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segunda-feira, 5 de julho de 2021

SOBRE ACREDITAR NA VITÓRIA DAS FLORES

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


            

            Quando em 1968 Geraldo Vandré obteve o segundo lugar no Festival Record da canção, aclamado pelo auditório, cantou sobre flores e canhões.  O título de sua composição era justamente “Para não dizer que não falei de flores”. A audiência, a maioria composta por jovens, cantava a plenos pulmões as estrofes da canção, entre as quais se destacava essa: Pelos campos há fome em grandes plantações/ Pelas ruas marchando indecisos cordões/ Ainda fazem da flor seu mais forte refrão/ E acreditam nas flores vencendo o canhão.

            Muitos talvez não atinassem para o fato de que o título e a canção de Vandré escondiam uma estratégia não isenta de ironia e engenhosidade.  O Brasil vivia seus anos de chumbo.  A ditadura militar ceifava vidas e esperança.  Os efeitos da censura que pesava sobre convicções e manifestações políticas atingiam também a cultura e suas expressões.  Infelizmente a música popular não escapava a essa tenebrosa vigilância. Os organizadores do festival foram instruídos a não dar a vitória a Vandré, restando-lhe o segundo lugar.  Alguns dos jurados sentiram-se profundamente frustrados, chegaram mesmo a retirar-se do evento. 

            Na verdade, a canção de Vandré, aguerrida e bela, era um hino e uma convocação.  Não se intimidava em criticar todos os que optavam pela imobilidade e pretensa neutralidade, incluídos os movimentos que pregavam “paz e amor”.  O poder das flores não era tido em alta conta pelo compositor diante da espessura violenta do ataque das armas que ameaçavam toda uma geração. 

            Parece que aqueles anos voltam em certa maneira hoje.  Sentimos outra vez a linguagem da violência habitando os discursos oficiais.  As armas são enaltecidas em seu poder destruidor e até da tortura se faz apologia. Segmentos vulneráveis da população são ameaçados.  Além da pandemia, outras nuvens encobrem o horizonte. 

            Entre estes segmentos fragilizados, destacam-se os povos indígenas.  Não bastasse a vulnerabilidade que apresentaram frente à pandemia da Covid 19, esses povos que vivem no Brasil e constituem nações com culturas riquíssimas agora se defrontam com a ameaça de um projeto de lei que ameaça alterar a legislação sobre a demarcação de suas terras. O projeto tramita na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. Seu texto é ambíguo e polêmico por passar a exigir comprovação de posse até 1988 para que as terras sejam demarcadas.  Além disso, no conteúdo do texto, aparece a flexibilização do contato com povos isolados, a proibição da ampliação de terras já demarcadas e abertura da possibilidade de permissão para exploração de terras indígenas por garimpeiros. 

            Sentindo-se ameaçados, vários indígenas acompanharam a sessão de exame e votação do projeto de lei.  Além disso, no último dia 15 de junho, um expressivo grupo realizou protesto em Brasília na esplanada dos ministérios.  No dia 23, houve outro protesto.  E a polícia se fez presente, com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral para dispersar o movimento.  Alguns manifestantes reagiram com flechas e chegaram a atingir policiais, que foram atendidos e não tiveram maiores consequências em decorrência do revide. 

            O que queremos aqui é não tanto comentar esses elementos que são tão comuns em toda manifestação pública: violência maior ou menor, armas, enfrentamento.  O que ilumina e faz única essa manifestação última foi a presença das flores. Sim, as flores que Vandré lamentava que provocassem a alienação do contexto político onde vivíamos.  As flores, que muitas vezes serviram de arma indolor para que o patriarcalismo exercesse seu silencioso e perverso domínio sobre as mulheres e suas potencialidades.  As flores, que com sua suave beleza perfumam e enfeitam ambientes e são consideradas inofensivas e supérfluas. 

            Em vez de armas, bombas e flechas, as mulheres indígenas ofereceram flores aos perplexos policiais. Rosas. E os que vimos e participamos desse momento de inaudita beleza nos perguntamos, envergonhados: Mas são esses os povos ditos “primitivos”?  São esses os que figuravam na Constituição Brasileira até 1988 como incapazes e menores de idade? 

            Ali estavam, respondendo com beleza e paz à violência, aqueles e aquelas que foram insistente e permanentemente espoliados de suas terras, transferidos à revelia para outros espaços, tutelados por um Estado que jamais os protegeu, ao contrário explorou sua vulnerabilidade, não reconhecendo a eles capacidade civil. 

            O ato dos indígenas de oferecer flores aos que os reprimiam e os atacavam é surpreendente e pedagógico.  Retoma e ultrapassa todas as pedagogias de pacificação e justiça acontecidas na história, entre elas o evangelho de Jesus. O biblista Carlos Mesters, em seu livro Flor sem defesa, fala na força do que é pequeno, vulnerável e indefeso no mundo, que consegue questionar e interpelar a força e o poder. Os indígenas reinterpretam e dão novo sentido, hoje, à canção de Vandré no longínquo Festival da Canção de 1968.  As flores têm palavras e falam.  E podem, sim, vencer o canhão.  Quando muito, falam eloquentemente sobre a vaidade e a inexatidão das avaliações humanas, que consideram primitivo e atrasado aquilo que é proteção e cuidado da vida e da beleza.  Ao mesmo tempo que considera bela e poderosa a força bruta que vem com as armas da destruição, deixando um rastro de morte atrás de si. 

                 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de Crônicas de cá e de lá, entre outros livros.

          

Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

 

terça-feira, 3 de abril de 2018

ACREDITAR NA VITÓRIA DA VIDA



por Marcelo Barros

A partir desse domingo, no Ocidente, durante 50 dias, as Igrejas cristãs mais antigas celebram a festa da Páscoa. É a proclamação de que Jesus ressuscitou. Ele não apenas sobreviveu à morte sofrida na cruz.

Recebeu do Pai uma vida nova que se manifesta nas comunidades que nele creem como energia divina de amor e força transformadora do mundo.

Os textos bíblicos proclamados na festa da Páscoa são lindos. Os cânticos pascais expressam a confiança de que se Jesus ressuscitou, o mundo está salvo. As orações pedem a Deus a graça de que essa realidade da ressurreição ainda invisível engravide a humanidade e o mundo. Dê a luz a uma vida nova, baseada na solidariedade e na justiça amorosa do Espírito. O desafio de cada celebração da Páscoa é que essa fé deve, de alguma forma, se concretizar em sinais concretos de renovação da vida, tanto das pessoas que creem, como na ação criativa de todos os homens e mulheres, sedentos de paz e de justiça, que se consagram a transformar a realidade do mundo.

De fato, vivemos em um mundo no qual a concentração de renda e a desigualdade se tornaram mais graves do que em qualquer outro período da história humana. Quando a humanidade podia ter atingido um maior grau de civilização, temos, em todos os continentes, sinais claros de racismo e discriminação social. Cresce uma cínica indiferença em relação ao sofrimento e à pobreza injusta de tantos irmãos e irmãs. Quem olha tudo isso a partir da fé deve se perguntar como essa realidade pôde chegar a esse ponto extremo, apesar de uma cultura na qual a religião era central. Mesmo se todas as grandes religiões sempre pregaram o amor, a compaixão e a solidariedade, isso não parece ter influído nas sociedades e nem mesmo nos ambientes religiosos.

Já nos anos 60, em seus escritos e discursos, Dom Helder Camara, então arcebispo católico de Olinda e Recife, expressava o seu sofrimento, quando se lembrava de que as nações que mais oprimem outros povos se dizem cristãs. E, nos anos 80, em Riobamba, no Equador, as pessoas que acompanhavam Monsenhor Leónidas Proaño, bispo dos índios, em seu leito de morte, o ouviam gemer e afirmar chorando: “Que tristeza quando penso que a minha Igreja foi a principal responsável da morte e da escravidão dos índios".

Alguém pode estranhar como impróprio para a festa da Páscoa lembrar essa responsabilidade imensa da Igreja Católica e de outras Igrejas em relação ao sofrimento que índios e negros viveram nas Américas. Ao contrário, a Páscoa nos chama a uma permanente conversão. E nos leva a agradecer a Deus iniciativas e gestos de proteção e defesa dos índios e negros realizada durante a História por alguns missionários. No entanto, a ressurreição de Jesus é mais o anúncio de um futuro de paz e de justiça do que simplesmente a celebração de algo passado. É preciso que hoje, aqui e agora, a Igreja seja ela mesma uma profecia de libertação para toda a humanidade e só assim ela será, junto com os movimentos sociais e outras parábolas de amor no mundo uma fecunda semente de ressurreição e de vida nova. Na alegria dessa festa pascal, no Nordeste, as comunidades cantam um hino tradicional cujo refrão diz assim:

"Cristo ressuscitou,
o sertão já virou flor,
da pedra a água saiu,
era noite e o sol surgiu. Glória ao Senhor" 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Acreditar no amor

Por MARIA CLARA CLUCCHETTI BINGERMER

     Já dizia o grande teólogo suíço Hans Urs von Balthasar: só o amor é digno de fé. Para mim, a esta altura da vida, já com mais de 60 anos, 44 de casada e avó de cinco netos, não há nada que seja mais digno de fé. Não há outra coisa que mova montanhas, que seja digna de credibilidade e das apostas mais ousadas e absurdas que o amor.
Pois celebrando o Dia dos Namorados penso que é hora – como o é sempre – de relembrar esta verdade. Amor é coisa de experiência, de prática, mas também tem – e muito! – a ver com a fé. É preciso acreditar, para que o amor se constitua como sólido, belo, profundo. É preciso fé, para que não falhe o amor e se transforme em volatilidade irresponsável. Andar com fé é preciso e a fé não costuma falhar. Sobretudo quando é fé no amor.
     Os gregos distinguiam três formas de amor: Eros, feito de desejo, atração, pulsão sexual e energética; filia, o amor mais de amizade, fidelidade; e agape, feito de oblatividade desinteressada e gratuita, entrega total e generosidade, fé e confiança inesgotáveis, paciência que se reinventa a cada dia.
     Hoje se tem a impressão, olhando os namoros e também as experiências de vida a dois, as uniões estáveis e os casamentos, de que o primeiro sentido tem a tendência de engolir os demais e ser interpretado em dimensão totalizante. Isso tem como consequência relações curtas, rápidas, efêmeras, deixando atrás de si um rastro de frustração e infelicidade e – pior ainda – crianças inocentes, que não pediram para nascer e acabam sendo frutos irresponsáveis de relações mal compreendidas.
      Os diversos analistas do assunto emitem diagnósticos que, em geral, vão na direção de um esgotamento do desejo, entendido aí como desejo sexual. Parece-me que o problema é outro. Pelo menos em muitos casos, pois a generalização neste particular, como em outro, é sempre odiosa. O problema é falta de fé, de acreditar que o amor não acaba, apenas muda de configuração com o passar do tempo. E que é preciso estar atento para poder reinventá-lo e redescobri-lo a cada passo.
     Reinvestir, apostar de novo, cultivar o que parece morto é algo que ninguém está disposto a fazer. Tem pressa de livrar-se do parceiro ou parceira, sem o qual não parecia poder viver. Às vezes é apenas uma fase, um período a passar que, se enfrentado adequadamente, poderia reemergir com beleza e profundidade muito mais maduras e melhores.
     Mas não. Há que cortar, terminar, partir para outra. Há urgência em deixar para trás o amargo sabor dos últimos tempos não felizes, tão diferentes dos iniciais. E busca-se outra relação, que dentro de um tempo também se mostrará temporária, efêmera. E novas frustrações serão vividas, novas dores, novos sofrimentos.
Meu Deus! Será que não dá para investir um pouco mais? Acreditar nas promessas feitas e nos dias vividos quando o mundo parecia acabar se ele ou ela não estivessem presentes? Não dá para confiar que as noites passadas em claro esperando o dia raiar para ver de novo a pessoa amada foram reais e não produto da imaginação?
Jovens e adultos – porque hoje namoro não é só coisa de jovens, mas também de adultos – tenham fé. É preciso acreditar. Amor é graça, mas também tarefa. Aquilo que aconteceu às vezes sem esperar, sem procurar, tem que ser trabalhado e retrabalhado. Em cada etapa da vida. Da paixão alucinante e urgente se passa ao cotidiano compartilhado que é feito não só de alegrias e êxtases, mas também de cansaço, trabalho, tentativas constantes de superar dificuldades.

        Quando chega um filho, após a alegria do nascimento, a intimidade sofre. Há que atender o bebê em noites insones que resultam em dias pesados, em pálpebras mais ainda e em impaciências várias. Se há amor, há superação desta fase e o amor renasce. Senão, como haveria o segundo filho e, às vezes, o terceiro? Ou vai se achar que está na hora de acabar porque o menino chora de noite? O outro também chorará. E o outro. E o outro...
Já dizia o grande artista belga prematuramente falecido Jacques Brel, em sua inesquecível canção “Ne me quitte pas”, que “há terras queimadas que dão mais trigo que o melhor abril” e quando, ao cair da noite, o céu se inflama, “o vermelho e o negro se encontram e se fundem.”

     Há que acreditar que a terra seca voltará a ser fecunda. E dará frutos melhores que o melhor dos abris. Acreditar no amor: espero que tenham tido um feliz Dia dos Namorados.

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de “O mistério e o mundo – Paixão por Deus em tempo de descrença”, Editora Rocco. O lançamento será no dia 27 de junho, a partir de 19 horas, na Livraria Timbre, Shopping da Gávea – rua Marquês de São Vicente 52-2º piso. Se você mora no Rio, apareça. Estaremos esperando por você.


Copyright 2013 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)