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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Natal no Eremitério nas montanhas de Greccio em 1223



Por Eduardo Hoornaert


São Francisco foi quem inventou o presépio como conhecemos. Ele pensou:  Quero representar o menino nascido em Belém com todos os desconfortos de uma manjedoura deitado sobre as palhas entre um boi e um asno. Quero que os camponeses pobres saibam que Ele é um deles e não como era representado nas igrejas da época cercado de ouro ou crucificado.


Pediu a uma camponesa que levasse seu filho recém-nascido, arrumou em uma gruta a manjedoura, conseguiu um boi e um jumento.  


Tudo preparado correu a noticia pela região de Greccio uma cidadezinha das montanhas italianas.  À noite foram chegando muitos frades, padres, homens e mulheres moradores das redondezas todos alegres trazendo velas e archotes para iluminar a noite que se acendeu como  uma estrela que iluminou todos os dias e tempos desde então.


Os frades cantaram músicas alegres, depois foi dada a eucaristia. Francisco ficou feliz e profundamente comovido.


Não seria mais necessário ir a Belém pois ela estaria, a partir de então,  em todos os lugares e corações.


Esta foi a segunda ressurreição de Jesus. Não ensanguentado e crucificado, mas na forma de um belo recém-nascido com toda esperança que as crianças trazem ao mundo.
    
Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O caminho de Natal



Marcelo Barros
Aeroportos superlotados e estradas cheias de veículos mostram que, para as festas de Natal, muitas pessoas viajam, muitos para reencontrar a família ou amigos, outros para aproveitar as merecidas férias de final de ano. Esse caminho do Natal que aproxima as pessoas é bom, mesmo se não tem relação com a origem religiosa da festa.  Conforme os evangelhos, o caminho do Natal foi trilhado pela primeira vez por pastores de ovelhas que, durante a noite, tiveram a experiência de ver um mensageiro de Deus e ouvir a notícia do nascimento de Jesus. O relato conta que, assim que os anjos se foram, os pastores correram para ver o que de fato acontecera. Os anjos haviam dado um sinal: “vocês encontrarão um menino recém-nascido deitado em uma manjedoura”. E eles encontraram tudo conforme lhes fora anunciado. 

A primeira coisa que chama a atenção no caminho do Natal é a enorme contradição entre o esplendor do anúncio dos anjos e a pobreza do que os pastores encontraram: uma manjedoura e, nela depositado, uma criança pobre. Hoje, o comércio nos diz que o caminho do Natal é o dos shoppings, das festas de comilança e consumo. O Evangelho nos convida a retomarmos o caminho dos pastores e procurar a presença divina no que há de mais humano e, principalmente, na realidade das pessoas feridas pela pobreza, pela injustiça e pela marginalidade. Ao insistir que Jesus nasceu como migrante, em uma Belém “onde não havia lugar para eles na hospedaria”, a tradição não quer apenas sublinhar que Deus está presente junto aos empobrecidos, mas que está para lutar a seu favor contra as injustiças do mundo.

Os antigos pastores da Igreja ensinavam que a cruz de Jesus foi feita com a mesma madeira do presépio de Belém. Era o seu modo de dizer que, ao deitar na manjedoura, Jesus já estava assumindo sua condição de pobre, marginal e condenado pelo poder do mundo. Assim como a cruz, também o presépio não era apenas, como em nossas casas, apenas um enfeite piedoso. O presépio é um sinal da solidariedade de Deus conosco; um modo de dizer a toda pessoa injustamente marginalizada: Deus está do seu lado e vem lutar junto com você por sua libertação. 

 Essa festa de Natal não é uma repetição da história de Belém. Os cristãos fazem memória do nascimento de Jesus para proclamar que a presença divina se manifesta na realidade humana e nos chama a sermos testemunhas do projeto divino em meio aos conflitos e sofrimentos dos empobrecidos no mundo atual. Nem todo mundo que ornamenta suas casas com enfeites de Natal e põem na sala imagens de um presépio fazem verdadeiramente o caminho do Natal. Não adianta cantar “Noite feliz” e desejar Feliz Natal se sua ação é contrária à vontade de Deus que é justiça e vida para todos. 

Quem dificulta e embarga a demarcação de terras indígenas, essenciais para a vida e a sobrevivência das comunidades, deve saber que o seu Natal não é o mesmo do caminho dos pastores de Belém. Ao ferir a justiça e optar pela ambição humana, essas pessoas seguem o projeto do rei Herodes, responsável pela morte das crianças pobres de Belém e não o caminho dos pastores. Hoje, os anjos que nos anunciam que a Palavra Divina se faz carne e se manifesta em nossa realidade humana e social são pastores como Dom Pedro Casaldáliga e Dom Tomás Balduíno que, mesmo com o peso da idade e a saúde frágil, continuam seu cuidado amoroso e profético em favor dos pequeninos, objeto da predileção divina.

   Cada um/uma de nós tem em sua vida pessoal aspectos que parecem menos nobres e apresentáveis. Esse lado de nossa vida pode tornar-se como uma manjedoura na qual a presença divina vem se manifestar solidária e amorosa. Hoje, Jesus repousa nas palhas de nossa vida para nos conduzir a uma mudança de vida e à transformação do mundo. Esse é o caminho novo do Natal.



MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


 
 
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O materialismo do Papai Noel e a espiritualidade do Menino Jesus



Por Leonardo Boff


Um dia, o Filho de Deus quis saber como andavam as crianças que outrora, quando andou entre nós,“as tocava e as abençoava” e que dissera:”deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o Reino de Deus”(Lucas 18, 15-16).
À semelhança dos mitos antigos, montou num raio celeste e chegou à Terra, umas semanas antes do Natal. Assumiu a forma de um gari que limpava as ruas. Assim podia ver melhor os passantes, as lojas todas iluminadas e cheias de objetos embrulhados para presentes e principalmente seus irmãos e irmãs menores que perambulavam por aí, mal vestidos e muitos com forme, pedindo esmolas. Entristeceu-se sobremaneira, porque verificou que quase ninguém seguira as palavras que deixou ditas:”quem receber qualquer uma destas crianças em meu nome é a mim que recebe”(Marcos 9,37).
E viu também que já ninguém falava do Menino Jesus que vinha, escondido, trazer na noite de Natal, presentes para todas as crianças. O seu lugar foi ocupado por um velhinho bonachão, vestido de vermelho com um saco às costas e com longas barbas que toda hora grita bobamente:”Oh, Oh, Oh…olhem o Papai Noel aqui”. Sim, pelas ruas e dentro das grandes lojas lá estava ele, abraçando crianças e tirando do saco presentes que os pais os haviam comprado e colocado lá dentro. Diz-se que  veio de longe, da Finlândia, montado num trenó puxado por renas. As pessoas haviam esquecido de outro velhinho, este verdadeiramente bom: São Nicolau. De família rica, dava pelo Natal presentes às crianças pobres dizendo que era o Menino Jesus que lhes estava enviando. Disso tudo ninguem falava. Só se falava do Papai Noel, inventado há mais de cem anos.
Tão triste como ver crianças abandonadas nas ruas, foi perceber como elas eram enganadas, seduzidas pelas luzes e pelo brilho dos presentes, dos brinquedos e de mil outros objetos que os pais e as mães costumam comprar como presentes para serem distribuídos por ocasião da ceia do Natal.
Propagandas se gritam em voz alta, muitas enganosas, suscitando o desejo nas crianças que depois correm para os pais, suplicando-lhes para que comprem o que viram. O Menino Jesus travestido de gari, deu-se conta de que aquilo que os anjos cantaram de noite pelos campos de Belém”eis que vos anuncio uma alegria para todo o povo porque nasceu-vos hoje um Salvador…glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa-vontade”(Lucas 2, 10-14) não significava mais nada. O amor tinham sido substituído pelos objetos e a jovialidade de Deus que se fez criança, tinha desaparecido em nome do prazer de consumir.
Triste, tomou outro raio celeste e antes de voltar ao céu deixou escrita uma cartinha para as crianças. Foi encontrada debaixo da porta das casas e especialmente dos casebres dos morros da cidade, chamadas de favelas. Ai o Menino Jesus escreveu:
Meus queridos irmãozinhos e irmãzinhas,
Se vocês olhando o presépio e virem lá o Menino Jesus e se encherem de fé de que ele é o Filho de Deus Pai  que se fez um menino, menino qual um de nós e que Ele é o Deus-irmão que está sempre conosco,
Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas, especialmente nos pobrezinhos, a presença escondida do Menino Jesus nascendo dentro deles.
Se vocês fizerem renascer a criança escondida no seus pais e nas pessoas adultas para que surja nelas o amor, a ternura, o carinho, o cuidado e a amizade  no lugar de muitos presentes.
Se vocês ao olharem para o presépio descobrirem Jesus pobremente vestido, quase nuzinho e lembrarem de tantas crianças igualmente pobres e mal vestidas e sofrerem no fundo do coração por esta situação desumana e se decidirem já agora, quando grandes, mudar estas coisas para que nunca mais haja crianças chorando de fome e de frio,
Se vocês repararem nos três reis magos com os presentes para o Menino Jesus e pensarem que até os reis, os grandes deste mundo e os sábios reconheceram a grandeza escondida desse pequeno Menino que choraminga em cima das palhinhas,
Se vocês, ao verem no presépio todos aqueles animais, como as ovelhas, o boi e a vaquinha pensarem que o universo inteiro é também iluminado pela Menino Jesus e que todos, galáxias, estrelas, sois, a Terra  e outros seres da natureza e nós mesmos formamos a grande Casa de Deus,
Se vocês olharem para o alto e virem a estrela com sua cauda e recordarem que sempre há uma Estrela como a de Belém sobre vocês,  iluminando-os e mostrando-lhes os melhores caminhos,
Se vocês  aguçarem bem os ouvidos e escutarem a partir dos sentidos interiores, uma música celestial como aquela dos anjos nos campos de Belém que anunciavam paz na terra,
Então saibam que sou eu, o Menino Jesus, que  está chegando de novo e renovando o Natal. Estarei sempre perto de vocês, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia em que chegaremos todos, humanidade e universo, à Casa do Pai e Mãe de infinita bondade para sermos juntos eternamente felizes como uma grande família reunida.
                                    Belém, 25 de dezembro do ano 1.
                                    Assinado: Menino Jesus
Leonardo Boff escreveu Cuidar da Terra, proteger a vida: como evitar o fim do mundo, Record, Rio 2010.


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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Mandiba e Amanda: uma união inseparável



 Por Maria Clara Bingemer 


                                                                      
            Quando no último dia 5 de dezembro correu a notícia, o mundo calou-se em reverente silêncio.  E este silêncio respondia a outro: o calar para sempre da voz de Nelson Mandela, carinhosamente chamado Madiba pelo povo sul-africano. Com 95 anos, em Johanesburgo, calava-se a voz e desaparecia a presença que inspirou todas as gerações que viveram no século XX e neste início de século XXI.

            Nascido em meio às tribos que seu pai, como conselheiro e consultor, percorria, Mandela foi batizado na Igreja metodista quando já adolescente, saiu de sua aldeia e foi estudar na cidade grande.  Ali, em contato com a história da África do Sul aprendeu como seu povo havia vivido em paz e concórdia até a chegada do colonizador branco.  A partir de então, as divisões e conflitos que culminariam no cruel e desumano “apartheid” não deixaram de estar no centro da atenção deste jovem, que abandonou seus sonhos, quaisquer que fossem, para dedicar-se a uma intensa atividade não violenta pela libertação dos seus.

            Esta opção de vida lhe trouxe não poucos problemas e conflitos.  Como todos os que lutam por liberdade e justiça, Madiba foi perseguido, incompreendido, ameaçado e passou pela prisão um bom número de vezes.  No entanto, o sonho expresso pela palavra “Amanda!”, grito que em africâner significa “Liberdade” e que marcava as lutas antiapartheid na África do Sul, nunca mais o abandonou.  Amanda era como uma noiva que Mandela amava mais que tudo, mais que a própria vida. E Amanda comandava suas opções, decisões,  gestos e palavras. 

            Ativamente envolvido no movimento anti-apartheid, Madiba chegou ao Congresso em 1942. E desde ali dirigiu jovens e grupos emergentes em seu país através da  prática de boicotes, greves, desobediência civil e não cooperação.  Seus objetivos, assim como o de seus seguidores, eram plena cidadania, redistribuição da terra, direitos sindicais e educação obrigatória e gratuita para todas as crianças sul africanas.

            Por vinte anos, Mandela dirigiu atos não violentos de questionamento ao governo e suas políticas racistas.  Em 1956 foi preso juntamente com 150 outros por sua luta em prol dos direitos humanos. Não foi a primeira nem a última vez.

            Durante 62 anos, dos quais 27 na prisão, Rolihlahia Mandiba Mandela lutou, sem disparar um tiro, pela emancipação da África do Sul.  No cárcere, aquele que era seu carcereiro tornou-se seu grande amigo. Por ser considerado preso de alta periculosidade, o pacífico Madiba tinha um guarda pessoal. Este depois escreveu um livro para narrar como passara de carcereiro a amigo e admirador incondicional daquele que estivera preso sob sua guarda e uma vez liberto era presidente da República.

            A amizade entre os dois começou no início da década de 1960, quando Mandela foi preso por liderar um movimento de desobediência civil contra o governo. Levado a julgamento, foi condenado à prisão perpétua e enviado para o presídio onde Gregory trabalhava. Com o passar dos anos, o guarda teve a oportunidade de conhecê-lo melhor. “Comecei a ficar impressionado com a pose altiva daquele negro forte e logo descobri que ele era motivado por uma grande causa, com a qual eu, particularmente, não concordava, mas entendia”.

            Ganhando o amor e a fidelidade dos amigos e a admiração dos inimigos e adversários, Mandela atravessou seus mais de 27 anos de cárcere.  Amanda-Liberdade não deixou de acompanhá-lo durante todo este tempo. Nunca deixou de ser um homem livre, pois as grades não são capazes de construir a liberdade, mas a liberdade, sim, é capaz de fazer com que toda grade perca seu poder de aprisionar e cercear. Manteve firme a crença em seus ideais e continuou sua luta pacífica pelos direitos da maioria negra de seu país.

            Liberto, ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1993 e, no ano seguinte, foi eleito primeiro presidente negro da África do Sul. Era a primeira eleição  democrática e multirracial de seu país. Hoje as ruas estão coloridas dessa gente que o altivo Madiba libertou da escravidão moderna do apartheid.  Seu luto é feito de cantos de alegria e celebração pela vida deste homem que não dava um passo sem ser de mãos dadas com Amanda.   Da mesma linhagem que Mahatma Gandhi e Martin Luther King, o corpo de Madiba é reverenciado e carregado pelas ruas de Pretória.  Ao fundo, o punho levantado e o grito de paz que ele celebrizou: “Amanda!  Amanda!“ E o legado maior de que os seres humanos não nascem odiando.  São ensinados a isso.  E se podem aprender a odiar, também podem aprender a amar. 

 Maria Clara Bingermer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A   teóloga é autora de “O  mistério e  o mundo – paixão por Deus em tempo de descrença”  (Editora Rocco).

Copyright 2013 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


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