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sexta-feira, 29 de maio de 2020

UMA LEITURA DE CEGO DA ENCÍCLICA ECOLÓGICA LAUDATO SI


Por Leonardo Boff

              

Um cego capta com as mãos ou com seu bastão as coisas mais relevantes que encontra pela frente. Pois assim tentaremos fazer uma leitura de cego acerca da encíclica ecológica do Papa Francisco, Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum, cujos 5 anos (24/05/2015) acabamos de celebrar. Quais são seus pontos relevantes?

Antes de tudo, não se trata de uma encíclica verde que se restringe ao ambiente, predominante nos debates atuais. Propõe uma ecologia integral que abarca o ambiental, o social, o político, o cultural, o cotidiano e o espiritual.

Quer ser uma resposta à generalizada crise ecológica mundial porque “nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum, como nos últimos dois séculos”(n.53); fizemos da Casa Comum “um imenso depósito de lixo (n.21). Mais ainda:”As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia… nosso estilo de vida insustentável só pode desembocar em catástrofes”(n.161). A exigência é de “uma conversão ecológica global”(n.5;216)) que implica “novos estilos de vida”(repete 35 vezes) e “converter o modelo de desenvolvimento global”(n.194).

Chegamos a esta emergência crítica por causa de nosso exacerbado antropocentrismo, pelo qual o ser humano”se constitui um dominador absoluto”(n.117) sobre a natureza, desgarrado dela, esquecendo que “tudo está interligado e por isso ele “não pode se declarar autônomo da realidade”(n.117;120). Utilizou a tecnociência como instrumento para forjar “um crescimento infinito…o que supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta que leva a espremê-lo até ao limite para além dele”(n.106).

Na parte teórica, a encíclica incorpora um dado da nova cosmologia e da física quântica: que tudo no universo é relação. Como num ritornello insiste que “todos somos interdependentes, tudo está interligado e tudo está relacionado com tudo “(cf. nn.16, 86,117,120) o que confere grande coerência ao texto.

Outra categoria que constitui um verdadeiro paradigma é o do cuidado. Este, na verdade, é o verdadeiro título da encíclica. O cuidado, por ser da essência da vida e do ser humano, segundo a fábula romana de Higino, tão bem explorada por Martin Heidegger em Ser e Tempo é recorrente em todo o texto da encíclica. Vê em São Francisco “o exemplo por excelência do cuidado”(n.10).“Coração universal…para ele qualquer criatura era uma irmã unida a ele por laços de carinho, sentindo-se chamado a cuidar de tudo o que existe”(n.11).

É interessante observar que o Papa Francisco une a inteligência intelectual, apoiado nos dados da ciência, à inteligência sensível ou cordial. Devemos ler com emoção os números e relacionarmo-nos com a natureza “com admiração e encanto (n.11)…prestar atenção à beleza e amá-la pois nos ajuda a sair do pragmatismo utilitarista”(n.215). Importa “ouvir tanto o grito da Terra quanto o grito dos pobres”(n.49).

Consideremos este texto, carregado de inteligência. emocional:”Tudo está relacionado e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos, como irmãos e irmãs, numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma de suas criaturas e que nos une também com terna afeição ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio, e à Mãe Terra”(n.92). Importa “incentivar uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade”(n.231), pois assim “podemos falar de uma fraternidade universal”(228).

Por fim, é essencial à ecologia integral a espiritualidade. Não se trata de derivá-la de ideias, mas “das motivações que dão origem “a uma espiritualidade para alimentar a paixão pelo cuidado do mundo…Não é possível empenhar-se em coisas grandes, apenas com doutrinas sem uma mística que nos anima, sem uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n.216). Novamente evoca aqui a espiritualidade cósmica de São Francisco (n.218).

Concluindo, releva enfatizar que com esta encíclica, ampla e detalhada, o Papa Francisco se coloca, como notáveis ecologistas o reconheceram, na vanguarda da discussão ecológica mundial. Em muitas entrevistas, referiu-se aos riscos que corre nossa Casa Comum. Mas sua mensagem é de esperança:”caminhemos cantando, que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta, não nos tirem a alegria da esperança”(n.244).

Leonardo Boff é ecoteólogo e escreveu:Francisco de Assis e Francisco de Roma, Mar de Ideias, Rio 2014.

 


segunda-feira, 27 de julho de 2015

AFINIDADES ENTRE A ENCÍCLICA DO PAPA SOBRE “O CUIDADO DA CASA COMUM” E A “CARTA DA TERRA, NOSSO LAR”


Por Leonardo Boff



A encíclica “Cuidado da Casa Comum” e a “Carta da Terra” talvez sejam os dois únicos documentos de relevância mundial que apresentam tantas afinidades comuns. Tratam do estado degradado da Terra e da vida em suas várias dimensões, fora da visão convencional que se restringe ao ambientalismo. Inscrevem-se dentro do novo paradigma relacional e holístico, o único, assim nos parece, capaz de ainda nos dar esperança.

A encíclica conhece a Carta da Terra que a cita num dos pontos mais fundamentais:”atrevo-me a propor de novo o considerável desafio da Carta da Terra: como nunca antes da história, o destino comum nos obriga a procurar um novo começo”(n. 207). Esse novo começo é assumido pelo Papa.

Elenquemos algumas dessas afinidades, entre outras.

Em primeiro lugar comparece o mesmo espírito que pervade os textos: de forma analítica, recolhendo os dados científicos mais seguros, de forma crítica, denunciando o atual sistema que produziu o desequilíbrio da Terra e de forma esperançadora, apontando saídas salvadoras. Não se rende à resignação mas confia na capacidade humana de forjar um novo estilo de vida e na ação inovadora do Criador, “soberano amante da vida”(Sab 11,26).

Há o mesmo ponto de partida. Diz a Carta:”os padrões dominantes de produção e consumo estão causando a devastação ambiental, a redução dos recursos e uma maciça extinção de espécies (Preâmbulo, 2). Repete a encíclica:”basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma grande deterioração da nossa Casa Comum…o atual sistema atual é insustentável, a partir de vários pontos de vista”(n.61).

Há igual proposta. Assevera a Carta:”São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida”(Preâmbulo,3). A encíclica enfatiza:”Toda aspiração a cuidar e a melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder que hoje regem as sociedades”(n.5).

Grande novidade, própria do novo paradigma cosmológico e ecológico é a afirmação da Carta:”nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções includentes”(Prâmbulo, 3). Há um eco desta afirmação na encíclica:”Ha alguns eixos que travejam toda a encíclica: a íntima relação entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia, o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia e a proposta de um novo estilo de vida”(n. 16). Aqui vale a solidariedade entre todos, a sobriedade compartida e “passar da avidez à generosidade e à partilha”(n.9).

A Carta afirma que “há um espírito de parentesco com toda a vida”(Preâmbulo 4). O mesmo afirma a encíclica:”Tudo está relacionado e nós, seres humanos caminhamos juntos como irmãos e irmãs…e nos unimos também com terna afeição ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e à Mãe Terra”(n.92). É a franciscana fraternidade universal.

A Carta da Terra enfatiza que é nosso dever “respeitar e cuidar da comunidade de vida… respeitar a Terra em toda a sua diversidade”(I,1) Toda encíclica, a começar pelo título “cuidar da Casa Comum” faz desse imperativo uma espécie de ritornello. Propõe “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo”(n. 216) e “uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade “ (n.231). Aqui surge o cuidado não como mera benevolência pontual mas como um novo paradigma, amoroso e amigo da vida e de tudo o que existe e vive.

Outra afinidade importante é o valor dado à justiça social. A Carta sustenta forte relação entre ecologia com “a justiça social e econômica” que “protege os vulneráveis e serve “aqueles que sofrem”(n.III,9 c). A encíclica atinge um de seus pontos altos ao afirmar “que uma verdadeira abordagem ecológica deve integrar a justiça para ouvir o grito da Terra e o grito dos pobres”(n.49; 53).
Tanto a Carta da Terra quanto a encíclica sublinam contra o senso comum vigente que “cada forma de vida tem valor, independentemente de seu uso para os humanos”(I, 1, a). O Papa reafirma “que todas as criaturas são interligadas e deve ser reconhecido com carinho e admiração o valor de cada uma e todos nós, seres criados, precisamos uns dos outros”(n.42). Em nome desta compreensão faz uma vigorosa crítica ao antropocentrismo (nn.115-120), pois ele apenas vê a relação do ser humano para com a natureza usando-a e devastando-a e não vice-versa, esquecendo que ele faz parte dela e que sua missão é de ser o seu guardião e cuidador.

A Carta da Terra formulou uma definição de paz que é das mais felizes já realizadas pela reflexão humana:”a plenitude que resulta das relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o Todo do qual somos parte”(16, f). Se a paz, segundo o Papa Paulo VI, é “o equilíbrio do movimento”então o “equilíbrio ecológico deve ser “interior consigo mesmo, solidário com os outros, natural com todos os seres vivos e espiritual com Deus”(n.210). O resultado desse processo é a paz perene.

Estes dois documentos são faróis que nos guiam nestes tempos sombrios, capazes de nos devolver a necessária esperança da qua ainda podemos salvar a Casa Comum e a nós.

Leonardo Boff é colunista do JB online e membro da Iniciativa da Carta da Terra.



quarta-feira, 1 de julho de 2015

PAPA FRANCISCO, UM HOMEM UNIVERSAL

Por Eduardo Hoornaert



"Com o papa Francisco voltamos a Francisco de Assis, universalista ao ponto de pregar para peixes e pássaros, e, mais adiante, a Jesus de Nazaré, que convida cobradores de impostos à sua casa para comer juntos atende a uma mulher siro-fenícia que não pertence ao ‘povo eleito’ e permite que uma mulher derrame óleo precioso sobre sua cabeça"



O cristianismo nasceu universal, sob os impulsos da postura universal de Jesus de Nazaré que não tomava em consideração se alguém era judeu ou não judeu, pecador ou ‘justo’, homem ou mulher, mas tratava a todos e todas de modo igual, independente de gênero, nacionalidade, situação social, cultural ou econômica. Com isso, ele colocou as bases para o universalismo cristão, marca registrada da novidade trazida pelo profeta galileu.

Mas, na medida em que o cristianismo cresceu, perdeu-se o senso do universalismo. A igreja começou a formar um ‘rebanho de fieis’, lutar contra ‘infiéis’ e ‘hereges’ e formatar paróquias para proteger os fiéis contra influências maléficas de fora. Perdeu-se o senso universalista. Quanto mais a igreja cresceu, tanto mais ela agiu como se o mundo inteiro fosse seu território e que ela pudesse fazer valer suas leis para a humanidade toda.

Correndo atrás de poder e prestígio, ela perdeu um dos mais preciosos tesouros do legado de Jesus de Nazaré: a capacidade de se dirigir com amor e desinteresse a todas as pessoas que habitam este planeta. Ela se envolveu em guerras (como as Cruzadas contra o Islã, uma religião irmã) e perseguições, chegando ao ponto de legitimar a tortura (na Inquisição) e a escravidão (ao longo das colonizações europeias).

Só no ano 1964 ela pronunciou uma condenação formal da escravidão (numa referência de passagem que passou despercebida por muitos), por ocasião do Concílio Vaticano II. Isso mostra como a falta de sensibilidade universalista é algo bem recente (apenas 50 anos nos separam do Concílio Vaticano II). Não se pode pensar que ela desaparecerá tão cedo.'

Nesse contexto é importante que surjam pessoas públicas que aproveitam de sua posição privilegiada para reavivar entre nós o senso perdido do universalismo.

·        No século XX tivemos figuras como Mahatma Gandhi, que aproveitou da grande visibilidade que a imprensa mundial lhe deu para difundir amplamente a ideia do universalismo (foi morto por um fanático que não entendeu nada).


  • ·        Tivemos Nelson Mandela, presidente da República da África do Sul,
  • ·        tivemos Martin Luther King, pastor batista,
  • ·        tivemos Helder Camara, arcebispo católico.


Essas pessoas aproveitaram da visibilidade que os meios de comunicação lhes forneciam para difundir o evangelho do universalismo, cada um num determinado setor.

Hoje, entram novos atores a divulgar esse evangelho.

·        Temos o líder grego Alexis Tsipras da Syriza, um político situado num determinado contexto, que divulga uma mensagem que vale para o mundo inteiro: a política não deve servir aos bancos, mas aos cidadãos.

 Mas temos igualmente líderes que aparecem quase diariamente nos grandes meios de comunicação, mas que não se dirigem à humanidade como um todo, como

  • ·        Barack Obama, que só fala em benefício dos Estados Unidos,
  • ·        Ángela Merckel, que só age em benefício da Alemanha.


É com alegria que se percebe que o papa Francisco vem se juntar aos líderes que enxergam a realidade universal em vez de olhar somente para seu ‘rebanho’.

A publicação de sua Carta Encíclica (carta circular) ‘Laudato si’ é um sinal inconfundível dessa nova postura.

Pelo que sei, nenhum papa, ao longo dos séculos, se dirigiu a todas as pessoas que vivem neste planeta sem nenhum tipo de discriminação.

O título da Carta já diz tudo: ‘Carta encíclica Laudato si, sobre o cuidado da casa comum’. O planeta terra é nossa casa comum, a casa de todos e de todas.
Ao longo da Carta, o papa escreve ´nós´, ou seja, envolve seus leitores e suas leitoras numa comunhão de leitura e observação. De vez em quando, ele escreve ‘eu’ (não ´nós’, segundo tradicional protocolo papal), quando enuncia uma opinião pessoal.

Isso faz com que estejamos dialogando com Francisco quando lemos sua Carta. Significativamente, o papa assina o documento com seu nome, numa só palavra: ´Franciscus´.

Francisco deseja conversar conosco de igual para igual, pois faz ponderações sobre temas que nos atingem a todos e todas, desde o papa até o mais ferrenho ateu:
  • ·        o clima,
  • ·        a água,
  • ·        a biodiversidade,
  • ·        a sujeira dos rios e dos córregos,
  • ·        a qualidadede vida,
  • ·        a degradação social,
  • ·        a desigualdade planetária, etc.

Repito: papa Francisco não escreve como líder da igreja católica, embora seja verdade que ele está na posição privilegiada de poder divulgar suas ideias num raio muito amplo. Ele se aproveita disso, como toda razão. Afinal, o papado não é um serviço prestado a toda a humanidade?

Todos e todas necessitamos de

  • ·        ar puro (não o ar que se respira em São Paulo),
  • ·        água pura e suficiente,
  • ·        eletricidade produzida por água,
  • ·        pão e feijão produzidos por plantas sadias (não como muitos produtos nos Supermercados),
  • ·        terra para plantar (não para enriquecer os que já têm dinheiro demais),
  • ·        respeito (inclusive para homossexuais etc.),
  • ·        liberdade (não a falsa liberdade de imprensa defendida pela Globo),
  • ·        dignidade (dos indígenas, negros, mulheres domésticas).


É uma coisa só, um bloco só. Um dos pontos mais inovadores da Carta papal consiste no fato que ele alinha problemas ecológicos e problemas sociais e culturais. Afinal, o universalismo é uma atitude global.

Com o papa Francisco voltamos a Francisco de Assis, universalista ao ponto de pregar para peixes e pássaros, e, mais adiante, a Jesus de Nazaré, que

  • ·        convida cobradores de impostos à sua casa para comer juntos, como se descreve no Evangelho de Marcos (Mc 2, 15-20),
  • ·        atende a uma mulher siro-fenícia que não pertence ao ‘povo eleito’ (Mc 7, 24-30)
  • ·        e permite que uma mulher derrame óleo precioso sobre sua cabeça (Mc 14, 60 sqq).


Um universalismo que passa por cima de todas as barreiras.

Com a Carta encíclica do papa Francisco se abre uma perspectiva que para muitos cristãos parece nova, mas que na realidade pertence ao DNA do movimento de Jesus.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/

terça-feira, 30 de junho de 2015

A ENCÍCLICA LODATO SII E OS POBRES DO MUNDO

Por Marcelo Barros


Finalmente saiu a encíclica do papa sobre ecologia. Nos Estados Unidos, congressistas republicanos e seus candidatos à presidência tinham feito pressão para que o papa não a publicasse.

Há alguns meses, grandes empresários e donos de mineradoras, espalhadas por todos os continentes, fizeram um retiro espiritual no Vaticano para mostrar ao papa que as mineradoras são ecológicas e só extraem minérios da terra. Não a destroem. Mesmo alguns cardeais norte-americanos, mais ligados aos senhores do mundo do que aos pobres, expressaram seus receios. Tentaram impedir que, ao falar de Ecologia Ambiental, o papa pusesse o dedo na chaga e tocasse na Ecologia Social. No entanto, toda pressão, de dentro da própria Igreja e de fora, foi inútil.  A encíclica saiu, poética e profética. Começa por retomar o Cântico das Criaturas de São Francisco para confirmar: “a nossa casa comum é como uma irmã, com a qual compartilhamos a existência e é como uma mãe que nos acolhe nos braços” (n. 1). A partir daí, formula o convite insistente a todos para renovar o diálogo sobre o modo como estamos construindo o futuro do planeta” (n. 14).

No método latino-americano do “ver, julgar e agir”, o papa tratou da Ecologia a partir da realidade social do mundo, da injustiça do sistema econômico excludente dos pobres e da cultura da indiferença que infesta a humanidade.  Isso mostra que é importante ler a encíclica Lodato Sii  a partir da realidade do mundo dos pobres, maiores vítimas da injustiça eco-social provocada pelo sistema que domina o mundo e que também oprime a Terra e a natureza.

O Brasil é um dos países onde as contradições entre um modelo de desenvolvimento predatório e a responsabilidade com a terra, nossa casa comum, se manifestam de modo mais forte.

Conforme dados divulgados pelo jornalista Washington Novaes, no Brasil, mais de 1,26 milhão de quilômetros quadrados de 1.440 municípios de oito Estados nordestinos e do norte de Minas Gerais já mostram algum nível de desertificação. O processo de degradação do solo é muito forte, juntamente com a perda da cobertura vegetal, da biodiversidade e da capacidade de produção da agropecuária. E como mostra o papa em sua encíclica, toda vez que a vulnerabilidade da terra não é respeitada, os que mais sofrem são os pobres. Nas áreas brasileiras que estão em processo de desertificação, a presença de pobres e indigentes é superior à proporção em outras regiões do país. Na verdade, Caatinga e Cerrado têm 85% dos pobres no País (Cf. Eco 21, abril de 2015).

Essa realidade afeta o abastecimento doméstico de água e de alimentos. Por causa da crise da água, em Alagoas, mais de cem mil pessoas estão sendo socorridas para o abastecimento doméstico. No Ceará, pela falta d’água, agricultores perderam de 80% a 90% das safras de milho e feijão (Cf. Remabrasil, 6/5).

A leitura da encíclica do papa Francisco deve nos fazer lembrar dos povos indígenas do Brasil, ameaçados em sua existência como os nossos ecossistemas mais preciosos.

Atualmente, o Brasil tem 820 mil índios, uma pequena parcela da população brasileira, mas com a qual temos uma imensa dívida histórica, social e ecológica. E assim como a terra e toda a natureza, em todas as regiões do Brasil, em um ano, os assassinatos de índios cometidos por madeireiros e grilheiros de terra teve o aumento de 42% (138 casos). No mesmo período e pelo mesmo motivo, os suicídios de índios adolescentes e jovens atingiu 135 registros, um recorde em três décadas. É a partir dessa realidade que, nós, brasileiros, principalmente cristãos/ãs das diversas Igrejas, somos chamados a ler e interpretar a encíclica do bispo de Roma sobre a ecologia. Ele nos propõe aprofundar uma educação e espiritualidade ecológica (n. 202 ss), ou seja, nos formar para a aliança entre o ser humano e o ambiente (n. 209). Isso não se fará sem uma verdadeira “conversão ecológica” (n. 216).

Um documento dos missionários combonianos do Nordeste afirma: “Sabemos quanto o sistema capitalista, ecocida e suicida, herdou da cultura religiosa cristã. Por outro lado, temos a inspiração radicalmente evangélica de São Francisco e o testemunho vivo de muitos e muitas mártires que nos relançam em defesa da vida. Precisamos igualmente de um profundo e humilde processo de conversão e purificação. Uma nova escuta da Revelação, a partir do encontro fecundo entre a Palavra bíblica, o livro da criação e a sabedoria dos povos e das religiões”. Ler a encíclica a partir dos empobrecidos e da realidade do nossos país nos convoca para o que o papa chama de “Ecologia integral”.


  Nosso irmão Leonardo Boff declara que nem a ONU conseguiu sintetizar tão bem essa proposta. Agora, temos de tirar as consequências: a partir das bases, reelaborar uma maneira de viver e expressar a fé que seja libertadora, pluralista (isso é, aberta à colaboração com outras tradições espirituais) e holística, ou seja, baseada em uma justiça eco-social que una o cuidado com a libertação e com a vida dos oprimidos à comunhão efetiva e espiritual ao universo, sacramento de uma presença da qual somos testemunhas e colaboradores. Como diz o cântico de entrada da Missa de Pentecostes:  “O Espírito de Deus, o universo todo encheu, tudo abarca em seu saber, tudo enlaça em seu amor, aleluia” (inspirado no versículo bíblico do livro da Sabedoria 1, 7).  

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A NOVA ENCÍCLICA PAPAL: ENTREVISTA DE LEONARDO BOFF AO JORNAL DO BRASIL


Uma das inspirações para encíclica “verde”,Leonardo Boff fala sobre futuro da “casa comum” e dz que a Encíclica do papa vai reforçar visão mais integral de ecologia.



O teólogo e ecólogo Leonardo Boff, colunista do JB, foi uma das vozes que ajudaram a montar a encíclica do papa Francisco dedicada ao meio ambiente, divulgada na quinta-feira (18). Em entrevista por e-mail, ele falou sobre como seus textos e contribuições chegaram até Bergoglio, “uma das maiores lideranças mundiais, seja no campo religioso, seja no campo político”. Comentou ainda sobre a forma como o papa tem lidado com questões delicadas e também sobre as respostas de potências mundiais às ameaças a “nossa única casa comum”.
“Vejo poucos avanços porque os interesses econômicos se sobrepõem à preocupação pela salvaguarda da única casa comum que temos para morar”, diz Boff em entrevista ao JB
“Vejo poucos avanços porque os interesses econômicos se sobrepõem à preocupação pela salvaguarda da única casa comum que temos para morar. Há uma inconsciência irresponsável e culposa acerca das ameaças que pesam sobre nosso futuro. Se o que a comunidade científica mundial diz fosse ouvido, outros seriam os resultados dos encontros organizados pela ONU sobre o aquecimento global e a crescente erosão da biodiversidade”, alertou Boff. “Meu sentimento oscila entre a catástrofe e a crise”, continuou.
O Papa Francisco estabeleceu uma “relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta” na encíclica Laudato Si [Louvado seja] – Sobre o cuidado da casa comum, divulgada nesta quinta-feira (18) e publicada em português pelas Edições Paulinas. Em janeiro, durante visita às Filipinas, Francisco demonstrou preocupação com a ecologia, afirmando a “necessidade de ver, com os olhos da fé, a beleza do plano de salvação de Deus, a ligação entre o ambiente natural e a dignidade da pessoa humana”.
Para Boff, “o escândalo da pobreza mundial num mundo de altíssimo consumo, a devastação dos ecossistemas e as ameaças que pesam sobre a casa comum, descuidada e maltratada” preocupam constantemente o papa Francisco.

Confira a entrevista com Leonardo Boff na íntegra:

JORNAL DO BRASIL – Como foram suas conversas com o Papa durante a elaboração da encíclica? Houve um encontro pessoalmente?
Leonardo Boff – É com certo constrangimento que respondo às perguntas desta entrevista, para não dar a impressão de uma importância de minha parte que não tenho. Se me perguntarem: você ajudou o Papa a escrever a encíclica?  Devo dizer: não. Apenas ofereci tijolos com os quais, se ele quisesse, poderia construir alguma coisa. Nunca tive um encontro pessoal com o Papa Francisco, somente indireto. Primeiramente através de uma amiga comum, Clélia Luro, para a qual ele telefonava de Roma todos os domingos por volta das 10h.
Através dela ele mandava os recados a mim e me fazia as solicitações de textos. Primeiramente, me pediu um texto que o ex-Presidente da Assembléia da ONU (gestão 2008-2009), Miguel d’Escoto, e eu havíamos elaborado para ser o marco teórico da nova ONU que está sendo excogitada: “Declaración Universal del Bien Común de la Madre Tierra y de la Humanidad”. O texto é urdido dentro do novo paradigma segundo o qual todas as coisas são interconectadas, formando um incomensurável sistema em evolução. Neste texto usávamos muito o termo “casa comum” para referir-nos à Terra.
Depois, quando o Papa esteve no Brasil novamente, por intermédia de uma pessoa, Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales-SP, mandei entregar o livro que havia escrito em função de sua vinda ao Brasil: “Francisco de Assis – Francisco de Roma: uma nova primavera para Igreja”(Editora Mar de Ideias, Rio). Além disso, pedi para entregar em espanhol “Francisco de Assis: ternura e vigor” (Vozes), no qual abordava largamente a questão ecológica, pois ele o havia solicitado pela Clélia Luro. Junto mandei em espanhol a “Carta da Terra”, com recomendações minhas para que a utilizasse, pois me parecia o mais importante documento sobre ecologia no início do século XXI, fruto de uma vasta consulta de mais de duzentas mil pessoas de todas as orientações, sob a direção de Michail Gorbachev; eu havia participado da redação e havia conseguido incluir o tema do cuidado, “o laço de parentesco com toda a vida” e a espiritualidade.
Escrevi ao Papa que a Carta da Terra afirmava a interdependência entre todos os seres e o valor intrínseco de cada um, contra o antropocentrismo tradicional. Outra vez enviei através do bispo de Altamira no Xingu, Dom Erwin Kräutler, que havia em 2014 ganhado o prêmio Nobel alternativo da Paz pelo Parlamento sueco e que passando por Roma o Papa o convidou para redigir algo sobre a Amazônia. Por ele mandei em espanhol o meu livro mais completo sobre ecologia, “Ecologia: grito da Terra-grito dos pobres” (Trotta), expressão assumida pela encíclica. Enviei o outro igualmente em espanhol “Cuidar la Tierra: hacia una ética universal”, publicado no México (Dabar).
O principal foi um livreto com um DVD sobre as quatro ecologias, com belíssimas imagens onde abordo também a ecologia integral. Outros materiais foram enviados ao embaixador argentino na Santa, Sé Eduardo Valdés, amigo de Bergoglio, pois enviando diretamente ao Vaticano nunca se tem a certeza de que as coisas  cheguem às mãos do Papa. Através dele enviei um livro que considerava importante “Proteger la Tierra – cuidar la vida: como evitar el fin del mundo” (Dabar Mexico).
Através do mesmo embaixador enviei vários artigos em espanhol sobre questões ecológicas que saem noJB Online, onde colaboro já há vários anos. Lembro-me que escrevi num bilhete para ser entregue ao Papa, no qual havia uma citação da Carta da Terra que achava que devia constar na encíclica, como de fato consta no número 207: “Como nunca antes na história o destino comum nos obriga a buscar um novo começo… que nossa época possa ser lembrada pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta pela justiça e pela paz e pela alegre celebração da vida” (palavras finais da Carta da Terra).
Nem eu nem o embaixador recebemos qualquer retorno. Qual não foi a surpresa do embaixador Eduardo Valdes quando, no dia anterior à publicação da encíclica, isto é, no dia 17 de junho, o Monsenhor Fernandez do Vaticano se comunicou com ele para lhe agradecer todos os materiais meus que ele havia encaminhado ao Papa Francisco. Para terminar: fiz o que o Papa Francisco me pedia, sem qualquer pretensão de influenciá-lo. A encíclica é dele e ele é seu autor. Comumente, o Papa trabalha com um corpo de peritos que o servem e com outros especialistas convidados. O que posso dizer é que sinto ressonâncias de meus pensamentos e  modos de dizer na encíclica que não são apenas meus, mas de quantos trabalham a partir do novo paradigma de uma ecologia integral. Mas fui apenas um simples servo, como se diz no Evangelho.
O que o senhor poderia dizer a respeito dele e da forma como está conduzindo questões delicadas na Igreja?
Considero o Papa Francisco uma das maiores lideranças mundiais, seja no campo religioso seja no campo político. No campo religioso, usou da ternura de São Francisco para tratar as pessoas, particularmente os mais pobres. Mas tratou com a firmeza de um jesuíta aqueles que macularam a imagem da Igreja cristã com abusos sexuais e crimes financeiros. Neste ponto, ele foi duro e agiu como um médico. Limpou o Vaticano e talvez tenha muito que limpar ainda.
O fato mais visível é que ele trouxe uma primavera à Igreja depois de tempos de volta à grande e velha disciplina. Os cristãos sentem a Igreja como um lar espiritual e não como um pesadelo a ser suportado com desalento. Politicamente ele tem promovido o diálogo entre os povos, aproximado Cuba aos Estados Unidos e vice-versa e pregado insistentemente o encontro como forma de superar preconceitos e fundamentalismos e criar espaço para a paz. E o faz com tanta doçura e convicção que dificilmente alguém deixa de dar-lhe atenção.
O escândalo da pobreza mundial num mundo de altíssimo consumo, a devastação dos ecossistemas e as ameaças que pesam sobre a casa comum, descuidada e maltratada, o preocupam constantemente, pois pressente situações de traços apocalípticos, se nada de sério fizermos para conter o aquecimento global. Creio que a encíclica irá reforçar uma visão mais ampla, sistêmica, integral de ecologia, inserindo especialmente a questão social, mental e profunda. Espero que a discussão agora seja mais enriquecida e não apenas reduzida ao ambientalismo.
O senhor tem visto avanços significativos nesta questão entre as principais potências mundiais?
Há uma inconsciência irresponsável e culposa acerca das ameaças que pesam sobre nosso futuro
Vejo poucos avanços porque os interesses econômicos se sobrepõem à preocupação pela salvaguarda da única casa comum que temos para morar. Há uma inconsciência irresponsável e culposa acerca das ameaças que pesam sobre nosso futuro.
Se o que a comunidade científica mundial diz fosse ouvido, outros seriam os resultados dos encontros organizados pela ONU sobre o aquecimento global e a crescente erosão da biodiversidade que, segundo o conhecido biólogo Edward O. Wilson, oscila entre 27-100 mil espécies que desaparecem definitivamente da evolução, a cada ano.
Vivemos tempos de Noé, onde as pessoas comem e bebem, casam e dão-se a casar sem se dar conta do anúncio de um tsunami. Desta vez será diferente. Não haverá uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os demais. Todos poderemos ter o mesmo destino trágico. O Papa fala destas questões, mas como homem de fé, lembra que Deus, é o “o Senhor amante da vida”, texto que usa mais de uma vez e que concede à esperança a última palavra e não ao desastre.
Como o senhor vê o futuro da Terra? Há esperança?
Meu sentimento oscila entre a catástrofe e a crise. Como estudioso da questão já há mais de 30 anos e lendo os últimos dados científicos tenho a impressão de que nossa vez já chegou. Fizemos tantas e tão graves agressões  contra a mãe Terra que já não merecemos mais viver sobre ela. Ademais, de ano em ano são mais de três mil espécies que chegam ao seu clímax e naturalmente desaparecem do processo da evolução. Não poderá ter chegado a nossa vez? Ou a crise que conserva, sempre purifica e faz crescer.
Por outro lado, como homem de fé, sei que o desígnio do Criador, inscrito nas circunvoluções do processo cosmogênico, pode levar a nossa pequena nave ao porto mesmo tendo ventos contrários. Mesmo que ocorra uma catástrofe que liquide a vida visível de nosso planeta (só 5% é visível, o resto, os 95% são invisíveis como as bactérias, vírus e fungos) acredito que a última palavra a terá a vida. Como não sei. Faço uma aposta positiva, creio e espero.


Leonardo Boff é teólogo e autor do livro SABER CUIDAR, entre outros