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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O Concílio: bússola para a Igreja após Bento XVI



 por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER 


Já na Carta apostólica A Porta da Fé, assim se exprimia o Papa Bento XVI: «Pareceu-me que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, “não perdem o seu valor nem a sua beleza (…). Sinto hoje, ainda mais intensamente, o dever de indicar o Concílio como a grande graça que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa”. Quero aqui repetir, com veemência, as palavras que disse a propósito do Concílio, poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: “Se o lermos e recebermos, guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja”».
     Em termos semelhantes expressou-se novamente Bento XVI ao celebrar a liturgia da Quarta Feira de Cinzas e, sobretudo, ao encontrar-se com o clero romano.  Suas palavras traziam uma insistência na necessidade de retomar uma hermenêutica séria e profunda do Concílio, sendo esta uma prioridade para a Igreja neste novo século. O Papa, já em  tom de despedida, fez questão de sublinhar enquanto falava aos padres da diocese de Roma, mas também aos católicos do mundo inteiro, a importância deste grande evento que marcou a caminhada da Igreja no século XX.
     Abalizado está o Papa Bento XVI quando ressalta a importância do evento conciliar.  Pois, ainda como jovem professor de teologia dele participou e conheceu por dentro não apenas os padres conciliares, mas os grandes teólogos da época que assessoraram os bispos que compuseram a assembleia conciliar e redigiram os grandes documentos decisivos para a história contemporânea da Igreja.
     Criticou fortemente  a mídia, que com interpretações distorcidas prejudicou a hermenêutica do Concilio, gerando situações muito negativas:  "tantas calamidades, tantos problemas, tantas misérias: seminários fechados, conventos fechados, liturgia banalizada". Mas Bento XVI insistiu junto a seus ouvintes na importância de retomar essa hermenêutica com fidelidade ao verdadeiro espírito do Concilio. E ao mencionar os pontos obrigatórios dessa releitura, dessa hermenêutica, não hesitou em tocar em pontos delicados, que muita polêmica provocaram nos tempos pós-conciliares, como a colegialidade episcopal e a volta às fontes, especialmente à Sagrada Escritura.  Há ainda "muito a fazer para se chegar a uma leitura das Sagradas Escrituras no espírito do Concílio, ela ainda não está completa", afirmou o Papa seguindo a mesma linha de pensamento que tomara desde o início.
     Retomando a abertura dialogal e pluralista que o Vaticano II trouxe à Igreja e à sociedade, Bento XVI valorizou três documentos fundamentais para uma nova atitude da Igreja diante do mundo que deverá gerar um novo tipo de pastoral e de teologia.  A Gaudium et Spes, que trata das relações entre Igreja e mundo e que tanto valorizou as “realidades terrestres”; a Dignitatis Humanae, documento aprovado na véspera da conclusão do Concílio e que trabalha sobre o que hoje se chama  “liberdade de consciência”; e a  Nostra Aetate, que trata da existência da verdade nas outras religiões, ocupando-se sobretudo do necessário diálogo entre cristãos e judeus.
     Segundo Bento XVI, esses três documentos  deram um impulso importante para definir o diálogo na diferença e na diversidade como momento fundamental para o desenvolvimento do ser humano, na confirmação da fé da unicidade de Cristo. Porém, compreende-se como é sempre necessário um espírito de diálogo, porque em toda experiência religiosa há uma luz que ilumina todo ser humano.
     A surpresa que tomou conta do mundo inteiro com a renúncia do Papa Ratzinger começa a mostrar alguns de seus ricos desdobramentos.  Definido sempre como um Papa conservador, que se colocava nas antípodas de toda a renovação que o Concílio pretendeu trazer para a Igreja e para o mundo, Bento XVI mostra agora sua profunda sintonia com esse espírito conciliar que é a referência por excelência à qual a Igreja deve-se voltar, a fim de encontrar seu caminho em meio ao turbulento século XXI.           Surpreendendo a todos, até mesmo seus adversários, Bento XVI mostra, às vésperas de deixar seu Pontificado, que a novidade do Espírito é sempre capaz de surpreender e trazer ar fresco até mesmo ali onde a atmosfera parece mais sufocante e opressora. Que o Concílio seja, então, a agenda por excelência da Igreja, é o que se espera daquele que vai suceder a Bento XVI.

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Crônicas de cá e de lá” (editora Subiaco), que pode ser  encomendado diretamente à escritora pelo e-mail – agape@puc-rio.br – R$ 20,00


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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A Eleição do sucessor de São Pedro



por FREIBETTO
 


Após a renúncia de Bento XVI, o governo da Igreja passa automaticamente às mãos do Colégio dos Cardeais, segundo regras redefinidas por João Paulo II, em 1996, no documento Universi Dominici Gregis. Logo que os cardeais chegam a Roma, este documento é lido. Sob juramento, os prelados ficam obrigados ao sigilo.
        Com a renúncia do papa, todos os cardeais da Cúria Romana, inclusive o Secretário de Estado, que equivale à função de primeiro-ministro, são compulsoriamente demitidos. Apenas três permanecem em suas atuais funções: o carmelengo, responsável pela transição e eleição do novo pontífice; o penitenciário-mor, pois deve ser mantida aberta a porta do perdão dos pecados reservados à Santa Sé, ou seja, aqueles que só ela pode conceder o perdão; e o vigário da diocese de Roma.
     Os poderes do colégio cardinalício, na fase transitória, são limitados. Não pode, por exemplo, modificar as regras que regem a eleição papal, nomear novos cardeais (os eleitores do novo papa) ou tomar qualquer decisão que possa a vir a constranger a autoridade do futuro pontífice.
     A Capela Sistina é preparada para o conclave. As visitas turísticas são suspensas, e uma equipe de segurança vasculha cada detalhe à procura de dispositivos eletrônicos. Mas quem garante que um dos membros da equipe não age sob suborno de cardeais ou governos interessados em manipular a Santa Sé?
     São convocados à reclusão os cardeais que ainda não tenham completado oitenta anos dois dias antes do início do conclave. Prevê-se que sejam 117 eleitores.
   Até a eleição de Karol Wojtyla ficavam todos alojados no Palácio Apostólico, cujas dependências eram desconfortáveis para um grande número de hóspedes. Os quartos precisavam ser divididos por tabiques, e os banheiros, compartilhados.
    João Paulo II autorizou o investimento de vinte milhões de dólares na construção da Casa Santa Marta, hospedaria para funcionários do Vaticano e visitantes eclesiásticos. Os cardeais-eleitores se deslocarão em ônibus até a Capela Sistina. No conclave, a ocupação de suas 108 suítes e 23 quartos individuais, todos com banheiros privativos, é feita por sorteio, exceto para os cardeais que exigem, por motivo de idade ou doença, cuidados especiais.
    O início do conclave ocorre tão logo haja tempo suficiente para que todos os cardeais cheguem a Roma. Em 1922, na eleição de Pio XI, cardeais da América do Norte e do Sul perderam o conclave porque os navios não atracaram a tempo. Hoje, as viagens aéreas tornam tudo mais fácil.
     Se um cardeal atrasar-se, terá direito de entrar no conclave e participar da eleição. Uma vez lá dentro, nenhum deles pode sair, até que o novo pontífice esteja escolhido, exceto em caso de doença ou acidente com risco de vida e após consenso da maioria de seus pares.
        Ingressam no conclave, junto com os cardeais-eleitores, o secretário do Colégio dos Cardeais; o mestre das liturgias papais, acompanhado por dois mestres de cerimônia e dois religiosos da sacristia papal; um assistente para o cardeal decano; uns poucos frades ou monges de diferentes idiomas, para atuar como confessores; dois médicos; e o pessoal do serviço de cozinha e limpeza, em geral freiras.
Nenhum cardeal pode levar assistente pessoal, exceto médico particular em caso de doença grave. Nada de computadores, celulares, jornais, TV, rádio, tablets ou aparelhos de gravação de som ou imagem. É mantida apenas uma linha telefônica, de uso do carmelengo em caso de emergência.
        Apenas três cardeais têm o direito a contatar seus escritórios: o penitenciário-mor; o vigário da diocese de Roma; e o pároco da basílica de São Pedro.
        As normas da Igreja proíbem conchavos e articulações eleitorais antes do conclave. Isso remonta ao papa Félix IV (526-530), que pressionou o clero e o senado romanos a elegerem, como seu sucessor, Bonifácio, seu arcediago. Os senadores promulgaram um edito vetando qualquer discussão sobre a eleição do futuro papa enquanto o atual estiver vivo.
      A rigor, qualquer católico do sexo masculino, maior de trinta e cinco anos, é virtual candidato a papa e poderá vir a calçar as sandálias do Pescador, ainda que seja leigo. Se eleito, primeiro deverá abandonar a família e ser imediatamente ordenado bispo, como ocorreu com João XIX (eleito em 1024) e Benedito IX (eleito em 1032).

 
Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.  
  http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Votos para um próximo papa

por MARCELO BARROS




Desde que o papa Bento XVI anunciou sua renúncia ao papado, os meios de comunicação se apressam em antecipar candidatos ao trono, ou tentam descobrir em que ponto estão, no Vaticano, os acordos que, nos bastidores e com a elegância exigida pelos meios eclesiásticos, já há tempos, preparam o próximo conclave. Sem dúvida, a coragem e humildade com que o papa declara: “Não tenho mais força para exercer o papado” merecem toda a admiração. De fato, nas últimas décadas, enquanto o mundo se tornou cada vez mais complexo e plural, o Vaticano ignorou a orientação do Concilio Vaticano II sobre a colegialidade dos bispos, diminuiu a função das conferências episcopais e concentrou o seu poder. Por isso, o ministério papal deve ter ficado muito mais pesado.
     Os cardeais que escolherão o próximo papa serão em sua maioria os mesmos que, em 2005, acharam que o cardeal Ratzinger seria a pessoa indicada para conduzir a Igreja Católica nesse início de século. Agora, aos eleitores de antes, se acrescentam alguns outros, também escolhidos pelo mesmo papa. Isso faz com que a lista de candidatos ao cargo pontifício não tenha importância. Seja quem for, afirmam vozes do episcopado brasileiro, “nada de profundo mudará”. Sem dúvida, eles dizem isso como quem dá uma boa notícia. A maioria dos fiéis católicos, se pudesse se expressar, não estaria de acordo com isso.
     Pessoalmente, não sou cardeal e, portanto, não participo dessa eleição. Mas, penso na multidão silenciosa de mais de um bilhão de fiéis católicos no mundo. Mesmo sem representar nenhum grupo ou ter deles algum mandato, quero expressar aqui o voto que penso ser da maioria dos leigos e leigas, engajados nas pastorais e grupos missionários, formados a partir do Concilio, assim como de muitos religiosos, religiosas e presbíteros que amam a Igreja e desejam que, o Espírito sopre novamente sobre ela um novo Pentecostes.
      A primeira coisa que gostaria de esclarecer é que, ao contrário do pensamento aqui e ali expresso nos meios de comunicação, quem é formado pelo espírito do Concílio pode aceitar que se eleja um papa latino-americano, africano ou coreano, como etapa no momento atual, dentro do sistema em que vivemos. Entretanto, em termos de princípio, o queremos é um papa italiano, o mais romano possível, que seja bispo de Roma e, de acordo com o Concílio Vaticano II, respeite uma maior autonomia das Igrejas locais, como sacramentos da comunhão universal.
     Pedimos a Deus que dê à Igreja de Roma, mãe da unidade de todas as Igrejas, um pastor simples e modesto que não precise mais de uma áurea institucional de santidade, nem que se chame de santa a sua pessoa, a sé de Roma, as congregações da cúria e tudo o que cerca o seu ministério. Aí, no Glória de cada missa, cantaremos com mais sinceridade: Só tu és santo, só tu és Deus!”. Se esse irmão se assumir verdadeiramente como servo dos servos de Deus, como nos primeiros séculos, a Igreja será novamente  mais do que democrática, sacramento de comunhão da humanidade e ensaio de um mundo novo possível. Um dia, Dom Hélder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife, escreveu: “Sonhei que o papa enlouquecia. E ateou fogo ao Vaticano e à Basílica de São Pedro. Loucura sagrada, porque Deus atiçava o fogo que os bombeiros, em vão, tentavam extinguir. O papa, louco, saía pelas ruas de Roma, dizendo adeus aos embaixadores, credenciados junto a ele; e espalhando pelos pobres o dinheiro todo do Banco do Vaticano. Que vergonha para os cristãos! Para que um papa viva o Evangelho, temos que imaginá-lo em plena loucura”[1].   


[1] - Poema recitado no filme de ÉRIKA BAUER, Dom Helder Câmara, o Santo Rebelde, citado no Jornal Igreja Nova, janeiro-março 2010, p. 1.