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segunda-feira, 13 de abril de 2015

O SUICÍDIO DO CO-PILOTO: EXPRESSÃO DO NIILISMO DA CULTURA PÓS-MODERNA?

Por Leonardo Boff


O suicídio premeditado do co-piloto Andreas Lubitz da Germanwings levando consigo 149 pessoas, suscita várias interpretações. Havia seguramente um componente psicológico de depressão, associado ao medo de perder o posto de trabalho. Mas para chegar a esta solução desesperada de, ao voluntariamente pôr fim a sua vida, levando consigo outros 149, implica em algo muito profundo e misterioso que precisamos de alguma forma tentar decifrar.

Atualmente este medo de perder o emprego e viver sob uma grave frustração por não poder nunca mais realizar o seu sonho, leva a não poucas pessoas à angústia, da angústia, à perda do sentido de vida, e esta perda, à vontade de morrer. A crise da geosociedade está fazendo surgir uma espécie de “mal-estar na globalização” replicando o “Mal-estar na cultura de Freud.

Por causa da crise, as empresas e seus gestores levam a competitividade até a um limite extremo, estipulam metas quase inalcançáveis, infundindo nos trabalhadores, angústias, medo e, não raro, síndrome de pânico. Cobra-se tudo deles: entrega incondicional e plena disponibilidade, dilacerando sua subjetividade e destruindo as relações familiares. Estima-se que no Brasil cerca de 15 milhões de pessoas sofram este tipo de depressão, ligada às sobrecargas do trabalho.

A pesquisadora Margarida Barreto, médica especialista em saúde do trabalho, observou que no ano de 2010 numa pesquisa ouvindo 400 pessoas, cerca de um quarto delas teve ideias suicidas por causa da excessiva cobrança no trabalho. Continua ela: “é preciso ver a tentativa de tirar a própria vida como uma grande denúncia às condições de trabalho impostas pelo neoliberalismo nas últimas décadas”. Especialmente são afetados os bancários do setor financeiro, altamente especulativo e orientado para a maximalização dos lucros.

Uma pesquisa de 2009 feita pelo professor Marcelo Augusto Finazzi Santos, da Universidade de Brasília, apurou que entre 1996 a 2005, a cada 20 dias, um bancário se suicidava, por causa das pressões por metas, excesso de tarefas e pavor do desemprego.

A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de três mil pessoas se suicidam diariamente, muitas delas por causa da abusiva pressão do trabalho. O Le Monde Diplomatique de novembro de 2011 denunciou que entre os motivos das greves de outubro na França, se achava também o protesto contra o acelerado ritmo de trabalho imposto pelas fábricas causando nervosismo, irritabilidade e ansiedade. Relançou-se a frase de 1968 que rezava: “metrô, trabalho, cama”, atualizando-a agora como “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer, doenças letais ou o suicídio como efeito da superexploração do processo produtivo no estilo ultra acelerado norte-americano, introduzido na França.

Estimo que, no fundo de tudo, estamos face à aterradoras dimensões niilistas de nossa cultura pós-moderna. O termo, niilismo, surgiu em 1793 durante a Revolução Francesa por Anacharsis Cloots, um alemão-francês e foi divulgado pelos anarquistas russos a partir de 1830 que diziam: “tudo está errado, por isso tudo tem que ser destruído e temos que recomeçar do zero”. Depois Nietzsche retoma o tema do niilismo, aplicando-o ao cristianismo que, segundo ele, se opõe ao mundo da vida. No após guerra, em seu seminário sobre Nietzsche, Heidegger vai mais longe ao afirmar, creio que de forma exagerada, que todo o Ocidente é niilista porque esqueceu o Ser em favor do ente. O ente, sempre finito, não pode preencher a busca de sentido do ser humano. Alexandre Marques Cabral dedicou dois volumes ao tema: ”Niilismo e Hirofania: Nietzsche e Heidegger’(2015) e Clodovis Boff três volumes sobre a questão do Sentido e do Niilismo.

Em setores da pós-modernidade, o niilismo se transformou na doença difusa de nosso tempo, quer dizer, tudo é relativo e, no fundo, nada vale a pena; a vida é absurda, as grandes narrativas de sentido perderam seu valor, as relações sociais se liquidificaram e vigora um assustador vazio existencial.
Neste contexto, se retomam tradições niilistas da filosofia ocidental como o mito, citado por Aristóteles no seu Eudemo, do fauno Sileno que diz: ”não nascer é melhor que nascer e uma vez nascido, é melhor morrer o mais cedo possível”. Na própria Bíblia ressoam expressões niilistas que nascem da percepção das tragédias da vida. Assim diz o Eclesiastes: ”mais feliz é quem nem chegou a existir e não viu a iniquidade que se comete sob o sol”(4,3-4). O nosso Antero de Quental (+1860) num poema afirma: ”Que sempre o mal pior é ter nascido”.

Suspeito que esse mal-estar generalizado na nossa cultura, contaminou a alma do co-piloto Lubitz. Também pessoas que entram nas escolas e matam dezenas de estudantes em vários países e até entre nós em 2011, no Rio na escola Tasso da Silveira, quando um jovem matou mais de uma dezena de alunos, revelam o mesmo espírito niilista. Medo difuso, decepções e frustrações destruíram em Lubitz o horizonte de sentido da vida. Quis encontrar na morte o sentido que lhe foi negado na vida. Escolheu tragicamente o caminho do suicídio.

O suicido pertence à tragédia humana que sempre nos acompanha. Por isso, cabe respeitar o caráter misterioso do suicídio. Talvez seja a busca desesperada de uma saída num mundo sem saída pessoal. Diante do mistério calamos, pasmados e reverentes, por mais desastrosas que possam ser as consequências.

Recomendo o livro de Clodovis Boff O livro do sentido, vol I de três, Paulus 2014.



sexta-feira, 10 de abril de 2015

GARISSA SOMOS TODOS NÓS

por  Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio



            Os cristãos do mundo inteiro celebraram há poucos dias sua festa maior: a Páscoa de Jesus de Nazaré, filho de Deus, nascido de mulher, morto sob Pôncio Pilatos e ressuscitado por Deus, seu Pai, para uma vida plena e sem término.  É a celebração da vitória da vida sobre a morte e a dor, o triunfo do Bem sobre o Mal, da paz sobre a violência e a injustiça.  Todos que celebramos este momento magno do ano litúrgico ouvimos uma vez mais as leituras que narram o evento pascal, o qual cremos haver transformado o mundo e o futuro da humanidade pela afirmação de uma invencível esperança em meio às vicissitudes da vida.

            E, no entanto, em meio aos cantos de alegria e júbilo, soavam gemidos de dor e tristeza sem fim.  Esta Páscoa de 2015 fica indelevelmente marcada pelo massacre acontecido no Quênia, na cidade de Garissa, durante a Quinta-Feira Santa.  Homens armados do grupo radical islâmico Al Shabab – filial da Al Qaeda na Somália – invadiram a universidade de Garissa e mataram 148 pessoas, a maioria deles jovens estudantes e cristãos.

            O que se passou dentro das salas de aula e nos dormitórios da universidade é difícil de imaginar.  Os jovens foram separados segundo a religião: muçulmanos poupados e cristãos mortos sem piedade com um tiro na nuca.  Ao serem indagados se podiam ler em árabe e se conheciam as palavras das orações muçulmanas, aqueles e aquelas que não as conheciam por pertencerem a outra religião eram separados para morrer e executados imediatamente.

            Houve, porém, os que escaparam milagrosamente, por fingir-se de mortos entre os inúmeros cadáveres que se acumulavam; ou dentro de um armário, como a jovem Cynthia, de 19 anos, que ali passou 48 horas, escondida sob as roupas e bebendo loção corporal para matar a sede. Todos esses puderam narrar em primeira pessoa o que foram aquelas horas de terror.
            Esses que sobreviveram e seus parentes que chegavam em desespero para saber notícias dos entes queridos tiveram que esperar várias horas pelo  socorro oficial, da polícia e do exército queniano. A mãe de uma das vítimas levou cinco dias peregrinando em busca de notícias do filho, para encontrar seu nome finalmente em uma lista de mortos.  No necrotério montado para reconhecer as vítimas, cenas de desespero se sucediam quando algum corpo era reconhecido.  Algumas pessoas permanecem desaparecidas até hoje.

      Cala fundo o horror do massacre.  Impressiona visceralmente a magnitude da tragédia. Mas talvez a mais intrigante interpelação seja sobre a pouca difusão que se deu na mídia e nas redes sociais a uma violência de tais proporções.  A reação mundial diante do massacre violento e cruel desses quase 150 jovens não se compara, por exemplo, à mobilização maciça ocorrida na França com os ataques ao Charlie Hebdo e a morte de quatro cartunistas.

Não podemos deixar de nos perguntar por que o silêncio, a escassez de comentários, o quase descaso?  Por que aconteceu na África, continente riscado do mapa das superpotências e condenado à pobreza e à injustice, e não na sofisticada e culta França, país destacado do Primeiro Mundo?  Por que envolvia “apenas” estudantes africanos que não aparecem nas listas de excelência das grandes universidades nem representam os interesses dos centros intelectuais de ponta dos países desenvolvidos?

            Ou por que eram cristãos? Sim, é preciso formular essa pergunta.  Não porque a pertença cristã seja um “plus” a ser acrescentado ao ser humano como uma pós-graduação em humanidade.  Longe disso.  Sabemos bem os cristãos os muitos “mea culpa” que devemos fazer constantemente pelos erros cometidos no passado, em outras épocas, quando perseguimos e cometemos violência contra aqueles que não professavam a nossa fé. Na abertura do novo milênio, o Papa João Paulo II pediu perdão ao mundo por esses e outros pecados da Igreja.

            Não se pode ignorar, porém, que hoje os ventos sopram em outra direção.  E que talvez a religião mais perseguida no mundo seja o cristianismo.  As palavras da jovem e corajosa cristã Cynthia dão testemunho disso.  Foram mortos aqueles que não conheciam as palavras das orações muçulmanas.  O ataque dirigia-se contra os membros de uma religião e foi cometido por um grupo radical que deseja impor a lei islâmica naquela região.

            Desde os primórdios do Cristianismo, ser perseguido por causa de sua fé é uma graça a ser recebida e agradecida, e não uma maldição.  Mas não se pode igualmente deixar de notar que os cristãos hoje são alvos inocentes de inúmeras perseguições.  E não encontram nem na mídia nem nos formadores de opinião apoio e reação que lhes dê suporte. Situação interpelante e que convida a uma séria reflexão.

      Enquanto isso, choremos com os que choram seus mortos.  Se soubemos “ser Charlie” com todo o povo francês, agora é o momento de dizer: Garissa somos todos nós.  Que a esperança da Ressurreição conforte as vítimas e todos aqueles que foram atingidos de alguma maneira por essa recente tragédia.

 A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco. 
 Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>



quinta-feira, 9 de abril de 2015

PÁSCOA, VITÓRIA DA VIDA


Por Frei Betto



      A Páscoa é a principal festa das Igrejas cristãs: celebra a ressurreição de Jesus. Em sua origem, comemora a libertação dos hebreus da escravidão no Egito, em 1250 a.C., sob o reinado do faraó Ramsés II.

       É fato histórico que Moisés conduziu o processo que levou os hebreus a se livrarem do jugo em que viviam. Hoje, raros historiadores negam a existência histórica de Jesus, atestada por especialistas não cristãos que lhe foram contemporâneos, como Flávio Josefo e Tácito.

      Aliás, há mais provas da existência de Jesus que de Sócrates, que só conhecemos via Platão. O que ultrapassa a historiografia é a crença em sua ressurreição, que pertence à esfera da(o) (a)fé(to).

      Os evangelhos registram a presença de Jesus em Jerusalém por ocasião das festas pascais. Foi numa delas, a do ano 30, que ele, preso por blasfêmia e subversão, recebeu a pena capital e morreu crucificado. Tinha 36 ou 37 anos de idade, pois hoje sabemos que o monge Dionísio se equivocou, no século VI, ao calcular o início de nossa era. Dionísio não conhecia o zero e está comprovado que, ao morrer Herodes no ano 4 antes de nossa era, Jesus já havia nascido.

      A visão do tempo como processo histórico marca profundamente a nossa cultura. A Bíblia herdou-a dos persas e, assim, quebrou a circularidade grega. Três grandes pilares de nossos atuais paradigmas o demonstram: Jesus, Marx e Freud. Todos três judeus.

      Para Jesus, a nossa felicidade (salvação) depende de nossa capacidade de amar no terreno da história. O Reino de Deus não é algo "lá em cima", mas sim “lá na frente”, no futuro onde a história atinge a sua plenitude, em um mundo livre de opressões, e também pela irrupção da presença divina entre nós.

      Marx analisa o capitalismo a partir das formações sociais que o precedem e vislumbra, após a sua superação, um futuro de partilha e harmonia. Freud, nas mesmas águas da historicidade, vai buscar no inconsciente, marcado por nossas experiências mais primevas, a explicação para o nosso atual perfil psicológico, tendo em vista o resgate da saúde mental.

      Ora, um dos efeitos mais nefastos do neoliberalismo está condensado no famoso vaticínio de Fukuyama: "A história acabou". É claro que o nipo-americano, funcionário do Departamento de Estado, sabe muito bem que as empresas transnacionais não pensam em deter seu ganancioso processo de acumulação do capital e, portanto, sua história de cobiça e espoliação. O que ele pretende sugerir é que nós, pobres mortais, devemos, como diria Dante hoje, abandonar, à porta do Mercado, toda esperança.

      A Páscoa cristã sinaliza que, malgrado tanta miséria e desesperança, em Cristo temos a certeza da vitória da justiça sobre a injustiça e da vida sobre a morte.

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.


 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

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quarta-feira, 8 de abril de 2015

HÁ SAÍDA PARA A GUERRA ENTRE ISRAEL E PALESTINA?

Por Eduardo Hoornaert



O partido do primeiro ministro de Israel, Bejamin Netanyahu, acaba de ganhar as eleições domingo passado, 15 de março. Ao que tudo indica, a interminável guerra entre Israel e Palestina vai continuar. É de se desesperar. A humanidade parece não gostar de encontrar a solução para seus problemas. Como dizia Churchill, sempre escolhe o caminho errado. Será que é inócuo lembrar aqui um princípio básico do movimento de Jesus, formulado por Paulo de Tarso?
Nos anos 50, uns 20 anos depois da morte de Jesus, o apóstolo Paulo escreveu a seguinte frase: ‘Não há judeu nem grego, não há escravo nem homem livre, não há macho nem fêmea, pois vocês todos são um em Jesus Cristo’ (Gl 3, 28). Traduzido: ‘Não há israelense nem palestino’. Pode? Paulo, por favor, me explica: onde está minha identidade? Eu não sou brasileiro, belga, alemão, israelense, palestino? Não levo comigo uma carteira de identidade? Paulo responde: não, você não é antes de tudo brasileiro, etc. Você é gente.

Aqui o problema reside no fato que as pessoas costumam confundir identidade e nacionalidade e esquecem como isso é perigoso. Potencialmente, eu me torno conivente com crimes cometidos por minha nação se não tomar distância diante da ideia de nacionalidade confundida com identidade. Identidade nacional pode ser mortífera. É uma falta de clareza que nos pode atingir a cada momento. No momento em que um israelense se identifica como israelense e não toma distância diante do projeto colonizador de sua nação (colonizar o território de Gaza, construir casas no território da Palestina etc.), ele colabora implicitamente com a morte das vítimas desse projeto nacional. Infelizmente, o eleitor israelense de domingo 15 de março confirma a ideia que é preciso matar, oprimir, etc. para ser ‘israelense’. Assim a ideia nacional (nem falo aqui de ‘nacionalismo’) pode provocar as maiores desastres, como verificamos na última Guerra Mundial. Penso inclusive que um dos pontos mais fracos da atual Organização das Nações Unidas (ONU) consiste exatamente no fato de ser baseada na ideia de nação e não na ideia do universalismo humano, defendida por São Paulo na carta aos Gálatas, que estamos aqui comentando.
Verifico mais uma vez que o cristianismo tem algo a dizer sobre os problemas urgentes que a humanidade enfrenta. Infelizmente, os próprios cristãos nem sempre conhecem nem avaliam o peso atual da frase do apóstolo Paulo:

Não há judeu nem grego,

não há escravo nem homem livre,

não há macho nem fêmea,

vocês todos são um em Jesus Cristo (Gl 3, 28).



Não há israelense nem palestino, há gente.


 Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

Fonte: http://www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/