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terça-feira, 23 de abril de 2013

Cada um é São Jorge, cada um é Dragão




Por LEONARDO BOFF
              
     Em janeiro deste ano, a propósito da novela “Salve, São Jorge”, publiquei algumas reflexões sobre o significado profundo, quase sempre inconsciente, destas duas figuras: o santo guerreiro São Jorge e o terrível dragão. Como celebramos no dia 23 de abril a festa do santo, até com um feriado na cidade do Rio de Janeiro, é oportuno voltar ao tema de forma mais  resumida.
     Sabemos que a figura do dragão é um tema recorrente em várias culturas, com  significados até opostos. Assim no Ocidente é negativo: representa o mal e o mundo ameaçador ds sombras. No Oriente é  positivo: é símbolo nacional da China, senhor das águas e da fertilidade. Entre os astecas era a serpente alada (Quezalcoatl), expressão de sua identidade cultural. Não raro os pobres entre nós dizem: “para me manter,  tenho que matar um dragão por dia”, pois assim o exige a dureza da vida. 

     Muitos antropólogos e psicólogos que trabalham sobre o tema dos arquétipos, como Carlos Gustavo Jung, afirmam que o dragão representa uma das figuras transcultuais mais ancestrais da história humana. É a percepção de que a nossa identidade profunda, o nosso eu, não nos é dado simplesmente pelo fato de sermos humanos. Ele tem que ser conquistado numa luta diuturna, marcada por ameaças e lutas. 

     Esta situação é representada pelo dragão, nosso inimigo principal. Ele quer devorar o eu ou impedir que se liberte e faça o seu caminho de autonomia  e de liberdade. Só assim seríamos plenamente humanos.
         Por isso, junto com o dragão sempre vem o cavaleiro São Jorge que com ele se confronta numa luta renhida. Qual é o significado do dragão e de São Jorge? À luz dos estudiosos referidos acima, tanto um como o outro são partes de nossa realidade humana. Cada um de nós carrega um dragão e um São Jorge dentro de si.

         Isso é assim porque a nossa vida é sempre feita de luz e de sombras, do dia-bólico (aquilo que separa) e do sim-bólico (aquilo que une). Quem vai triunfar São Jorge ou o dragão? A luz ou a sombra? A nossa melhor parte ou a nossa parte pior? Ambas coexistem e sentimos a sua presença em cada momento: às vezes na forma e raiva ou de amor ou de violência ou de bondade e assim por diante.

         É aqui que entra a importância de uma identidade forte, de um eu vigoroso, um São Jorge, que possa enfrentar as nossas sombras e maldades, o dragão, e fazer triunfar nossa parte melhor.

     Sabemos que o caminho da evolução leva a humanidade do inconsciente para o consciente, da fusão cósmica com o Todo para a emergência da autonomia do eu livre e forte. Essa passagem é sempre dramática, tem que ser levada avante ao largo de toda a vida, porque os mecanismos que querem manter cativo eu e impedir a emergência de nossa identidade permanentemente estão ativos. E é preciso esforço e coragem para libertar o eu e conquistar a própria identidade e também a liberdade pessoal.

     São Jorge é o que nos mostra como, nessa luta, podemos ser guerreiros e vencedores. Ele enfrentou o dragão: mostra a força do eu, da própria identidade, garantindo a vitória.

Mas esta vitória não se conquista uma vez por todas. Ela tem que ser renovada a cada momento, na medida em que as amarras vão surgindo. Dai a importância uma ligação com  São Jorge, como uma fonte de energia e de força, capaz de nos assistir na luta até alcançar a vitória.
     Há, contudo, um drama do qual não nos podemos furtar. Não se trata de um defeito de construção. Mas é uma marca da nossa existência no espaço e no tempo. Por mais que lutemos e vençamos, o dragão está sempre aí nos espreitando. Ele nos acompanha. Mas ainda: é uma parte de nós mesmos, de nosso lado obscuro, mesquinho, menor que nos impede de sermos plenamente humanos. Mas também somos acompanhados por São Jorge que nos assiste na luta.

     Por esta razão, nas muitas lendas existentes sobre São Jorge ele não mata o dragão, mas o vence mantendo-o domesticado, amarrado e submetido aos imperativos do eu e da identidade pessoal. Ele não pode ser negado e eliminado, apenas integrado de tal forma que perca seu lado ameaçador e destruidor. Pode até nos ajudar a sermos humildes e evitarmos a demasiada autoconfiança. Dai a vigilância e a referência a São Jorge que não só compensa a nossa falta de energia, mas nos pode valer poderosamente.

     É interessante observar que em algumas representações, especialmente uma famosa de Barcelona (é seu patrono da Catalunha), o dragão aparece envolvendo todo o corpo de São Jorge. Numa gravura de Rogério Fernandes, artista brasileiro, o dragão aparece envolvendo o corpo de São Jorge; este o segura pelo braço colocando o rosto do dragão, nada ameaçador, na altura de seu rosto. É um dragão humanizado, formando uma unidade com São Jorge.      
     Noutras (no Google há 25 páginas de gravuras de São Jorge com o dragão) o dragão aparece como um animal manso sobre o qual São Jorge de pé o conduz, sereno, não com a lança pontiaguda mas com um bastão.

     A pessoa que não renega o dragão, mas o mantem sob seu domínio conseque uma síntese feliz dos opostos presentes em sua vida. Deixa de se sentir dividido; encontrou a justa medida pois alcançou a harmonização do eu e de sua identidade luminosa  com o dragão sombrio, o equilíbrio dinâmico do consciente com o inconsciente, da luz com a sombra,  da razão com a paixão, do racional com o simbólico, da ciência com a arte e da arte com a religião. Esta pessoa emerge como um ser humano mais rico, mais sereno, mais compreensivo, tolerante e compassivo, irradiando uma aura boa ao seu redor.
     A confrontação com as oposições, do dragão com o São Jorge, e a busca da síntese, constitui a característica de personalidades exemplares que encontramos tantas por ai. Tais são figuras de Gandhi, de Luther King Jr. de Dom Helder e, parece também, do atual Papa Francisco.

     Repetimos: importa reconhecer que o dragão amedrontador e o cavaleiro heroico São Jorge são duas dimensões de nós mesmos. Nosso desafio  é fazer que São Jorge tenha a primazia e não deixe que o dragão nos derrote e tire o sentido e o gosto de viver.

         Muitos brasileiros, especialmente, os cariocas tem grande veneração por São Jorge; ela é tão forte quanto a de São Sebastião, patrono oficial da cidade. Mas este possuui um inconveniente: é um guerreiro, cheio de flechas, portanto “vencido”. O povo sente a necessidade de um santo guerreiro corajoso “vencedor”. Ai São Jorge representa o santo ideal. Na novela “Salve Jorge” ele é o herói que salva as mulheres traficadas contra o dragão do tráfico internacional de mulheres.

     Por fim cabe uma observação de ordem filosófica: seguramente aqueles que veneram São Jorge não saibam nada disso que explanei acima acerca da coexistência dos dois em nossa vida. Nem precisam saber. Basta que tenham consciência de que a vida é uma permanente luta entre o que é bom para mim e para os outros e entre o que é mau que deve ser evitado e combatido. E acreditar que a virtude é preferível ao vício e que a palavra final terá São Jorge e  não o dragão. 

     Nessa fé saímos todos fortalecidos para os  embates que ocorrerão pela vida afora com a assistência ponderosa do guerreiro vencedor São Jorge.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo, pesquisador e escritor.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A Dama de Ferro e o Militante Irlandês



por  MARIA CLARA LUCCHETTI BINGERMAN

 Morreu Margaret Thatcher, a loura e implacável primeira-ministra da Grã Bretanha que reinou absoluta  e poderosa durante 11 anos (1979-1990), levando adiante uma política conservadora que dividiu a Inglaterra econômica e politicamente. Brilhantemente inteligente e ferreamente determinada, foi a primeira mulher a liderar um partido na Inglaterra e a primeira mulher primeira-ministra na monarquia inglesa.

     Casada e mãe de dois filhos que lhe sobrevivem, Margaret Thatcher faleceu no último dia 8, com complicações de uma saúde já combalida por seus mais de 80 anos de idade e uma demência senil que já se arrastava há alguns anos. A Inglaterra a homenageou e outros estadistas e líderes políticos do mundo inteiro também. Alguns, como o ex-presidente francês Giscard d´Estaing declararam que tinha grande charme e uma presença muito positiva nas reuniões das grandes potências.

      É conhecida igualmente a amizade que a ex primeira-ministra entretinha com o então presidente dos EUA, Ronald Reagan.  A aliança entre as duas potências, que se explicitou durante o período de Thatcher no poder por apoios explícitos, por exemplo, na guerra das Malvinas, continua.  O presidente Barack Obama declarou seus sentimentos pela morte da baronesa Thatcher, dizendo que os EUA perdiam uma grande amiga.
     Maggie Thatcher é alguém que poderia haver se tornado um ícone da emancipação e promoção da mulher no mundo inteiro.  Poderia ser citada como exemplo e inspiração para o feminismo dos anos 1980 e o atual. Afinal, uma mulher que chegou ao posto político mais alto em seu país, abaixo apenas da própria rainha.   E no entanto, não o é.  Por quê?  Simplesmente porque não encarna certos valores, atitudes e prioridades que as mulheres consideram fundamentais para sua identidade. Pelo contrário, sua biografia a coloca como antípoda daquilo que a mulher propõe à sociedade como síntese e como aspiração.
     Deixando de lado sua briga com os mineiros britânicos e seus sindicatos, que dizimou a organização trabalhista dos mesmos em nome de uma riqueza e desenvolvimento do país que não contemplava muito os direitos humanos, para mim – e creio que para muitos – Thatcher é uma figura que choca mais que encanta, principalmente por dois fatos: sua atitude diante dos militantes do IRA que reivindicavam para si o estatuto de presos políticos e suas decisões durante a guerra das Malvinas com a longínqua Argentina pela posse do arquipélago situado na Antártida daquele país.

      O início dos anos 1980 foi marcado, na sociedade britânica, mas com forte repercussão internacional, pela queda de braço  entre Margaret Thatcher e um grupo de militantes do IRA, que terminaria de forma trágica, com a morte do jovem Bobby Sands. Ele era militante do IRA desde os 18 anos, e membro eleito do Parlamento inglês. Morreu de fome aos 27 anos, na prisão de Long Kesh - onde cumpria pena de 14 anos por envolvimento num atentado à bomba, que negou sempre.

     Bobby e seus  companheiros exigiam serem considerados prisioneiros políticos, usarem as suas próprias roupas e não uniformes de presidiários, não serem obrigados a trabalho prisional,  terem direito a visitas semanais e a recursos para escrever, e a organizarem os seus próprios tempos com atividades por eles escolhidas. Tudo lhes foi negado pelo governo Thatcher. 
     A causa de Sands  era  a libertação da Irlanda do Norte da ocupação inglesa. Por isso lutou e entregou sua vida. Passou a maior parte da sua curta vida em prisões inglesas: cumpriu pena dos 18 aos 21 anos. Preso seis meses após a libertação, foi voltou à prisão novamente até abril de 1976. Em outubro desse mesmo ano foi condenado àquela que seria a sua derradeira pena, pois morreu na enfermaria da prisão na sequência da defesa encetada pelos seus direitos, após 66 dias sem se alimentar. 
     Sua morte chocou a opinião pública através do mundo.  Mesmo discordando dos métodos violentos usados pelo IRA para lutar pela libertação da Irlanda, que acabaram atingindo e matando muitos, inclusive civis e inocentes, era evidentemente desumano deixar morrer de fome um grupo de seres humanos. As reações de censura ao Governo inglês foram mundiais, aliás como tinham sido as pressões para que Thatcher e sua equipe não permitissem a morte pela fome de pessoas tão jovens e em luta pelos seus ideais.

            Na contramão de sua identidade de mulher, que é guardiã da vida, Margaret Thatcher teve sua biografia marcada para sempre pela vida interrompida de Bobby Sands e vários de seus companheiros.  A estes se seguiriam os jovens soldados argentinos que morreram na insana guerra das Malvinas, onde a Dama de ferro tampouco afrouxou por um minuto sua implacável dureza.

            Enquanto as mulheres que chegam ao poder reproduzirem a obsessão masculina de fazer guerras, a humanidade não conhecerá melhores dias.  Sem emitir juízos definitivos sobre a totalidade da vida de Thatcher, cremos que esses pontos de sua vida certamente não contribuem em nada para a promoção da mulher na sociedade.  Que ela descanse em paz, mas que não nos inspire em sua rigidez inabalável.
  A  teóloga é autora de “Crônicas de cá e de lá” (editora Subiaco), que  pode ser  encomendado diretamente à escritora pelo e-mail –  agape@puc-rio.br – R$ 20,00

Copyright 2013 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)


quinta-feira, 18 de abril de 2013

Infelicianeidade



por FREI BETTO

Vocábulos nascem de expressões populares. Assim como nomes próprios trazem significados que deitam raízes em suas respectivas etimologias.

      Feliciano é nome de origem latina, derivado de felix, feliz. Nem sempre, contudo, uma pessoa chamada Modesto deixa de ser arrogante e conheço uma Anabela que é de uma feiura de fazer dó.


      Estamos todos nós, defensores dos direitos humanos, às voltas com um pepino federal. Nossos servidores na Câmara dos Deputados, aqueles cujos altos salários e complementos (viagens aéreas, planos de saúde, assessores etc.) são pagos pelo nosso bolso, e a quem demos empregos através do voto, cometeram o equívoco de eleger o deputado e pastor Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos.


      O pastor-deputado, filiado ao PSC-SP, escreveu em seu twitter: “Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato.” Em outra mensagem, postou: “Entre meus inimigos na net (sic) estão: satanistas, homoafetivos, macumbeiros...”

      Em processo aberto no Supremo Tribunal Federal, Feliciano é acusado de induzir ou incitar discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, crime sujeito à prisão de um a três anos, além de multa.

      Em sua defesa, protocolada, a 21 de março, pelo advogado Rafael Novaes da Silva, Feliciano afirma: “Citando a Bíblia (...) africanos descendem de Cão (sic) (ou Cam), filho de Noé. E, como cristãos, cremos em bênçãos e, portanto, não podemos ignorar as maldições.”

      Que deus é este que amaldiçoa seus próprios filhos? Essa suposta teologia vigorou no Brasil colonial para justificar a escravidão. O Deus de Jesus ama incondicionalmente todos os homens e mulheres, e ainda que O rejeitemos Ele não deixa de nos amar, conforme atestam a relação do profeta Oseias com sua mulher Gomer e a parábola do Filho Pródigo.
      Todo fundamentalismo cristão é ancorado na interpretação literal da Bíblia, que deriva da ignorância exegética e teológica. Os criacionistas, por exemplo, que negam o evolucionismo constatado por Darwin, acreditam que existiram um senhor chamado Adão e uma senhora chamada Eva, dos quais somos descendentes (embora não expliquem como, pois tiveram dois filhos homens, Caim e Abel...). Ora, Adão em hebraico é terra, e Eva, vida. O autor bíblico quis acentuar que a vida, dom maior de Deus, brota da terra.

      Ter Feliciano como presidente de uma Comissão tão importante – por culpa de grandes legendas como PMDB, PSDB e PT – é uma infelicidade, pois não condiz com o nome do deputado que, na roda do samba que está sendo obrigado a dançar, insiste no refrão: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira.”
      O deputado é um pastor evangélico. Sua conduta deveria, no mínimo, coincidir com os valores pregados por Jesus, que jamais discriminou alguém.
      Jesus condenou o preconceito dos discípulos à mulher sírio-fenícia; atendeu solícito o apelo do centurião romano (um pagão!) interessado na cura de seu servo; deixou que uma mulher de má reputação lhe lavasse os pés com os próprios cabelos, e ainda recriminou os que se escandalizaram ao presenciar a cena; e não emitiu uma única frase moralista à samaritana adepta da rotatividade conjugal, pois estava no sexto homem! Ao contrário, a ela Jesus se revelou como o Messias.
      É direito intrínseco de todo ser humano, e também da democracia, cada um pensar pela própria cabeça, seguir a sua consciência. Nada contra o pastor Feliciano, na contramão do Evangelho, abominar negros e odiar homossexuais e adeptos da macumba. Desde que não transforme seu preconceito em atitude discriminatória, e seu mandato em retrocesso às conquistas que a sociedade brasileira alcança na área dos direitos humanos.

      Estamos todos nós, brasileiros e brasileiras, indignados e perplexos frente ao impasse armado pelo jogo político rasteiro da Câmara dos Deputados. Eis uma verdadeira situação de infelicianeidade, com a qual não podemos nos conformar.


Frei Betto é escritor, autor do romance “Aldeia do Silêncio” (Rocco), entre outros livros.
http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Deus mora lá na nossa rua



Por MARCELO BARROS

Quando dona Cora Coralina, a nossa grande poetisa da vida cotidiana, sugeriu ao presidente da República, que instituísse “O Dia nacional do Vizinho”, em nenhum lugar, havia ainda esta iniciativa. Atualmente, existe o “Dia europeu da Vizinhança”, celebrado no final de maio. A Argentina festeja o seu “Dia de los vecinos” no 11 de junho. O Brasil consagra como Dia dos Vizinhos o 20 de agosto, data do aniversário natalício da inesquecível dona Cora. Esta valorização da vizinhança se torna mais importante, em cidades maiores, nas quais edifícios substituem casas. Ali, embora, frequentemente, as pessoas se encontrem no mesmo elevador, muitas vezes, não se conhecem. Não é o mero fato de morar no apartamento ou na casa ao lado, que torna alguém vizinho. A pessoa pode viver durante anos em um lugar, se queixando da agitação, do calor, da poeira ou da insegurança. Outros têm plena consciência destes problemas e lutam para vencê-los, mas, assim mesmo, casam com a rua ou praça onde moram. Quando pessoas da mesma rua ou do mesmo condomínio pressentem em outras, esta relação vital com o lugar em que moram, aí se fortalece uma proximidade de convivência que é a vizinhança. Para ser bem vivida, esta precisa de uma educação para o diálogo e a convivência entre diferentes. Cora Coralina dizia: “Vizinho é mais do que parente, porque é o primeiro a saber das coisas que acontecem na vida da gente”. 

     Em tempos anteriores à televisão e aos shoppings, nas cidades do interior, ou em bairros residenciais, toda noite, as pessoas costumavam sentar à porta de casa, para conversar e conviver. Normalmente, a roda de conversa acabava se abrindo também aos vizinhos e vizinhas. Assim, se formavam verdadeiras rodas de discussão, com assuntos como educação de filhos, relacionamentos conjugais e futebol. Hoje, a televisão e a cultura do shopping substituíram estes ritos de convivência, mas não resolvem o problema da solidão dos mais velhos e da futilidade de quem olha o mundo apenas pela janela do consumo descartável.   

     Há mais de 50 anos, o educador Paulo Freire propôs um método de alfabetização e educação de adultos que partia da vizinhança. Formava círculos de diálogo e cultura entre vizinhos. Ali, as pessoas aprendiam a expressar sua posição sobre a vida e os problemas que enfrentavam. Mesmo perseguido pela ditadura militar, este método de conscientização se espalhou pelo Brasil, por outros países da América Latina e até em Angola e Cabo Verde, na África. Na mesma linha, na segunda metade dos anos 60, em várias regiões do Brasil, homens e mulheres de fé cristã, começaram a se reunir como vizinhos, para orar, ouvir juntos um texto bíblico, conversar sobre problemas da vida e fortalecer a solidariedade mútua. Foi o começo das comunidades eclesiais de base. Mais tarde, várias Igrejas evangélicas organizaram grupos semelhantes, como “Igreja em células” e “Igreja em quadros”, comunidades de convivência e proximidade, instrumentos de comunhão entre as pessoas.

      Há mil razões para se valorizar a prática da vizinhança. Quem crê em Deus como Luz e fonte de vida, o contempla, não como alguém exterior a nós e que de fora intervém neste mundo, mas como presença íntima e profunda, no coração de toda pessoa humana, especialmente de quem se abre ao amor, independentemente de sua pertença religiosa. Um teólogo evangélico dizia: “Deus está em mim para você e em você para mim. Eu o encontro em você e, se quiser, você pode encontrá-lo em mim”. Por isso, podemos olhar nossos vizinhos e vizinhas, como sinais da presença divina. Eles são humanos e têm seus defeitos e limitações, mas se os olharmos assim, pouco a pouco, se transformarão, principalmente se perceberem que, de fato, cremos: através deles e no mais íntimo de cada um/uma, Deus mora lá na nossa rua.   

 Marcelo Barros, monge beneditino e peregrino de Deus