eu, avó que já sou, morro de rir dessas brincadeiras que me fazem lembrar meus netos.

Sua relação de maior afeto, no entanto, Mafalda, é com o mundo.  Só nele eu já vi você enternecida e cheia de compaixão.  Seu coração sensível e sua mente brilhante e perspicaz têm profunda pena deste mundo tão louco, tão injusto, mas também tão sofrido, tão combalido por guerras, lutas fratricidas, injustiças de toda sorte.  Sua cabecinha não para de se perguntar uma e outra vez o porquê de tudo que acontece e deforma este mundo que poderia ser pacífico.  Talvez de todas as suas tirinhas a que mais me enterneceu tenha sido aquela onde você aparece em atitude protetora ao lado do globo terráqueo colando um band-aid sobre sua superfície.

Isso diz muito sobre sua personalidade.  Enraivecida, rebelde, não se conformando com o mundo tal qual é.  Mas também carinhosa, compassiva, compreensiva com as limitações de todos e também deste mundo, que é a nossa, a sua casa e que sofre bastante com os desvarios e loucuras dos seres humanos. Tal como seu criador, Quino, você é uma pessoa pacífica, mas que não suporta injustiças.  E por isso se enraivece quando elas acontecem.

Neste seu aniversário de meio século, comemorado nesta segunda-feira, 29 de setembro, quero agradecer a você a grande inspiração que tem sido para mim. São cinquenta anos que você nos encanta, nos faz rir, pensar, refletir, chorar e ter mais força para enfrentar o cotidiano às vezes bem duro que é o nosso.

Sobretudo nós, mulheres, devemos muito a você.  Quando nos desesperamos com a idade que nos faz engordar, você nos ensina que na verdade não acumulamos gordura saturada e sim inteligência, saber, conhecimento.  E como tanta sabedoria não cabe em nossa cabeça, mas se esparrama por nosso corpo, nossas formas se avolumam e se arredondam.  Mas isso não significa que somos gordas, e sim cultas, muito cultas.

Por ser inteligente, politizada e culta, querida Mafalda, você chega à chamada “meia idade” sem achar que a academia de ginástica é o lugar mais importante do mundo, nem que tem que ter aos 50 o mesmo corpo que tinha aos 18.  Você sabe que o mais importante se leva na cabeça e no coração, e não na cintura, nos quadris ou nos seios.

Há muitos séculos um homem muito inteligente e culto dizia às comunidades que fundara e que amava ternamente: “Não vos conformeis com este mundo”.  Feliz você que não se conforma com ele e o quer melhor.  Por isso critica os que o fazem injusto. Mas ao mesmo tempo sabe pousar carinhosamente o band-aid sobre suas feridas.

Do fundo do coração, parabéns!!!  E que venham os outros cinquenta!

Maria Clara Bingemer convida para o lançamento de mais um livro seu – FINITUDE E MISTÉRIO – MÍSTICA E LITERATURA MODERNA – este em coautoria (Editoras Mauad e PUC-Rio). Será no próximo dia 9 de outubro, a partir de 19 horas, na  Blooks Livraria (Praia de Botafogo, 316) Rio de Janeiro

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

PAPA BUSCA IDENTIFICAR A FAMÍLIA ATUAL



Por Frei Betto

       Desde de 5 de outubro, até o próximo dia 19, reúne-se em Roma o Sínodo Extraordinário sobre a Família. Convocado pelo papa Francisco em outubro de 2013, esta reunião de bispos do mundo inteiro foi precedida pelo debate em torno de documento sobre os desafios à Igreja, dentre os quais os novos perfis de família. O tema será retomado no Sínodo Ordinário de 2015.

      Constata o documento: “Hoje perfilam-se problemáticas até há poucos anos inéditas, desde a difusão dos casais de fato, que não acedem ao matrimônio e, às vezes, excluem esta própria ideia, até as uniões entre pessoas do mesmo sexo, às quais não raramente é permitida a adoção de filhos. Entre as numerosas novas situações que exigem a atenção e o compromisso pastoral da Igreja, será suficiente recordar: os matrimônios mistos ou interreligiosos; a família monoparental; a poligamia; os matrimônios combinados, com a consequente problemática do dote, por vezes entendido como preço de compra da mulher; o sistema das castas; a cultura do não comprometimento e da presumível instabilidade do vínculo; as formas de feminismo hostis à Igreja; os fenômenos migratórios e a reformulação da própria ideia de família; o pluralismo relativista na noção de matrimônio; a influência dos meios de comunicação sobre a cultura popular na compreensão do matrimônio e da vida familiar; as tendências de pensamento subjacentes a propostas legislativas que desvalorizam a permanência e a fidelidade do pacto matrimonial; a difusão do fenômeno das mães de substituição (“barriga de aluguel”); e as novas interpretações dos direitos humanos. Mas, sobretudo, no âmbito mais estritamente eclesial, o enfraquecimento ou abandono da fé na sacramentalidade do matrimônio e no poder terapêutico da penitência sacramental.”

      Francisco vai direto ao ponto, ao contrário de outros papas que, para não criar atritos com os conservadores, preferiam deixar às calendas temas candentes que exigem, com urgência, posicionamento da Igreja, como aborto, sacerdócio de mulheres, volta ao ministério sacerdotal de padres casados, homossexualidade, celibato obrigatório etc.

      O documento preparatório explicitou as preocupações do papa, entre as quais como evangelizar crianças de pais divorciados impedidos de se aproximar dos sacramentos? Podem os divorciados participar da eucaristia?

      O documento enviou a todas as dioceses do mundo perguntas cujas respostas servem agora de base ao Sínodo Extraordinário. Entre elas, o tópico “Sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo: a) Existe no vosso país uma lei civil de reconhecimento das uniões de pessoas do mesmo sexo, equiparadas de alguma forma ao matrimônio? b) Qual é a atitude das Igrejas particulares e locais, quer diante do Estado civil promotor de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, quer perante as pessoas envolvidas neste tipo de união? c) Que atenção pastoral é possível prestar às pessoas que escolheram viver em conformidade com este tipo de união? d) No caso de uniões de pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças, como é necessário comportar-se pastoralmente, em vista da transmissão da fé?”

      Não se espere desta reunião decisões que, da noite para o dia, mudem o comportamento pastoral da Igreja Católica. Instituição bimilenária, seus avanços são cautelosos.

      No entanto, Francisco tem pressa. Conhece os escândalos no interior da Igreja: casos gritantes de pedofilia (que ele pune com rigor); congregações religiosas que se transformaram em grandes empresas famintas por lucros; casais que mantêm relações sexuais sem intenção de procriar (o que é vetado pela doutrina em vigor); jovens que perdem a virgindade antes do casamento; relativização da ideia de pecado etc.

      O fundamento da família é o amor. “Deus é amor” e “quem ama nasceu de Deus”, diz João no capítulo 4 de sua primeira carta. De que vale uma família desprovida de amor? E Deus não se faz presente em toda verdadeira relação amorosa, ainda que fuja ao modelo de família próprio da modernidade?
      Sonho com o dia em que um casal de jovens, ao experimentar a primeira paixão, saiba que faz experiência de Deus!

Frei Betto é escritor, autor do romance “Aldeia do silêncio” (Rocco), entre outros livros.
     


 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O ENIGMA CANUDOS



Por Eduardo Hoornaert


“A Revista Caros Amigos publicou recentemente o primeiro fascículo de uma coleção intitulada ‘Revoltas Populares no Brasil’. O primeiro número dessa coleção deve estar nas bancas. Trata de Canudos, sendo que a Coleção inteira, que deve sair aos poucos, vai abranger 12 temas. Diante da importância dessa iniciativa e especialmente desse número, com o qual colaborei, publiquei no meu blog (www.eduardohoornaert.blogspot.com) um texto intitulado ‘O enigma Canudos’, pois a questão de Canudos até hoje não está sendo colocada como deve, principalmente por causa da interferência do livro ‘Os Sertões’ de Euclides da Cunha, que continua servindo como a principal referência. Eis o que me levou a redigir o texto que ora publico em meu blog.”

1. Cheguei a me interessar pelo tema Canudos por ocasião de diversos simpósios organizados no Brasil e no exterior (na Colônia, Alemanha, por exemplo) em 1997, por ocasião do centenário de Canudos. Foi aí que percebi o quase consenso em torno da interpretação de Canudos apresentada por Euclides da Cunha.
Naquelas comemorações, o autor dos ‘Sertões’ era considerado por muitos uma autoridade ‘inconteste’ e isso me estimulou a estudar o assunto. Hoje estou convencido de que o celebrado autor continua colocando um biombo entre nós e Canudos. Em nenhum momento, ele considera Antônio Conselheiro uma pessoa normal. Não poupa qualificativos para desprestigiá-lo: o Conselheiro é um ‘heresiarca’, ‘desequilibrado mental’, ‘terribilíssimo antagonista’, estranho anacoreta de olhar sombrio, fulgurante e monstruoso, um montanista (do século II) perdido em nosso mundo moderno, um extravagante.
Estranhei o consenso em torno desse autor: Maria Isaura de Queiroz chama o Conselheiro de ‘messias’ e nisso é seguido pelo autor americano Ralph Della Cava. O mesmo acontece com o romancista peruano Mário Vargas Losa (‘A guerra no fim do mundo’) e o historiador americano Robert Levine (‘O sertão prometido’). Ambos seguem Euclides da Cunha e Maria Isaura de Queiroz. Todos esses escritores parecem esquecer que, na época em que se preparavam freneticamente as expedições contra Canudos na cidade de Rio de Janeiro, soou uma importante voz destoante, a do escritor Machado de Assis. Cansado de ouvir vitupérios contra Antônio Conselheiro, ele escreveu no Jornal do Commércio, do Rio de Janeiro, as seguintes palavras: ‘Conselheiro, que Conselheiro? Não me ponham nome algum. Um que desafia a ordem e a lei e só com uma palavra de fé congrega três mil pessoas é alguém’. Para Machado, o Conselheiro é ‘alguém’, uma pessoa humana com quem se deve antes de tudo dialogar, que merece ser conhecido pelo que realmente é. O famoso escritor carioca aconselha então que se forme uma comissão para ir falar com o Conselheiro em Canudos. Machado de Assis vai ao âmago da questão, mas ninguém quer saber de sua proposta. Os ânimos estão muito excitados e sua recomendação cai no vazio. Não combina com o postulado fundamental da guerra de Canudos: o Conselheiro é um desequilibrado perigoso seguido por fanáticos ignorantes. Sem esse pressuposto, não há como fazer guerra. Decepcionado, Machado de Assis deixa de tocar no assunto em suas crônicas. Nesse episódio aparece uma síndrome que acompanha a história humana desde suas origens e que René Girard chama de ‘síndrome do bode expiatório’. O Conselheiro tem de ser sacrificado no altar da ordem e do progresso, senão a república tem de mostrar sua verdadeira face que é a de um golpe militar. Trata-se de destruir Canudos em nome da república, ou seja da ‘ordem’ e do ‘progresso’, a ordem burguesa e o progresso dos negócios. Em nome dessa ideia, é permitido pisar em cima das vítimas de Canudos. Para os militares que executam a vergonhosa e covarde campanha de Canudos e principalmente para os políticos do Rio de Janeiro, o repórter-escritor Euclides da Cunha cai do céu, pois ele consegue construir uma epopeia em cima dos fatos. O reino de Euclides já dura mais de cem anos e nada prediz que esteja chegando ao fim. Eis o que me levou a me interessar pela história de Canudos.

 2. Uma coisa me parece clara: se Antônio Conselheiro chegou a agrupar tanta gente, é que seu modo de pensar e se comportar correspondia à cosmovisão do povo sertanejo. As pessoas reconhecem no Conselheiro uma figura ancestral, cuja imagem passa de geração em geração, basicamente fora do universo das letras, e remonta até os tempos bíblicos, atravessando a Modernidade, a Idade Média e os séculos da igreja grega (bizantina). Isso quer dizer que perdura no povo sertanejo um cristianismo relativamente imune à helenização que atingiu de cheio as classes cristãs letradas desde o século III (os autores alexandrinos) e que até hoje marca nossa maneira de entender o evangelho, pelo menos entre pessoas letradas. A chamada ‘religiosidade popular’, vivida predominantemente por iletrados, está mais perto da cosmovisão bíblica, que a religião praticada por pessoas escolarizadas. Essa religiosidade foca diretamente a contradição entre Deus e Satanás. 

Eis uma maneira de entender a vida e o mundo que hoje nos parece estranha e uma explicação. Um véu de incompreensão nos impede entender corretamente palavras como ‘apocalíptica’, ‘messianismo’, Satanás, anjo, demônio, céu, inferno, condenação, salvação. O livro ‘O messianismo no Brasil e no mundo’, da autoria de Maria Isaura de Queiroz, teve um grande sucesso, mas é baseado numa visão do messianismo que não corresponde ao que os autores bíblicos pretenderam dizer. Conto um episódio pessoal a esse respeito. Quando resolvi dar ao meu ensaio o título ‘Os Anjos de Canudos’ (editora Vozes, 1997) e sugerir aos editores uma capa em que eram representados dois anjinhos, alguns de meus leitores pensavam logo nos anjinhos pintados nas igrejas. Não perceberam que, no desenho da capa de meu livro, os anjinhos só eram aparentemente inocentes, pois estavam sentadas em cima do enorme cano do famoso canhão da quarta expedição contra Canudos e estavam colocando uma flor na boca do cano. Eram, na realidade, os anjos guerreiros de Deus contra Satanás da literatura apocalíptica, os príncipes angélicos Miguel, Gabriel, Uriel e Rafael, combatentes contra os demônios que governam a terra, disfarçados em anjinhos de aparência inocente. 

Pois por trás das imagens apocalípticas, que nos causam estranheza, existe uma análise consistente da sociedade.  A linguagem bíblica de teor apocalíptico interpreta a sociedade de forma lúcida. Pensando bem, será que o mundo não é dominado por Satanás? Será que Deus não toma partido pelas vítimas de sistemas injustos? Será que os ‘anjos’ não lutam a favor dos desvalidos?

Os sermões do Conselheiro estão recheados de imagens bíblicas. Eles precisam ser lidos de forma contextualizada, pois o linguajar do beato é uma sedimentação literária de acontecimentos desde muito varridos pelos ventos da história. Os canudenses entendem o que o beato prega, eles interpretam sua guerra como uma guerra de Deus contra Satanás. As tropas que enfrentam são ‘do diabo’. As poucas palavras que o cineasta Antônio Olavo ainda conseguiu resgatar, nos anos 1990, da boca de parentes e conhecidos de sobreviventes, em seu filme documentário sobre Canudos (baseado em 3 anos de pesquisa, viagens por 7 mil quilômetros e visitas a 180 cidades do Nordeste), são de caráter bíblico: besta fera, anticristo, lei do cão, Deus, Satanás, anjos, demônios, céu, inferno, condenação, salvação, blasfêmia etc. Penso que é nesse sentido que, em sua pergunta, você fala em ‘ponto de vista teológico’. Realmente, tem muito a ver. Mas eu prefiro falar em ‘linguagem’, modo de se expressar. O que aconteceu (e continua acontecendo) é que as classes letradas do Brasil não entendem a linguagem dos sertanejos iletrados e acabam pensando que eles não pensam adequadamente. Alguns exageram e dizem que os sertanejos não pensam de forma nenhuma, são simplesmente fanáticos e ignorantes que pertencem ao passado, intelectualmente inferiores. Nesse rol de qualificativos entram termos como ‘messiânico’, ‘apocalíptico’ etc., sem a devida averiguação literária. Imbuídas de ideologias modernas de ‘ordem e progresso’, ‘desenvolvimento’, ‘crescimento’ e ‘avanço’, as classes letradas não deixam espaço para vastos setores deste país que não são tão ‘progressistas’ assim. Elas pensam que suas categorias são universais e qualificam de ‘religiosidade popular’ qualquer outra maneira de pensar. O tema é vastíssimo e aqui não é o caso de aprofundá-lo. Na mesma linha, Antônio Conselheiro permanece enigmático, como mostra a sua iconografia, mesmo aquela que pretende apresentá-lo de forma positiva. Ele nos vem apresentado como uma pessoa que vive fora da realidade e com quem não se pode conversar. Não aparece como uma pessoa normal.

 3. Como escrevi acima, o tema do messianismo tem sido aplicado pela maioria dos autores aos movimentos oriundos no universo rural do Brasil. Em seu celebrado livro ‘O Messianismo no Brasil e no Mundo’, Maria Isaura de Queiroz acentua a ‘irregularidade’ e ‘atemporalidade’ desses movimentos. Em que tipo de pesquisa a autora baseia essas afirmações? A mesma pergunta pode ser feita a autores que procuram entender Canudos por meio de categorias marxistas e descrevem essa cidade como sendo uma sociedade sem classes, sem patrões nem empregados, onde se pratica o uso coletivo das terras. Na realidade, Canudos era um conglomerado humano normal, igual a qualquer cidade do interior do Nordeste: uma espinha dorsal formada pela rua principal com casas de alvenaria, habitada por comerciantes prósperos, que até faziam comércio (de couros) com o exterior, uma igreja exorbitante em suas dimensões grandiosas (há muitos casos no interior do Nordeste) e em torno os casebres dos pobres, de palma e adobe. Pobres e ricos, como em todos os lugares. Mas é verdade que ali a fome não existia, e isso explica o forte poder de atração exercido por Canudos. Os pobres vieram de todo canto habitar ali e fizeram de Canudos, em poucos anos (entre 1889 e 1897), a segunda cidade da Bahia, com aproximadamente 25 mil habitantes. Então Canudos tem nada de messiânico, mas é um lugar onde as pessoas não passam fome.

4. É preconceituoso pensar que Canudos incomodou as elites locais (os fazendeiros), pois é sabido que Canudos organizava de vez em quando ‘mutirões itinerantes’. Um grupo de pessoas ia a uma determinada fazenda da região para executar trabalhos de grande porte, que exigiam muita mão se obra, como construir uma barragem, cavar um canal ou um açude. Esses grupos ficavam por vezes longos meses nas ditas fazendas, comendo a boa carne e tomando leite à vontade. O clima não era de tensão, mas de colaboração. No início, a igreja tampouco se incomodou com Canudos. Inclusive, os vigários do interior costumavam convidar Antônio Conselheiro para pregar nas novenas do(a) padroeiro(a), o que rendia um bom dinheiro para as paróquias, pois o povo corria de longe para ouvir o beato. O arcebispo da Bahia começou a se incomodar quando um padre influente lhe disse que o Conselheiro era um ‘herege’. Ele mandou a Canudos dois frades italianos, novatos no Brasil, que não entendiam nada do país e se comportaram de forma arrogante, desafiavam e humilhavam os canudenses. De volta a Salvador, eles entregaram ao arcebispo um relatório péssimo da viagem. Um detalhe vergonhoso: o arcebispo mandou um recado ao ministro do interior, solicitando uma vaga num hospício de alienados para o Conselheiro. Sabemos como era a vida (ou melhor: a morte) nos hospícios desse tipo, no final do século XIX.

Quem se incomodou de verdade com Canudos foram as lideranças militares do Rio de Janeiro, as forças organizadoras da recém-criada república brasileira. No famoso sermão do Conselheiro contra a república, ele disse que a república não vinha de Deus, mas do demônio. Eis o que incomodou de verdade.  Nos gabinetes do Rio de Janeiro, essa maneira de falar só podia ser expressão de uma mente louca, perigosa e enganadora.

5. Na década de 1990 aparecem diversas tentativas no sentido de elucidar o enigma Canudos. Só comento aqui brevemente o livro do historiador Marcos Antônio Villa, intitulado ‘Canudos, o povo da terra’ (Ática, 1995) e o comparo com o filme documentário de Antônio Olavo, já citado acima. Villa abandona logo a tentativa de se trabalhar com fontes orais e alega que, após 1950, não há mais como encontrar pessoas que vivenciaram os acontecimentos. Ele então descarta a ‘história oral’ e se dedica exclusivamente à análise de documentos escritos, com competência. Mas, nos mesmos anos 1990, o cineasta Antônio Olavo viaja longamente pelo sertão para resgatar palavras diretas da boca de pessoas que têm alguma lembrança da guerra, falam o linguajar do sertão e usam categorias linguísticas próprias do povo sertanejo. Eis onde reside a diferença. 

Enquanto o historiador Villa não enxerga nenhuma possibilidade de trabalhar em cima de um material oral, o cineasta Olavo consegue nos apresentar uma imagem de Canudos baseada no contato direto com a realidade sertaneja. Temos razões para desconfiar, num conflito como esse, das fontes escritas. Até que ponto essas fontes representam o modo de pensar dos canudenses? Ou não o representam de forma nenhuma? Não repetem sempre o mesmo ponto de vista?  O resultado dessa indefinição metodológica é que, mesmo após os esforços dos anos 1990, o enigma Canudos persiste, o que não deixa de ser assustador, pois de um dia para outro pode eclodir um episódio parecido, que provavelmente teria o mesmo desfecho, caso a nação brasileira não consiga decifrar esse enigma.

6. Canudos está sendo apresentado como uma epopeia, e isso também dificulta sua compreensão. A epopeia produz um prazer estético, é capaz de atrair, apaixonar e emocionar, mas não é um gênero literário apto a provocar um diálogo entre escritor e leitor, ao contrário do romance e da novela, por exemplo. Paulo Freire acentua o valor pedagógico de textos dialogais, textos que provocam as pessoas a pensar e assumir algum tipo de compromisso em relação à tragédia relatada no texto. Ora, Euclides da Cunha é um autor épico, ele conta uma grande história mas não questiona o leitor. É nesse sentido que sou grato ao professor José Calasans, na época professor da Universidade Federal da Bahia, pelo fato de me ter apontado o livro de Manuel Benício, intitulado ‘O rei dos jagunços’, editado em 1899 pela Tipografia do Jornal do Commércio no Rio de Janeiro. Eis um texto que desafia e mexe com a gente, exatamente por ser escrito por alguém que teve de abandonar o campo de batalha em Canudos por escrever textos que incomodaram os militares. Como Euclides, Benício foi repórter no cenário da guerra, desta vez a serviço do ‘Jornal do Commércio’ (do Rio de Janeiro), mas suas reportagens não agradaram ao Clube Militar do Rio de Janeiro e no dia 29 de julho de 1897, elas de repente desapareceram das colunas do jornal. Os militares as achavam ‘inconvenientes’. No momento em que se abre espaço para discussão, a voz autoritária intervém e suspende o diálogo por considerá-lo inconveniente. Benício ficou decepcionado e amigos lhe aconselharam escrever um livro sobre sua experiência. As informações históricas contidas em meu ensaio ‘Os Anjos de Canudos’ provêm em parte do quarto capítulo do livro de Benício, uma espécie de romance com base documental. Ali ele escreve como as famílias sertanejas fecharam as casas quando viram o exército se aproximar. Eram tropas estrangeiras a invadir seu mundo. Não são unicamente os canudenses que sentiam as expedições militares como invasões violentas em seu mundo, mas os sertanejos em geral. Ao revelar casos como esse, Benício desnuda as mentiras divulgadas pela imprensa da época e desmascara a tese da ‘anormalidade sertaneja’. As reações dos habitantes diante das tropas eram perfeitamente normais. Enfim, o texto de Benício me parece apropriado para abrir espaço a uma discussão em profundidade sobre Canudos e foi por isso que nele me aprofundei para escrever meu ensaio ‘Os anjos de Canudos’ (Vozes, 1997).


Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

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