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terça-feira, 6 de agosto de 2019

NOVO JEITO DE SER PADRE



Por Marcelo Barros

Nos ambientes católicos, 04 de agosto se firmou como “o dia do padre”. Parabenizamos os padres que conhecemos e agradecemos a Deus o fato de nos dar bons padres. O papa Francisco nos convida a aprofundarmos que tipo de padre e pastor Deus deseja hoje para as Igrejas. A  vocação do padre é sempre a mesma e uma só, mas o modo de exercê-la tem mudado muito através dos tempos. Hoje, precisa se renovar para que a sua missão atinja verdadeiramente a humanidade.

Nos primeiros séculos, a Igreja era uma confederação de Igrejas locais autônomas. Depois se tornou instituição centralizada sob a autoridade do papa, em Roma, dos bispos em cada diocese e dos padres nas paróquias. Esse tipo de organização expressa um modelo de Igreja que, comumente, se chama de “Igreja Cristandade”, ou seja, uma Igreja que faz parte da organização do poder do mundo e se torna uma espécie de religião civil. Atualmente, na busca de se inserir no mundo como testemunha do projeto divino para a humanidade, o modo da Igreja ser começa a mudar e o ministério dos padres também.

O 04 de agosto se tornou “dia dos padres”, porque nesse dia, a Igreja faz memória de São João Maria Vianney, cura de Ars. Ele viveu na França do século XIX e foi canonizado por Pio XI (1925). Era um lavrador que conseguiu ser padre, apesar de não ter jeito para estudos. Foi pároco de uma aldeia do interior e exemplo de santidade para todos.  Praticava uma  vida de oração e de renúncia. No seu trabalho de padre, privilegiava o ministério de confessor. Conforme sua biografia, às vezes, chegava a passar, 15 horas, em seguida, no confessionário e ouvia pessoas que vinham de todo o país, atraídas por sua fama de santo e bom conselheiro. Por isso, desde 1929, o papa o tornou padroeiro dos párocos e sacerdotes encarregados do que, na época, se chamava “cura das almas”.

De fato, São João Vianney foi excelente pároco para o modelo de Igreja do seu tempo. Nos tempos atuais, continuamos a admirar a vida de oração e o exemplo do santo Cura de Ars, mas precisamos que Deus que nos inspire um novo modo de ser padre.

Há mais de 50 anos, em 1968, reunidos na 2a conferência geral do episcopado latino-americano em Medellín (Colômbia), os bispos católicos já afirmavam: “As grandes mudanças no mundo e na América Latina afetam obrigatoriamente os padres no exercício do seu ministério e em suas vidas” (Medellín 11, 1). “A consagração do sacramento da Ordem situa o padre no mundo a serviço da humanidade. (...) Isso exige de todo sacerdote especial solidariedade no serviço à humanidade. O padre deve colocar suas preocupações de padre a serviço do mundo, ... em um contato inteligente com a realidade que resulte em um modo especial de presença no mundo e não em uma segregação dele” (Medellín 17, 1 e 3).

Naquela conferência, os bispos afirmaram o que o Concílio já tinha dito: “Os presbíteros (padres) atuam na comunidade como membros específico,s que compartilham com todo o Povo de Deus o mesmo ministério e a mesma missão salvadora” (Medellín 16, 2, citando o decreto do Concílio sobre os padres PO 6). Essa compreensão nova dos ministérios leva a desejarmos e esperarmos um novo modo de ser padre. No Brasil, temos a graça de contar com excelentes padres, que dedicam suas vidas ao povo e revelam fidelidade exemplar à missão recebida. De norte a sul do país, padres mais velhos e jovens são verdadeiras colunas de fé e testemunhas do Cristo no mundo. Esses profetas nos animam na caminhada da vida e da fé. No entanto, por causa do modelo ainda centralizador e monárquico da Igreja Católica, mesmo entre os padres bons e generosos, poucos se sentem com coragem e condições de transformar o modo de exercer o serviço pastoral e, assim, construir junto com todo o povo de Deus, uma Igreja em saída. 

 Além disso, contrariamente ao modelo de Igreja que o Concílio tentou superar, ainda há outros padres e não são poucos que foram formados em um estilo clerical que os separa do povo e os faz se sentir acima dos simples cristãos. Preocupam-se mais com vestes litúrgicas do que com sua missão social e profética.

Essa inadequação de uma Igreja pouco inserida na realidade tem provocado escândalos, no plano moral e no nível econômico. E mesmo padres sobre os quais não pesa acusação de tipo moral ou de irregularidade econômica, tomam posições autoritárias e apoiam políticos contrários à causa dos pobres. Testemunham um Deus impiedoso e cruel que nada tem a ver com o Deus da Justiça, Misericórdia e Compaixão que Jesus nos ensinou.

Atualmente, o papa Francisco tem denunciado que o Clericalismo é um câncer na Igreja. Se o tumor é canceroso, tem de se extrair o órgão. Só que nesse caso, o clericalismo não é um abuso ou desvio ocasional do sistema eclesiástico. É o próprio sistema que divide os cristãos em duas classes: clérigos e leigos, ordenados e não ordenados. Isso, o Concílio Vaticano II não conseguiu transformar (LG 10). Divide os cristãos em duas categorias, como se o clericalismo fosse instituição divina.


Hoje, a Igreja Católica e todas as Igrejas cristãs têm urgência em voltar ao evangelho e reafirmar para si mesmas e para o mundo que, em uma comunidade de discípulos e discípulas  de Jesus, só tem uma ordem:  a dos batizados/as em Cristo. Dessa devem depender como serviços e funções todos os ministérios dos quais as comunidades precisam. Esses ministérios, inclusive o dos padres, vão surgir e se desenvolver a partir das comunidades. Demos parabéns aos padres, oremos por eles e peçamos a Deus que renove a forma de ser dos ministérios eclesiais e os abra a todos os filhos e filhas de Deus, batizados/as como testemunhas da ressurreição de Jesus. 

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

GANGORRA NA FRONTEIRA




Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Não é de hoje que o movimento da vida é comparado ao de uma  gangorra. O brinquedo no qual se sobe e desce alternadamente nas extremidades de uma longa trave apoiada sobre um espigão faz as delícias das crianças.  E também dos adultos muitas vezes. Pelo movimento que faz subir e descer, não podendo jamais estacionar ao mesmo nível, o significado de gangorra é associado à  insegurança, incerteza, instabilidade. 

            Daí a comparação com a vida, que é o território das surpresas e dos inesperados, levando ora para cima, ora para baixo, aqueles que nela estão embarcados pelo nascimento e que só chegarão ao porto no momento da morte. Nada mais inseguro, instável do que a vida.  E, no entanto, como é apaixonante, bela, preciosa.  Tudo que sabemos é que não pedimos para nascer, mas não queremos morrer.  A gangorra em movimento nos fascina e nela queremos estar, sem parar e sem desistir. E os pequenos que estão começando a viver se deliciam com o movimento para cima e para baixo, incessante e constante. 

            No entanto, há alguns dias esse tradicional brinquedo ganhou a mídia e as redes sociais com novo significado.  Tudo porque dois professores da Califórnia resolveram através não de uma, mas de várias gangorras, subverter o bloqueio e o terror instaurados na fronteira entre México e Estados Unidos. A política migratória, cada vez mais dura do Presidente Donald Trump, tem tido como consequência violência, mortes e deportações na fronteira entre os vizinhos do norte e do sul. 

Dois artistas que são também educadores resolveram inverter a mensagem de obstrução e interdição que o muro representa.  Em Sunland Park, no estado de New Mexico, foram instaladas gangorras que, deflorando a violência fria e inexpugnável do muro, chegam a Ciudad Juarez, do outro lado.  E assim convidam à brincadeira e ao balanço tanto estadunidenses como mexicanos, adultos e crianças, pessoas que se encontram de um lado e outro da fronteira. 

            Desde o último dia 29, as gangorras foram instaladas e começaram a ser usadas.  De um lado, Sunland Park, do outro Ciudad Juarez, uma das mais violentas na fronteira mexicana, onde o feminicídio tem taxas altíssimas e tem havido muitos casos de estupro, violência e morte com os migrantes que por ali passam. 

            A ideia dos dois professores, um arquiteto e uma designer, é mais antiga. Data de 2009.  Mas somente agora foi implementada.  E o resultado foi que o mundo inteiro pôde ver, graças às tecnologias de comunicação veloz que hoje temos, crianças e adultos de ambos os países interagindo, rindo, conversando, brincando enfim. O símbolo sombrio do muro que separa os dois territórios foi subvertido pelas gangorras de cor rosa forte, onde mexicanos e estadunidenses sobem e descem, dialogam e fazem comunhão. 

            Embora aparentemente a intenção da instalação das gangorras tivesse um objetivo primário imediato, que era atrair as crianças, já alcançou muito mais. Não só crianças têm usado a gangorra.   Adultos também se balançam na trave inquieta e rosada que atravessa a grande barreira de aço do muro da divisão.  E pessoas de distintas nacionalidades, não apenas mexicanos e estadunidenses, entram no balanço das gangorras e alternam subidas e descidas que movimentam o corpo e refrescam o espírito. 

            Mais que isso, porém, os dois pedagogos tinham um objetivo ainda mais profundo.  O muro foi feito para separar os dois países e deter os migrantes que vêm não apenas do México, mas de vários países da América Central, tentando chegar ao sonho de uma vida melhor e mais digna. Agora, porém, é ponto de apoio de relações. E as gangorras fazem com que aqueles que ali se sentam e se balançam, rindo e conversando, também reflitam sobre o fato de que o que acontece de um lado tem uma consequência direta para o outro lado. 

            Aí reside talvez o sentido mais pleno e profundo da afirmação de que a vida é uma gangorra.  Nada do que se faz fica impune.  Nenhuma de nossas ações deixa de repercutir sobre o outro e sua vida.  O fechamento das fronteiras de uma nação rica, obstruindo a entrada de pessoas que vêm de uma situação de pobreza e violência, tem consequências dolorosas e até mortais. 

            A gangorra ensina que tudo que sobe desce.  Isso significa que aquele ou aquela que hoje está em situação confortável observando a vida desde uma altitude privilegiada, amanhã poderá estar por baixo, em vulnerabilidade e desvantagem.  Se fosse transferida para o comunitário e o coletivo, talvez as gangorras que perfuram o muro “intransponível” para conectar os de cima e os de baixo pudessem servir para chamar atenção e conscientizar uns e outros, transformando a fronteira em um lugar mais humano e menos inóspito. 

            As gangorras da fronteira mostram que podem, além de subir e descer, perfurar silêncios e bloqueios, e construir relações e solidariedade. Parabéns aos dois autores que colocaram em prática essa bela ideia. 

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc), entre outros livros
  
Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 2 de agosto de 2019

O PROJETO NEOLIBERAL NO MUNDO E NO BRASIL É ANTI-VIDA E INIMIGO DA NATUREZA



Por  Leonardo Boff
Aproveito as reflexões de um de nossos melhores filósofos, da Universidade Federal do Ceará, Manfredo de Oliveira, especializado na relação entre economia, sociedade e ética. Sua obra sobre o tema é vasta. Aqui resumimos um estudo mais longo sobre o projeto implementado no mundo e agora no Brasil: o neoliberalismo ultra radical. Escreve ele:
“Este projeto fundamentalmente consiste na implementação radical do que se denomina “Liberalismo Econômico”. Esta corrente de teoria econômica é conhecida como a Escola de Chicago que tem, contudo, seus fundamentos filosóficos nas teses da assim chamada Escola Austríaca, cujo principal expoente é Ludwig von Mises. Eis as teses básicas: o direito de propriedade é o único direito universal, fundamental e absoluto que começa com o direito absoluto do próprio corpo e inclui todos os bens que se possa adquirir. Deste direto se derivam o direito absoluto de não agressão à propriedade e o direito de defender a propriedade”.
“O Estado é visto como o grande usurpador da propriedade e a única instituição eticamente aceitável na esfera da atividade econômica é o “Mercado Livre”. Todos no mercado livre têm os mesmos direitos. Cada indivíduo é o único responsável por seus objetivos. Suas regras constituem um mecanismo semelhante às leis da natureza: elas são algo objetivo que o ser humano não tem condições de modificar. Devemos estudar a ação humana como um físico estuda as leis da natureza”.
“Assim como não podemos julgar boa ou má a lei da gravidade, do mesmo modo não podemos julgar as leis do mercado. Não tem sentido aqui levantar questões éticas que pertencem a outro nível. A única questão aqui é sua eficiência técnica. O mercado é compreendido como um mecanismo auto-organizador e enquanto tal sua avaliação tem como critério a eficiência e não a valoração ética”.
“Não há direitos fora das leis do mercado. Portanto, a desigualdade e a exclusão nada têm a ver com injustiça social. Assim, a pobreza não é um problema ético, mas uma incompetência técnica. O maior erro dos opositores do capitalismo é a acusação de injustiça social baseada na ideia de que a “natureza” concedeu a todas as pessoas certos direitos só pelo fato de terem nascido”. Por esta razão, no que toca à distribuição da riqueza…”não tem sentido referir-se a um suposto princípio natural ou divino de justiça”(Cf. MISES L. von, The Anti-Capitalist Mentality, Auburn, 2008, p. 80, 81).”
“O imposto é uma forma de confisco da propriedade. Portanto, nem saúde, nem educação, nem previdência, nem segurança pública, nem justiça se legitimam enquanto financiados pelo Estado. Os pobres são indivíduos que por culpa própria perderam a competição com outros. Assim, o mérito emerge como único critério de ascensão social.”
“Esse projeto de sociedade é chamado, frequentes vezes, pelo Papa Francisco de “anti-vida”, “assassino dos pobres e da natureza”. Ele visa se opor ao Estado de Bem Estar Social (no Brasil, Estado democrático de Direito). Este orienta-se pelos seguintes elementos na linha de J.M.Keynes: 1) Intervenção do Estado nos mecanismos de mercado; 2) Política de pleno emprego (melhoria dos rendimentos dos cidadãos); 3) Institucionalização do sistema de proteção; 4) Institucionalização de ajudas para os que não conseguem estar no mercado de trabalho”.
“O resultado deste processo foi o aumento da capacidade de consumo das classes menos favorecidas”.
“O objetivo fundamental agora,no novo modelo de sociedade neoliberal, é maximizar o lucro do capital, o que faz com que os direitos sociais tendam a desaparecer e que aumentem as riquezas para os mais ricos, junto com a desregulação dos mercados de trabalho. Daí a cruzada global contra a intervenção estatal e os direitos sociais e econômicos criados pelas políticas do Estado Social, pois constituem um obstáculo à operação das leis de concorrência e por isto são políticas irracionais e populistas. Desta forma, os defensores do “mercado totalmente livre” se contrapõem às políticas sociais, consideradas ineficientes e perturbadoras do processo produtivo”.
“O caminho agora é confiar plenamente no mercado enquanto sistema auto-organizador que, uma vez libertado de regulações e intervenções indevidas, soluciona por si os problemas econômicos e sociais”.
“Neste contexto se mostra que agora o eixo básico do projeto de civilização é a subordinação da qualidade de vida dos seres humanos à acumulação do capital”.
“Importa, entretanto, reconhecer que os resultados deste processo ameaçam a vida humana e toda vida no planeta. A exploração ilimitada da natureza se mostra nas catástrofes socioambientais. Cientistas,dos mais notáveis, alertam-nos para o fato de que o modelo econômico vigente pode encaminhar a humanidade a um colapso ecológico-social”
Se Bolsonaro e Guedes assumirem este projeto ultra neoliberal farão surgir um país com milhões de pobres e até párias, com poucos ricos e um punhado de multi-milionários, um país não só pobre mas também injusto.
Leonardo Boff escreveu: “Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência”, Vozes 2018.


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O QUE O BRASILEIRO ACHA DO BRASIL



Frei Betto

       Em abril deste ano, o Banco Mundial divulgou relatório com o subtítulo “Quando os sonhos encontram a realidade”. Ali admite que os anos 2003 a 2014 foram de bonança para a América Latina. Período em que o continente era majoritariamente governado por partidos progressistas, cujas economias se fortaleceram favorecidas pelas exportações de commodities e programas sociais adotados.
    
   O número de pessoas que viviam com menos de US$ 5,5 por dia (R$ 21 ou menos de R$ 630 ao mês) caiu 45,6% em todo o continente. No Brasil, 39,6 milhões de pessoas saíram da pobreza no período, graças ao aumento de empregos e a programas sociais, como o Bolsa Família.

       O relatório, contudo, menciona que, entre 2014 e 2017, a pobreza no Brasil voltou a crescer três pontos percentuais, ou seja, em apenas três anos 7,4 milhões de pessoas retornaram à pobreza na época em que o governo abraçou um rumo mais neoliberal.

       A partir de então, a situação social de nosso país só se agravou e atingiu a alarmante cifra de 13 milhões de desempregados. Para sair da crise, o Banco Mundial recomenda tudo que os nossos governos não têm feito nos últimos três anos: diversificar a economia; modernizar a indústria; investir em inovação; aprimorar o sistema educacional; e reduzir a dependência do país aos ciclos de commodities. E aconselha que, em momentos de crise, sejam adotadas medidas como o seguro-desemprego.
  
     Também em abril deste ano, a Oxfam Brasil, em parceria com o DataFolha, divulgou o resultado de intrigante pesquisa de opinião pública, feita em fevereiro: 86% dos brasileiros consideram que o progresso do país depende de políticas de redução da desigualdade entre ricos e pobres, questão até agora ignorada pelo governo Bolsonaro. Ou seja, o Estado precisa, sim, interferir na questão social.  No entanto, 57% não acreditam que a desigualdade será reduzida nos próximos cinco anos, embora 77% sejam favoráveis ao aumento de impostos dos mais ricos para financiar políticas sociais.
   
    Há décadas estão parados no Congresso projetos para taxar as grandes fortunas, como proposto pelo artigo 153 da nossa Constituição. Os mais ricos gozam de mais isenções de impostos e, proporcionalmente, pagam menos que os mais pobres. Em 2018, as isenções atingiram a cifra de R$ 908 bilhões. A Oxfam registra que, ano passado, cinco brasileiros possuíam uma fortuna igual à soma da renda de 105 milhões de brasileiros, metade da população do país. São eles: Jorge Paulo Lemann, Joseph Safra, Marcel Hermann Telles, Carlos Alberto Sicupira e Eduardo Saverin.
  
     O que é preciso para ter uma vida melhor?  Dois em cada 3 brasileiros responderam: “fé religiosa”, “estudo” e “acesso à saúde”. É curioso assinalar que a renda não foi apontada como prioridade. Apenas 8% citaram “ganhar mais dinheiro”.
  
     Em relação às mulheres, 64% concordam que elas têm renda menor do que os homens, enquanto 52% acreditam que os negros ganham menos do que os brancos por serem negros. A convicção de que o preconceito continua arraigado em nossa cultura é muito forte, pois 72% estão convencidos de que a cor da pele influi na contratação pelas empresas, e 81% de que os negros sofrem mais abordagens policiais do que os brancos.
     
  Embora a realidade, infelizmente, não desminta os dados acima, é louvável constatar que 86% dos brasileiros discordam da opinião de que mulheres não devem trabalhar fora, e sim se dedicar aos cuidados dos filhos e da casa.
       O brasileiro, contudo, é otimista. Embora 65% se localizem nas categorias “classe média baixa” ou “pobre”, 70% acreditam que dentro de cinco anos estarão entre a “classe média” ou a “classe média alta”. Dentre os que têm renda mensal individual de até 1 salário mínimo, 68% acreditam que estarão entre as classes médias até 2024.
     
  Os que admitem que nos últimos cinco anos foram rebaixados de classe social são 17%. As causas são perda de renda da família (43%); desemprego (39%); educação insuficiente (20%) e por habitarem em locais inapropriados (12%). Para 74% um jovem cujo endereço fica na periferia tem menos chance de obter um emprego.
       São dados preocupantes e que retratam bem a nossa realidade. Resta nos convencermos de que governo é como feijão, só funciona na panela de pressão.

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros. 
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