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domingo, 30 de abril de 2023

Martin Luther King: 60 anos de um sonho e um discurso

 



 Maria Clara Lucchetti Bingemer 

 

            Em agosto serão completados sessenta anos que um homem, em Washington, capital dos Estados Unidos, país mais poderoso do mundo, fez um discurso. O homem era negro. E tinha um sonho. Liderava um grupo de homens e mulheres que aumentava a cada dia e se convertia em multidão. Organizava eventos e marchava silenciosa e pacificamente em protesto contra a violência racial e o desrespeito aos direitos humanos em seu país. Chamava-se Martin Luther King Jr.

 Quando esse pastor batista e doutor em Teologia começou sua caminhada em prol da igualdade racial e da paz, o racismo em seu país era lei e não crime. Uma lei que cavava uma fenda profunda na sociedade estadunidense, mantendo os negros separados dos brancos nos transportes públicos, nas instituições de ensino, nos restaurantes, nos banheiros. O sonho do pastor negro era que essa discriminação tivesse um fim de forma pacífica e não violenta.

 Na origem desse sonho de paz e liberdade está o gesto de uma mulher: Rosa Parks, aquela que um dia, ao voltar do trabalho em um ônibus, sentada na parte do veículo proibida aos negros, recusou-se a ceder seu lugar a um homem branco. Foi presa e penalizada, mas seu gesto de desobediência fez com que cinquenta líderes da comunidade afro-americana, chefiados pelo então quase desconhecido pastor Martin Luther King Jr., reagissem à violência contra ela cometida.

 O movimento organizou e deflagrou um boicote de 381 dias ao sistema segregacionista de ônibus do Alabama. A partir daí seguiu-se a luta dos negros norte-americanos contra a segregação e pelo respeito aos direitos, do qual a estrela foi o Pastor King., que se tornou um ícone da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e ganhou o Prêmio Nobel da Paz anos depois. Sempre reconhecido àquela que havia sido a agente detonadora de seu movimento, Martin Luther King Jr. dizia: "Na verdade, ninguém pode compreender a ação da Sra. Parks, a menos que realize que, eventualmente, a taça da capacidade de suportar transborda e a personalidade humana grita: "Eu não posso mais aguentar".

Em 1963, o pastor negro continuava seu movimento, reivindicando a igualdade de direitos de todos, o fim da discriminação racial e a paz. Suas marchas eram cada vez maiores em volume e em consistência. Naquele ano a marcha sobre Washington, a capital do país, convocava 250 mil pessoas.

 Ali Luther King falou de seu sonho. O sonho da igualdade e da liberdade. Disse sonhar que um dia os filhos dos descendentes de escravos e dos descendentes de donos de escravos pudessem sentar-se juntos à mesa da fraternidade.

O pastor vivia um momento difícil, com ameaças, frustrações. Sentia o conflito que se armava ao redor dele. Mas sonhava para as gerações futuras. Sonhava com a possibilidade de que seus quatro filhos pudessem viver em uma nação onde seriam julgados pelo caráter e não pela cor da pele. O sonho de Luther King era recheado de liberdade e comunhão. Sonhava em fazer chegar mais rápido “o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar...” Sonhava o sonho que sonhou também Jesus de Nazaré e tantos profetas antes dele e tantas testemunhas depois dele. 

King entrou para a história não apenas pelo que fez, mas também e talvez principalmente pelo que sonhou: um mundo onde ninguém seja discriminado por sua raça ou pela cor da pele; onde todos tenham direito de voto e acesso a empregos e serviços públicos; onde todos possam dizer livremente aquilo em que crêem e praticar o que acreditam. Um mundo onde a paz não seja apenas a ausência de guerras, mas situação vital e dinâmica construída no diálogo e na interação franca e transparente. O sonho do Dr. King continua, mais vivo que nunca. Continua nos grupos afro-americanos que seguem lutando por igualdade e enfrentando as discriminações de que são objeto. Faz-se visível nos jovens migrantes, chamados sintomaticamente de “dreamers”, que reivindicam seu direito de sonhar com a cidadania no país que escolheram para viver uma vida melhor. Vive em todo homem e mulher que em qualquer continente ou latitude deseja a justiça, a igualdade e a liberdade, e luta para que aconteçam. 

Como dizia, no Brasil,  o poeta Zé Vicente: “Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só.  Sonho que se sonha junto é realidade.“ Sonhemos, pois, para que se faça realidade o sonho belo ainda que tão difícil da igualdade. 

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Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas), entre outras obras.

  

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

segunda-feira, 19 de julho de 2021

AQUELE QUE AMAS...

              Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            Quando Jesus de Nazaré caminhava em direção a Jerusalém recebeu um recado de duas mulheres a quem queria muito bem:  Marta e Maria, de Betânia.  Elas mandavam notícias do irmão Lázaro: “Senhor aquele que amas está doente”. Jesus ficou triste e viu que aquela doença não terminaria em morte, mas seria para glorificar a Deus. 

          Decide ir à casa da família que tão bem o recebia sempre em Betânia, mas tardou três dias para chegar.  Ao entrar, recebeu a notícia: Lázaro estava morto. Após somar suas lágrimas ao pranto de todos que ali estavam, Jesus se aproximou do túmulo do amigo  morto há três dias e o trouxe de volta à vida. Era evidente seu amor por aquele homem, do qual a Escritura não nos dá grande informação, a não ser que era irmão de duas queridas amigas de Jesus, em cuja companhia o mestre se comprazia e desfrutava de bons momentos.  De toda essa amigável convivência também fazia parte Lázaro, que se tornou amigo. 

            A que vem essa reflexão?  Queremos ligar a morte de Lázaro, que terminou em ressurreição e vida, com a morte recente de outro Lázaro, que após ser caçado como um bicho por 270 policiais, cães farejadores, viaturas diversas, drones, recursos os mais variados, terminou morto com 38 tiros. Jesus choraria também por essa morte?  Esse Lázaro também mereceria sua compaixão e suas lágrimas, sua saudade? 

            A resposta talvez se possa encontrar no diálogo de Jesus com Marta nos momentos que antecedem a ressurreição do Lázaro do evangelho de João.  Após ouvir dos lábios da amiga chorosa e triste que se ele tivesse estado com elas, o irmão não teria morrido, Jesus lhe disse: “Teu irmão ressuscitará”.  Ora, Marta era judia.  Esperava, sim, a ressurreição dos mortos no último dia, no Dia de Javé, quando Deus viesse sentar-se para um banquete com o povo eleito do seu coração.  Pronunciou então a profissão de fé judaica: “Sei que ele ressuscitará no último dia”. 

Jesus surpreende Marta dizendo-lhe que o dia que ela espera e diz ser o último já chegou. E chegou com ele, com sua pessoa.  “Eu sou a ressurreição e a vida.” Não há que esperar o final dos tempos.  A vida em plenitude já está entre nós, para todos.  Também para o recém falecido Lázaro, homem de bem, judeu piedoso e irmão de Marta e Maria.  E também – vejam só – para o Lázaro que foi morto em Goiás após uma caçada de mais de duas semanas. 

Argumentarão: “Era bandido...”  Provavelmente, sim, podemos identificá-lo assim. Havia cometido vários crimes.  Porém, de que se tratava a espetacular operação montada para proteger as pessoas de bem da perigosa existência de Lázaro?  Prendê-lo ou matá-lo?  Tratava-se ou não de um ser humano?  Era ou não era alguém da nossa espécie, da nossa raça? Alguém criado à imagem e semelhança de Deus, com a dignidade inalienável de ser nosso irmão em humanidade? 

Nos anos 1960, havia no Rio de Janeiro um bandido que a polícia tentava de todas as maneiras pegar sem conseguir. Chamava-se Miranda Rosa, mas era conhecido por seu apelido: “Mineirinho”.  Tornou-se famoso na crônica carioca pelas muitas e variadas infrações cometidas, desde assaltos a lojas comerciais à luz do dia, atentados contra a polícia militar etc.  Preso, escapou da cadeia duas vezes.  Internado no manicômio judiciário com penas que ultrapassavam cem anos, fugiu também. 

A polícia armou inúmeras armadilhas para agarrá-lo.  Finalmente, a operação que conseguiu pôr fim à sua vida contava com mais de trezentos homens.  Mais de trezentos homens procurando um único homem. Sua morte ocorreu no dia 1 de maio de 1962.  Levou 13 tiros. Dentro de sua camisa, foi encontrada uma oração: Cinco minutos diante de Santo Antônio, que dizia “Estou disposto a fazer tudo por ti; mas, filho, dize-me uma a uma todas as tuas necessidades, pois desejo ser o intermediário entre tua alma e Deus, com o fim de suavizar teus males.”

Sobre a morte de “Mineirinho”, Clarice Lispector escreveu: É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar porque está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. 

Diante da foto estampada nos jornais do cadáver do moço de 28 anos perfurado por 13 tiros, ela se debate com seu conceito de justiça.  O que é a justiça, afinal?  Executar com 13 tiros um criminoso, um homem que reconhecidamente ameaça a segurança das pessoas de bem?  

Clarice parece achar que a questão é mais complexa do que parece. Reflete que a grande luta é a do medo.  E um homem que – como “Mineirinho” – mata muito é porque teve muito medo. O fora da lei não poderia, por isso, apesar das muitas maldades cometidas, ser entregue à maldade de outro homem.  E isso para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. 

Para a sensibilidade profunda da grande escritora, a justiça que se esquece que todos somos perigosos nunca será realmente justa.  Quando o justiceiro mata, não está nos protegendo, mas cometendo o seu próprio crime, longamente guardado.  Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente. 

Lázaro, abatido com 38 tiros, não é apenas um CPF cancelado, mais um bandido eliminado pelas forças da lei. É alguém que nasceu de uma mulher, de uma mãe.  Foi amado, amamentado, acarinhado. Ninguém discute sua responsabilidade pessoal.  O que se discute é sua dignidade de ser humano.  E por causa dessa, sua vida importa...tal como todas as vidas que são amadas pelo Criador que as desejou, criou e soprou em suas narinas o hálito da vida. 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas), entre outras obras.

 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

SOBRE ACREDITAR NA VITÓRIA DAS FLORES

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


            

            Quando em 1968 Geraldo Vandré obteve o segundo lugar no Festival Record da canção, aclamado pelo auditório, cantou sobre flores e canhões.  O título de sua composição era justamente “Para não dizer que não falei de flores”. A audiência, a maioria composta por jovens, cantava a plenos pulmões as estrofes da canção, entre as quais se destacava essa: Pelos campos há fome em grandes plantações/ Pelas ruas marchando indecisos cordões/ Ainda fazem da flor seu mais forte refrão/ E acreditam nas flores vencendo o canhão.

            Muitos talvez não atinassem para o fato de que o título e a canção de Vandré escondiam uma estratégia não isenta de ironia e engenhosidade.  O Brasil vivia seus anos de chumbo.  A ditadura militar ceifava vidas e esperança.  Os efeitos da censura que pesava sobre convicções e manifestações políticas atingiam também a cultura e suas expressões.  Infelizmente a música popular não escapava a essa tenebrosa vigilância. Os organizadores do festival foram instruídos a não dar a vitória a Vandré, restando-lhe o segundo lugar.  Alguns dos jurados sentiram-se profundamente frustrados, chegaram mesmo a retirar-se do evento. 

            Na verdade, a canção de Vandré, aguerrida e bela, era um hino e uma convocação.  Não se intimidava em criticar todos os que optavam pela imobilidade e pretensa neutralidade, incluídos os movimentos que pregavam “paz e amor”.  O poder das flores não era tido em alta conta pelo compositor diante da espessura violenta do ataque das armas que ameaçavam toda uma geração. 

            Parece que aqueles anos voltam em certa maneira hoje.  Sentimos outra vez a linguagem da violência habitando os discursos oficiais.  As armas são enaltecidas em seu poder destruidor e até da tortura se faz apologia. Segmentos vulneráveis da população são ameaçados.  Além da pandemia, outras nuvens encobrem o horizonte. 

            Entre estes segmentos fragilizados, destacam-se os povos indígenas.  Não bastasse a vulnerabilidade que apresentaram frente à pandemia da Covid 19, esses povos que vivem no Brasil e constituem nações com culturas riquíssimas agora se defrontam com a ameaça de um projeto de lei que ameaça alterar a legislação sobre a demarcação de suas terras. O projeto tramita na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. Seu texto é ambíguo e polêmico por passar a exigir comprovação de posse até 1988 para que as terras sejam demarcadas.  Além disso, no conteúdo do texto, aparece a flexibilização do contato com povos isolados, a proibição da ampliação de terras já demarcadas e abertura da possibilidade de permissão para exploração de terras indígenas por garimpeiros. 

            Sentindo-se ameaçados, vários indígenas acompanharam a sessão de exame e votação do projeto de lei.  Além disso, no último dia 15 de junho, um expressivo grupo realizou protesto em Brasília na esplanada dos ministérios.  No dia 23, houve outro protesto.  E a polícia se fez presente, com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral para dispersar o movimento.  Alguns manifestantes reagiram com flechas e chegaram a atingir policiais, que foram atendidos e não tiveram maiores consequências em decorrência do revide. 

            O que queremos aqui é não tanto comentar esses elementos que são tão comuns em toda manifestação pública: violência maior ou menor, armas, enfrentamento.  O que ilumina e faz única essa manifestação última foi a presença das flores. Sim, as flores que Vandré lamentava que provocassem a alienação do contexto político onde vivíamos.  As flores, que muitas vezes serviram de arma indolor para que o patriarcalismo exercesse seu silencioso e perverso domínio sobre as mulheres e suas potencialidades.  As flores, que com sua suave beleza perfumam e enfeitam ambientes e são consideradas inofensivas e supérfluas. 

            Em vez de armas, bombas e flechas, as mulheres indígenas ofereceram flores aos perplexos policiais. Rosas. E os que vimos e participamos desse momento de inaudita beleza nos perguntamos, envergonhados: Mas são esses os povos ditos “primitivos”?  São esses os que figuravam na Constituição Brasileira até 1988 como incapazes e menores de idade? 

            Ali estavam, respondendo com beleza e paz à violência, aqueles e aquelas que foram insistente e permanentemente espoliados de suas terras, transferidos à revelia para outros espaços, tutelados por um Estado que jamais os protegeu, ao contrário explorou sua vulnerabilidade, não reconhecendo a eles capacidade civil. 

            O ato dos indígenas de oferecer flores aos que os reprimiam e os atacavam é surpreendente e pedagógico.  Retoma e ultrapassa todas as pedagogias de pacificação e justiça acontecidas na história, entre elas o evangelho de Jesus. O biblista Carlos Mesters, em seu livro Flor sem defesa, fala na força do que é pequeno, vulnerável e indefeso no mundo, que consegue questionar e interpelar a força e o poder. Os indígenas reinterpretam e dão novo sentido, hoje, à canção de Vandré no longínquo Festival da Canção de 1968.  As flores têm palavras e falam.  E podem, sim, vencer o canhão.  Quando muito, falam eloquentemente sobre a vaidade e a inexatidão das avaliações humanas, que consideram primitivo e atrasado aquilo que é proteção e cuidado da vida e da beleza.  Ao mesmo tempo que considera bela e poderosa a força bruta que vem com as armas da destruição, deixando um rastro de morte atrás de si. 

                 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de Crônicas de cá e de lá, entre outros livros.

          

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