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terça-feira, 4 de julho de 2017

CAMINHAR COM O CORPO E O CORAÇÃO

Por Marcelo Barros


A maioria das religiões mantém o costume de fazer peregrinações. Os muçulmanos vão a Meca e os hinduístas às nascentes do rio Ganges. Os cristãos de tradição católica vão a Jerusalém,  a Santiago de Compostela ou a santuários de peregrinação, espalhados por todo o mundo. No Brasil, em julho acontecem diversas romarias e peregrinações populares. Nesse primeiro domingo do mês, em Trindade, GO, encerrou-se a festa do Divino Pai Eterno. De todo o Centro-oeste, milhares de romeiros vieram ao santuário, enquanto no sertão da Bahia, nos meados de julho, a cada ano, a romaria do Bom Jesus da Lapa recebe um número sempre maior de romeiros. São pessoas de todas as classes sociais e das mais diversas culturas, vindas do campo e das cidades.

Em uma cultura secularizada e crítica, há quem considere a peregrinação e outras devoções coletivas como superadas. Alguns círculos espirituais distinguem dois tipos de espiritualidade. A exotérica se chama assim porque é voltada para fora e consiste em práticas externas como peregrinações, cultos e costumes formais. A esse modelo, se costuma contrapor a espiritualidade esotérica, centrada nas meditações e práticas interiores e subjetivas. Uma das críticas, comumente feitas ao Cristianismo, é a de ter desenvolvido mais a dimensão exotérica e insistir menos na contemplação e centração interior. Sem dúvida, desde os tempos bíblicos, profetas como Jeremias insistiam que “a verdadeira circuncisão é a do coração”. O salmo 51 retoma que Deus se agrada da conversão do coração e da renovação interior e não de cultos externos. Nessa linha, hoje, por todo o mundo, se espalha a prática da meditação cristã. Em geral, se trata da simples repetição do nome de Jesus para aquietar o coração na paz divina.

Seja como for, a espiritualidade esotérica não substitui ou abole a dimensão externa da fé. Essa exerce a função de método para nos ajudar a sair de nós mesmos e viver a intimidade divina, não como algo privado e intimista, mas como caminho de comunhão com as outras pessoas que têm a mesma busca. A sociedade capitalista ficará feliz se até mesmo os religiosos aceitarem privatizar a sua fé, adaptando-a à cultura individualista na qual cada qual vive o seu caminho sem se preocupar com o outro. Ao contrário, quem segue o caminho bíblico sabe que Deus se revela a mim no outro e se revela ao outro em mim. Eu preciso do outro e da comunidade para viver a intimidade com Deus. No evangelho, Jesus havia dito: “Onde dois ou três pessoas se reúnem no meu nome, Eu estarei no meio delas” (Mt 18, 18- 20).

Já em 1965, Dom Hélder Câmara, então arcebispo de Recife, escreveu: “Quando me perguntam pelas viagens que faço a países distantes deixando a entender que peregrinações assim não estão ao alcance de qualquer pessoa, eu gostaria de ter o dom maravilhoso de convencer que viagem alguma se compara, nem de leve, a caminhar, noite e dia, como todos podemos fazer, dentro de Ti, Senhor. Pena que, neste mundo, o mais comum seja viajar de olhos vendados”. 

Essa meditação poética é um convite para assumirmos nossa peregrinação interior de cada dia, caminhada que é íntima e, ao mesmo tempo, comunitária: avançar de olhos e corações abertos no caminho do amor. 

  Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.


terça-feira, 27 de junho de 2017

HORA DE CAMINHAR, HORA DE PARAR

Por Marcelo Barros



"Debaixo do céu, há momento para tudo e tempo certo para cada coisa. Tempo para nascer, tempo para morrer. Tempo para plantar, tempo para colher. tempo para construir e tempo para destruir... Que proveito o trabalhador tira de todo o seu cansaço?" (Ecle 3, 1- 9).

Enquanto, na Bíblia, o Eclesiastes, um dos livros sapienciais, relativiza cada tempo, Jesus propõe que busquemos sempre discernir o que ele chama de "sinais do tempo presente" e agir de acordo com os desafios do momento. Nesses dias, o Catolicismo popular faz milhares de pessoas viajarem de suas casas até santuários como o de Trindade ou do Bom Jesus da Lapa. A fé faz os fieis superarem todas as dificuldades e deixarem tudo para, através do gesto de caminhar até o santuário e cumprir sua devoção.

Do mesmo modo que a peregrinação é um dos mais antigos atos religiosos nas mais diferentes tradições, também o ato de parar as atividades e fazer greve tem uma dimensão espiritual. As antigas religiões orientais propõem a quietude e até a imobilidade, como atos proféticos, diante da agitação e quando não se sabe como reagir às provocações do mundo opressor. Na cultura judaica, o termo shabbat designa o sábado, dia sagrado do descanso. Mas, mesmo no hebraico moderno, esse termo também significa "greve" como direito sagrado dos trabalhadores.  Os profetas bíblicos sempre se insurgiram contra os que impedem os trabalhadores de parar quando isso é o direito deles. Se o dia consagrado e os cultos religiosos não têm como fundamento o cuidado com a justiça e a preocupação com os direitos dos pobres, eles são idolátricos e fazem Deus afirmar: "O país de vocês está devastado, as terras são devoradas por estrangeiros. A realidade é de desolação. O que me interessa a quantidade dos seus sacrifícios religiosos? (...) Quando vocês vêm à minha presença e pisam no santuário, quem exige isso de vocês? Parem de fazer cultos inúteis. Para mim, o incenso é algo nojento. .. Não suporto injustiça junto com festa religiosa... Quando vocês erguem as mãos para mim, eu desvio o olhar. Ainda que multipliquem suas orações, eu não escutarei" (Isaías 1, 7 e 12- 15).

Nesses dias, em todo o Brasil, de uma forma suprapartidária, os movimentos de trabalhadores do campo e da cidade, centrais sindicais, pastorais sociais e toda a sociedade civil organizada, concordam que a realidade que o nosso país enfrenta exige uma reação de todo o povo. Por isso, planejam mais uma greve geral. É a continuação da paralização ocorrida no dia 28 de abril, que contou com o apoio de mais de cem bispos católicos, de várias Igrejas evangélicas e do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs. Nessa sexta feira, 30, a greve vai parar o país. Milhões de pessoas irão às ruas para gritar contra as medidas tomadas pelo governo que rouba direitos conquistados dos trabalhadores e entrega as riquezas nacionais a corporações estrangeiras.

No contexto atual brasileiro, essa convocação para a greve geral é um apelo para a responsabilidade de todos no destino do país. Ao parar os trabalhos e mesmo sair às ruas para exigir mudanças na realidade social e política do país, as pessoas estarão afirmando que, mesmo com toda a anestesia social provocada pelos grandes meios de comunicação, a preocupação com o bem comum, o exercício da cidadania e a fraternidade humana continuam vivas.

Conforme o evangelho, quando Jesus entrou em Jerusalém para celebrar a Páscoa, a multidão de peregrinos o aclamou como o enviado de Deus para libertar o povo dos seus opressores. A expressão Hosanah que era a aclamação litúrgica de um salmo podia ser compreendida como o grito: Liberta-nos! Lucas conta que, ao verem que aquela peregrinação tomava o caráter de  manifestação política nas ruas, alguns mestres da religião disseram a Jesus para mandar os discípulos e o povo se calarem. Jesus lhes respondeu: "Se eles se calarem, até as pedras gritarão"(Lc 19, 40). Certamente, essas palavras de Jesus servem para descrever a realidade atual brasileira e a responsabilidade de todo o povo gritar por mudanças. Quem tem fé pode acreditar que o Espírito de Deus que conduziu o povo bíblico da escravidão a uma terra livre, agora, impulsiona os grupos sociais e as pessoas que têm fome e sede de justiça para a felicidade de realizar o projeto divino nesse mundo. 



 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.