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sexta-feira, 8 de setembro de 2023

C.G.Jung: a espiritualidade como dimensão essencial da alma


Leonardo Boff


Hoje vige uma preocupação fundamental: o resgate da razão sensível ou cordial (do coração) para equilibrar o excesso desastroso da razão instrumental-analítica Temos que harmonizar o logos com o pathos a anima e o animus se quisermos equacionar os problemas sociais e enfrentar o alarme ecológico.A mente é sempre incorporada, portanto, sempre impregnada de sensibilidade e não apenas cerebrizada. Jung vivia esta profunda conexão.

Em suas Memórias diz:”há tantas coisas que me repletam: as plantas, os animais, as nuvens, o dia, a noite e o eterno presente nos homens. Quanto mais me sinto incerto sobre mim mesmo, mais cresce em mim o sentimento de meu parentesco com o todo”(p. 361).

Neste contexto afirma:”importa projetar-nos nas coisas que nos cercam. O meu eu não está confinado ao meu corpo. Estende-se a todas as coisas que fiz e a todas as coisas à minha volta. Sem essas coisas, não seria eu mesmo, não seria um ser humano, seria tão-só um símio humano, um primata. Tudo o que me rodeia é parte de mim… Estou profundamente comprometido com a ideia de que a existência humana deve estar enraizada na Terra”(pp.189;190).

Para Jung, as coisas todas, são mais que coisas. Penetram-nos na forma de símbolos e arquétipos, carregados e emoções e vão compondo  a constelação de nosso eu profundo. Vale lembrar a confissão de C.G. Jung:”minha vida é a história da autorrealização do inconsciente”. Não diz do “meu inconsciente”. Mas do inconsciente coletivo que possui dimensões humanas, cósmicas, animais e vegetais. A culminância do processo de individuação reside na integração do todo do qual nos sentimos parte e parcela.

Poucos estudiosos da alma humana deram  mais importância à espiritualidadade do que Jung. Via na espiritualidade uma exigência arquetípica fundamental da natureza humana na escalada rumo à sua completa individuação. A imago Dei ou o arquétipo “Deus” ocupa o centro do Self: aquela energia poderosa, no mais profundo de nossa psiqué, que atrái  todos os arquétipos e os ordena ao seu redor como o sol o faz com os planetas (cf. o livro clássico de R. Hostie, C.G.Jung und die Religion, Karl Alber, Freiburg/München 1957).

Sem a integração deste arquétipo axial, o ser humano fica manco e com uma incompletude abissal. Por isso escreve:

“Entre todos os meus clientes na segunda metade da vida, isto é, com mais de 35 anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão da sua atitude religiosa. Todos em última instância estavam doentes por terem perdido aquilo que uma religião viva sempre deu, em todos os tempos, aos seus seguidores. E nenhum curou-se realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse própria. Isto está claro. Não depende absolutamente de uma adesão a um credo particular, nem de tornar-se membro de uma igreja, mas da necessidade de integrar  a sua dimensão espiritual.”

A função principal da religião ou da espiritualidade é nos religar a todas as coisas e à Fonte donde promana todo o ser, Deus. Esse é o propósito básico do Mysterium Conjunctionis que Jung considerava seu opus magnum. Pois nele se trata de realizar a conjuntio,  quer dizer, a conjunção do homem integral com o mundus unus, o mundo unificado, o mundo do primeiro dia criação quando tudo era um e não havia ainda nenhuma divisão e diferencição. Era a situação plenamente urobórica(de Uroboros, a serpente enrolada em si mesma) do ser. Essa fusão é o anseio mais secreto e radical do ser humano e o permanente chamado do Self.

O drama do homem atual é ter perdido a espiritualidade  e sua capacidade de viver um sentimento de pertencimento. O que se opõe à religião ou à espiritualidade não é o ateísmo ou a negação da divindade. O que se opõe é a incapacidade de ligar-se e religar-se com todas as coisas. Hoje as pessoas estão desenraizadas, desconectadas da Terra, da anima e por isso sem espiritualidade.

Para Jung o grande problema hoje é de natureza psicológica. Não da psicologia entendida como disciplina ou apenas uma dimensão da psiqué. Mas psicologia no sentido abrangente que lhe dava, como a totalidade da vida e do universo, enquanto percebidos e articulados com o ser humano seja pelo consciente seja pelo inconsciente pessoal e coletivo.  É neste sentido que escreve:“É minha convicção mais profunda de que, a partir de agora,  até a um futuro indeterminado, o verdadeiro problema é de ordem psicológica. A alma é o pai e a mãe  de todos as dificuldades não resolvidas que lançamos na direção do céu”(Cartas III, p.243).Sempre teve uma preocupação pelo futuro da humanidade. Previu,em suas visões,a partir do inconsciente coletivo,a primeira e a segunda guerra mundial. Ocorreram como previra.

Estaria curioso em saber que visões teria Jung sobre o atual alarme ecológico. Mas deixou-nos uma dica:uma semana antes de sua morte em 6 de junho de 1961 teve uma terrível visão que a revelou à Marie-Louise von Franz que o acompanhou até o fim:”grande parte do mundo seria destruído. Mas acrescentou:”Graças a Deus não todo”(Jung vida e obra:uma memória biográfica por Barbara Hannah,Vozes,2022 p.478). É o que grandes analistas preveem,caso não mudarmos de rumo de nossa cultura consumista e materialista.

O fato é que a  Terra está doente porque nós estamos doentes.O Covid-19 bem o mostrou. Na medida em que nos transformamos, transformamos também a Terra. Jung buscou esta transformação até a sua morte. É o único caminho que nos pode livrar de sua visão terrível de destruição de grande parte de nosso mundo.

C. G.Jung se mostra um mestre e um guia que nos desenha um mapa apto a nos orientar nestes momentos dramáticos em que vive a humanidade. Ele acreditava profundamente no Transcendente e no mudo espiritual. Não será seguramente o capital material mas o capital espiritual, agora colocado no centro de nossas buscas, que nos permitirá evitar um Armagedom ecológico. Então, assim creio e espero,poderemos viver uma fase nova da Terra e da Humanidade, a fase planetária e ecoespiritual.

Leonardo Boff é co-editor da tradução da obra completa de C.G.Jung (19 vol) pela Editora Vozes.

 

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

CRACOLÂNDIA E SUBJETIVIDADE

 Frei Betto

 


       Várias cidades brasileiras já contam com redutos onde os usuários de crack se reúnem – as Cracolândias. Na capital paulista, se situa na região central. Em Brasília, no “Buraco do Rato”, no Setor Comercial Sul. Em Fortaleza, no bairro Moura Brasil.

       Em São Paulo, onde moro, chega a reunir cerca de duas mil pessoas por dia. A Unifesp constatou, em pesquisa recente, que 43% dos usuários ali se encontram devido a conflitos familiares; 9,5%, violência doméstica; e 7%, extrema pobreza.

       Tanto a prefeitura paulistana quanto o governo estadual já tentaram várias medidas para erradicar a Cracolândia. Todas ineficazes. É fato que os usuários prejudicam o comércio local, dificultam a circulação de moradores e veículos, sujam as ruas. 

       Como o capitalismo adota a lógica analítica e, portanto, só atua sobre os efeitos dos fenômenos, as medidas tomadas pelo poder público são sequer paliativas. Uma delas é o combate ao tráfico de drogas, que só serve para enxugar gelo. Se a repressão ao narcotráfico funcionasse, os EUA não seriam o maior mercado mundial de consumo de drogas ilícitas. Segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos EUA, durante a pandemia, em um ano, mais de 100 mil usamericanos morreram de overdose.

       Sou a favor da descriminalização das drogas e da liberação de seu uso controlado, desde que todo o processo, da fabricação ao consumo, esteja sob administração da saúde pública e tenha, por objetivo, livrar o usuário da dependência e erradicar o narcotráfico. 

       Quero aqui, entretanto, retomar o que falei para cerca de 1.500 profissionais do SUAS (Serviço Único de Assistência Social), em Salvador, dia 14/8, no 23º Encontro Regional Nordeste de Colegiados de Secretários(as) Municipais da Assistência Social (Congemas).

       Uma das medidas equivocadas adotadas pelo poder público de São Paulo foi alocar usuários em hotéis. Ora, essa gente vive na miséria. E precisa de dinheiro para alimentar o vício. Resultado: os hotéis foram depredados, pois arrancaram as pias dos banheiros, as lâmpadas do teto, as cadeiras do quarto, para vender e obter recursos. Tivessem as autoridades um pouco mais de conhecimento da história da assistência social, saberiam que na década de 1950, na Cruzada São Sebastião, no Rio, moradores de favelas, trasladados para prédios no Leblon, “depenaram” os apartamentos para fazer dinheiro.

       Qual a solução? Uma delas reside no fator pedagógico, no resgate da autoestima dos frequentadores da Cracolândia. Como eles são tratados pela polícia? Como indesejados, viciados, vagabundos e nojentos. E pelos comerciantes e vizinhos? Do mesmo modo que a polícia os trata, como estorvo. Como são tratados pela assistência social? Como anônimos, invisíveis, meros objetos desprezíveis de um trabalho burocrático?

       Aquele é um aglomerado de pessoas. Ali, cada ser humano tem um nome, parentes, história de vida. Não merece ser encarado como mero “viciado” ou, como canta Chico Buarque, “E tropeçou no céu como se fosse um bêbado / E flutuou no ar como se fosse um pássaro / E se acabou no chão feito um pacote flácido / Agonizou no meio do passeio público
/ Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego.” 

       Se eles se drogam é porque não suportam a própria realidade – como acontece a todo dependente químico. Todo viciado em drogas é um místico em potencial. Alguém que descobriu a verdade: a felicidade é uma experiência subjetiva. Não resulta da soma de prazeres, como tenta nos convencer a sociedade de consumo. Nem da conta bancária gorda ou dos títulos que a pessoa ostenta (e a eles se agarra como carrapato na pele), pois, ao perder os títulos ou a função, a pessoa entra em depressão por não ter suficiente autoestima. Ela necessita de adornos para fazer reluzir sua presença no mundo, como inúmeros políticos.  Raros os que, como Fidel Castro, têm a ousada humildade de determinar, em seu testamento, a expressa proibição do uso de seu nome em ruas e avenidas, universidades e hospitais, estátuas, placas e monumentos. 

       A diferença entre o místico e o viciado é que o primeiro entra pela porta do Absoluto e o segundo, pela do absurdo. 

       Quem lida com pessoas em situação de rua precisa ter capacitação pedagógica. Saber encará-las em sua dignidade, em seus direitos humanos, em sua condição de filhos e filhas de Deus. É preciso ter paciência, saber escutar, deixar que cada um conte a sua história de vida familiar e profissional, e expresse seus sonhos e desejos.  Somente através desse processo “terapêutico”, essencialmente paulofreiriano, é possível ajudá-los a tomar a iniciativa de se submeter a tratamento, abandonar o vício e mudar de vida.

       É graças à autoestima que uma pessoa se sente feliz e realizada, seja faxineiro, astrofísico, operador de máquina ou porteiro de prédio. Ela necessita emergir da invisibilidade, se sentir socialmente reconhecida, útil, enfim, cidadã. A política do descarte e da repressão só agrava o sentimento de revolta e humilhação.

       As Cracolândias não podem ser tratadas como caso de polícia, e sim como caso de política. 

 

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org                                                                                                                                                                                                              

 

Frei Betto é autor de 77 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

PALAVRAS DE PEDRO - #NÃOAOMARCOTEMPORAL



Dom Pedro Casaldáliga



“A problemática indígena continua sendo a demarcação e a garantia das terras. E também evitar a ameaça que supõe a hidrovia e certas hidrelétricas. É preciso possibilitar a educação bilíngue e o atendimento à saúde, rever formalmente a situação da Funai, e possibilitar em nível federal o novo Estatuto do Índio, que depende do congresso”.


Pedro Casaldáliga, entrevista para o Diário de Cuiabá, fevereiro de 2003

#Casaldàliga! #PedroCasaldáligaPresente! #PereCasaldàliga #NãoQueremosGuerraQueremosPaz! #pl2903não #NãoAoMarcoTemporal #MarcoTemporalNão @fperecasaldaliga @irmandadedosmartires

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Vida em primeiro lugar! Você tem fome e sede de que?

 


Pe. Francisco Aquino Júnior


 

No dia 07 de setembro, dia da pátria, celebramos o Grito dos Excluídos/as. Igrejas, organizações populares e setores diversos da sociedade saem às ruas em todo o país, não para marchar como “soldado cabeça de papel”, mas para gritar como cidadãos e como pessoas de fé: Vida em primeiro lugar. É tanto um grito de protesto contra as várias formas de negação de direitos a amplos setores da sociedade, quanto um grito de afirmação e resistência populares nas lutas por direitos no campo e na cidade, quanto ainda um grito de alegria e celebração das conquistas populares. 

É muito significativo que essa manifestação aconteça no dia 07 de setembro. Uma forma de dizer – no protesto, na resistência e na festa – que o verdadeiro patriotismo e a verdadeira unidade nacional se dão na luta e afirmação da dignidade de todas as pessoas, mediante conquista e garantia de direitos. O Grito é ocasião privilegiada de expressão e animação das lutas e organizações sociais: celebração das lutas e conquistas; animação e fortalecimento das resistências e lutas populares. Como bem recorda Frei Carlos Mesters: “Luta sem festa, derrota na certa. Festa sem luta, vitória falsa”.

O Grito dos Excluídos/as acontece desde 1995. Nasce como fruto da 2º Semana Social Brasileira – “Brasil: Alternativas e Protagonistas”, em sintonia com a Campanha da Fraternidade daquele ano que tinha como tema “Fraternidade e Excluídos” e como lema “Eras Tu, Senhor?”. Em 1996, a Assembleia Geral da CNBB insere essa atividade no Projeto de Evangelização da Igreja no Brasil: “O Grito dos Excluídos será celebrado anualmente, em nível nacional, no dia 07 de setembro, retomando preferentemente o tema da Campanha da Fraternidade” (Documentos da CNBB 56, n. 129). Desde o início, o Grito foi uma atividade promovida com movimentos e organizações populares. Em alguns lugares, articulado pelas pastorais sociais. Em outros lugares, por movimentos e organizações populares. Mas sempre como atividade conjunta.

O tema do primeiro Grito foi “Vida em primeiro lugar”. Nos anos seguintes, isso se tornou o tema permanente do Grito, colocando sempre o desafio e a possibilidade de reconstrução do país: “Reconstrução que vai além de atender as demandas tão urgentes com políticas públicas, seja de combate à fome, à violência contra o povo preto e pobre nas periferias, contra os povos indígenas, à violência contra as mulheres e à população LGBTQIA+. Mas que passa também pelo respeito aos territórios indígenas e quilombolas e pela garantia dos direitos à moradia digna, reforma agrária e urbana, ao trabalho, à educação, saúde, cultura e lazer. Reconstrução que, sobretudo, promova o fortalecimento da democracia e da soberania e aponte para a construção de um projeto de sociedade onde a economia esteja a serviço da vida” (CNBB – Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora. Carta de apoio ao Grito dos Excluídos 2023).

O lema desse ano é: “Você tem fome e sede de que?”. Uma pergunta que faz ecoar os muitos gritos que vêm do campo e dos becos e periferias das cidades, ao mesmo tempo que exige de todos nós, como cidadãos e pessoas de fé, respostas concretas que atendam às necessidades e direitos de nosso povo. É claro que isso não dá a toque de mágica nem cai do céu. Exige muita luta e organização. Direitos se conquistam na luta. Não podemos cair na ilusão de que determinados governos vão garantir os direitos da população. Todos sabemos que os governos, por melhores que sejam ou pareçam, estão muito mais alinhados e amarrados aos grandes grupos econômicos do que parece…

Importa manter viva a esperança ativa do nosso povo: “esperança do verbo esperançar” que compromete e mobiliza; esperança fundada e dinamizada pelo Espírito de Deus que, a partir de baixo, consola, anima, desperta e mobiliza o povo na luta cotidiana pela sobrevivência e na organização e mobilização populares por direitos.

Que Deus abençoe os movimentos e organizações populares no campo e na cidade. E que o Gritos dos Excluídos e Excluídas anime nossas comunidades, pastorais e organizações populares na luta e conquista de direitos – sinal e instrumento do reinado de Deus nesse mundo que é um reinado de fraternidade, justiça e paz.