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segunda-feira, 6 de julho de 2015

PAPA FRANCISCO: ZELOSO CUIDADOR DA CASA COMUM


por Leonardo boff




Tempos atrás escrevemos que o Papa Francisco por causa do patrono que lhe inspirou o nome – Francisco de Assis –teria tudo para ser o grande promotor de uma proposta ecológica mundial. Devia ser ele, pois, lamentavelmente faltam-nos líderes com autoridade e com palavras e gestos convincentes que despertem a humanidade, especialmente, as elites dirigentes, para as ameaças que afetam o destino comum da Terra e da Humanidade e para a responsabilidade coletiva e diferenciada de salvaguardá-lo para todos.
Eis que este desiderato se realizou plenamente com a publicação da encíclica “Laudato si’: cuidar da Casa Comum”. Oferece-nos um texto de grande amplitude – a ecologia integral – de rara beleza intelectual e espiritual, unindo o que era tão caro a São Francisco de Assis e também a Francisco de Roma: o comportamento de cuidado para com a irmã e mãe Terra e um amor preferencial para os condenados da Terra.
Esta conexão atravessa todo texto como um fio condutor. Não há verdadeira ecologia, de expressão nenhuma, seja ambiental, social, mental e seja integral, caso não resgate a humanidade humilhada dos milhões de empobrecidos de nossa história, naqueles nos quais a Terra como mãe é mais agredida e ofendida. O Papa Francisco comparece como zeloso cuidador da Casa Comum. Mostra-se extremamente coerente com a marca registrada da Igreja da libertação latino-americana com sua correspondente teologia que é a opção preferencial pelos pobres, contra a pobreza e a favor da justiça social e de sua libertação. O oposto da pobreza não é a riqueza. É a justiça social de proporções estruturais e mundiais. A forma mais adequada para enfrentar esta pobreza é a ecologia integral que articula “tanto o grito da Terra quanto o grito do pobre”(n.49).
A ecologia significa mais que um mero gerenciamento dos bens e serviços escassos da natureza. Ela representa um novo estilo de viver, uma arte nova de habitar diferentemente a Casa Comum de tal forma que todos possam caber nela. Não somente os humanos, o que configuraria o antropocentrismo duramente criticado pela encíclica( nn.115-121), mas todos os seres vivos e inertes, especialmente a grande comunidade de vida que sofre pesada erosão da biodiversidade por causa do predomínio da tecnocracia. Este é um outro nome para identificar o principal causador da crise ecológica globalizada: a fúria produtivista e consumista, digamos nós, numa palavra que o Papa não usa, pelo capitalismo selvagem que visa a acumular de forma ilimitada à custa da devastação da natureza, do empobrecimento das pessoas e do risco de uma mega-catástrofe ecologico-social. Este sistema impõe a todos um comportamento, como enfatiza o Papa que “parece “suicida”(n. 55).
Esta vinculação entre o Grande Pobre (a Terra) e os pobres, como desde cedo o viram os teólogos da libertação, se justifica porque vivemos tempos de extrema urgência: a pisada ecológica da Terra foi já ultrapassada em mais de 30%. A Terra precisa de um ano e meio para repor o que lhe subtraímos pelos nosso consumo durante um ano.
Esta dado nos coloca a questão de nossa sobrevivẽncia coletiva. Temos que mudar se quisermos evitar o abismo. Da
í a questão central que a encíclica coloca é: como devemos nos relacionar com a natureza e com a Mãe Terra? A resposta é com o cuidado, a fraternidade universal, o respeito a cada ser pois possui valor intrínseco e com a aceitação da interelação de todos com todos.
Neste particular, Francisco de Roma foi buscar inspiração num exemplo vivo e não teórico, em Francisco Assis. Explicitamente diz:”creio que Francisco seja um exemplo por excelência do cuidado por tudo o que é débil e de uma ecologia integral vivida com alegria e autenticidade”(n.10).
Todos os biógrafos do tempo (Celano, São Boaventura, citados pela encíclica) atestam “o terníssimo afeto que nutria para com todas as criaturas”; “dava-lhe o doce nome de irmãos e irmãs de quem adivinhava os segredos, como quem já gozava da liberdade e da glória dos filhos de Deus”. Libertava passarinhos das gaiolas, cuidava de cada animalzinho ferido e chegava pedir aos jardineiros que deixassem um cantinho livre, sem cultivá-lo, para que as ervas daninhas, ai pudessem crescer, pois todas “elas também anunciam o formosíssimo Pai de todos os seres”.
O Papa adverte que isso não é “um romanticismo irracional, porque influencia sobre as escolhas que determinam nosso comportamento”(n.11). Se não usarmos a liguagem do encantamento, da fraternidade e da beleza em relação com o mundo, ”os nossos comportamentos serão aqueles do dominador, do consumidor ou do mero desfrutador dos recursos naturais, incapaz de impôr limites a seus intereses imediatos”(n. 11)
Aqui transparece um outro modo-de-estar no mundo, diferente daquele da modernidade tecnocrática. Nesta, o ser humano está sobre as coisas como quem as possui e domina. O modo-de-estar de Francisco é colocar-se junto com elas para conviver como irmãos e irmãs em casa. Ele intuíu misticamente o que hoje sabemos por um dado de ciência: todos somos portadores do mesmo código genético de base; por isso um laço de consanguinidade nos une, fazendo-nos parentes, primos e irmãos e irmãs uns dos outros; daí a importância de nos respeitarmos e de nos amarmos mutuamente e jamais usarmos de violência entre nós e contra os demais seres, nossos irmãos e irmãs. Esse modo de ser nos poderá abrir um caminho de superação da crise ecológica global.
Leonardo Boff é colunista do Jornal do Brasil on Line e ecoteólogo


sexta-feira, 3 de julho de 2015

AINDA A LAUDATO SI: O DEUS CRIADOR


  Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 



O  papa Francisco ancora sua reflexão sobre a ecologia na Escritura.  Diz, então, que na Bíblia «o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo. [...] n’Ele se conjugam o carinho e a força»  (73).  A narrativa da criação é central para refletir sobre a relação entre o ser humano e as outras criaturas e sobre como o pecado rompe o equilíbrio de toda a criação no seu conjunto: «Essas narrações sugerem que a existência humana se baseia sobre três relações fundamentais intimamente ligadas:  as relações com Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a Bíblia, essas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o pecado» (66).

A Palavra criadora de Javé é elemento constitutivo da natureza na sua origem e atividade (Is 40,26; Jó 37,6; Sl 147,15).  E o cosmos é fonte de revelação de Deus.  É Deus, portanto, que faz existir. Que chama as coisas de onde não são para que sejam. E o faz por sua palavra.  Deus diz e aquilo é feito do nada.  Só Deus é Deus, como será repetido muitas e muitas vezes na Bíblia, no sentido de que só ele é capaz de criar a partir do nada, o cosmos e tudo que existe (cf. Is 40,25-30; Jó 38).

Porém, Deus cria colocando ordem no criado.  Sua Palavra estrutura o caos.  Ao mesmo tempo, a Bíblia nos relembra que o Criador dialoga com a sua criatura humana, o que é uma maneira de conceder-lhe um imenso respeito.  Tudo isso numa ausência absoluta de violência, numa espécie de doçura fundante que será sustentáculo para o Sermão da Montanha posteriormente, no NT, quando será proclamada a perfeição do Pai (cf. Mt 5).

Neste criar no tempo, “no princípio”, o relato bíblico não sonha em opor à eternidade de Deus a eternidade do mundo criado.  Somente Deus é princípio e começo de tudo que existe e o mundo vem depois, ainda que não se possa estabelecer datas cronológicas para essa posterioridade do criado.

Esse “começo”, essa “origem sem origem” que só encontra sua fonte na inefável Paternidade divina, é incompreensível sem um “fim”.  Mas este fim, sem o qual o mundo perderia seu dinamismo, nos é radicalmente desconhecido.  Este desconhecimento nos impede de buscá-lo entre os fenômenos deste mundo.  Este fim não compete aos cientistas.  E é desconhecido do próprio Filho, que deixa este segredo para o Pai (cf. Mt 24,36).    

De certa maneira, a encíclica Laudato Sí recolhe o  esforço que vem fazendo a teologia cristã, nos últimos tempos, para debruçar-se sobre a problemática da Criação. Esta atitude  denota uma tomada de consciência, por parte dos cristãos, de que o que está  em jogo na questão ecológica é muito mais que um novo tema a ser trabalhado pelo pensamento teológico. E, sim, o futuro das relações homem-natureza-Deus, ou seja, o próprio conceito de Deus que é central ao cristianismo : Deus Pai, autor da vida, criador e salvador.

            O mandato de "dominar a terra" que o livro do Gênesis (Gen 1,28)  coloca na boca do Deus Criador dirigindo-se ao homem recém moldado do barro e animado com o hálito da vida divina passou por muitas interpretações ao longo da tradição cristã.   Uma delas - e talvez a que mais se impôs em meios não cristãos -  tendia a interpretar a consigna divina no sentido de domínio arrogante do homem sobre a natureza, em nome do Criador. Essa tendência continua a apresentar problemas quando se trata de confrontar, ainda hoje, a problemática ecológica com o Cristianismo.  E a acusação e a desconfiança que permanecem em relação à interpretação do mandato genesíaco, no sentido de uma primazia absoluta e sem limites do homem sobre a natureza, carregam consigo sérias consequências: a suspeita de uma concepção de ser humano equivocadamente individualista, aliada a um determinismo econômico e tecnológico onipotentes; a visão do homem separado da natureza, vendo nesta uma inimiga a ser conquistada e destruída impunemente em nome de um equivocado progresso; a luta do homem pela vida transformada em ameaçador instinto de morte que pesa sobre todas as outras formas de vida.

             Teologicamente, as consequências não são menos graves.  Optar por tal tendência e assumir essa interpretação é introduzir uma cisão irreparável na própria ideia de criação, separando o homem do cosmos.  É banir da vida cristã, de sua teologia e espiritualidade, a noção tão presente para os antigos de ver o cosmos como uma epifania, ou seja, como a manifestação de um mistério, que pede reverência e respeito para quem dele se aproxima.

            A encíclica insistirá em que o fato de o  ser humano não ser o dono do universo «não significa igualar todos os seres vivos e tirar do ser humano seu valor peculiar» que o caracteriza; «também não requer uma divinização da terra, que nos privaria da nossa vocação de colaborar com ela e proteger a sua fragilidade»  (90).  Nessa perspectiva, « todo o encarniçamento contra qualquer criatura é contrário à dignidade humana»  (92),  mas «não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos»  (91).  Necessita-se da consciência de uma comunhão universal: «criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, […]que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde» (89).

Embora boa e digna de reverência, lugar e morada da vida, a criação não é, no entanto, considerada pelo Cristianismo uma grandeza harmônica e em si mesma reconciliada.  É, sim, grandeza dividida, conflitiva, sofrida, porque atravessada pelo mal e por ele "submetida".  Todas as criaturas participam  dessa condição e juntas gemem e esperam pela libertação (cf.Rom 8, 19-22).   O Cristianismo, por sua vez, proclama que só a passagem pelo crivo messiânico da nova criação, inaugurada com a encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo permite dizer, afinal, que o mundo é graça.
     A Laudato Si reconhece essa dimensão agônica em que vive a criação e aponta para nossa responsabilidade em relação à terra e aos seres criados.     

A teóloga é  professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e
autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco. 
Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>
   


quinta-feira, 2 de julho de 2015

NÃO SOU BRANCO, SOU LUSODESCENDENTE

Por Frei Betto

 A 14 de maio deste ano vi, na GloboNews, a entrevista concedida por Alberto da Costa e Silva, nosso maior especialista em África, a Míriam Leitão. Notei esta disparidade: o entrevistado utilizava sempre a palavra “negros”, enquanto a jornalista dizia “afrodescendentes” ao se referir à parcela da população brasileira derivada de africanos, como é o meu caso (embora não aparenta).
      Sempre impliquei com a expressão “afrodescendente” ou “afrobrasileiro”. 

Simples: nunca ninguém me chamou de “eurodescendente” ou “iberodescendente” ou “lusodescendente”.

      Eufemismos servem, em geral, para tentar encobrir preconceitos. Lembro da tia que se referia à cozinheira como “aquela moça escurinha”...

      Caso similar é o vocábulo “velhos”, para se referir a idosos. Sou um deles. E abomino essa mentira eufemística de “melhor idade” ou “terceira idade”. A usar eufemismo, prefiro ser chamado de “seminovo”,         como os carros velhos expostos em revendedoras de veículos. E me sinto na turma da “eterna idade”, já que cronologicamente estou mais próximo dela...

      Não há palavras neutras, há quem ignore o significado e a carga simbólica que elas contêm.

      Afrodescendente é expressão usamericana criada para deixar claro que os negros dos EUA não são naturais do país. São imigrantes e filhos de imigrantes, gente “de fora”, lá da longínqua e atrasada África. E ali são tolerados, desde que reconheçam que não são iguais aos ianques, são seres inferiores, sub-raça. Diga-se de passagem que os EUA batem o         recorde mundial de prisioneiros: 2,3 milhões, dos quais 1,5 milhão são negros.

      Baseado em Galeano (que se inspirou em Senghor), registro esta parábola: O professor chamou o aluno negro de "moço de cor". Este não se fez de rogado: "professor, de cor são o senhor e meus colegas. Nasceram rosados, ficaram brancos, adquirem pele vermelha quando se expõem na praia; tostada, quando se queimam ao sol; amarela, quando têm hepatite; e roxa, quando falecem. E eu é que sou de cor?” 
      O preconceito avança vocabulário adentro: “denegrir” significa “enegrecer”, rebaixar uma pessoa à condição de negro.

      Isso não quer dizer que eu defenda o “politicamente correto”. Quando não se vê horizonte na conjuntura, como hoje no Brasil, admito que a situação “está preta”, ou seja, no escuro nada se enxerga. E considero patrimônio nacional a canção de Rubens Soares e David Nasser: “Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia?”

      Pena que os negros, ao menos aqui no Brasil, não deem o troco devido aos brancos. Jean Genet, em uma de suas peças teatrais, faz o ator negro cessar os movimentos no palco, encarar a plateia francesa e exclamar: “Que cheiro horrível! Cheiro azedo de branco!”

      No Brasil, a discriminação racial se disfarça pelo fato de a maioria negra ainda ser pobre. Sonho com o dia em que ninguém será identificado pela cor da pele. Pois a biologia já provou que não existem raças. Existem apenas diferenças de coloração epidérmica. Somos todos         seres humanos intrinsecamente dotados de dignidade e sacralidade.

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
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quarta-feira, 1 de julho de 2015

PAPA FRANCISCO, UM HOMEM UNIVERSAL

Por Eduardo Hoornaert



"Com o papa Francisco voltamos a Francisco de Assis, universalista ao ponto de pregar para peixes e pássaros, e, mais adiante, a Jesus de Nazaré, que convida cobradores de impostos à sua casa para comer juntos atende a uma mulher siro-fenícia que não pertence ao ‘povo eleito’ e permite que uma mulher derrame óleo precioso sobre sua cabeça"



O cristianismo nasceu universal, sob os impulsos da postura universal de Jesus de Nazaré que não tomava em consideração se alguém era judeu ou não judeu, pecador ou ‘justo’, homem ou mulher, mas tratava a todos e todas de modo igual, independente de gênero, nacionalidade, situação social, cultural ou econômica. Com isso, ele colocou as bases para o universalismo cristão, marca registrada da novidade trazida pelo profeta galileu.

Mas, na medida em que o cristianismo cresceu, perdeu-se o senso do universalismo. A igreja começou a formar um ‘rebanho de fieis’, lutar contra ‘infiéis’ e ‘hereges’ e formatar paróquias para proteger os fiéis contra influências maléficas de fora. Perdeu-se o senso universalista. Quanto mais a igreja cresceu, tanto mais ela agiu como se o mundo inteiro fosse seu território e que ela pudesse fazer valer suas leis para a humanidade toda.

Correndo atrás de poder e prestígio, ela perdeu um dos mais preciosos tesouros do legado de Jesus de Nazaré: a capacidade de se dirigir com amor e desinteresse a todas as pessoas que habitam este planeta. Ela se envolveu em guerras (como as Cruzadas contra o Islã, uma religião irmã) e perseguições, chegando ao ponto de legitimar a tortura (na Inquisição) e a escravidão (ao longo das colonizações europeias).

Só no ano 1964 ela pronunciou uma condenação formal da escravidão (numa referência de passagem que passou despercebida por muitos), por ocasião do Concílio Vaticano II. Isso mostra como a falta de sensibilidade universalista é algo bem recente (apenas 50 anos nos separam do Concílio Vaticano II). Não se pode pensar que ela desaparecerá tão cedo.'

Nesse contexto é importante que surjam pessoas públicas que aproveitam de sua posição privilegiada para reavivar entre nós o senso perdido do universalismo.

·        No século XX tivemos figuras como Mahatma Gandhi, que aproveitou da grande visibilidade que a imprensa mundial lhe deu para difundir amplamente a ideia do universalismo (foi morto por um fanático que não entendeu nada).


  • ·        Tivemos Nelson Mandela, presidente da República da África do Sul,
  • ·        tivemos Martin Luther King, pastor batista,
  • ·        tivemos Helder Camara, arcebispo católico.


Essas pessoas aproveitaram da visibilidade que os meios de comunicação lhes forneciam para difundir o evangelho do universalismo, cada um num determinado setor.

Hoje, entram novos atores a divulgar esse evangelho.

·        Temos o líder grego Alexis Tsipras da Syriza, um político situado num determinado contexto, que divulga uma mensagem que vale para o mundo inteiro: a política não deve servir aos bancos, mas aos cidadãos.

 Mas temos igualmente líderes que aparecem quase diariamente nos grandes meios de comunicação, mas que não se dirigem à humanidade como um todo, como

  • ·        Barack Obama, que só fala em benefício dos Estados Unidos,
  • ·        Ángela Merckel, que só age em benefício da Alemanha.


É com alegria que se percebe que o papa Francisco vem se juntar aos líderes que enxergam a realidade universal em vez de olhar somente para seu ‘rebanho’.

A publicação de sua Carta Encíclica (carta circular) ‘Laudato si’ é um sinal inconfundível dessa nova postura.

Pelo que sei, nenhum papa, ao longo dos séculos, se dirigiu a todas as pessoas que vivem neste planeta sem nenhum tipo de discriminação.

O título da Carta já diz tudo: ‘Carta encíclica Laudato si, sobre o cuidado da casa comum’. O planeta terra é nossa casa comum, a casa de todos e de todas.
Ao longo da Carta, o papa escreve ´nós´, ou seja, envolve seus leitores e suas leitoras numa comunhão de leitura e observação. De vez em quando, ele escreve ‘eu’ (não ´nós’, segundo tradicional protocolo papal), quando enuncia uma opinião pessoal.

Isso faz com que estejamos dialogando com Francisco quando lemos sua Carta. Significativamente, o papa assina o documento com seu nome, numa só palavra: ´Franciscus´.

Francisco deseja conversar conosco de igual para igual, pois faz ponderações sobre temas que nos atingem a todos e todas, desde o papa até o mais ferrenho ateu:
  • ·        o clima,
  • ·        a água,
  • ·        a biodiversidade,
  • ·        a sujeira dos rios e dos córregos,
  • ·        a qualidadede vida,
  • ·        a degradação social,
  • ·        a desigualdade planetária, etc.

Repito: papa Francisco não escreve como líder da igreja católica, embora seja verdade que ele está na posição privilegiada de poder divulgar suas ideias num raio muito amplo. Ele se aproveita disso, como toda razão. Afinal, o papado não é um serviço prestado a toda a humanidade?

Todos e todas necessitamos de

  • ·        ar puro (não o ar que se respira em São Paulo),
  • ·        água pura e suficiente,
  • ·        eletricidade produzida por água,
  • ·        pão e feijão produzidos por plantas sadias (não como muitos produtos nos Supermercados),
  • ·        terra para plantar (não para enriquecer os que já têm dinheiro demais),
  • ·        respeito (inclusive para homossexuais etc.),
  • ·        liberdade (não a falsa liberdade de imprensa defendida pela Globo),
  • ·        dignidade (dos indígenas, negros, mulheres domésticas).


É uma coisa só, um bloco só. Um dos pontos mais inovadores da Carta papal consiste no fato que ele alinha problemas ecológicos e problemas sociais e culturais. Afinal, o universalismo é uma atitude global.

Com o papa Francisco voltamos a Francisco de Assis, universalista ao ponto de pregar para peixes e pássaros, e, mais adiante, a Jesus de Nazaré, que

  • ·        convida cobradores de impostos à sua casa para comer juntos, como se descreve no Evangelho de Marcos (Mc 2, 15-20),
  • ·        atende a uma mulher siro-fenícia que não pertence ao ‘povo eleito’ (Mc 7, 24-30)
  • ·        e permite que uma mulher derrame óleo precioso sobre sua cabeça (Mc 14, 60 sqq).


Um universalismo que passa por cima de todas as barreiras.

Com a Carta encíclica do papa Francisco se abre uma perspectiva que para muitos cristãos parece nova, mas que na realidade pertence ao DNA do movimento de Jesus.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/