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segunda-feira, 12 de junho de 2023

ECOTEOLOGIA: A TEOLOGIA PENSA O PLANETA

  Maria Clara Bingemer


 

A ecoteologia  pretende ser uma reflexão que se faz a partir da revelação e da fé e da metalinguagem por ambas gerada, que é a teologia. A crítica moderna e secular às religiões monoteístas denunciou a crise ecológica. Tal crítica atingiu todas as ciências e muito especialmente a teologia. 

O cristianismo e seu discurso teológico foram acusados de haver promovido uma série de atitudes prejudiciais à natureza. Assim também foi a teologia cristã, denunciada como sendo antropocêntrica, vendo e valorizando apenas o ser humano, desconsiderando os outros seres vivos que povoam o planeta e a terra que é casa comum  de todos. 

A ecoteologia surge como tentativa de resposta a esta crítica, resultando em tarefa construtiva que faz uma leitura ao mesmo tempo crítica e positiva das escrituras judaicas e cristãs quanto às questões ambientais. 

Ao longo da história predominou na tradição judaica e cristã uma visão marcada pelo dualismo entre o céu e a terra, que gerou por sua vez uma visão de mundo e também uma visão de Deus. Baseia-se na separação estanque entre o que está acima - invisível, transcendente, sobrenatural - e o que está abaixo - palpável, imanente, natural. O que está acima é superior e deve reger o que está abaixo. 

Esse dualismo tem várias consequências.  Uma delas é o antropocentrismo. O mandato de “dominar a terra” que o livro do Gênesis (Gênesis 1.28) relata em palavras do Deus Criador dirigido à criatura recentemente moldada em barro e animada com o sopro da vida divina sofreu muitas interpretações em toda a tradição cristã. Mas uma delas prevaleceu, tendendo a interpretar a orientação divina no sentido de uma atitude de domínio arrogante do ser humano sobre a natureza, em nome do Criador.

Esta interpretação, no entanto, pertence a uma tendência entre tantas outras, apresentando uma visão antropocêntrica com conotações predatórias em relação à natureza.  Ultimamente outras tendências contestaram esse antropocentrismo de conquista, sobretudo com o crescimento da consciência ecológica. Introduziu-se uma perspectiva contemplativa na identidade do mundo criado, considerando-o como casa a ser cuidada, amada e respeitada, além de sacramento de Deus e espaço de salvação. A Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco de 2015 é como um marco nesse processo. 

A interpretação do mandato genesíaco na direção de uma primazia absoluta e ilimitada do homem sobre a natureza teve, porém, outras consequências, como a suspeita de uma concepção erroneamente individualista do ser humano, aliada a um determinismo econômico e tecnológico onipotente e prepotente.  E acima de tudo conduziu a uma visão da natureza, da terra, do cosmos separados do ser humano, cindindo assim a Criação de Deus. O humano passou a ver a natureza como um inimigo a ser conquistado e destruído impunemente em nome de um progresso e enriquecimento vorazes e ilícitos. A luta do ser humano pela vida foi então transformada em ameaçador e agressivo instinto de morte que pesa sobre todas as outras formas de vida.

Na verdade, a revelação de Deus nas escrituras o apresenta como criador e ardente amante da vida. O relato da criação demonstra um carinho e cuidado desvelados do Criador para com a terra. Além de iluminá-la com os luzeiros do firmamento, Ele a povoa de vida, em imensa diversidade de formas e espécies. A imagem que sobressai da terra na história do Gênesis é, portanto,  a de sede e mãe da vida. Seu grande corpo é hospedeiro e gerador da vida.  De seu útero brotam todos os seres vivos, incluindo os humanos, todos feitos de sua substância. Feitos da terra, animados pelo espírito de Deus, somos isso: corpos animados pelo sopro divino. 

A partir daí, alguns temas se destacam para um pensar  ecoteológico.  Por exemplo, a concepção de que viver é necessariamente conviver. O ser humano não reina no universo à parte dos outros seres vivos.  Mas é criado a partir da pluralidade e convidado à convivência. E essa convivência diz respeito não apenas a seus semelhantes em humanidade, mas a todos os seres vivos. Tudo está interligado, tudo e todos são interdependentes.  Não há vida possível no isolamento de si mesmo ou do outro.  A vida, para existir, necessita ser um com- viver, uma com-vivência. 

Com relação à ética que decorre desta ecoteologia, a atitude humana e cristã fundamental que emerge é a do cuidado. O ser humano não está na criação para dominar a terra e conquistá-la.  Nem para buscar seu próprio proveito em detrimento das outras formas de vida que nela existem.  Está aí como responsável pela vida.  E, portanto, sua atitude deve ser de cuidado, proteção, cultivo e desenvolvimento da vida sob todas as suas formas e configurações. Toda vida importa, toda vida deve ser cuidada, mesmo a mais frágil e insignificante. 

Aparece também com clareza  a conexão entre consciência ecológica e prática da justiça. O esforço para restaurar relações harmoniosas entre a humanidade e o cosmos requer a superação de certos conceitos deterministas, individualistas e econômicos. Chama igualmente a recuperar uma noção de vida tão presente nas culturas dos povos originários, que veem o cosmos como epifania cheia de significado e manifestação de mistério. A contemplação do mistério do cosmos não deve ser vista como preocupação ascética ou estética nascida apenas do ócio, mas como a expressão de uma preocupação ética primordial: o cosmos deve ser devolvido aos homens e mulheres que foram despojados do que era seu e do que ali lhes pertencia. Esta restituição acompanha a luta para dar pão aos famintos, abrigo aos sem-abrigo, água aos sedentos. Tudo isto é um gesto salvífico, pois implica devolver o mundo criado a todos aqueles que dele foram expropriados.

 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e escritora, autora de Experiência de Deus na Contemporaneidade: Entre o viver e o contar” (Editora Paulinas), entre outros livros. 

 Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

domingo, 11 de junho de 2023

O MEU PEDACINHO DE SERTÃO

 



O meu pedacinho de sertão é lá,

Lá onde o Pajeú corre, e as vezes, morre

Mas ressuscita na nova invernada…

Trago de lá, bem dentro de mim

O som da saudade de vozes que não ouvi…

Casa alpendrada, viveiro de passarinhos

Onde também dormiu um irmão meu…

Trago de lá, o som da saudade de risadas soltas descendo desembaladas as ladeiras do

lugar…

Trago o som da saudade das conversas preguiçosas nas calçadas em frente à lua cheia…

Trago tão forte de lá, o som da saudade desse silêncio intenso quebrado

Pelo pio da coruja,

Enquanto, ainda no útero, sentia a tristeza e medo de minha mãe…

De lá, Trago também o som da saudade da bodega da esquina onde versos e canções

saltavam de improviso

E o mais velho de meus irmãos, escondido de meus pais, tinha seu primeiro emprego,

despachando a cachaça no balcão…

Trago em mim, tão forte, tão intenso,

Essa terra, esse chão árido, esturricado pelo sol,

Mas que com um pouco de chuvisco explode em verde, flor e mel

Explode em Vida!

Trago sempre em mim a infinita gratidão

De ser filha dessa terra, de fala doce, cantada…

A mansidão na cadeia genética…

E Força de quem tem dentro de si

A certeza de ser também

Mais um

Sobrevivente!



São José do Egito-PE

Goretti Santos

06/06/2023

Pentecostes

 Eduardo Hoornaert


 

Os Atos dos Apóstolos, redigidos entre 120 e 150 d. C., registram com entusiasmo o evento pentecostal e acentuam o sensacional crescimento de participantes do movimento de Jesus na ocasião. O número inicial de 120 (1, 15), depois do discurso de Pedro, pulou de vez para 3.000 (2, 14), e logo depois chegou ao patamar de 5.000 (4, 4). Era o próprio Senhor, escreveu Lucas, que acrescentava cada dia o número dos que se convertiam (2, 47). Aderiram no Senhor multidões de homens e mulheres (5, 14), em perfeita harmonia: A multidão dos que creram era um só coração e uma só alma (4, 32). Mesmo sacerdotes aderem, em grande número (6, 7). O número dos discípulos crescia enormemente em Jerusalém (6, 7). Essa considerável multidão (11, 24) foi logo chamada de ‘igreja’, ou seja, ‘assembleia de fiéis’: As igrejas cresciam em número, de dia a dia (16, 5). 

 

Realmente, a expansão foi sensacional. Passou-se, em pouco tempo, para a Síria e se alcançou o litoral oeste da Ásia Menor. ‘Voando’ nas asas da diáspora judaica, o movimento alcançou, em pouco tempo, grandes cidades, como Antioquia, Alexandria e Roma. Surgiu uma pluralidade de experiências, tanto na Ásia Menor como na Síria, no Egito e no Mediterrâneo ocidental. Mencionamos aqui apenas algumas das experiências mais conhecidas.  Estêvão em Jerusalém representa o grupo de helenistas que atua naquela cidade e que se manifesta nos capítulos 6 a 9 dos Atos dos Apóstolos. Aí Jesus aparece como um intruso num mundo que segue a liderança de Moisés. Paulo em Antioquia demonstra a importante mudança de rumo que o contato com as pessoas de cultura grega, do grande mundo urbano, provocou no entendimento do evangelho. Valentino, que entre 135 e 160 esteve em Roma, é originário de Alexandria e representa o estranho mundo da gnose no seu encontro com a mensagem de Jesus. E finalmente Marcião em Roma, escandalizado pelo ‘mundanismo’ das comunidades na grande cidade, formula um projeto de resgate da ideia original em três etapas (mentais): a antítese, o evangelho, a igreja. Não falamos em Tomé no interior da Síria, porque o evangelho a ele atribuído condiz, segundo os especialistas, com o cristianismo da Galileia.

 

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Ação do Espírito Santo.

 

A experiência pentecostal dos primeiros cristãos se destaca da religião dos burocratas do templo, dos fariseus e saduceus, escribas e doutores da lei, por ser animada pelo Espírito Santo, que se revela a camponeses, pescadores e publicanos, mulheres e crianças, ignorantes e pecadores segundo a lei judaica e a teologia estabelecida. O judaísmo oficial rejeita o pentecostalismo do primeiro seguimento de Jesus, não consegue compreender o âmago do movimento. Essa incompreensão leva a um infeliz confronto entre as comunidades dos discípulos de Jesus e o judaísmo oficial: estas não se sentem mais no abrigo das instituições do rabinismo judaico (especificamente da sinagoga) e têm de enfrentar o mundo mediterrâneo, expondo-se ulteriormente à eventualidade de uma intervenção por parte de autoridades romanas, dispostas a pôr ordem na casa.

Pentecostes é uma experiência de ordem mística: o Espírito Santo desce em línguas de fogo e dá forças para que os apóstolos afirmem em praça pública a ressurreição de Jesus. Não se trata, contudo, de um misticismo sem dimensão social. A atração não se deve atribuir só a pretensos fenômenos extraordinários que estão acontecendo no local (At 2, 6), mas talvez principalmente porque as pessoas percebem, entre os seguidores de Jesus, um novo jeito de se viver, um clima de fraternidade, acolhimento, atenção aos pequenos e rejeitados deste mundo. Isso deixa profunda impressão e muito entusiasmo entre as camadas mais pobres, nas cidades e nos campos por onde o movimento se espalha. É o grande sinal do Espírito Santo.

Elencamos aqui alguns desses sinais: a atenção especial dada aos que sofrem e são rejeitados (1 Pedro 4, 12-13 e mais tarde a Carta a Diogneto), sobretudo os peregrinos e forasteiros (1 Pedro 2, 11), que eram numerosos na periferia do sistema romano; a regra do maior que serve ao menor: Entre vocês tem que ser diferente: quem quiser ser o maior se faça o menor (Lc 22, 26); a opção pelos pobres (Tiago, 2, 1-9; Paulo); um lar para quem não tem casa (o tema da ‘paroikia’ nas Cartas de Pedro); a elaboração de uma teologia de eleição dos excluídos nos planos de Deus (1 Pedro 2, 4-10; Tiago, 2, 5); a recusa de uma aliança com o pensamento filosófico da época (Justino, Ireneu); o martírio (Policarpo, Inácio de Antioquia); o perdão ao inimigo; o amor ao inimigo; a não-violência ativa; a fé na ressurreição da carne como resposta à petulância das autoridades judaicas (At 2, 22-36); um novo relacionamento entre homem e mulher, (exemplificado no conceito de adultério masculino, desconhecido na cultura do império romano e mesmo no judaísmo, que só focalizava o adultério feminino (veja o ‘Pastor de Hermas’, texto do século II); a recusa do serviço militar como sendo contrário à ideia da única soberania de Deus (Tertuliano); a recusa do aborto e do abandono de crianças recém-nascidas, em nome do imperativo do respeito pela vida pessoal (Carta a Diogneto); a não-participação nos jogos de circo e nos teatros onde a dignidade do corpo humano era tripudiada; a comunidade eclesial de base (Paulo); etc. Essas novidades eram os sinais de um Deus imediato, que dispensava cerimônias e cultos, símbolos e sacramentos, e se revelava diretamente na vida.

 

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O texto de Lucas.

 

A atual crítica neo-testamentária é bastante severa para com o relato de Pentecostes no segundo capítulo dos Atos dos Apóstolos, como também com as estórias subsequentes dos milagres de cura e das mortes de Ananias e Safira. O autor costurou seus dois primeiros capítulos de um modo bastante artificial, em estilo piedoso e estereotipado. O texto está repleto de generalidades. Mesmo assim, é um testemunho inconfundível do modo em que funciona o seguimento de Jesus nos primeiros tempos. É o primeiro relato de uma movimentação que, ao longo dos primeiros séculos, marca a vida dos discípulos de Jesus. O seguimento de Jesus é um ‘Pentecostes’, uma irrupção violenta de Deus na vida, uma grande experiência, não tanto o seguimento de uma reta doutrina recebida de algum mestre, ou mesmo uma missão a ser realizada em nome dele. Muito menos ainda, um código moral ou uma celebração ritual. Os primeiros seguidores são pentecostais, vivem sob vigoroso impacto religioso e contagiam os demais por seu entusiasmo e pela força de sua experiência religiosa.

 

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O caráter pentecostal do Movimento de Jesus.

 

Pentecostes sugere compreender a religião como uma experiência forte, animadora e inspiradora. Encontramos repetidos paralelos com essa experiência pentecostal na história comparada das religiões. De uma ou outra forma, essas se referem a momentos de inspiração, re-avivamento (revival), reanimação, experiências extraordinárias de entusiasmo e de fé.

Nesses dois mil anos, o ‘Pentecostes’ foi vivido, numerosas vezes, em meio a histórias de opressão, discriminação, sofrimento, exclusão. A religiosidade dos excluídos é pentecostal. Nela o cristianismo aparece antes como empolgação, não tanto como doutrina, rito ou sacramento. A imprecisão dos Atos dos Apóstolos e seus exageros já são sintomáticos do clima exaltado em que os discípulos de Antioquia, Cesareia e Jerusalém devem ter contado suas experiências ‘pentecostais’: o judaísmo formal, hipócrita, sacerdotal e legalista não tinha nada a oferecer aos pobres da Palestina, como bem lembra Pedro no discurso que o autor dos Atos lhe põe na boca na ocasião (At 2, 14-36), e no qual ele diz mais ou menos o seguinte: Nós somos o Novo Israel. A prova disso é a ressurreição de Jesus. Vocês se equivocaram (ao matar Jesus).

 

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Princípio-bondade: um projeto de vida

                                        Leonardo Boff


Em termos de ética, não se deve ajuizar os atos apenas tomados em si mesmos. Eles remetem a um projeto de fundo. São  concretizações desse projeto fundamental.

Todo ser humano de forma explícita ou implícita é orientado por uma decisão básica. É ela que confere valor ético e moral aos atos que pavimentam a sua vida. Portanto, é esse projeto fundamental que deve ser tomado em conta e ajuizá-lo se é bom ou mau. Como ambos sempre vem mesclados, qual é o dominante que se traduz por atos que definem uma direção na vida. Preservada fica a constatação de que bem e mal sempre andam juntos. Dizendo em outras palavras: a realidade sempre é ambigua e acolitada pelo bem e pelo mal. Nunca há somente o bem de um lado e do outro, o mal.

A razão disso reside no fato de que nossa condição humana, por criação e não por deficiênca, é sempre sapiente e demente, sombria e luminosa, com pulsões de vida e com pulsões de morte. E isso simultaneamente, sem podernos separar, como diz o Evangelho, o joio do trigo.

Não obstante esta ambiguidade, o que conta mesmo é a dimensão predominante, se luminosa ou sombria, se bondosa ou maldosa. É aqui que se funda o projeto fundamental da vida. Ele define a direção e faz um  caminho caminhando. Esse caminho pode conhecer desvios, pois é assim a condição ambigua humana, mas sempre pode voltar à direção definida como fundamental.

Os atos ganham valor ético e moral a partir desse projeto fundamental. É ele que se afirma diante do tribunal da consciência, e para pessoas religiosas, é ele que é julgado por Aquele que conhece nossas intenções mais secretas e confere o corresponde valor ao projeto fundamental.

Sejamos concretos: alguém se põe na cabeça que   quer ser, a todo custo.rico.Todos os meios para tal projeto são tidos por válidos: esperteza,enganações, rupturas de contratos, golpes financeiros e apropiando-se  de verbas públicas, falsificando dados, aumentndo-lhes o valor real e fazendo as obras sem a qualidade exigida. Seu projeto é acumular bens e ser rico. É o princípio-maldade, mesmo que aqui e acolá faça algum bem e quando é muito rico, ajude até a projetos beneficentes. Mas sempre que não comprometam seu projeto básico de ser rico.

Outro se propõe como projeto fundamental ser sempre bom, procurar a bondade nas pessoas e tentar que seus atos se alinhem nesta direção de bondade. Como é humano, nele também pode haver atos maus. São desvios do projeto mas não são de tal envergadura que destruam o projeto fundamental de ser bom. Dá-se conta de seus atos maldosos, corrige-se, pede perdão e retoma o caminho de vida definido: procurar ser bom. Isso implica sempre ser, cada dia, melhor e nunca desistir face às dificuldades e quedas pessoais. O decisivo é reassumir o princípio-bondade que sempre pode crescer indefinidamente. Ninguém é bom até certo ponto e depois pára por estimar que atingiu o seu fim. A bondade bem como outros valores positivos não conhecem limitações.

Em nosso país temos vivido, incluindo multidões, sob o princípio-maldade. A partir desse princípio tudo valia:a mentira, as fake news,a calúnia e a destruição de biografias que, notoriamente, eram boas. Foram usadas de forma abusiva as mídias digitais, inspiradas no princípio-maldade. Em razão disso, milhares foram vitimados pelo Covid-19 quando poderiam ter sido salvos. Indígenas,como os yanomami,foram tidos como sub-humanos e,intencionalmente, abandonados à própria sorte. Nesses fatídicos anos de vigência do princípio-maldade mais de 500 crianças yanomai morreram por fome e doenças derivadas da fome. Desmontaram-se as principais instituições deste país como a saúde, a educação, a ciência e o cuidado da natureza. Por fim de forma insidiosa tentou-se um golpe de estado visando destruir a democracia e impor um regime ditatorial, culturalmente retrógrado e eticamente perverso por claramente exaltar a tortura.

Neles havia também o princípio-bondade mas foi recalcado ou coberto de cinzas por atos maldosos que impediam sua vigência, sem, contudo, nunca destrui-lo totalmente porque pertence à essência do humano.

Mas o princípio-bondade, no final das contas, sempre acaba triunfando. A chama sagrada que arde dentro de cada um, jamais pode ser apagada. É ela que sustenta a resistência, inflama a crítica e confere a força invencível do justo e do reto. À brutalidade do princípio-maldade, se impôs resolutamente o princípio-bondade que vinha sob o signo da democracia, do estado de direito e do respeito aos valores fundamentais do cidadão.

Apesar de todas as artimanhas, violências, atentados, ameaças e uso vergonhoso dos aparatos de estado, comprando literalmente a vontade das pessoas ou impedindo-as de  manifestar seu voto, os que se orientavam pelo princípio-maldade, foram derrotados. Mas  jamais até hoje reconhecerem  a derrota. Eles continuam sua ação destrutiva que hoje ganhou dimensões planetárias com o ascenso da extrema-direita. Mas devem ser contidos e ganhá-los pelo despertar do princípio-bondade que se encontra neles. Eles, julgados e até punidos, terão que aprender a bondade da vida e o bem de todo um povo e dar a sua contribuição.

Na história conhecemos tragédias dos que se aferraram ao princípio-maldade a ponto de darem fim à sua própria vida, ao invés de, humildemente, resgatarem o princípio-bondade e sua humanidade mais profunda.

Talvez inspira-nos, neste final, as palavra poéticas de um autor anônimo por volta dos anos 900 e cantado na festa cristã de Pentecostes. Refere-se ao Espírito que sempre age na natureza e na história:

“Lava o que é sórdido/Irriga o que é árido/Sana o que é doente.

Dobra o que é rígido/Aquece o que é gélido/Guia o desorientado”

Leonardo Boff escreveu O Espírito Santo: fogo interior, doador de vida e pai dos pobres,Vozes 2013.