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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

LULA E O JULGAMENTO DO JUDICIÁRIO


 por Frei Betto

       Lula, o mais destacado líder popular brasileiro da atualidade, vai a julgamento dia 24 de janeiro. Não há como ficar indiferente ao fato.
       A expectativa deixa a nação em suspenso. E a divide: de um lado, aqueles que já o pré-julgaram e esperam apenas que a sentença seja confirmada pelos juízes de Porto Alegre; de outro, os que afirmam não haver suficientes provas para condená-lo, e as acusações estão de tal maneira impregnadas de caráter político que extrapolam o exercício imparcial da Justiça.

       Estamos em ano de eleição presidencial. Vários candidatos em potencial aguardam o veredicto para tomarem uma decisão. Com Lula no páreo a disputa fica bem mais difícil para os neocandidatos. É o que apontam as pesquisas eleitorais.

       Lula adotou uma firme postura frente às acusações que lhe imputam: o ônus da prova cabe ao acusador. Ele se declara inocente, vítima de uma conspiração do Judiciário movido por forças aparentemente “ocultas”.

       Os que derrubaram Dilma e empossaram Temer miraram no que viram e acertaram no que não viram. Lula, após oito anos de mandato presidencial, saiu do Planalto com aprovação de 87% da opinião pública. É um dado significativo. E ainda conseguiu emplacar por duas vezes a eleição de Dilma para o comando do país.

       Armou-se um golpe parlamentar, à semelhança dos ocorridos em Honduras e Paraguai, defenestrou-se Dilma do poder para dar lugar a Temer, acusado de graves delitos. Porém, a costura saiu pior que o remendo. Temer não consegue alcançar 5% de aprovação. Governa graças ao descarado “franciscanismo” que mantém a maioria da Câmara dos Deputados refém dos cofres do Tesouro Nacional, cuja chave Temer traz em mãos.

       Nada indica que Temer logrará fazer aprovar a tão almejada (por ele) reforma da Previdência. Reeleger-se é muito mais importante para a bancada governista do que enfiar agora mais dinheiro no bolso e sofrer desgaste político. Afinal, muitos governistas ostentam no pescoço a corda da Lava Jato, e a reeleição é o modo mais indicado de se manterem afastados do patíbulo.

       Qualquer que seja o resultado do dia 24, Lula sai ganhando: absolvido, ficará livre das acusações que lhe são feitas. Se condenado, se tornará um mártir político do Judiciário que condena uns e se mantém cego e leniente diante de outras figuras políticas que cometeram delitos comprovados em imagens e gravações exibidas no noticiário.

       Na verdade, quem estará sentado no banco dos réus, dia 24, não será o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Será o Judiciário brasileiro.

Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras), entre outros livros.
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quarta-feira, 24 de abril de 2013

O julgamento de Deus



Por MARCELO BARROS

A maioria da sociedade civil brasileira estranha que o deputado posto na coordenação da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal manifeste opiniões preconceituosas que não contribuem com os direitos humanos, principalmente de grupos minoritários e vítimas de discriminação social. O Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de assassinatos homofóbicos. Contabiliza 44% das ocorrências no globo. De 2007 a 2012, calculam-se em 1.341 homicídios contra a população LGBT. O Disque 100 recebe por dia, em média, oito denúncias de violência contra homossexuais. Em 2012, no país, foram registrados  338 assassinatos de gays, travestis e lésbicas, sem falar nos casos não denunciados. Nesse contexto, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados tem como coordenador alguém cujas posições públicas contribuem para reforçar preconceitos. O mais grave de tudo não é o deputado Marco Feliciano afirmar que Deus, pessoalmente, é o mandante do assassinato de John Lemmon ou é o responsável pelo acidente que vitimou o grupo Mamonas Assassinas, nem que tornou os negros amaldiçoados por serem filhos de Cam, o filho rebelde de Noé.  
Ao afirmar isso como quem defende o direito de Deus ser cruel, desumano e despótico, ele põe em julgamento não as categorias e pessoas que ele discrimina e sim o próprio Deus. Deus é o réu em um julgamento no qual quem o diz defender, verdadeiramente o acusa e quem não fala em Deus parece mais ser seu representante. Por isso, as posições do deputado Feliciano nos desafiam não apenas a protestar contra o pensamento que consideramos absurdo em alguém que se diz cristão, mas a nos preocupar com o fato de que esse tipo de visão é muito comum entre os cristãos e tem muitos seguidores entre pastores e fiéis em todas as Igrejas. Na semana passada, em um grande evento de uma Igreja pentecostal em Brasília, o pastor Feliciano foi aplaudido de pé por 40 mil pessoas. Infelizmente muitos pastores pentecostais, evangélicos e mesmo alguns prelados católicos não se pronunciam tão explicitamente, mas pensam do mesmo modo sobre Deus, sobre a sociedade e sobre a vida. Não são poucos os padres e bispos católicos, assim como pastores evangélicos de Igrejas históricas com as mesmas posições homofóbicas, discriminatórias e intolerantes do pastor Feliciano. Há poucos anos, depois do terremoto do Haiti, um pastor foi à televisão e declarou que aquilo aconteceu como castigo do Deus porque os haitianos adoram deuses africanos. No Brasil, há alguns anos, um cardeal declarou que a Aids é um castigo de Deus para a humanidade pecadora.  Ao nos deparar com essa interpretação fundamentalista da fé, podemos compreender a posição de Richard Dawkins, filósofo ateu, que afirmou: “Encher o mundo com religião e principalmente com religiões monoteístas equivale a espalhar pelas estradas pistolas carregadas. Não se surpreendam se elas forem usadas”.  E assim, se tornam compreensíveis cruzadas, tribunais de inquisição, caça às bruxas e perseguições de hereges. E os fiéis continuam contentes ao ler ao pé da letra que o Deus da Bíblia libertou os hebreus e afogou os egípcios no Mar Vermelho, mandou matar todos os cananeus, habitantes da terra, invadida pelo povo de Deus e inspirou o salmo que diz: “Podem cair mil à tua direita, dez mil à tua esquerda, fiques tranquilo que nada te acontecerá” (Sl 91). Esse modo pouco amoroso de compreender a fé ensina que existe inferno e diz que Deus amou Jacó e rejeitou Esaú.
Graças a Deus, cada vez mais cresce o número de cristãos que reconhecem a Bíblia como escritura de uma palavra divina, mas a partir de uma cultura humana e condicionada por elementos que temos de ser capazes de criticar e transformar. A própria revelação divina se deu em um processo evolutivo. A compreensão do patriarca Abraão de que Deus o mandava matar o seu filho Isaac, se transformou muito no decorrer da Bíblia. Evoluiu até Jesus revelar a Deus como Paizinho que “faz o sol nascer sobre os bons e sobre os maus e chover sobre os justos e os injustos” (Cf. Mt 5, 45). Roger Schutz, fundador da comunidade ecumênica de Taizé, resumiu: “Se é Deus, ele só pode amar!”. Um deus cruel e impiedoso que castiga e discrimina pessoas é um ídolo e não o Deus de Jesus Cristo. Um Deus menos humano e menos bondoso do que qualquer pessoa razoável do nosso tempo é um divisor (em grego, diabolos) e não o Deus do qual João escreveu: “Deus é amor, quem vive o amor, vive em Deus e Deus vive nessa pessoa” (1 Jo 4, 16). 

 Marcelo Barros, monge beneditino e peregrino de Deus