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terça-feira, 8 de setembro de 2020

BASTA DE MISÉRIA, PRECONCEITO E REPRESSÃO!

 



Marcelo Barros

 

Mais uma vez, desde 1995, a data da independência do Brasil é marcada por manifestações populares. Elas nos lembram que a  independência política, ocorrida em 1822 está incompleta. Para verdadeira independência, um país deve garantir vida livre e digna para toda a sua população. Isso supõe superar as desigualdades sociais e as injustiças delas decorrentes. Por isso, a cada 07 de setembro, movimentos populares e pastorais sociais da CNBB organizam o Grito dos Excluídos que se expressa através de concentrações e caminhadas pelas ruas das cidades.

O Grito é um gesto profético em defesa da justiça e do direito de todos. Em outros tempos, bispos profetas se colocavam como voz dos que não tinham voz. Hoje os próprios excluídos lutam para ter voz e vez no embate por uma plena cidadania. Neste ano, sua celebração terá de ser através da internet e de forma mais processual. No entanto, a crise social e sanitária imposta pela pandemia mundial de covid-19 e os graves retrocessos sociais impostos pelo atual governo brasileiro tornam ainda mais necessários o protesto e as manifestações da população atingida. Por isso, a organização do Grito insiste em proclamar a  preservação da vida em primeiro lugar. Opõe-se a um modo de organizar a sociedade que aumenta as desigualdades e injustiças. Neste ano, o lema do Grito será Basta de miséria, preconceito e repressão! Queremos trabalho, terra, teto e participação!

Por todo o Brasil, as milhares de pessoas envolvidas nas atividades do Grito manifestam solidariedade aos quase 120 mil irmãos e irmãs mortos pela Covid 19. Denunciam o descaso e indiferença com o qual o presidente do país e o seu governo têm tratado a pandemia. Solidarizam-se às comunidades indígenas e remanescentes de quilombos, especialmente, atingidas pela pandemia e vítimas da cruel omissão das autoridades.

O Grito dos Excluídos também faz referência à urgente necessidade de revogação da Emenda Constitucional (EC) 95, o chamado Teto de Gastos. A tão falada crise econômica não pode mais servir de justificativa para tirar direitos da população e reduzir serviços públicos. Não é justo descarregar sobre a população mais pobre as consequências do descuido do governo. Os trabalhadores e trabalhadoras não podem continuar sendo penalizados pela ausência de políticas públicas, em todas as áreas. Por isso, é urgente revogar essa emenda constitucional.

Pelo fato de que, neste momento, ainda não podemos realizar o manifestações em praças públicas, o coletivo que coordena estabeleceu que todo dia 7 de cada mês, será um “Dia D do Grito”. De fato, o sistema de exclusão e de injustiças tem sido constante. Por isso, se torna necessário que esta realidade seja denunciada e combatida durante um tempo maior e através de diversas atividades que vão se espalhar por este tempo a seguir.

Para todas as pessoas que seguem tradições espirituais, é importante que a solidariedade com os setores mais oprimidos e vulneráveis da sociedade seja considerado como prioridade sagrada. Simone Weil, espiritual francesa da primeira parte do século XX, afirmava: “Eu reconheço quem é de Deus, não quando me fala de Deus, mas pelo seu modo de se relacionar com as pessoas e de lutar pela justiça no mundo”.

Todos sabem que o Brasil é o terceiro país do mundo em desigualdades sociais. Não poderemos mudar essa realidade apenas com gritos, mas, de fato, o Grito dos Excluídos é um movimento que se desdobra em iniciativas de organização dos trabalhadores e debates políticos com propostas alternativas importantes para o país.

O que caracteriza a fé judaica e cristã é a relação íntima entre a intimidade de Deus e o cuidado com a justiça e a solidariedade. Nos evangelhos, Jesus insiste de que não se pode separar o amor a Deus e o amor aos irmãos e irmãs. Ele revelou a preferência divina por aquelas pessoas que o evangelho chama de “pequeninos e objetos da predileção de Deus”. Ele as toma como companhia privilegiada em seus contatos e refeições. E afirma: “Quem acolhe uma pessoas destas (excluída da sociedade), é a mim que acolhe” (Mateus 25, 31 ss).

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

sexta-feira, 2 de março de 2018

FACE À MISÉRIA DA POLÍTICA, A ESPERANÇA NÃO PODE MORRER





Por Leonardo Boff

Apesar de toda a alegria do carnaval passado em quase todas as cidades de nosso pais, há um manto de tristeza e desamparo que se pode ler nos rostos da maioria que encontramos nas ruas das grandes cidades como o Rio e São Paulo entre outras.
É que politicamente o golpe parlamentar-jurídico-mediático (e hoje sabemos apoiado pelos órgãos de segurança dos USA) nos fechou o horizonte. Ninguém pode nos dizer para onde vamos. O que aponta de forma inegável é o aumento da violência com um número de vítimas que se igualam e até superam as regiões de guerra. E ainda sofremos uma intervenção militar no Rio de Janeiro.
Se bem observarmos, vivemos dentro de uma guerra civil real. As classes que já estavam abandonadas, agora o são mais ainda pelos cortes dos programas sociais que o atual governo de Estado de exceção impôs a milhares de famílias.
Tínhamos saído do mapa da fome. Regressamos a ele. E não se diga que foram as políticas dos governos do PT. Essas nos tiraram do mapa. A aplicação rigorosa do neoliberalismo mais radical pela nova classe dirigente instalada no Estado, está produzindo fome e miséria. O crescimento da violência nas grandes cidades é proporcional ao abandono a que foram submetidas.
As discussões dos vários organismos, responsáveis pela segurança, nunca vão à raiz da questão. O real problema que não querem abordar reside na nefasta desigualdade social, vale dizer, na injustiça social, histórica e estrutural sobre a qual está construída a nossa sociedade. A desigualdade social cresce quanto mais se concentra a renda e quanto mais avança o agronegócio sobre terras indígenas e dos povos da floresta e quanto mais se fazem cortes na educação, na saúde e na segurança.
Ou se faz justiça social nesse pais, que implica reformas: a agrária, a tributária, a política e a do sistema de segurança ou nunca superaremos a violência. Ela tenderá a crescer em todo o país.
Se um dia, é o que tememos, a marginália das grandes periferias abandonadas se rebelarem, por causa da fome e da miséria e decidirem assaltar supermercados e invadir os centros urbanos, poderá produzir um “bogotaço” brasileiro como ocorreu nos meados do século passado em Bogotá, destruindo, por semanas a fio, quase tudo que se via pela frente.
Estimo que as elites do atraso, apoiadas por uma mídia conservadora e golpista por uma justiça fraca, para não dizer cúmplice e pelo aparato policial do Estado, reocupado por elas, poderão usar de grande violência, sem resolver mas agravando a situação.  Ou haverá uma mudança radical que dê outro rumo ao nosso país.
Nesse quadro, como ainda alimentar a esperança de que o Brasil tem jeito e que podemos criar uma sociedade menos malvada,no dizer Paulo Freire?
Bem disse o bispo profético, o ancião Dom Pedro Casaldáliga lá dos fundos do Araguaia matogrossense: portadores de esperança são aqueles que caminham e se empenham para superar situaçãoes de barbárie. Estas mudanças nunca virão de cima, nem do atual stablishment, virão de baixo, dos movimentos sociais organizados e com parcelas de partidos comprometidos com o bem-estar do povo.
O Papa Francisco ao reunir-se com os movimentos sociais latino-americanos em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia, cunhou três expressões resumidas nos três T: terra para as pessoas produzirem, teto para se abrigarem e trabalho para ganharem sua vida.
Lançou um desafio: não esperem nada de cima pois virá sempre mais do mesmo; sejam vocês mesmos os profetas do novo, organizem a produção solidária, especialmente a orgânica, reinventem a democracia. E sigam estes três pontos fundamentais: a economia para a vida e não para o mercado; a justiça social sem a qual não haverá paz; e o cuidado com a Casa Comum sem a qual nenhum projeto terá sentido.
A esperança nasce deste compromisso de transformação. A esperança aqui deve ser pensada na linha do que nos ensinou o grande filósofo alemão Ernst Bloch que formulou “o princípio esperança”. Quer dizer, a esperança não uma virtude entre outras tantas. Ela é muito mais: é o motor de todas elas, é a capacidade de pensarmos o novo ainda não ensaiado; é a coragem de sonhar um outro mundo possível e necessário; é a ousadia de projetar utopias que nos fazem caminhar e que nunca nos deixam parados nas conquistas alcançadas ou quando derrotados, nos fazem levantar para retomarmos a caminhada. A esperança se mostra no fazimento, no compromisso de transformação, na ousadia de superar obstáculos e enfrentar os grupos de opressores, a maioria descendentes da Casa Grande.Essa esperança não pode morrer nunca.
Leonardo Boff é teólogo, filosofo e escritor e escreu:Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência? a sair pela Vozes em março.
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