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segunda-feira, 20 de abril de 2015

A CULTURA DO CAPITAL É ANTI-VIDA E ANTI-FELICIDADE


Por Leonardo Boff

A demolição teórica do capitalismo como modo de produção começou com Karl Marx e foi crescendo ao longo de todo o século XX com o surgimento do socialismo e pela escola de Frankfurt. Para realizar seu propósito maior de acumular riqueza de forma ilimitada, o capitalismo agilizou todas as forças produtivas disponíveis. Mas teve como consequência, desde o início, um alto custo: uma perversa desigualdade social. Em termos ético-políticos, signfica injustiça social e produção sistemática de pobreza.
Nos últimos decênios, a sociedade foi se dando conta também de que não vogora apenas uma injustiça social, mas também uma injustiça ecológica: devastação de inteiros ecossistemas, exaustão dos bens naturais, e, no termo, uma crise geral do sistema-vida e do sistema-Terra. As forças produtivas se transformaram em forças destrutivas. Diretamente, o que se busca msmo é dinheiro. Como advertiu o Papa Francisco em excertos já conhecidos da Exortação Apostólica sobre a Ecologia: ”no capitalismo já não é o homem que comanda, mas o dinheiro e o dinheiro vivo. A ganância é a motivação … Um sistema econômico centrado no deus-dinheiro precisa saquear a natureza para sustentar o ritmo frenético de consumo que lhe é inerente.”
Agora o capitalismo mostrou sua verdadeira face: temos a ver com um sistema anti-vida humana e anti-vida natural. Ele nos coloca o dilema: ou mudamos ou corremos o risco da nossa própria destruição e parte da biosfera, como alerta a Carta da Terra.
No entanto, ele persiste como o sistema dominante em todo a Terra sob o nome de macro-economia neoliberal de mercado. Em que reside sua permanência e persistência? No meu modo de ver, reside na cultura do capital. Isso é mais que um modo de produção. Enquanto cultura encarna um modo de viver, de pensar, de imaginar, de produzir, de consumir, de se relacionar com a natureza e com os seres humanos, constituindo um sistema que consegue continuamente se reproduzir, pouco importa em que cultura vier a se instalar. Ele criou uma mentalidade, uma forma de exercer o poder e um código ético. Como enfatizou Fábio Konder Comparato num livro quer merece ser estudado A civlização capitalista (Saraiva, 2014):”o capitalismo é a primeira civilização mundial da história”(p.19). O capitalismo orgulhosamente afirma:”não há outra alternativa (TINA= There is no Alternative).”
Vejamos rapidamente algumas se suas características: finalidade da vida: acumular bens materiais; mediante um crescimento ilimitado, produzido pela exploração sem limites de todos os bens naturais; pela mercantilização de todas as coisas e pela especulação financeira; tudo feito com o menor investimento possível, visando a obter pela eficácia o maior lucro possível dentro do tempo mais curto possível; o motor é a concorrência turbinada pela propaganda comercial; o beneficiado final é o indivíduo; a promessa é a felicidade num contexto de materialismo raso.
Para este propósito se apropria de todo tempo de vida do ser humano, não deixando espaço para a gratuidade, a convivência fraternal entre as pessoas e com a natureza, o amor, a solidariedade, a compaixão e o simples viver como alegria de viver. Como tais realidades não importam para a cultura do capital, como reconheceu o insuspeito mega-especulador George Soros (A crise do Capitalismo, Campus 1999), porque, embora tenham valor, não tem preço nem dão lucro. Mas exatamente são elas que produzem a felicidade possível. Ele destrói as condições daquilo que se propunha: a felicidade. Assim ele não é só como anti-vida mas também anti-felicidade.
Como se depreende, esses ideais não são propriamente os mais dignos para efêmera e única passagem de nossa vida neste pequeno planeta. O ser humano não possui apenas fome de pão e afã de riqueza; é portador de outras tantas fomes como de comunicação, de encantamento, de paixão amorosa, de beleza e arte e de transcendência, entre outras tantas.
Mas por que a cultura do capital se mostra assim tão persistente? Sem maiores mediações diria: porque ela realiza uma das dimensões essenciais da existência humana, embora a elabore de forma distorcida: a necessidade de auto-afirmar-se, de reforaçar seu eu, caso contrário não subsiste e é absorvido pelos outros ou desaparece.
Biólogos e mesmo cosmólogos (citemos apenas um dos maiores deles Brian Swimme) nos ensinam: em todos os seres do universo, especialmente no ser humano, vigoram duas forças que coexistem e se tencionam: a vontade do indivíduo de ser, de persistir e de continuar dentro do processo da vida; para isso tem que se auto-afirmar e fortalecer sua identidade, seu “eu”. A outra força é da integração num todo maior, na espécie, da qual o indivíduo é um representante, constituido redes e sistemas de relações fora das quais ninguém subsiste.
A primeira força se constela ao redor do eu e do indivíduo e origina o individualismo. A segunda se articula ao redor da espécie, do nós e dá origem ao comunitário e ao societário. O primeiro está na base do capitalismo, o segundo, do socialismo na sua expressão melhor.
Onde reside o gênio do capitalismo? Na exacerbação do eu até ao máximo possível, do indivíduo e da auto-afirmação, desdenhando o todo maior, a integração na espécie e o nós. Desta forma desequilibrou toda a existência humana, pelo excesso de uma das forças, ignorando a outra.
Nesse dado natural reside a força de perpetuação da cultura do capital, pois se funda em algo verdadeiro mas concretizado de forma exacerbadamente unilateral e patológica.
Como superar esta situação secular? Fundamentalmente no regate do equilíbrio destas duas forças naturais que compõem a nossa realidade. Talvez seja a democracia sem fim, aquela instituição que faz jus, simultaneamente, ao indivíduo (eu) mas inserido dentro de um todo maior (nós, a sociedade) do qual é parte. Voltaremos ao tema porque não é suficiente fzer a crítica a esta cultura malvada, como a chamava Paulo Freire;   importa contrapor-lhe outro tipo de cultura que cultiva a vida e cria espaços para o amor, a cooperação, a criatividade e a transcendência.

 Leonardo Boff é colunista do JBonline, filósofo e teólogo. Escreveu Que Brasil queremos depois de 500 anos, Vozes 2000.

sábado, 18 de abril de 2015

PÁSCOA: O “PREÇO” DA ALEGRIA


por Maria Clara Bingemer Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio



Estamos em pleno tempo pascal.  Há alguns dias celebramos a Páscoa juntamente com todos os  cristãos. Trata-se de uma festa de alegria, de vitória, de vida em plenitude. A liturgia é permeada de aleluias e cânticos de louvor, aclamando o Crucificado que venceu a morte e nos deu nova vida.
Até o Concílio Vaticano II, a espiritualidade e a teologia cristãs eram muito marcadas por um dolorismo que parecia ver na Cruz e na morte de Jesus a última palavra de Deus sobre a criação e a humanidade. A ênfase na ascese, no sacrifício, na penitência, tomava quase todo o espaço, deixando em segundo plano a luminosidade fulgurante do anúncio pascal, graças ao qual vivemos e que nos alimenta a fé.
O Concílio caracterizou-se por seu toque otimista, tão necessário, enfatizando a importância da alegria, de apostar na vida, de saber desfrutar das coisas boas que ela oferece, sem culpabilidades excessivas e masoquismos desnecessários. Os cristãos começaram a entender que o ser humano é feito para ser feliz e, por isso, o gozo não é algo necessariamente pecaminoso e proibido, mas legítimo e mesmo importante para viver uma vida com sentido. O movimento pendular que sempre se segue às grandes mudanças na sociedade e na Igreja, no entanto, acabou levando para o extremo oposto em alguma medida a sadia abertura conciliar.
 E hoje, ao lado da mentalidade renovada e tão benéfica para o tecido eclesial e social como um todo, muitas vezes se encontra certa postura “light” e irresponsável diante da vida, diante do outro, diante da fé, que procura eludir a dimensão do esforço, do compromisso e da dor, apelando para a fé no Ressuscitado. Sobre isso, o povo mais simples como sempre tem intuições sábias nas quais se pode beber e aprender. A importância dada à adoração da Cruz e à procissão do Senhor morto nas festas populares traz consigo uma mensagem que não se pode descartar ou encarar apenas sociologicamente. Trata-se de um conteúdo indispensável e constitutivo da fé cristã, que não pode nem deve ser esquecido ou minimizado.
 A alegria da Ressurreição tem um preço e um custo. Trata-se da vitória de um Crucificado sobre uma morte cruel e violenta, na qual Deus diz ao mundo que o amor vence a morte. Porém, de que amor se trata? Não certamente do que os gregos entendiam por philia, amizade entre iguais, prazerosa e simétrica. O amor que levou Jesus à Cruz foi ágape feita de entrega e saída de si, de serviço desinteressado e generoso aos outros, assumir a perseguição e a rejeição no próprio corpo e na própria vida até perder a vida para que outros possam tê-la.
Os primeiros cristãos, após o deslumbramento da experiência de verem vivo aquele que haviam contemplado morto, começaram imediatamente a narrar a Paixão do Crucificado. Com isso pretendiam penetrar um pouco mais naquele mistério aparentemente incompreensível de como o amor desemboca na dor mais profunda de que se tem notícia na história da humanidade, para terminar com uma vitória que não apaga o que foi sofrido e doído, mas o transfigura em missão e anúncio jubiloso. O seguimento de Jesus de Nazaré, reconhecido como o Senhor Exaltado, Cristo de Deus, foi sendo sempre mais entendido como uma experiência atravessada de paz e de alegria, mas da qual a dor não está ausente.
Talvez tenha sido o apaixonado Paulo de Tarso que melhor expressou esse sentimento ao descrever as implicações do ministério apostólico que era o seu e de todos os que se dispunham a colocar-se inteiramente a serviço do Galileu Crucificado e Ressuscitado. E ele vai dizer que a alegria pascal é real e verdadeira. Mas só acontece se não há uma recusa ou uma negação da dor e da morte. Sobretudo da dor e da morte que abatem e oprimem os irmãos.
Aquele que segue Cristo já não vive para si, mas para Ele. E por Ele é chamado a consolar os tristes e aflitos, a atender os pobres, os órfãos e as viúvas, a alimentar os famintos e vestir os nus. Se buscar a alegria eludindo essas situações negativas que clamam por presença e auxílio, o que encontrará será o vazio de um gozo efêmero e oco, que logo se esvairá entre seus dedos como água. A alegria pascal deve recordar-nos que seguimos um condenado à morte, crucificado pelos que odiavam a verdade e eram aferrados a seus privilégios.
Nesse seguimento, alguma proporção de responsabilidade participativa nas dores e sofrimentos dos irmãos nos está certamente reservada. Assumi-la com confiança é o que nos cabe. Assim como esperar e acreditar que o Pai pronunciará sobre nossa vida a palavra definitiva da vida que não morre. Enquanto o Espírito derramará em nossos corações a alegria imorredoura que jorrou na noite luminosa em que o Messias venceu a morte e se manifestou vivo e poderoso aos seus.
 A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco. 

Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>



quinta-feira, 16 de abril de 2015

TEILHARD DE CHARDIN, MEU GURU

por Frei Betto


       No domingo de Páscoa, 10 de abril de 1955, há 60 anos, em Nova York, o jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, 73, levantou-se da cadeira para servir-se de chá. Não chegou à mesa. Um ataque cardíaco pôs fim à sua vida. No enterro não havia mais de três pessoas.

       Para muitos, sua morte representou um alívio. Cessara o movimento daquele cérebro poderoso. Como tantos que ousam pensar pela própria cabeça e se recusam a acreditar que a verdade é filha da autoridade, Teilhard teve um final solitário.

        Aquela cabeça fora capaz de conceber uma das mais abrangentes visões do Universo, na qual todos os elementos se integram, das micropartículas subatômicas à atração de toda a matéria pelo Ponto Ômega, que coroaria o processo de evolução da natureza.

       Essa grandiosa síntese foi registrada em livros e artigos que, durante sua vida, seus superiores nunca permitiram que fossem publicados, com receio de um novo caso Galileu.

       Editada após a sua morte, a obra de Teilhard alcançou, na década de 1960, repercussão inesperada. Figurou meses nas listas de best sellers da Europa e dos EUA.

       Em 1962, introduzi Teilhard no Brasil, graças às traduções de Conrad Detrez. Os resumos em apostilas mimeografadas, vendidos à porta de faculdades do Rio, estão hoje no livro “Sinfonia universal – a cosmovisão de Teilhard de Chardin” (Vozes). Mais tarde, graças a Teilhard, aprofundei a relação entre espiritualidade e física quântica em “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio).

       Nascido na França, Teilhard era filho de uma neta de Voltaire, pensador que introduziu em seu país as teorias de Isaac Newton e combateu toda espécie de superstição e intolerância.

       Aos 11 anos, aluno de colégio jesuíta, Teilhard demonstrava interesse por matéria que não constava do currículo, a geologia. Teve a sorte de encontrar um mestre que o convenceu de que o melhor serviço a Deus pode ser o amor às pedras...

       Em 1913, aos 32 anos, descobriu o amor a uma mulher. “Estando desde a infância” – escreve ele em “O coração da matéria” – “à procura do coração da matéria, era inevitável que, um dia, eu me encontrasse face a face com o Feminino. [...] Parece-me indiscutível que ao homem – mesmo a serviço de uma causa ou de Deus – não é possível nenhum acesso à maturidade e à plenitude espirituais fora de qualquer influência sentimental que venha nele sensibilizar a inteligência e suscitar, pelo menos inicialmente, as potências de amar.”

       Doutorou-se em ciência em 1922, na Sorbonne e, em 1923, fez sua primeira viagem à China. Participou da descoberta da primeira prova da existência do homem pré-histórico. Escreveu, então, uma de suas mais belas obras, A missa sobre o mundo.

       De volta a Paris, em 1924, seus trabalhos científicos adquiriram fama, a ponto de lotar os auditórios em que proferia conferências.  Seus superiores, preocupados com suas ideias pouco ortodoxas, o forçaram a abandonar a cadeira do Instituto Católico de Paris e a retornar à China, numa espécie de exílio involuntário.

       Em Tien-Tsin, escreveu “O meio divino”. Em 1929, participou da descoberta de Sinantropo, e passou a se preocupar com a origem da espécie humana. Começou a redigir sua obra mais famosa, “O fenômeno humano”.

       Retornou a Paris em 1946. O Colégio da França lhe ofereceu uma cadeira. Ele pediu a Roma permissão de aceitá-la, bem como de publicar “O fenômeno humano”. Não conseguiu. No ano anterior havia escrito “O coração da matéria”, autobiografia intelectual e espiritual.

       Teilhard buscou a verdade nas pedras das montanhas e nos esqueletos dos ancestrais da espécie humana, confiante de que a evidência da verdade é filha do tempo. Censurado, calado, exilado, não abandonou suas pesquisas e escreveu convencido de que a posteridade lhe daria razão, tendo tido o cuidado de confiar os originais a parentes e amigos com liberdade de divulgar sua obra.
      
Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

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Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
E-mail - mhgpal@gmail.com


terça-feira, 14 de abril de 2015

VIVER, EM DEUS, COMO SE FOSSE SEM DEUS

Por Marcelo Barros


Em Londres, quem passa pelo pórtico da Catedral anglicana de Westminster, verá em meio às imagens de mártires do século XXI a estátua de um pastor luterano. Para celebrar o ano 2000, a Igreja Anglicana colocou nas portas da Catedral em Londres figuras de vários mártires do século XX. Ali se veem não cristãos como Gandhi e cristãos de várias Igrejas que os anglicanos reconhecem como santos. Ali estão homenageados o bispo católico Dom Oscar Romero, o pastor batista Martin-Luther King e, entre os dois, o teólogo e pastor luterano Dietrich Bonhoeffer, fuzilado em um campo de concentração nazista.

Nessa semana, no dia 09 de abril, completaram-se 70 anos do martírio do pastor Bonhoeffer. No entanto, a sua mensagem profética continua atual e provoca admiração no mundo inteiro. Pelo seu modo de viver e por seus escritos, ele ensinou uma espiritualidade que une fé e política. Para ele, a fé cristã exige inserção na realidade social, assim como Jesus entrou profundamente nos problemas da sociedade do seu tempo. Por isso, Bonhoeffer propôs que as Igrejas reagissem à injustiça. Os pastores deveriam denunciar a iniquidade do Nazismo e de todo regime político que negue a dignidade e a liberdade dos filhos e filhas de Deus.

Ele era um homem de oração cotidiana, mas, afirmava: “É um insulto a Deus cantar ofícios litúrgicos, enquanto as bombas caem sobre as cidades e muitas pessoas morrem em campos de concentração”. “Para quem é cristão, não basta evitar o mal ou dele fugir. É preciso combatê-lo”. “Nenhuma guerra é justa. Toda guerra é opressora e iníqua”. Na Alemanha, as Igrejas se dividiram. A maioria aceitou colocar ao lado do altar a bandeira com a suástica nazista. Muitas despediram pastores de sangue judeu e algumas chegaram a colaborar com o regime. Bonhoeffer liderou o grupo das Igrejas que ocultavam fugitivos e colaboravam com a resistência. Nesse contexto, o pastor Bonhoeffer decidiu participar de um complô para assassinar Hitler e assim acabar com a guerra. O plano fracassou e ele foi preso.  Afirmou que fez isso não por motivações políticas, mas em nome da fé e como testemunha do Deus que Jesus anunciou nos evangelhos. Foi morto no 09 de abril de 1945.

Na América Latina, todos consideram o pastor Bonhoeffer um dos grandes pioneiros e patronos da Teologia da Libertação. Livros seus como “Ética”, “Vida Comunitária” e “Seguir Jesus” marcaram gerações. No campo de concentração, enquanto esperava a morte, escreveu suas cartas da prisão que estão reunidas no livro “Resistência e Submissão”, hoje, um clássico da literatura cristã.

Em várias cartas, Bonhoeffer coloca a seguinte pergunta: “Como falar de Deus em um mundo no qual Deus não é reconhecido? Antigamente, os cristãos tentavam converter os descrentes a aderir à fé. No mundo contemporâneo, a maioria da humanidade não sente necessidade de religião. A única forma correta de falar de Deus aos que não creem é através do testemunho pessoal, da amorosidade e do modo coerente de viver a ética e a justiça. Por isso, o pastor Bonhoeffer propõe que as pessoas que têm fé vivam profundamente a intimidade com Deus mas de forma a respeitar a sociedade que tem sua autonomia e não precisa de um Deus pai para lhe dizer como deve se conduzir. Os cristãos devem viver mergulhados em Deus, mas inseridos no mundo e como cidadãos iguais aos outros, “como se Deus não existisse”. Ele atualizou essa expressão de um jurista cristão do século XVII para fundamentar a compreensão cristã de uma sociedade laical e pluralista que não pode ceder a fundamentalismos religiosos. Nenhuma Igreja ou religião tem direito de impor a um povo ou nação suas leis próprias. Não deve fazer lobbys para que a sociedade respeite leis e princípios que, embora possam ser válidos para toda a humanidade, são baseadas em crenças de uma ou outra tradição. Tomara que, hoje, nossos congressistas pentecostais ou de qualquer outra tradição religiosa tenham o bom senso de seguir esse conselho do pastor Bonhoeffer: viver em Deus, como se fosse sem Deus.


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países