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sábado, 4 de fevereiro de 2023

Flores para Yemanjá

  Luiz Carlos Bezerra


 

De pequeno sonhava ver o mar

O dia chegou, para me alegrar

O azul imenso me fez navegar

Como barco nas ondas de Yemanjá

 


Entrei no mar  para ver a rainha

Me pus a chorar por minha surpresa

De ser ninado pela natureza

E sentir a presença de marinha

 


As flores ofertadas são meu culto

O som das ondas expressam o afeto

No meu  coração pulsa gratidão

 

Tudo é uma feliz ilusão

Que a vida nos  traz na anunciação

De Afrodite em sua mansidão

 

 

Recife, 02 de fevereiro de 2023.

Luiz Carlos Bezerra

segunda-feira, 5 de julho de 2021

SOBRE ACREDITAR NA VITÓRIA DAS FLORES

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


            

            Quando em 1968 Geraldo Vandré obteve o segundo lugar no Festival Record da canção, aclamado pelo auditório, cantou sobre flores e canhões.  O título de sua composição era justamente “Para não dizer que não falei de flores”. A audiência, a maioria composta por jovens, cantava a plenos pulmões as estrofes da canção, entre as quais se destacava essa: Pelos campos há fome em grandes plantações/ Pelas ruas marchando indecisos cordões/ Ainda fazem da flor seu mais forte refrão/ E acreditam nas flores vencendo o canhão.

            Muitos talvez não atinassem para o fato de que o título e a canção de Vandré escondiam uma estratégia não isenta de ironia e engenhosidade.  O Brasil vivia seus anos de chumbo.  A ditadura militar ceifava vidas e esperança.  Os efeitos da censura que pesava sobre convicções e manifestações políticas atingiam também a cultura e suas expressões.  Infelizmente a música popular não escapava a essa tenebrosa vigilância. Os organizadores do festival foram instruídos a não dar a vitória a Vandré, restando-lhe o segundo lugar.  Alguns dos jurados sentiram-se profundamente frustrados, chegaram mesmo a retirar-se do evento. 

            Na verdade, a canção de Vandré, aguerrida e bela, era um hino e uma convocação.  Não se intimidava em criticar todos os que optavam pela imobilidade e pretensa neutralidade, incluídos os movimentos que pregavam “paz e amor”.  O poder das flores não era tido em alta conta pelo compositor diante da espessura violenta do ataque das armas que ameaçavam toda uma geração. 

            Parece que aqueles anos voltam em certa maneira hoje.  Sentimos outra vez a linguagem da violência habitando os discursos oficiais.  As armas são enaltecidas em seu poder destruidor e até da tortura se faz apologia. Segmentos vulneráveis da população são ameaçados.  Além da pandemia, outras nuvens encobrem o horizonte. 

            Entre estes segmentos fragilizados, destacam-se os povos indígenas.  Não bastasse a vulnerabilidade que apresentaram frente à pandemia da Covid 19, esses povos que vivem no Brasil e constituem nações com culturas riquíssimas agora se defrontam com a ameaça de um projeto de lei que ameaça alterar a legislação sobre a demarcação de suas terras. O projeto tramita na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. Seu texto é ambíguo e polêmico por passar a exigir comprovação de posse até 1988 para que as terras sejam demarcadas.  Além disso, no conteúdo do texto, aparece a flexibilização do contato com povos isolados, a proibição da ampliação de terras já demarcadas e abertura da possibilidade de permissão para exploração de terras indígenas por garimpeiros. 

            Sentindo-se ameaçados, vários indígenas acompanharam a sessão de exame e votação do projeto de lei.  Além disso, no último dia 15 de junho, um expressivo grupo realizou protesto em Brasília na esplanada dos ministérios.  No dia 23, houve outro protesto.  E a polícia se fez presente, com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral para dispersar o movimento.  Alguns manifestantes reagiram com flechas e chegaram a atingir policiais, que foram atendidos e não tiveram maiores consequências em decorrência do revide. 

            O que queremos aqui é não tanto comentar esses elementos que são tão comuns em toda manifestação pública: violência maior ou menor, armas, enfrentamento.  O que ilumina e faz única essa manifestação última foi a presença das flores. Sim, as flores que Vandré lamentava que provocassem a alienação do contexto político onde vivíamos.  As flores, que muitas vezes serviram de arma indolor para que o patriarcalismo exercesse seu silencioso e perverso domínio sobre as mulheres e suas potencialidades.  As flores, que com sua suave beleza perfumam e enfeitam ambientes e são consideradas inofensivas e supérfluas. 

            Em vez de armas, bombas e flechas, as mulheres indígenas ofereceram flores aos perplexos policiais. Rosas. E os que vimos e participamos desse momento de inaudita beleza nos perguntamos, envergonhados: Mas são esses os povos ditos “primitivos”?  São esses os que figuravam na Constituição Brasileira até 1988 como incapazes e menores de idade? 

            Ali estavam, respondendo com beleza e paz à violência, aqueles e aquelas que foram insistente e permanentemente espoliados de suas terras, transferidos à revelia para outros espaços, tutelados por um Estado que jamais os protegeu, ao contrário explorou sua vulnerabilidade, não reconhecendo a eles capacidade civil. 

            O ato dos indígenas de oferecer flores aos que os reprimiam e os atacavam é surpreendente e pedagógico.  Retoma e ultrapassa todas as pedagogias de pacificação e justiça acontecidas na história, entre elas o evangelho de Jesus. O biblista Carlos Mesters, em seu livro Flor sem defesa, fala na força do que é pequeno, vulnerável e indefeso no mundo, que consegue questionar e interpelar a força e o poder. Os indígenas reinterpretam e dão novo sentido, hoje, à canção de Vandré no longínquo Festival da Canção de 1968.  As flores têm palavras e falam.  E podem, sim, vencer o canhão.  Quando muito, falam eloquentemente sobre a vaidade e a inexatidão das avaliações humanas, que consideram primitivo e atrasado aquilo que é proteção e cuidado da vida e da beleza.  Ao mesmo tempo que considera bela e poderosa a força bruta que vem com as armas da destruição, deixando um rastro de morte atrás de si. 

                 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de Crônicas de cá e de lá, entre outros livros.

          

Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

ÀS AGRESSÕES HUMANAS, A TERRA RESPONDE COM FLORES

Por Leonardo Boff

                                            


Mais que no âmago de uma crise de proporções planetárias, nos confrontamos hoje com um processo de irreversibilidade. A Terra nunca mais será a mesma. Ela foi transformada em sua base fisico-quimica-ecológica de forma tão profunda que acabou perdendo seu equilíbrio interno. Entrou num processo de caos, vale dizer, perdeu sua sustentabilidade e afetou a continuação do que, por milênios, vinha fazendo: produzindo e reproduzindo vida.

Todo caos possui dois lados: um destrutivo e outro criativo. O destrutivo representa a desmontagem de um tipo de equilíbro que implica a erosão de parte da biodiversidade e, no limite, a diminuição da espécie humana. Esta resulta ou por incapacidade de se adaptar à nova situação ou por não conseguir mitigar os efeitos letais. Concluído esse processo de purificação, o caos começa mostrar sua face generativa. Cria novas ordens, equilibra os climas e permite os seres humanos sobreviventes construírem outro tipo de civilização.

Da história da Terra aprendemos que ela passou por cerca de quinze grandes dizimações, como a do cambriano há 480 milhões de anos, que dizimou 80-90% das espécies. Mas por ser mãe generosa, lentamente, refez a diversidade da vida.

Hoje, a comunidade científica, em sua grande maioria, nos alerta face a um eventual colapso do sistema-vida, ameaçando o próprio futuro da espécie humana. Todos podem perceber as mudanças que estão ocorrendo diante de nossos olhos. Grandes efeitos extremos: por um lado estiagens prolongadas associadas à grande escassez de água, afetando os ecossistemas e a sociedade como um todo, como está ocorrendo no sudesde de nosso país. Em outros lugares do planeta, como nos USA, invernos rigorosos como não se viam há decênios ou até centenas de anos.

O fato é que tocamos nos limites físicos do planeta Terra. Ao forçá-los como o faz a nossa voracidade produtivista e consumista, a Terra responde com tufões, tsunamis, enchentes devastadoras, terremotos e uma incontida subida do aquecimento global. Se chegarmos a um aumento de dois graus Celsius de calor, a situação é ainda administrável. Caso não não fizermos a lição de casa ao diminuirmos drasticamente a emissão de gases de efeito estufa e não reorientarmos nossa relação para com a natureza na direção da auto-contenção coletiva e de respeito aos limites de suportabilidade de cada ecossistema então preve-se que o clima pode se elevar a quatro e até seis graus Celsius. Aí conheceremos a “tribulação da desolação” para usarmos uma expressão bíblica e grande parte das formas de vida que conhecemos não irão subsistir, inclusive porções da humanidade.

A renomada revista Science de 15 de janeiro de 2015 publicou um trabalho de 18 cientistas sobre os limites planetários (Planetary Bounderies: Guiding human development on a changing Planet). Identificaram nove dimensões fundamentais para a continuidade da vida e de nosso ensaio civilizatório. Vale a pena citá-las: (1) mudanças climáticas; (2) mudança na integridade da biosfera com a erosão da biodiversidadae e a extinção acelerada de espécies;(3) diminuição da camada de ozônio estratosférico que nos protege de raios solares letais;(4) crescente acidificação dos oceanos;(5) desarranjos nos fluxos biogeoquímicos (ciclos de fósforo e de nitrogênio, fundamentais para a vida);(6) mudanças no uso dos solos como o desmatamento e a desertificação crescente;(7) escassez ameaçadora de água doce;(8)concentração de aerossóis na atmosfera(partículas microscópicas que afetam o clima e os seres vivos); (9) introdução agentes químicos sintéticos, de materiais radioativos e nanomateriais que ameaçam a vida.

Destas nove dimensões, as quatro primeiras já ultrapsssaram seus limites e as demais se encontram em elevado grau de degeneração. Esta sistemática guerra contra Gaia pode levá-la a um colapso como ocorre com as pessoas.

E apesar deste cenário dramático, olho em minha volta e vejo, extasiado, a floresta cheia de quaresmeiras roxas, fedegosos amarelos e no canto de minha casa as “belle donne” floridas, tucanos que pousam em árvores em frente de minha janela e as araras que fazem ninhos debaixo do telhado.

Então me dou conta de que a Terra é de fato mãe generosa: às nossas agressões ainda nos sorri com flora e fauna. E nos infunde a esperança de que não o apocalipse mas um novo gênesis está a caminho. A Terra vai ainda sobreviver. Como asseguram as Escrituras judeo-cristãs:“Deus é o soberano amante da vida”(Sab 11,26). E não permitirá que a vida que penosamente superou caos, venha a desaparecer.

Leonardo Boff é colunista do JBonline, filósofo, teólogo e escritor