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terça-feira, 30 de novembro de 2021

Fim de um mundo, gravidez de um novo

 Marcelo Barros


Chegamos a dezembro de um ano profundamente problemático. No ponto de vista social e político, o Brasil parece ter chegado ao fundo do poço. A pandemia que, desde o início de 2020 nos ameaça, se transmuta em novas cepas e variantes. A Amazônia e todos os biomas brasileiros sofrem invasões e destruição como jamais antes tinham vivido.  

A proximidade do final do ano leva as Igrejas a pensar no que será a meta da história. No tempo antigo, essa idéia tomava a imagem de “fim do mundo”. Vários mitos falam sobre isso. A Bíblia, inserida na antiga cultura judaica, não escapa desse assunto. Os profetas antigos prometem para o final dos tempos um julgamento final da humanidade e uma intervenção de Deus para fazer justiça e libertar os oprimidos.  Conforme os evangelhos, Jesus tomou esse tema para um de seus discursos (Mt 24, Mc 13, Lc 21). Assegurou que não se trata tanto do fim do mundo e sim do fim de um período da história e que dará lugar a um novo tempo no qual a própria humanidade (o homem novo e a mulher nova) será cheia da energia amorosa de Deus.

Há quem interprete as guerras e desastres ecológicos atuais como se tivessem sido previstos na Bíblia. Ao contrário, muitos crentes sabem que a história tem sua autonomia. A presença divina não é para destruir e sim para renovar. Se, por acaso, a terra caminhar para o fim da vida no seu solo, isso acontecerá não por decisão divina e sim por culpa da sociedade dominante que transforma a terra e a natureza em mercadoria e, além de tudo, fabrica artefatos nucleares capazes de destruir a humanidade e todo o planeta.

O fim do mundo não é projeto de Deus e não foi isso que as profecias anunciavam. Jesus falou do fim de um mundo. Profetizou a derrota de uma sociedade injusta. Para quem vivia oprimido, o anúncio da destruição daquela velha ordem e a instauração de uma nova realidade mais justa e amorosa só podia ser boa notícia. Era um verdadeiro evangelho. Uma das figuras usadas para falar da renovação do mundo é o do parto. Na época antiga, as dores de parto representavam o sofrimento necessário para o surgimento de uma vida nova. Por isso, Jesus conclui o anúncio do fim daquele mundo dizendo: “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se, ergam a cabeça e se alegrem, porque é a libertação de vocês que se aproxima” (Lc 21, 28).

Atualmente, sabemos que esse processo de parto da história não é reservado para uma época final. Ele se dá cotidianamente e em todos os níveis da nossa realidade social e política, assim como no âmbito de nossas relações humanas e nosso crescimento interior.    

O amor divino inspira, mas não realizará essa transformação estrutural do mundo e da sociedade sem ser através de nós e de nossa ação solidária. Essa nossa transformação interior é como semente e base da transformação do mundo.  Por isso, Paulo escreveu aos irmãos e irmãs de fé que viviam em Roma: “Não se conformem com este mundo, mas busquem se transformar pela renovação de suas mentes para discernir qual é a vontade divina” (Rm 12, 2).

 

 

 

 

 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

A GRAVIDEZ E A ESPERA



 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Nada de mais humano existe do que uma mulher grávida.  E, no entanto, nada mais divino.  Aquelas de nós que já fizeram essa experiência sabem a que me refiro. Trata-se de estar habitada e esperar ao fio dos dias e das horas que essa “in-habitação” chegue a termo e derrame seu fruto em outro espaço: o mundo. 

            Andando pela rua podemos ver os ventres crescidos das mulheres habitadas.  Primeiro é algo invisível e quase insensível.  Há sinais: os seios mais escuros, os enjoos quando os há, a sensação de estar “diferente”.  Mas a forma no início ainda é apenas visível pela alta tecnologia das ultrassonografias. De uma certa maneira é um tempo mais de fé do que de certeza.

 Depois essa fé vai tomando vulto e se convertendo em certeza ao ritmo do crescimento do hóspede no seio materno. O “outro” que habita o corpo da mulher faz sentir sua presença com movimentos, cambalhotas, chutes, socos. Pode ser visto pelas lentes do ultrassom chupando o dedo, abrindo os olhos, estirando-se e espreguiçando-se.

À mãe resta esperar e acompanhar. Sentir em si mesma essa alteridade que é si mesma, mas, no entanto, tão diferente.  Sentir e esperar que cresça, que chegue a termo.  Sentir e esperar a hora.  Quando as contrações chegam, o corpo se abre e se parte, e o parto acontece.  O choro rompe o silêncio e anuncia sua presença única e desejada.

Estamos acostumados a pensar no Natal como uma festa solene e sobrenatural.  Ela o é. Mas o que nela se celebra é o termo de uma gravidez.  É o fato inaudito de que na plenitude dos tempos Deus haja enviado ao mundo seu filho nascido de mulher.  O tempo do Natal que ora vivemos é o tempo de acompanhamento, espera e diálogo com o ventre grávido e os seios túrgidos de uma jovem mulher – Maria de Nazaré da Galileia – que se prepara para dar à luz um filho. 

Por que a solenidade?  Por que os sinos, as velas, o incenso?  Se a cada momento, em cada esquina, em cada casa, há uma mulher que esperou por nove meses a criança querida que um dia chegou, nasceu e chorou, o que há de extraordinário nesse tão ordinário fato de uma gravidez e uma espera que deverá ter o mesmo desfecho de milhares, milhões ao redor do mundo?

O extraordinário está justamente no ordinário.  Está no fato de que o Senhor do Tempo e da História, o Criador do mundo com tudo que ele contém esteja vindo ao nosso encontro pelo ventre de uma mulher como todo ser humano nascido nesta terra. O Verbo que existia desde antes da Criação, que estava diante de Deus e que era Deus disse sua primeira palavra entre nós.  E foi um choro de recém-nascido. O Verbo se fez carne e habitou entre nós e a primeira manifestação de sua glória foi um choro de criança que só quer mamar e estar acalentado no colo da mãe. 

Aquele que habitava o ventre de Maria e mamou em seu peito passou a habitar o mundo.  Aprendeu a caminhar, a falar, a comunicar-se. Sentiu fome, frio.  Cresceu em graça e sabedoria.  E quando se manifestou aos seus contemporâneos, estes disseram: “Ninguém jamais falou como este homem”. E acrescentaram, perplexos: “Mas não é ele o filho do carpinteiro?  Não se chama sua mãe Maria? “

Sim, ela se chama Maria.  E o mistério de seu ventre grávido e seu corpo habitado continua acontecendo hoje como há 2000 anos atrás.  Às vezes é gravidez de risco.  Outras, o parto se dá no chão de um hospital porque não há leito disponível.  Como outrora no estábulo e entre os animais, o menino deve nascer sobre ladrilho e cimento, sem ninguém para ajudar por perto, contando apenas com a própria mãe para fazê-lo emitir o grito primal, o choro libertador que anuncia a vida. 

Não é por isso algo menos extraordinário, menos divino, menos misterioso.  Uma mulher está grávida e espera um filho.  É a humanidade que acolhe novamente este dom inaudito da vida que se reproduz e multiplica.  É o Advento de um novo ser que rompe as paredes do útero e aporta na luz e no ruído do mundo.  

É Natal. Nosso olhar se dirige a essa mulher.  É muito mais importante que o Papai Noel, que a árvore, que os presentes, que a ceia.  É a maternidade, é o milagre da vida acontecendo de novo.  É a carne humana habitada pelo Espírito de Deus.  Isto é o Natal: a festa da vida frágil e desprotegida que chora.  É a celebração da gravidez e da espera. Cheia de graça. Habitada pelo Verbo.  Ave Maria. 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus),  entre outros livros.
  
Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

SOBRE ADVENTO, GRAVIDEZ, GESTAÇÃO E ESPERANÇA

Por  Maria Clara Lucchetti Bingemer



Advento é  tempo de gravidez.  Gravidez de esperança pelo novo que vem em forma de menino, humano e indefeso, nascido de mulher.  E é a esse mistério tão singelo e despretensioso, pelo qual o mundo é mundo e a cadeia da humanidade segue adiante por séculos e milênios que a  fé cristã atribui a salvação do mundo.  É nesse mistério de esperança frágil e desprotegida, exposta a todas as intempéries que a revelação afirma que chegou a plenitude dos tempos.

    
    
O que acontece no ventre de Maria e aconteceu, acontecia e acontecerá nas entranhas de todas as Marias, Ednas, Joanas, Cristinas e Anas que povoaram, povoam e povoarão a terra é o atestado de que é a esperança que move o mundo e quando parece já não haver mais nada a esperar a convicção de que em algum lugar, em alguma parte, uma mulher grávida dará à luz um filho.  E a esperança recomeçará a brotar da aparente esterilidade que ameaça assolar e ressecar a face da terra.

O Natal, portanto, é tempo de gravidez e gestação.  Neste menino pequeno e recém-nascido ao frio e ao calor, à fome e à sede, à saciedade e ao carinho, à dor e à alegria se encarnou a Palavra que vinha germinando nos sulcos do mundo, nas veias da história, e nas entranhas maternais de todo instante, desde o começo dos tempos.   Quando o Pai de toda paternidade contraiu suas entranhas paterno-maternais para dar lugar ao que não era divino e criar o cosmos, já a esperança habitou o fundo da terra, anunciando o desejado dia em que a criação voltaria a ser semelhante ao criador do qual era imagem.

Na plenitude dos tempos, desde as entranhas da terra e da humanidade, nascerá Jesus, do ventre de Maria de Nazaré.  Não descerá do alto, dos espaços siderais em algum voo de emergência.  Brotará do humano, da carne vulnerável e mortal.  Deus se fez carne em Jesus de Nazaré, herdando em seu peito o sangue e o pranto, as alegrias e os desejos das gerações humanas que o haviam precedido e todos os futuros e mistérios desconhecidos e desejados.

       
 Este é o mistério pelo qual hoje esperamos.  A justiça e a paz vêm de baixo e dos que estão abaixo.  Se a nossa justiça não abarcar aqueles que estão à margem das benesses do progresso e da sociedade em que vivemos, será como a palha que queima e se transforma em cinza. 

Olhar para baixo: esta é a diretriz que nos é dada neste Advento, enquanto esperamos que a Palavra que já se fez carne no ventre de Maria de Nazaré seja por ela dada à Luz. A Luz que é desde o começo dos começos, da qual veio a Luz para o mundo, é dada à luz por uma mulher.

Portanto, que não se abra a terra para semear minas que explodirão vidas humanas em mil pedaços.  Que não se abra tampouco a terra para enterrar os cadáveres dos justos e o pranto das viúvas e dos órfãos.  Que não se abra jamais para fazer desaparecer os torturados, plantar sementes envenenadas da cobiça e sepultar os sonhos irrealizados.

Que se abra, sim, a terra para que brote hoje e sempre, com sabor e aroma de novo, frágil e indefesa, a epifania, a manifestação de Deus que se faz criança na carne frágil de Jesus de Nazaré.  Que se abra a terra, para que a gravidez universal da criação se torne parto infinito e constante.  Que a nova criação seja parida na caridade vivida, nos gestos humildes de amor aprendidos no Deus que desce e se encarna no mais estreito e frágil da Criação da qual é Senhor.

   
     
Que a nossa humanidade, enfim, aprenda nesse Advento a preparar-se para abrir-se e acolher o outro que sofre, chora e é infeliz.  O outro que está faminto, sedento, cativo e nu.  Que o coração vá aprendendo a ser  de carne e não de pedra neste tempo de espera em que Deus, uma vez mais, cresce no ventre daquela que é cheia de graça  para ensinar que o amor é  flor tão frágil quanto preciosa; tão bela quanto mais indefesa; mais ofuscantemente deslumbrante justamente quando se encontra mais ameaçada. E que é preciso cuidá-la com carinho, para que ilumine e encha de beleza o mundo tão cheio de ameaças, guerras e morte. Mundo no qual perdem os que têm razão e ganham os que não a têm.  O Advento do Menino que a Mãe prepara e acolhe em seu ventre imaculado inverte essa equação e mostra onde está a verdadeira vitória, nos subterrâneos da história,  onde se encarna a fragilidade do amor.

A maternidade de Maria nos ensina algo muito importante, a nós que vivemos em uma sociedade que valoriza a gravidez e a gestação  de maneira produtivista, no sentido de que a mulher tem que ter filhos e ser mãe, mas também trabalhar, ser produtiva etc.  E quando isso nao acontece é uma enorme frustração, fonte de depressão.

O único discurso organizado que ajuda a compreender a complexidade simbólica ou cultural da experiência materna é o religioso. A sociedade laicizada e secular não tem uma palavra ou discurso adequado para isso.

Para nós, que celebramos o Advento, a figura da Virgem Maria, a jovem de Nazaré desposada com o carpinteiro José, que se prepara para dar à luz aquele que veio do alto e do infinito, fica o convite à contemplação e à adoração.  Adoremos pois, esse que a Mulher nos mostra em seu ventre grávido.  Dali sairá a verdadeira Luz para todo aquele ou aquela que vem a este mundo.

Maria Clara Lucchetti Bingemer é  professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)
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