Por Maria Clara Lucchetti
Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio
O grande escritor e humorista Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é
burra. Há casos, porém, em que essa tese é solenemente desmentida.
Refiro-me, por exemplo, ao querido Leandro Konder, filósofo brilhante,
intelectual mais ainda, poço de doçura e amabilidade, que ensinava teologia aos
teólogos, sem deixar jamais sua posição e sua visão da realidade inspiradas no
marxismo.
Leandro era, sem dúvida, uma unanimidade. Não conheci ninguém que não o
amasse, admirasse e dele apreciasse não apenas as virtudes intelectuais, mas
também e sobretudo as humanas, que o faziam tão querido.
Intelectuais brilhantes e sérios,
bons professores, excelentes pesquisadores, temos alguns, não muitos, mas enfim
alguns. Seres humanos daquela estatura moral e afetiva são muito poucos.
Conheci Leandro nos idos dos anos 1990, quando trabalhava no Centro de Ação e
Investigação Social dos jesuítas. Organizávamos seminários
interdisciplinares extremamente instigantes, que juntavam pessoas das mais
variadas áreas do saber para pensar e debater sobre temas candentes.
Leandro era sempre convidado. E se era eu a organizadora, sempre e sem
faltar uma vez. Comparecia alegre e cheio de disposição e verve.
Nesses fóruns, presenciamos situações inesperadas. Por exemplo, no
seminário de Mística e Política, ele compartilhou a mesa com o ilustríssimo Pe.
Henrique de Lima Vaz. Todos os presentes ficaram impressionados de ver
como o Pe. Vaz falou bem sobre política. Mas, sobretudo, como e quanto
Leandro falou com entusiasmo e conhecimento de mística.
Assim era esse doce filósofo marxista de olhos azuis, voz e maneiras ternas e
amáveis com toda e qualquer pessoa que cruzasse seu caminho. Inesperada
presença geradora de boas surpresas e instigador de ideias até então não
pensadas. Homem de coerência absoluta com aquilo em que acreditava e era
o norte de sua vida, assim também como coração aberto em permanência para
acolher respeitosa e até carinhosamente qualquer diferença e toda diversidade.
Quando com ele cruzava no elevador da PUC, indo para o mesmo andar, não havia
ninguém, - fosse ascensorista, aluno, colega, funcionário, professor, diretor
ou reitor – que de sua boca não
recebesse palavras de simpatia e gestos afetuosos. E tão afetivamente quanto
tratava a todos, por todos era afetuosamente retribuído. Amado pelos
alunos, pelos pares, pelas instâncias de cima, de baixo, vivia cercado de
carinho, respeito e alegria.
Foi um choque para todos acompanhar o declínio de sua saúde. Sobretudo
porque seu humor e amabilidade, suas maneiras feitas de doçura e proximidade
continuavam iguais ao que sempre haviam sido. Seu corpo vergava sob o
peso cruel da doença, mas seus lábios sorriam. Seu passo era mais lento,
mas as dezenas de pessoas que o acompanhavam cresciam em número e em demonstrações
de carinho. Sua voz tornava-se mais fraca, quase inaudível, mas os
ouvidos dos que bebiam suas palavras, ajudados pelo microfone com que passou a
dar aulas, abriram-se mais no desejo de ser ensinados por aquele inigualável
pensador e pedagogo.
Jamais o ouvi queixar-se, expressar impaciência ou mau humor com o que lhe
acontecia. Aquele homem belo, alto e admirado por todos foi se tornando
sombra de si mesmo em termos físicos. Mas uma coisa o Parkinson não
conseguiu atingir e minar: sua integridade moral, sua alegria interior, seu
amor pelas pessoas e a maneira doce que tinha de tratá-las.
Aos poucos foi desaparecendo dos corredores da PUC, comparecendo menos à sala
de aula, empunhando primeiramente uma bengala, depois sentado em uma cadeira de
rodas. Sempre cercado da presença jovem dos alunos e do afeto dos
colegas, sempre com o mesmo sorriso nos lábios e disposto a fazer brincadeiras
com todos e cada um.
Apesar disso, era bom saber que continuava em vida, assim como dói muito saber
que já se foi e que não se encontra mais entre nós, na história que ele tanto
estudou e pensou. Antes de morrer, disse à sua esposa que gostaria de uma
missa de sétimo dia na PUC-Rio, por ter sido o lugar onde sempre pôde falar com
liberdade. Seu desejo foi satisfeito e muitíssimas pessoas encheram a igreja da
universidade, rememorando esse grande filósofo, essa doce figura humana, esse
marxista cheio de esperança, esse ateu que apreciava a mística e a liturgia.
Descansa em paz, amigo. Esteja onde você estiver, tenho certeza de que estará
dizendo algo amável e afetuoso a alguém. Se você continua vivo fora da
história, assim como eu creio que está, deve estar encantando gente em outras
paragens, como sempre o fez por aqui. Procuraremos ser fieis ao que você nos
ensinou: o amor à verdade e à liberdade, a paixão por pensar e conhecer, a
doçura como melhor método para estabelecer relações consistentes entre pessoas.
A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e
da compaixão (Edusc)
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