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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

JESUS NASCEU EM SITUAÇÃO DE RUA

 Frei Betto



 Deus se fez pessoa em situação de rua para nos mobilizar em favor de todos que são rejeitados, perseguidos, abandonados e discriminados. Este é o melhor presente que podemos dar no Natal: nos fazer presentes nos movimentos e nas mobilizações que defendem os direitos dos que se encontram em situação de rua e combater a desigualdade social, para que a nossa sociedade seja reflexo da comunidade de Jesus, na qual todos partilhavam os pães, os peixes e o vinho.


       Quem vive em cidades populosas do Brasil encontra, por toda parte, pessoas em situação de rua. Muitas vítimas do desemprego, da falta de escolaridade, da dependência química. Todas frutos do descaso do poder público que não se empenha em combater as raízes do principal problema brasileiro e mundial: a desigualdade social.


       Em geral, a atitude de pessoas de classes média e alta, ao cruzarem com as que se encontram em situação de rua, é de indiferença, asco, medo ou fazem um gesto piedoso de oferecer algo, comida ou dinheiro, para aliviar a consciência. Esses bem-nascidos, entretanto, são em maioria cristãos e, agora, se preparam, junto com suas famílias, para celebrar o Natal. 


       O que o Natal significa para eles? Um adorno no canto da sala em forma de presépio e bonecos de Papai Noel? Mera confraternização mercantilista na qual todos se sentem na obrigação de presentear até mesmo a quem despreza? Uma ocasião de se empanturrar à mesa, enquanto 24 mil pessoas morrem, por dia, de fome no mundo? Ou é, de fato, uma festa religiosa centrada em um fato histórico paradigmático – Deus veio habitar entre nós e assumiu a nossa condição humana!


       Recordemos os relatos evangélicos de Mateus e Lucas. Eles registram que Maria e José eram “noivos”. Portanto, não estavam casados. No entanto, José encontra Maria, “antes que se unissem, grávida pelo Espírito Santo. Por ser José, seu marido, um homem justo, e não querendo expô-la à desonra pública, pretendia anular o casamento secretamente.” 


       Aqui Maria se irmana a todas as mães solteiras repudiadas pelos maridos. Pela lei judaica, José, desconfiado da traição de Maria, poderia tê-la acusado de adultério, e ela seria condenada à morte por apedrejamento. Porém, como a amava, pretendeu abandoná-la à própria sorte. Deus, entretanto, o fez entender o mistério do nascimento de Jesus.


       Para cumprir o recenseamento pelo imperador romano, o casal se deslocou de Nazaré para Belém, terra da família de José. Lá, os parentes de José se recusaram a hospedá-los. Com certeza por estarem convencidos de que José engravidara a moça sem ter se casado com ela. Aqui Maria e José se irmanam a todos que, repelidos do lar, se encontram em situação de rua. 


       Sem ter para onde ir, Maria e José ocuparam a manjedoura de um sítio. Aqui o casal se irmana a todos os sem-terra e sem-teto. Logo após o nascimento de Jesus, o rei Herodes, informado de que um rival havia nascido em Belém, ordena o massacre de todos os bebês. Maria e José fogem com o Menino para o Egito. Aqui a família abençoada se irmana a todos os perseguidos pelos poderosos, refugiados, exilados e banidos. 


       Comemorar o Natal é, portanto, rememorar todos esses episódios e dar a eles o sentido evangélico que merecem. Deus se fez pessoa em situação de rua para nos mobilizar em favor de todos que são rejeitados, perseguidos, abandonados e discriminados. Este, portanto, é o melhor presente que podemos dar no Natal: nos fazer presentes nos movimentos e nas mobilizações que defendem os direitos dos que se encontram em situação de rua e combater a desigualdade social, para que a nossa sociedade seja reflexo da comunidade de Jesus, na qual todos partilhavam os pães, os peixes e o vinho.


       Quem sabe uma pessoa em situação de rua, com vocação poética, tenha escrito este poema anônimo gravado num muro: “Pra falar a verdade / nunca tive um pijama, / pra que, se nunca tive cama? / Verdade verdadeira, nunca tive um brinquedo, / apenas tive medo. / Mas hoje há  tanto frio, tanta umidade, / que invento um cobertor de sol poente / e um  pijama de sonho em cama quente. / É bom brincar, sonhar em ser  gente.”


Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

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sexta-feira, 9 de junho de 2017

A FORÇA POLÍTICA DA ESPERANÇA FACE À ATUAL SITUAÇÃO


por LEONARDO BOFF



Vivemos tempos de grande desamparo social. Ocorreu uma espécie de terremoto, desta vez, não provocado pela natureza mas pela própria política.
Houve um golpe da classe dos endinheirados, ameaçados em seus privilégios pelos beneficiados pelas políticas sociais dos governos do PT que os levou a ocupar lugares dos quais estavam antes excluídos. Usaram para isso o parlamento, como em 1964, os militares. A deposição da presidenta Dilma eleita democraticamente serviu aos propósitos destas elites econômicas (0,05% da população segundo o IPEA), que implicava ocupar os aparelhos de Estado e assim garantir seu status histórico-social feito à base de privilégios e de negociatas. Tendo naturalizado a corrupção,  os parlamentares não tiveram escrúpulos de modificar a constituição e introduzir reformas que tiraram direitos dos trabalhadores e modificaram profundamente os benefícios da Previdência.
A corrupção primeiramente detectada pelos órgãos de espionagem dos USA e repassada ao nosso a nossas autoridades, permitiu instaurar  um processo judicial que levou o nome de Lava-Jato. Aí se detectou a trama inimaginável de corrupção que atravessa grande parte dos partidos, as grandes empresas, das estatais às privadas, os fundos  e   outros órgãos, dentro da lógica do patrimonialismo. A corrupção identificada foi de tal ordem que escandalizou o mundo. Chegou a quebrar estados da federação como por exemplo o Rio de Janeiro.
Junto com outros tantos, eu mesmo desde dezembro de 2016 estamos sem receber nossos proventos de professores universitários aposentados ou não.
A consequência é o descalabro político, jurídico e institucional. É falacioso dizer que as instituições funcionam. Todas elas estão contaminadas pela corrupção. A justiça é vergonhosamente parcial especialmente o justiceiro Sergio Moro e boa parte do Ministério Público, apoiados por uma imprensa reacionária sem compromisso  com a verdade. Esta justiça revela sem peias uma fúria incontrolável de perseguição ao ex-presidente Lula e ao seu partido, o PT, o maior  do país. A vontade é de destruir a sua incontestável liderança, desfigurar a sua biografia e, de qualquer forma,  impedir que seja candidato. Força-se uma condenação, fundada mais por convicções do que por provas materiais, o que impediria sua candidatura que goza da preferência da maioria.
A consequência é um sofrido vazio de esperança. Mas importa resgatar o caráter politico-transformador da esperança. Ernst Bloch, o grande pensador da esperança, fala do princípio-esperança que é mais que a virtude comum da esperança. É aquele impulso que nos habita que sempre nos move, que projeta sonhos e utopias e dos fracassos sabe tirar motivos de resistência e de luta.
A  Santo Agostinho, talvez o maior gênio cristão, grande formulador de frases, nos vem esta sentença: “a esperança tem duas filhas queridas: a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a recusar as coisas como estão aí; e a coragem, a mudá-las”.
Neste momento devemos evocar, em  primeiro lugar, a filha-indignação contra o que o governo Temer está perpetrando criminosamente contra o povo, contra os indígenas, contra a população do campo, contra as mulheres, contra os trabalhadores e contra os idosos, tirando-lhes direitos e rebaixando milhões que da pobreza estão passando à miséria. Nem escapa a soberania nacional, pois o governo Temer está permitindo vender terras nacionais a estrangeiros.
Se o governo ofende o povo, este tem direito de evocar a filha-indignação e de não lhe dar paz, mas nas ruas e praças exigir a sua saída, pois é acusado de crimes de corrupção e é fruto de um golpe e  por isso  carece de legitimidade.
A filha-coragem se mostra na vontade de mudanças, não obstante os enfrentamentos que poderão ser calorosos. É ela que nos mantem animados, nos sustenta na luta e pode nos levar à vitória. Importa seguir o conselho do Quixote:”no hay que aceptar las derrotas sin antes dar todas las batallas”.
Há um dado que devemos sempre tomar em conta: a realidade não é apenas o que está aí à nossa mão como fato. O real é mais que o factual. O real esconde dentro dele virtualidades e possibilidade escondidas que podem ser tiradas para fora torná-las fatos novos.
Uma destas possibilidades é evocar o primeiro artigo da constituição que reza: ”todo o poder emana do povo”. Governantes e políticos são apenas delegados do povo. Quando estes atraiçoam, não representam mais os interesses gerais mas os das empresas financiadoras de suas eleições, o povo tem direito de tirá-los do poder mediante eleições diretas já.
O “fora Temer e diretas já” não é mais o slogan de grupos mas das grandes multidões. A filha-coragem deve exigir, por direito, esta opção, a única que garantirá autoridade e credibilidade a um governo, capaz de nos tirar da presente crise.
As duas filhas da esperança, a indignação e a coragem, poderão fazer  sua a frase de A. Camus:”Em meio ao inverno, aprendi que bem dentro de mim, morava um verão invencível”.
Leonardo Boff é articulista do JB on line, professor e escritor.