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segunda-feira, 7 de maio de 2018

VIDA PERIGOSA



 por Maria Clara Lucchetti Bingemer

       Já bem dizia o grande escritor João Guimarães Rosa pela boca do jagunço Riobaldo, no grande romance Grande Sertão Veredas, que viver é muito perigoso. Referia-se, porém, aos perigos existenciais, que cercam o cotidiano humano, obrigado a lidar com surpresas, riscos, atropelos e obstáculos.  Não falava diretamente da verdadeira roleta russa que passou a significar a existência humana nas cidades brasileiras.

            Falo das cidades sem esquecer nem menosprezar o campo.  Ali também o risco campeia e surpreende na emboscada, na atalaia, na bala que atinge aquele ou aquela que menos espera, como foi o caso da missionária Dorothy Stang, morta em 2005, ao dirigir-se a uma reunião de oração com a Bíblia na mão. Mas, residente urbana que sou, falo daquilo que passou a ser a vida nas grandes cidades do nosso país.

            O que origina minha reflexão neste momento é o incêndio e queda do prédio Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo, na madrugada do feriado do Dia do Trabalho.  Ao que parece a origem do incêndio e consequente desabamento foi uma briga de casal no quinto andar, seguida de uma explosão de panela de pressão.  No entanto, o pastor da igreja luterana vizinha ao prédio afirma que há muito tempo observava que o mesmo se encontrava cada vez mais inclinado para a rua.  Havia avisado às autoridades, mas providências não foram tomadas.

            E o que aconteceu diante de nossos olhos estupefatos foi aquele prédio de 24 andares dissolvendo-se em chamas quando caía, qual um castelo de cartas. Os moradores eram desabrigados, sem teto, que ocupavam o prédio por não terem onde morar.  Muitos não poderiam celebrar o Dia do Trabalho por estarem desempregados.  Viviam em pequenos espaços separados por divisórias improvisadas de madeirite e papelão, cujo aluguel pagavam com ajuda de familiares, amigos etc.  Hoje encontram-se duplamente espoliados.  Além de não terem trabalho, tampouco têm teto.

            Vários foram obrigados a passar a noite na rua, experimentando a surpresa de estar vivos, mas de haver perdido tudo.  Foram os esforços de uma vida que o fogo levou sem deixar vestígios. Quando saírem da estupefação em que se encontram, terão de recomeçar do zero uma vez mais. E viver sem saber se o perigo estará à espreita em um trem descarrilado, em um tiroteio com balas perdidas a esmo que atingem alvos não buscados, em um ônibus tomado por assaltantes, em um prédio condenado que finalmente desaba.

            As cidades brasileiras submetem seus moradores a situações de perigo cada vez maiores.  No Rio de Janeiro, não se pode ir a determinado lugar porque no caminho está havendo tiroteio.  E assim como se busca nos aplicativos do celular o caminho mais curto para chegar ao destino, busca-se igualmente o caminho onde haja menos probabilidade de passar por um tiroteio, ser atingido e nunca mais chegar. 

            As redes sociais converteram-se em alerta para situações de perigo acontecendo dentro do perímetro urbano. Não apenas tiroteios, mas arrastões, rolés, assaltos.  Enviam-se fotos de assaltantes que tentaram entrar em residências disfarçados de técnicos, entregadores de pizza etc.

            Nada, porém, é comparável ao que esse perigo constante faz com as vidas dos pobres. Se é verdade que todos os moradores das cidades maiores do Brasil estão permanentemente submetidos a tais situações, aqueles cuja vida é uma insegurança permanente experimentam essa periculosidade diuturna em muito maior proporção. 

            Agora mesmo o centro de São Paulo está cheio de pessoas que moravam no prédio desabado. Alguns se recusaram a ir para abrigos e preferiram dormir na rua.  O tempo vai esfriando e ficarão expostos à intempérie e às temperaturas baixas, ao relento.  Na pressa para escapar do fogo e salvar a vida não puderam levar nada a não ser a roupa que vestiam.  Agora dependem da caridade de vizinhos e moradores da cidade que lhes oferecem alimentação, abrigo, agasalhos. 

           Não se sabe ao certo a origem do incêndio.  Nem se tem um diagnóstico preciso sobre as condições do prédio.  Possivelmente já estivesse frágil e instável, vulnerável a qualquer acontecimento inesperado.  O fogo acabou de derrubá-lo e o país viu, estarrecido, a fragilidade de sua estrutura. Os prédios vizinhos causam medo.  Não estarão na mesma situação.

            Seguimos nós todos, teimosamente, insistindo em viver neste país.  Acreditamos que vale a pena, que é possível melhorar.  Acontecimentos como este, no entanto, mostram com evidência assustadora que ser brasileiro é, a cada dia que passa, uma aventura sempre mais perigosa.

 Maria Clara Lucchetti Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco), entre outros livros.

 Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 4 de maio de 2018

CIDADANIA E PROJETO DE REFUNDAÇÃO DO BRASIL



por Leonardo Boff

A cidadania posui várias dimensões: é político-participativa, é econômica-produtiva, é popular-includente, é con-cidadania, é ecológica, e por fim é terrenal.

No contexto atual de um regime de exceção que não respeita mas antes fere a cidadania de todo um povo, precisamos aprofundar este tema.

A cidadania é um processo inacabado e sempre aberto a novas aquisições de consciência dos direitos, de participação política e de solidariedade, como fundamento de uma sociedade humanizada. Só cidadãos ativos podem fundar uma sociedade democrática, como sistema aberto (democracia sem fim no dizer de Boaventura de Souza Santos) que se sente imperfeita mas ao mesmo tempo sempre perfectível. Por isso, o diálogo, a participação, a vivência da correção ética e a busca da transparência constituem suas virtudes maiores.

A cidadania se realiza dentro de uma sociedade concreta que elabora para si projetos, muitas vezes, conflitantes entre si, de construção de sua soberania e dos caminhos de inserção no processo maior de planetização. Todos eles querem dar uma resposta à pergunta: que Brasil, depois de mais 500 anos, finalmente, queremos? Ocorre que o atual golpe interferiu tanto na Constituição colocando limites aos gastos sociais que acaba por impossibilitar a criação de um Estado Social Democrático nacional. É um projeto contra a nação livre, contra o povo e seu future.

Fundamentalmente e simplificando uma realidade muito complexa, podemos dizer: há atualmente dois projetos antagônicos disputando a hegemonia: o projeto dos endinheirados, antigos e novos, articulados com as corporações transnacionais (e hoje sabemos apoiados pelo Pentágono) querem um Brasil menor do que realmente é, um Brasil de no máximo 120 milhões, pois assim, acreditam eles, daria para administrá-lo, em seu benefício, sem maiores preocupações. Os restantes milhões que se lasquem pois sempre tiveram que se acostumar a viver na necessidade e a sobreviver como podem. Bastam políticas pobres para acalmar os pobres.

O outro projeto quer construir um Brasil para todos, pujante, autônomo, ativo, altivo e soberano face às pressões das potências militaristas, técnica e economicamente poderosas que visam a estabelecer um império do tamanho do planeta e viver da rapinagem das riquezas dos outros países. Estes se associam com as elites nacionais que aceitam ser sócios menores e agregados ao projeto-mundo, a troco de vantagens que podem auferir economicamente. Querem recolonizar a América Latina particularmente o Brasil para serem apenas exportadores de commodities e desnacionalizando nossa infra-estrutura insdustrial (energia electrica,petroleo,terras nacionais etc).

Os dois golpes que conhecemos na fase republicana, o de 1964 e do 2016, foram tramados e dados em função da voracidade dos endinheirados, contra o povo e recusando construir um projeto de nação soberana que teria muito que contribuir nesta fase planetária da Humanidade. Eles não têm um projeto de Brasil, somente um projeto para si, para a sua acumulação absurdamente alta.

A correlação de forças é profundamente desigual e corre em função das elites opulentas que segundo Jessé Souza compram as demais elites. Elas conseguiram dar um golpe em Dilma Rousseff e tanto fizeram que com um processo judicial completamente viciado colocar na prisão o ex-presidente Lula que goza, de longe, das preferências eleitorais do povo.

Estas elites do atraso não têm nada a oferecer para os milhões de brasileiros que estão à margem do desenvolvimento humano, senão mais empobrecimento e discriminação.

Mas estas elites que nem esse título merecem, pois são apenas ricos sem nunca chegarem a ser elites (Belluzo), não são portadoras de esperança e, por isso, são condenadas a viver sob permanente ameaça e com medo de que, uma dia, esta situação possa se reverter e perderem sua situação de riqueza e de privilégios.

Eis a nossa esperança: de que o futuro acabe pertencendo aos humilhados e ofendidos de nossa história que, um dia – e ele chegará – herdarão as bondades que a Mãe Terra reservou para eles e para todos.

É utópico, mas representa o sonho de todas as culturas que, um dia, todos, alegres, se sentarão juntos à mesa, na grande comensalidade dos libertos, gozando dos frutos da generosidade da Mãe Terra. Então, olhando para trás compreenderão que valeu a resistência, a indignação contra os malfeitos e a coragem de mudar.

Só então começará uma nova história, da qual os resistentes e lutadores foram os principais protagonistas, daquilo que, no caso de nosso país, poderá ser a verdadeira refundação do Brasil.

Leonardo Boff é filosofo-teólogo e escreveu:Brasil: prolongar a dependência ou concluir a refundação? Vozes 2018.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

BRASILEIROS CADA VEZ MAIS POBRES



 por Frei Betto

       O Brasil se destaca como um dos países mais injustos do mundo. Os dados são do governo Temer, divulgados a 11 de abril deste ano, pela  Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, feita pelo IBGE.

       Nossa população atual é de 213 milhões de habitantes. Apenas 1% da população, 2.130 pessoas, recebe 36,1 vezes mais do que ganha a metade mais pobre da população. O rendimento médio mensal dessa metade mais pobre era de R$ 754 em 2017, enquanto a média recebida pelos mais ricos, de R$ 27.213.

       Se todas as pessoas que têm algum tipo de renda no Brasil recebessem o mesmo valor mensal, este seria de R$ 2.112. Não é o que acontece. Metade dos trabalhadores com menores rendimentos ganha, em média mensal, R$ 754, enquanto o 1% com os maiores rendimentos recebe, em média, R$ 27.213, ou seja, 36,1 vezes mais.

       Em 2017, 5% dos trabalhadores tinham rendimento médio mensal de apenas R$ 47. Houve uma queda de 38% em relação a 2016, quando a renda média mensal desses 5% era de R$ 76.

       Houve também queda no percentual de domicílios beneficiados pelo Bolsa Família. Passou da fatia de 14,3% em 2016 para 13,7% em 2017. Temer corta sem dó nem piedade.

       Em 2017, 60,2% da população brasileira, (124,6 milhões de pessoas) tinham algum tipo de renda, sendo 41,9% (86,8 milhões de indivíduos) provenientes do trabalho, e 24,1% (50 milhões) originários de outras fontes.

       Entre rendimentos de outras fontes, o mais frequente era aposentadoria ou pensão, recebido por 14,1% da população, seguido por pensão alimentícia, doação ou mesada (2,4%); aluguel e arrendamento (1,9%); e outros rendimentos (7,5%), categoria que inclui seguro-desemprego, programas de transferência de renda (como Bolsa Família) e poupança, entre outros.

       Em 2017, do total de 207,1 milhões de pessoas residentes no Brasil, 124,6 milhões (60,2%) possuíam algum tipo de renda, seja proveniente de trabalho (41,9% das pessoas) ou de outras fontes (24,1% das pessoas), como aposentadoria, aluguel e programas de transferência de renda.

       Outra maneira de constatar a distribuição de renda no Brasil é através da renda domiciliar per capita (por pessoa), calculada da seguinte forma: somam-se todos os rendimentos de um domicílio e divide-se pelo número de moradores.

       Em 2017, a renda média domiciliar per capita foi de R$ 1.271. Da massa de R$ 263,1 bilhões gerados, os 20% da população com os maiores rendimentos ficaram com uma parcela superior à dos 80% com os menores rendimentos.

       Em 2017, os 10% mais pobres da população detinham apenas 0,7% de toda a massa de renda do País. Já os 10% com mais ricos concentravam 43,3% de toda a riqueza, montante superior à massa detida por 80% da população com renda mais baixa.

       Combater a desigualdade social é o principal desafio de um Brasil bem administrado.



Frei Betto é escritor, autor do romance “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

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Maria Helena Guimarães Pereira

MHP Agente Literária - Assessoria

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terça-feira, 1 de maio de 2018

A DIGNIDADE DO TRABALHADOR NO MUNDO DO DESEMPREGO


por Marcelo Barros

Nesse 1º de maio, a classe trabalhadora comemorará o seu dia em um mundo cada vez mais dominado pelo desemprego e pela precarização do trabalho. No Brasil atual, conforme o IBGE, a taxa de desemprego está em 12, 6%. Isso significa que o número de desempregados subiu desde o ano passado. 

Ao mesmo tempo, a chamada reforma trabalhista, implementada pelo atual desgoverno abriu todas as portas e janelas para a terceirização de todas as atividades empresariais e a precarização do trabalho. O objetivo da reforma foi desmontar os direitos trabalhistas e diminuir as garantias que os trabalhadores tinham na lei. A finalidade disso é a redução de preços de produção e assim aumentar o lucro das empresas. Para esse fim, a automação do trabalho faz com que, dentro de cinco anos, desaparecerão do mundo quinze milhões de emprego. Trabalhos que até agora são realizados por trabalhadores serão totalmente cumpridos por robôs ou mesmo nem existirem. Em todas as categorias de produção, isso gera desemprego em massa. Antigamente, o trabalhador que perdia, hoje, o seu emprego, tinha esperança de, em breve tempo, conseguir outro trabalho. Atualmente, a perda do emprego tem um caráter trágico porque é o próprio trabalho que, ao ser automatizado pode desaparecer.

O mundo atual é dominado pelo que, com muita propriedade, Lasdilau Dowbor chama de "capital improdutivo". Os bancos e empresas financeiras que, antes, estavam a serviço do sistema produtivo, atualmente, dominam o mercado e vivem de rendas. Em plena recessão e em um mundo do desemprego, os bancos registram lucros bilionários e absurdos. Isso gerou um mundo no qual oito famílias têm mais riquezas do que a metade da população mundial. E os meios de comunicação chamam isso de desenvolvimento e pregam que é inevitável. Fazem de conta que denunciam a corrupção dos políticos e nunca contam como essas grandes somas de dinheiro se movimentam de um país a outro.

Ninguém alude ao papel dos grandes bancos em meio a tudo isso. O sistema financeiro nunca pode ser colocado em questão.

No Brasil e no mundo inteiro, a sociedade civil organizada e os movimentos sociais se levantam contra esse sistema. Rompem o dogma do "não tem outro jeito". Inventam alternativas criativas e revolucionárias.

Em todo o mundo se espalham experiências de economia solidária e de produção em cooperativas livres e não dominadas pelo sistema capitalista neoliberal. No Brasil, movimentos sociais como o dos trabalhadores sem-Terra (MST) e dos pequenos agricultores (MPA) nos dão exemplos na Agricultura Ecológica e na produção de alimentos para a mesa do nosso povo. Atualmente, em muitas cidades, os movimentos sociais não somente festejam o 1º de maio. Fazem uma Semana da Classe Trabalhadora.

 Promovem encontros e reflexões sobre precarização do mundo do trabalho, as péssimas condições de segurança em muitos trabalhos e as ameaças de privatização dos hospitais públicos e das cadeias. Defendem o sistema de saúde dos trabalhadores, assim como outros desafios que o povo empobrecido enfrenta no Brasil. Na Argentina e em outros países do continente, nos últimos anos, dezenas de indústrias falidas e que iriam fechar foram tomadas pelos trabalhadores que começaram a administrá-las gerando novos empregos. Todas essas empresas puderam se reestruturar. A produção é garantida e os trabalhadores provam que é possível uma administração mais justa do trabalho e das condições de vida humana.

Nos seus encontros com os movimentos sociais, o papa Francisco tem insistido que esse sistema econômico é iníquo. O papa acredita que os pobres e trabalhadores podem ser construtores de uma nova sociedade mais justa e mais humana. Na sua carta mais recente, ele chama os cristãos e cristãs de todo o mundo a viver o espírito das bem-aventuranças de Jesus e, como os profetas e profetizas da justiça e da paz, nunca se conformarem com um sistema injusto e excludente. Lembra que o evangelho chama Jesus de carpinteiro ou artesão, termo usado na época para qualquer trabalhador braçal. Assim, os homens e mulheres que hoje assumem a missão de participar da caminhada coletiva do mundo do trabalho sabem que ao lutar pacificamente para transformar esse mundo estão sendo testemunhas de que o reinado divino está vindo e Deus está presente na luta do povo pela justiça e pela paz.

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.