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segunda-feira, 2 de abril de 2018

PÁSCOA DENTRO E FORA DOS MURO



 por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Jerusalém, por volta do ano 30. O Galileu Jesus de Nazaré fora julgado subversivo.  Perturbava a ordem. Semeava a sublevação desde os começos de seu movimento.  Agora, em Jerusalém, Cidade Santa, era finalmente preso e condenado. Executado na cruz fora dos muros da cidade como acontecia com os malfeitores.

 O silêncio pesava sobre Jerusalém, grávido de tristeza com a morte do profeta que amou os pobres e os pequenos, e falou de Deus como nunca ninguém o tinha feito. E, de repente, o rumor rompeu o silêncio e o mal-estar, falando não de morte, mas de vida.    A vida, as palavras e os gestos do carpinteiro de Nazaré eram semente de vida nova e sua morte dolorosa era força que reunia os dispersos e animava para a luta. A morte não teve a última palavra sobre sua vida santa e fecunda. O amor foi mais forte e venceu a morte pelo poder de Deus. 

El Salvador ano 1980. O arcebispo Oscar Arnulfo Romero se preparava para celebrar sua última missa. Dias antes fizera um retiro onde sentira claramente que a morte o rondava.  Tinha medo.  Mas sabia não poder afastar-se do caminho pelo qual andava. Fora por muito tempo um homem de Igreja piedoso, tranquilo e cheio de bondade. A realidade, porém, o convertera.  E ele sentiu que não poderia mais ser o mesmo.

Começou a denunciar as injustiças e violências cometidas cruelmente em seu país.  Ao mesmo tempo em que os pobres e as lideranças da base eram massacradas, sua voz se levantava.  Suas homilias, ouvidas em todo El Salvador e para fora de suas fronteiras ressoavam fortes e destemidas.  Os pobres se sentiam apoiados e os poderosos tremiam. Ali havia um subversivo que era preciso eliminar.

Em 24 de março de 1980, o coração do arcebispo foi atingido em plena celebração da Eucaristia.  Porém não havia ainda acontecido seu funeral e já multidões acorriam ao seu redor para celebrar a vida que brotava de sua morte.  Figura emblemática e catalizadora de todo o sentir da Igreja latino-americana, Oscar Romero é, hoje, um símbolo e uma testemunha de que a fé e a justiça não podem separar-se.

O Papa Francisco, que já o beatificou, o canonizará como santo da Igreja Católica.  Porém, o salvadorenho arcebispo ultrapassa as fronteiras de sua Igreja e se torna sempre mais inspiração e testemunho para todos aqueles e aquelas que não se conformam com este mundo e dão suas vidas para transformá-lo. 

Após a morte de Monsenhor Oscar Romero, as palavras que pronunciou em vida se faziam realidade: “Se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho”. “Que meu sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança será logo uma realidade.“ O arcebispo assassinado era semente de vida nova.  Ninguém mais poderia calá-lo.

Rio de Janeiro, ano 2018. A vereadora Marielle Franco, após um dia de trabalho e reuniões, preparava-se para voltar para casa.  Dias antes havia denunciado pelas redes sociais o massacre de que estavam sendo vítimas os jovens negros de Acari, bairro da periferia da cidade. Mulher, negra, favelada, a voz de Marielle era cada vez mais ouvida defendendo os direitos humanos e denunciando as injustiças cometidas contra todas as categorias oprimidas em sua cidade e seu país.

Nove balas foram disparadas certeiramente dirigidas à cabeça da jovem vereadora.  Ela morreu na hora assim como seu motorista Anderson. A notícia correu na mídia e nas redes, e parecia apenas mais um assassinato dos que povoam diária e tristemente a agenda carioca.  No entanto, as ruas começaram a encher-se, a ponto de não mais darem conta de tanta gente. O povo chorava a mulher de coragem e fazia apelo a seu exemplo de vida para animá-lo na luta. 

Do Rio, o movimento ganhou o Brasil inteiro e as páginas da mídia estrangeira.  A morte daquela bela e sorridente mulher sacudiu letargias e mobilizou as consciências.  E o lema que se lia e ouvia por toda parte era um só: “Marielle vive”.

Três figuras, intra e extramuros, falam do que é a Páscoa que em poucos dias os cristãos do mundo inteiro celebrarão.  É vida que vence a morte, é morte que dá vida, é amor que faz viver a partir da entrega e da doação ao outro.  Os cristãos veem e creem que em Jesus de Nazaré vivo, morto e ressuscitado, Deus proferiu sua palavra definitiva sobre a humanidade, declarando-a destinada à vida e não à morte.

Muitos mártires cristãos, a exemplo do mestre, seguiram e seguem hoje o gesto de entrega de Jesus.  Experimentam em suas vidas o poder da opressão e da morte que os esmaga.  Tornam-se, porém, mais eloquentes e fecundos depois de mortos. São sementes de vida nova plantadas e frutificadas. Oscar Romero é apenas um deles.

Há, porém, figuras que, de fora dos muros institucionais da Igreja ou da religião, levam em si a luminosidade pascal.  Suas vidas são entregues pelas causas que são da humanidade inteira. E a morte, em vez de ser fim, deslancha um novo começo de esperança e futuro. Assim foi com Marielle Franco, que deu ao desalentado povo brasileiro novo ânimo para seguir lutando pela justiça e os direitos humanos. 

Dentro ou fora dos muros, a Páscoa continua acontecendo. E por isso deve continuar a ser celebrada, já que a vida é que tem a última palavra na dramática e bela aventura humana. 


A teóloga Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de  “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc), entre outros livros.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

MUROS DA DESOLAÇÃO

Por Marcelo Barros



Nesses dias, o mundo recordou a unificação da Alemanha, quando no dia 03 de outubro de 1990, durante uma noite, milhares de pessoas derrubaram, com as próprias mãos, o muro de Berlim. Além de dividir uma cidade em duas, aquele muro construído no início dos anos 60, simbolizava a chamada "cortina de ferro" entre a Europa Ocidental e o Bloco de Leste. O muro de Berlim tinha 66,5 km de grade metálica, 302 torres de observação, 127 redes eletrificadas dotadas de alarme e 255 pistas de corrida para ferozes cães de guarda. As estatísticas oficiais falam em centenas de pessoas mortas e milhares aprisionadas na tentativa de transpor aquele muro.

Agora, a Alemanha celebrou o aniversário de 25 anos da queda do muro de Berlim, levantando um novo muro em suas fronteiras para deter a onda de migrantes que tentam entrar na Europa. Não era mais necessário um muro de tijolos e concretos e sim uma muralha de desamor, preconceito e discriminação.

 No momento atual, os migrantes servem para que os governantes de uma Europa em crise mortal desviem a atenção de seus eleitores para que não percebam os fracassos da política econômica oficial e da falta de perspectivas. Esses governantes fazem dos migrantes o inimigo externo do qual precisavam para fugir do julgamento coletivo. E jogam nos migrantes a culpa do desemprego e da decadência da sociedade europeia, provocada pelo veneno do que o papa Francisco tem chamado “a cultura da indiferença na qual o lucro é muito mais importante do que as pessoas”.

Durante séculos, as potências da Europa exploraram os territórios e as populações dos países africanos. Roubaram da África tudo o que podiam e condenaram os africanos à fome e à miséria. Agora, aos sobreviventes que fogem da morte, negam a última esperança de vida. Nos anos mais recentes, os mesmos governos da Europa, junto com o dos Estados Unidos, armaram os rebeldes da Síria e tornaram esse país um inferno vivo. Agora estranham que os sobreviventes de uma guerra mortífera batam às suas portas.

Na Idade Média se erguiam muros em torno das cidades. Agora, são países que constroem muros para se proteger de migrantes. Na fronteira dos Estados Unidos com o México, um muro alto percorre 300 km de extensão. Em sua sombra,  abundam cadáveres de latino-americanos, eletrocutados ao tentarem atravessar o muro, ou abatidos pelos guardas do Império. Um muro imenso separa o Estado de Israel dos territórios palestinos ainda não ocupados. Outros muros dividem a Índia do Paquistão. Mais violentos ainda do que os muros de concreto são os do mercado elitista que excluem milhões de pessoas de qualquer possibilidade de uma vida digna. No mundo inteiro, pessoas se comovem ao ver a fotografia do pequeno Aylan, a criança síria de três anos, morta em uma praia da Turquia, quando seus pais tentavam entrar na Europa. Mas, poucos dias depois da morte de Aylam, calculam-se em, ao menos 250 pessoas entregues à morte no Mediterrâneo para não aportarem nas costas europeias.

Embora alguns bispos e cardeais tenham se pronunciado para que a Europa só acolha migrantes cristãos, o papa apelou para que todas as dioceses, paróquias e conventos abram suas portas para acolher o maior número possível de migrantes e refugiados. A Bíblia lembra aos antigos israelitas: “Lembra-te que foste migrante e refugiado no Egito. Portanto, trata bem o estrangeiro que mora em teu meio”. E, para mostrar que Jesus retoma a vocação e o destino de Israel, o evangelho de Mateus conta que, assim que Jesus nasceu, José, seu pai, teve de fugir com a família para o Egito afim de escapar da perseguição do rei Herodes. Quando nenhum muro puder mais conter os direitos humanos de quem procura sobreviver e as fronteiras da Europa se mostrarem insuficientes para acolher as novas migrações, lembremo-nos de que, de um modo ou de outro, todos somos filhos de migrantes e refugiados. Somos todos filhos de uma única humanidade e, como irmãos e irmãs, cidadãos do planeta Terra, a nossa casa comum. Os cristãos são discípulos e discípulas de Jesus de quem São Paulo afirmou: “Ele derrubou os muros de inimizade que separavam os povos” (Ef 2, 13 ss).



 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.