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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

O Seráfico Pai São Francisco: o último cristão


 Leonardo Boff


Hoje, 4 de outubro, é o dia do Seráfico Pai São Francisco como os frades costumam afetivamente chamá-lo. Foi alguém que levou tão longe o projeto de Jesus que acabou se identificando com ele. Em razão disso é chamado o Primeiro  depois do Único, Jesus Cristo ou também o Último cristão. A Tradição de Jesus gerou incontáveis seguidores, entre homens e mulheres. Mas ninguém foi tão radical como ele: o último cristão de verdade.

, Segundo o historiador Arnold Toynbee, e o filósofo Max Scheler, professor de Martin Heidegger, Francisco foi o maior homem que o Ocidente produziu. Ele desborda a Ordem Franciscana e já não pertence mais à Igreja Católica mas à humanidade. Tornou-se o irmão universal. Inspirou o Papa Francisco a escrever as duas encíclicas de ecologia integral:”Sobre o cuidado da Casa Comum”(2015) e “Todos irmãos e irmas”(2020). Diz, comovedoramente, Francisco “é o exemplo pelo cuiado pelo que é frágil; qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho, pois, se sentida chamado a cuidar de tudo o que existe”(n.10 e 11).

Francisco é chamado também de o Poverello o pobrezinho de Assis ou tambem de Fratello, o irmãozinho de toda criatura.

Entre outras, três características marcam sua pessoa: a pobreza, a fraternidade e a minoridade.

pobreza para Francisco náo é um exercício ascético. É um modo de vida. Consiste em remover tudo o que possa me distanciar do outro: os bens, os saberes e principalmente os interesses. Como a palavra – interesse – sugere é aquilo que fica entre (inter) mim e outro. Quis despojar-se disso tudo. Colocar-se de joelhos, à altura do outro, para estar olho a olho e rosto a rosto. Sem distância, você sente o outro como seu irmão ou sua irmã, sua pele, seu olhar e o pulsar de seus corações.

fraternidade resulta desta pobreza. Ser pobre para ser mais irmão e irmã e formar uma comunidade humana e também cósmica. Com profunda humildade acolheu o húmus escuro de onde todos nos originamos em suas palavras, “a mãe e irmã Terra”, também os seres todos da natureza. A minhoca que forceja por cavar um buraco no chão duro do caminho, ele cuidadosamentr a leva a um lugar úmido. Vê um ramo quebrado e corre a enfaixá-lo para que possa reviver. Escuta as cotivas cantando e pede-lhes licença para unir-se a elas com seus salmos. Buscou a  unidade da criação entre os seres humanos e todo  criado. Em plena cruzada contra os muçulmanos, atravessa o front e vai conversar com o sultão do Egito. Não foi para convertè-lo. Foi para se confraternizar com ele e juntos rezarem. Ficam grandes amigos. Até o feroz lobo de Gubbio é feito irmão e faz com que se reconcilie com toda a cidade,

minoridade nasce da pobreza e da fraternidade universal. Havia, em seu tempo,os “maiores” toda a hierarquia eclesiástica tendo o Papa como cabeça, os ricos comerciantes das Comunas, como seu pai,  que estavam se formando e deixando para trás as hierarquias feudais. E havia os “menores”, os servos da gleba,  os empregados das fabriquetas de tingir os tecidos, vivendo em condições miseráveis. E havia ainda os hansenianos (os leprosos),rejeitados e isolados, fora da cidade.

São os sem poder. É com esses que Francisco vai viver e conviver. Junta-se aos hansenianos, come da mesma escudela deles, limpa-lhes as chagas e os abraça como a irmãos e a irmãs. Renega todo o poder. Sabe que no poder consiste a maior tentação  humana, pois, nos faz parecer “pequenos deuses” que define o destino dos outros. Bem observava Hobbes em seu Leviatã:”o poder para se assegurar busca  cada vez mais poder e isso cessa apenas com a morte”. Os sábios de todas as tradições nos advertem: onde impera o poder, ai desaparece o amor e some a ternura; impera  a concorrência,surge a tensão, irrompe o conflito e pode ocorrer até o assassinato do outro. Ser “menor” para Francisco é unir-se aos sem-poder, participar de sua marginalização e decididamente recusar-se assumir qualquer poder. Não elaborou nenhuma instituição que os auxiliasse. Fez mais. Foi viver com eles e participar de sua sorte.

Por fim cabe referir o seu profundo amor a Clara.Poucas vezes na história cristã se verificou tanta sintonia entre o animus  e a anima. Não fugiram da experiência mais gratificante e profunda do amor humano nem de suas argúcias.  No amor real e verdadeiro entre ambos encontravam o Amor Maior que os unia mais profundamente e também com todas as criaturas.

Em louvor do Seráfico Pai Francisco,meu irmão e seguidor que em sua homenagem escreveu: Francisco de Assis: o homem do paraíso, ilustrado por Nelson Porto, Vozes, Petrópolis 1986, Francisco de Assis: ternura e vigor, Vozes, Petrópolis 1981 várias edições e A oração de São Francisco pela paz, Vozes, Petrópolis 2014..

  

quinta-feira, 6 de abril de 2017

DOM MARCELO CARVALHEIRA, CRISTÃO INTRANSIGENTE

Frei Betto


      Perseguido pela repressão da ditadura militar em 1969, transferi-me de São Paulo para São Leopoldo (RS), matriculado no curso de teologia dos jesuítas. No seminário Cristo Rei funciona também um curso para reitores de seminários. Ali conheci padre Marcelo Carvalheira, reitor do Seminário Regional do Nordeste, no Recife, e assessor de Dom Helder Camara.

      Em novembro, escapei do cerco da repressão da ditadura e, graças ao padre Marcelo, me refugiei na igreja da Piedade, em Porto Alegre, cujo pároco, padre Manuel Valiente, atendeu ao apelo de me socorrer. Dias depois fomos os três presos.

      Padre Marcelo foi duramente interrogado, tanto no Dops de Porto Alegre quanto no de São Paulo, ao qual fomos transferidos no início de dezembro. O alvo das perguntas não era nem ele nem eu. Era Dom Helder Camara. Os policiais queriam saber quem eram “as amantes de Dom Helder; de onde ele tira tanto dinheiro para constantes viagens ao exterior” etc.

      Padre Marcelo jamais perdia a calma nem seu jeito de príncipe florentino. Respondia com ironia, e defendia com ardor o arcebispo de Olinda e Recife, qualificado pela ditadura de “bispo vermelho”.

      A prisão selou o caráter fraterno de nossa amizade. No Deops de São Paulo, conhecemos o jovem militante comunista Jeová de Assis Gomes. Padre Marcelo expressou-lhe admiração:
      — Jeová, você foi torturado horas seguidas. Fizeram com você o que não fizeram com Cristo. Quebraram seus braços e pernas. Você podia ter morrido. Não passou por sua cabeça que a morte seria o encontro com o Absoluto?

      — Padre, agora me sinto feliz porque conheço o gosto da morte. Sei, por experiência, que sou capaz de dar a minha vida aos oprimidos.

      — Quem ama passa da morte para a vida. Na leitura cristã, quem faz a experiência do dom total está salvo e se encontra com Deus. A Bíblia não diz que serão salvos os que têm fé e celebram o culto, mas sim os que são capazes de amar. Para estar aqui neste calabouço, eu arrisquei muito pouca coisa. Mas você arriscou sua juventude, a carreira universitária, a própria vida. Isso vale mais que proclamar a fé.

      Jeová retrucou enfático:
      — Como o senhor arriscou pouco?! O senhor é monsenhor!

      — Sou merda, e você é Cristo. O capítulo 25 do evangelho de Mateus mostra claramente os critérios de salvação: são as respostas eficazes que damos às necessidades econômicas, sociais e espirituais do próximo. Jesus se identifica com quem tem fome, sede, vive no abandono ou aprisionado. O que fazemos ao oprimido para libertá-lo é ao próprio Cristo que o fazemos. Portanto, Jeová, o que você faz pela humanidade, pelo amor dos homens, é por Ele que você faz.

      Criou-se uma afetuosa cumplicidade entre os dois prisioneiros.

      Anos mais tarde, padre Marcelo me reafirmaria que o testemunho daquele jovem combatente fora a mais forte interpelação que recebera em sua vida. Jeová morreria assassinado pela ditadura em Goiás, em janeiro de 1972.

      Interrogado sobre a sua formação, respondeu padre Marcelo:

      — Fui muito influenciado por Teilhard de Chardin.


      Intrigados, os policiais indagaram:
      — Quem é esse cara?
      — Um padre jesuíta, cientista e místico, que viveu na China.
      — Onde mora?

      Talvez o Dops tivesse a intenção de prender o autor de O fenômeno humano. Padre Marcelo explicou que ele morrera em Nova York, na Páscoa de 1955, deixando uma obra que lança ponte entre a ciência contemporânea e a fé cristã, ao descrever, em estilo poético próprio dos místicos, a evolução do Universo e do gênero humano.

      Solto poucos dias depois, Marcelo Carvalheira foi consagrado bispo e assumiu a diocese de Guarabira (PB). Mais tarde, o papa nomeou-o arcebispo da Paraíba.

      Acometido pelos males de Parkinson e Alzheimer, Dom Marcelo Carvalheira transvivenciou no último sábado, 25 de março, aos 88 anos.

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. 

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quarta-feira, 9 de julho de 2014

EQUIVOCADO SIONISMO “CRISTÃO” CONTRA CRISTÃOS PALESTINOS

por    J u r a c y   A n d r a d e


Há entre muitos protestantes uma interpretação de profecias do Antigo Testamento, segundo a qual o retorno dos judeus à Terra Santa ou Palestina está conforme os desígnios de Deus, que trata seu povo eleito como a pupila dos olhos. Para esses cristãos, o estabelecimento do Estado de Israel com uma extensão geográfica bíblica e a restauração do Templo de Jerusalém são condições exigidas para a volta de Cristo. Uma interpretação bem duvidosa que mistura e confunde o direito de os judeus terem uma pátria com a política de limpeza étnica do Estado e governo de Israel. Aos que adotam essa interpretação dá-se o nome de sionistas cristãos.

Na edição de junho da excelente revista protestante Ultimato, editada pelo pastor Elben Lenz César, há um artigo esclarecedor sobre este tema assinado por Marcos Amado, missionário e diretor para a América Latina do Movimento de Lausanne. Mas, sionista cristão? Como, se o sionismo é um movimento judaico? Seu objetivo é o retorno do povo judeu à antiga pátria aonde fora conduzido por Moisés saindo do cativeiro no Egito faraônico; e a restauração ali da soberania judaica. O sionismo dito cristão nasceu desse equívoco e só fez aumentar a aversão, frequentemente ódio mesmo, dos palestinos e outros muçulmanos contra os cristãos, o que vem desde as Cruzadas, o primeiro ímpeto colonialista europeu contra o Oriente Médio. É bom lembrar que a igreja cristã da Palestina vem dos tempos apostólicos; hoje é pequena, mas já foi grande.

Então, esse sionismo” cristão” trabalha contra os cristãos palestinos. E convém lembrar também que, quando o Estado de Israel foi criado, logo depois da 2ª Guerra Mundial, os judeus sionistas atacaram e destruíram indiscriminadamente aldeias e propriedades de palestinos muçulmanos e cristãos (que ali viviam milenarmente), destruindo suas casas; o que criou, até hoje, uma diáspora palestina espalhada pelo Oriente Médio e por vários outros países. Como escreve o historiador Ilan Pappe, a coisa foi bem planejada e incluiu sionistas considerados de esquerda como Iytzhak Rabin, Shimon Peres, Golda Meir, entre outros. Em seu livro The ethnic cleansing of Palestine (Limpeza étnica da Palestina), Pappe descreve as reuniões preparatórias a esse esbulho, com locais, datas e nomes de participantes. Ele é insuspeito de antissemitismo pois é judeu, além de cidadão israelense. 

A consequência do sionismo “cristão”, escreve Amado, é o apoio incondicional de milhões de protestantes ocidentais a praticamente todas as decisões e ações políticas do governo israelense. Inclusive a quebra dos Acordos de Oslo, que, entre outros avanços, abriam caminho para a criação, afinal, de um Estado da Palestina sem as centenas de colônias judaicas implantadas desde então. Ações desastradas da Autoridade Nacional Palestina também contribuíram para facilitar a ação sionista.

Numa interpretação literal e descontextualizada da Bíblia, esses cristãos veem o Estado de Israel e seu governo como o representante do “povo de Deus”. Assim, afirma Amado que cristãos sionistas do mundo todo enviam milhões de dólares a Israel para sustentar a implantação de assentamentos judaicos no que restou de terra palestina, considerados ilegais pela ONU, mas mantidos e ampliados com o apoio dos Estados Unidos. Além disso, fazem lóbi junto a seus governos para que aceitem sem protesto a repressão do governo israelense contra os árabes palestinos; muçulmanos e também cristãos, como vimos. É uma nova Cruzada, apesar dos tristes resultados daquelas da Idade Média. Uma Cruzada que chega a apoiar grupos ortodoxos radicais judeus para a reconstrução do Templo de Jerusalém, o que só poderia ser feito com a destruição da Mesquita de Omar e do Domo da Rocha. Podemos imaginar os resultados de uma empreitada desse tipo.

E terminando, vamos saudar mais um acerto pastoral do Hermano Francisco que, ao visitar recentemente a Terra Santa de cristãos, judeus e muçulmanos, não compactuou com o establishment sionista e pregou a paz a harmonia entre todos. Em seguida, convidou a Roma os presidentes de Israel , Shimon Peres, e da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que se reuniram com o papa, oraram, plantaram uma oliveira nos jardins do Vaticano e se abraçaram. Que os gestos de Francisco deem frutos.


Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

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sábado, 9 de março de 2013

Consumir ou ser consumido: dilema cristão pós-moderno



     por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER



A diferença entre consumo e consumismo é que no primeiro as pessoas adquirem  somente aquilo que lhes é necessário para sobrevivência. Já no consumismo a  pessoa gasta tudo aquilo que tem em produtos supérfluos. Podem não ser de boa  qualidade nem os mais indicados, porém ela tem curiosidade de experimentar  devido à propaganda e ao apelo dos produtos de marca.
        No entanto, a  definição de necessidade e de supérfluo é algo relativo, já que um produto  considerado supérfluo para alguém pode ser essencial para outra pessoa, de  acordo com as camadas sociais a que a população pertence. Isso pode gerar  violência, pois as pessoas que cometem crimes na maioria das vezes não roubam  ou furtam por necessidade, e sim por vontade de ter aquele produto e não  possuir condições de adquiri-lo. Nesses casos, a necessidade de consumo se  torna uma doença, uma compulsão, que deve ser tratada para evitar maiores  danos à pessoa. Muitas vezes, o consumismo chega a ser uma patologia  comportamental. Pessoas compram compulsivamente coisas que não irão usar ou  que não têm utilidade, apenas para atender à vontade de  comprar.
          A  explicação da compulsão pelo consumo talvez possa se amparar em bases  históricas. O mundo nunca mais foi o mesmo após a Revolução Industrial. A  industrialização agilizou o processo de fabricação, o que não era possível  durante o período artesanal. Trouxe o desenvolvimento num modelo de economia  liberal, que hoje leva ao consumismo alienado de produtos industrializados.  Trouxe também várias consequências negativas por não se ter preocupado com o  meio ambiente.
        A  Revolução Industrial do século XVIII transformou de forma sistemática a  capacidade humana de modificar a natureza, provocou o aumento vertiginoso da  produção, resultando no barateamento dos produtos e dos processos de produção.  Assim, milhares de pessoas puderam comprar produtos antes restritos às classes  mais ricas.
       A sociedade  capitalista da atualidade é marcada por uma necessidade intensa de consumo,  seja por meio dos mercados internos, seja pelos mercados externos. Com o  aumento do consumo há maior necessidade de produção e o excesso de demanda  leva à geração de mais empregos, o que aumenta a renda disponível na economia  e esta acaba sendo revertida para o próprio consumo. Todo este processo leva a  uma intensificação da produção e consequente aumento da extração de  matérias-primas e do consumo de energia, muitas vezes de fontes não  renováveis.
       Às vezes, uma  pessoa compra por influência de outras que também são influenciadas pelas  propagandas, filmes, revistas etc. Ou seja, a sociedade cria um padrão, que  tende a ser seguido pelas pessoas. Algumas mulheres, por exemplo, escolhem um  corte de cabelo, roupas, sapatos e acessórios da moda porque se inspiram em  alguma atriz famosa.
       Em  nossas sociedades houve uma tentativa trágica de reencantar o mundo pelo  consumismo e a diversão. O consumismo promete preencher os desejos,  necessidades e carências com diferentes produtos, mas o faz de tal maneira que  nunca fiquemos satisfeitos e desperte em nós a necessidade, a compulsão de  adquirir novos produtos que o mercado produz sem recesso. O que começa como  uma necessidade converte-se em compulsão ou em vício. Qualquer privação  inesperada, irrita e  frustra.
       A fé cristã e a  Eucaristia contam outra história sobre a fome e o consumo. E essa não começa  com a escassez, mas com um convite à vida, e vida em abundância.  O corpo  e o sangue de Cristo não são bens escassos, a hóstia e o cálice se multiplicam  diariamente em milhares de celebrações eucarísticas em todo o mundo.  O  consumidor do corpo e sangue de Cristo, no entanto, não permanece alheio ao  que consome, mas se torna parte do Corpo. O ato de consumo da Eucaristia não  implica a apropriação de bens para uso privado, mas sim ser assimilado a um  órgão público, o Corpo de Cristo. Ali se comunicam alegria e dor, abundância e  falta, e se destaca a obrigação de os seguidores de Cristo para com os  famintos. Na dinâmica eucarística, famintos e bem-aventurados se integram em  Cristo e inauguram um novo modo de entender o mundo e viver a  realidade.



Copyright 2013 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Em um País que se diz tão cristão ........



            por JURACY ANDRADE

Vamos fazer uma pausa nas observações sobre o IOR, banco do Vaticano conhecido como grande lavanderia de dinheiro do crime organizado. Interessante notar que a sigla significa Istituto per le Opere di Religione.
Pretendo neste artigo fazer uma reflexão sobre a desgraça da nossa política em um país que se diz tão cristão. Renan Calheiros, que há poucos anos renunciou à Presidência do Senado e ao seu mandato para escapar à cassação, é reconduzido ao mesmo cargo, triunfalmente, pelos mesmos senadores que queriam pegá-lo naquela época. O presidente que entrega o cargo, o inefável José Ribamar Sarney, chora ao se despedir. 
     Com mais de 80 anos, acha difícil continuar sustentando indefinidamente sua satrapia no infeliz Maranhão e continuar mandando e desmandando no Senado, na Justiça, no governo do país. E chora, pois sabe que todos os impérios do mundo ruíram e a sua numerosa prole talvez não seja capaz de manter um mando tão ruinoso para o Maranhão e para o Brasil.
     Muito católico, ele é de ir à missa, rezar, comungar, mas nem o procurador-geral da República, o Gurgel, faz muita fé nesse ilibado personagem. O Gurgel é aquele que engaveta processos contra quem ele quer proteger e acaba de dar estranha prioridade ao processo do dito Mensalão, para coincidir com as eleições municipais. Tutti buona gente (tradução livre: tudo farinha do mesmo saco). Na Câmara, o eleito para a Presidência também é suspeito e acusado de privatização de dinheiro público.
     É o Henrique Eduardo Alves, do clã fundado por Aluísio Alves ainda antes do golpe de 1964.
     Aqui no Recife, o deputado Guilherme Uchoa se eterniza na Presidência da Assembleia Legislativa, que também não está assim tão interessada em representar o povo pernambucano, e sim, com honrosas exceções, interesses particulares e paroquiais de Suas Excelências. Na Câmara Municipal, as coisas não vão melhor. É auxílio paletó, são outros expedientes para viver às custas do dinheiro público. Essa designação de auxílio paletó é de um cinismo repelente. O cara ganha um pagamento pelo tempo gasto na representação popular (não deveria, pois supõe-se que tenha uma profissão; deveria ser um serviço prestado gratuitamente, como o é em outros cantos mais civilizados). Mas, mesmo bem remunerado, precisaria de uma verba extra para comprar um reles paletó?! É gozação. É deboche. Breve veremos auxílio cueca, auxílio bermuda, auxílio sapato ...
      O cronista Mário Melo, que tinha uma língua ferina, chamava a Câmara Municipal do Recife de “o parlamento da Rua da Guia”, já nos longínquos anos 50, 60. A Rua da Guia era conhecida na época como espaço do baixo meretrício. Depois ela mudou-se para o prédio onde havia funcionado a antiga Escola Normal, no Treze de Maio. E agora está achando o prédio pequeno e quer construir um novo.
     Quando se criticam os procedimentos delituosos do Poder Legislativo, logo alguém se escandaliza afirmando que o crítico está querendo um governo arbitrário, é contra a democracia. Conversa fiada. Democracia não é usar imunidades e atribuições legais para extorquir o dinheiro público e defender interesses que não são os da imensa maioria do povo.
      É de admirar que Suas Excelências, seja em Brasília, na Rua da Aurora, ou no Treze de Maio, em sua grande maioria se dizem religiosos e cristãos. Tem até uma bancada evangélica, contrariando a laicidade republicana. Um partido político não pode se dizer de tal ou tal igreja ou religião. Pode até dizer, mas a Justiça deveria cuidar de sanar essa aberração anticonstitucional.
Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia