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terça-feira, 15 de março de 2022

Transfigurar Deus dentro de nós e no mundo

                                         Marcelo Barros


O texto evangélico proposto para este 2º Domingo da Quaresma é conhecido como o relato da Transfiguração de Jesus. Neste ano C, lemos esta narrativa em Lucas 9, 28 a 36. E a primeira observação que fazemos é que, em nenhum momento, Lucas usa a palavra transfiguração. Como escrevia para o mundo de cultura greco-romana, o evangelho quis evitar confusão que levasse a compreender a fé de forma espiritualizada. Ao contrário, Lucas quer centrar a atenção na humanidade de Jesus. E por isso, ressalta que é o rosto de Jesus que se transforma e, então, suas vestes se tornam resplandecentes. E o evangelho diz que isso acontece justamente quando na montanha Jesus está em oração.

Em várias tradições espirituais, principalmente na simbologia oriental, a montanha representa também a conquista maior do ser humano sobre si mesmo, a elevação da própria consciência. Na Bíblia, desde as cenas de manifestação divina no Sinai, a montanha é o local por excelência da aliança entre Deus, a humanidade e o universo (a natureza). É na montanha que Deus diz o seu nome, portanto, revela a sua intimidade. Naquela montanha, Jesus aparece cercado de dois personagens da primeira aliança e  assume sua missão profética de cumprir o seu Êxodo, sua Páscoa, isto é, sua morte, em Jerusalém. De fato, o evangelho insiste que isso ocorre oito dias depois que Jesus tinha anunciado aos discípulos e discípulas que estava assumindo a cruz e tudo o que isso comportava. Os discípulos que estavam habituados a sempre ver Jesus em sua cotidianidade, o veem agora sob um novo ângulo, de um modo novo. Eles têm dificuldade de compreender como Jesus pode cumprir uma missão salvadora se se deixar prender, torturar e ser morto. E é neste momento que eles podem contemplar a glória do Pai presente na figura sofrida que Jesus representa. O centro da passagem é a voz que vem da nuvem, declarando Jesus como Filho amado do  Pai. Seria como se aquela pergunta que Jesus fez aos discípulos “Quem sou eu?”, o próprio Deus também tivesse querido responder: “Este é meu Filho bem-amado. Escutem o que ele diz”. É assim se dispondo à marginalidade e ao absurdo da cruz que Jesus se revela o Messias de Deus.

Neste momento, a nuvem revela que todo o universo e a natureza se reveste da presença divina. No Sinai, o monte fumegava e tremia. Agora, há uma nuvem que de um lado esconde e do outro revela a presença divina. Deus revela Jesus profeta e caminhando para a Cruz como seu filho amado e Jesus revela para nós quem é Deus. Não um Deus do poder, da ordem, do império, mas o Deus da aliança de libertação e da vida.

O Deus de Jesus não pede nem quer ofertas. Ele se oferece como dom, como oferta a nós para que a humanidade possa ser feliz e viver sua missão de cuidadora da Terra e do mundo.

Este evangelho da oração e da intimidade de Jesus com os três discípulos e com o Pai de amor nos convida a acreditar não somente que Deus revestiu Jesus crucificado da sua presença divina, mas que, em Jesus, ele, Deus, nos revela como ele é. Não somente Jesus com o seu rosto luminoso se parece divino, mas Deus aceita se parecer com Jesus e sofrer com ele e conosco nossas cruzes de cada dia na missão para transformar este mundo.

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br

 

sábado, 12 de dezembro de 2020

ELA CHEGOU BEM PERTO DE MIM, OLHOU BEM DENTRO DE MEUS OLHOS, NO CAROÇO DOS MEUS OLHOS

 Pe Fabio Potiguar dos Santos

Ela chegou bem perto de mim, olhou bem dentro de meus olhos, no caroço dos meus olhos – aquela parte onde tem um frecha, uma brecha, uma janela, uma porta para alma- e disse, bem baixinho, quase sussurrando, mas como se fosse um grito: “Não, Deus não existe! É somente uma poesia para suportar esta vida de muita dor.

 Seja o Tupã ou Guaracy dos índios, seu padre! Também o Montubá ou Olorum dos orixás trazidos pelo sofrido povo da África é também só poesia. O senhor gosta de poesia, não é mesmo, seu padre? Tão pouco esse Deus de Abraão em que creem os judeus, cristãos e muçulmanos. Odeio esse seu Deus cristão católico, só menos perverso ao das seitas fundamentalistas dos pentecostais. 

Seu Deus, seu padre, é uma droga, uma maconha, um ópio. Acreditar nele é dá um atestado de que não passa de um sarcástico, um impotente, um malvado assistindo de sua mais alta tecnologia celestial o drama, a tragédia e a comédia da existência humana. Professar minha fé em qualquer um deles, seja daqui do Ocidente ou as deidades hindus ou a mística budista é o mesmo que confessar que ele matou meu filho com os tiros de balas perdidas. 

Então deixa-o de fora. Assim não terá mérito nem culpa. Ainda quando cria não pedia nem agradecia pelas chuvas. Se não chovesse, sabendo Deus o que isso significa para um sertanejo, então ele é muito mau. Se chovesse, então ele é bom? Decidi que era uma questão climática e não religiosa e pronto. Fale alguma coisa, padre! Fale alguma coisa, desde que não seja essa outra poesia sua de que Deus é um Deus Humilde e Sofredor de suas homilias, dos seus artigos, do seu livro. 

No começo até que gostei da ideia, dessas suas palavras de um Deus não caricato nas missas e cultos cheios de ostentação mundana, profana, pagã, luxuosa, cafona. No começo até gostei desse Deus na terra com jarra, bacia e o toalhas nas mãos e nos céus de bandeja e avental.  Sim, no começo até gostei de ouvir o senhor   falar de um Deus que sofre conosco e em nós, carne de nossa carne de agonia e prazer. Um Deus mais solidário do que poderoso. Também era interessante a vitória desse Deus depois de crucificado e morto, vencer sem revanches, de triunfar sem triunfalismos. Ria quando o senhor dizia que se fosse um de nós seria bem provável que fôssemos tirar onda com a cara dos sumos sacerdotes Anás e Caifás numa visita de supressa a casa deles ou numa reunião do Sinédrio inteiro, sem não antes passar por Pilatos e Herodes quando fosse se exibir para todo mundo no templo de Jerusalém. Sim, por um tempo essa vitória discreta e com sobriedade tinha todo a ver com quem se dizia manso e humilde do coração. 

Mas, até nisso também não creio mais. Meu filho morreu! E para não ter problemas comigo   nem com ele, de crente que era, já não creio mais. Não sou ateia nem agnóstica. O ateísmo é uma profissão de fé ao inverso e pelo avesso. Eu não professo nem de um jeito nem de outro. Não afirmo nem nego. O agnosticismo, seu padre, é aquela indiferença onde tanto faz deus existir ou não. Pronto, seu padre, não sou ateia nem agnóstica. Não creio e pronto, seu padre, entendeu? Ela perguntou se havia entendido e nem me esperou responder. Foi embora. 

O que posso dizer sobre tudo que ouvi? Essa mulher tem mais fé do que muita gente aí, inclusive eu. Seu relacionamento com Deus é honesto. Talvez tenha sido a pessoa mais crente que já encontrei ou aquela que perdeu a fé e se encontrou de outro modo. Quanto a mim, vou por aqui, na alegria e na agonia da fé. Na consolação e desolação da fé. Nas certezas e nas dúvidas da fé. Nas vias teológicas afirmativa e negativa. 

A via   catafática da revelação, da afirmação e, a via apofática do mistério, da negação. Luz e escuridão. Trevas Luminosas. Essa fé que me enche de força, de amor, de paz, de alegria e de esperança.  Essa fé que me enche de fé. Vou por aqui. As vezes minha fé é tão pequena e tão sofrida, menor do que um grão de areia, que não move montanhas, mas contudo, é a minha fé. Andar com fé eu vou e com todo sentimento e razão, cantar e dançar com Gilberto Gil “Andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá ... a fé tá na maré, na luz, na escuridão ...a fé tá na manhã, a fé tá no anoitecer. Oh, oh, no calor do verão”.

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

segunda-feira, 2 de abril de 2018

PÁSCOA DENTRO E FORA DOS MURO



 por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Jerusalém, por volta do ano 30. O Galileu Jesus de Nazaré fora julgado subversivo.  Perturbava a ordem. Semeava a sublevação desde os começos de seu movimento.  Agora, em Jerusalém, Cidade Santa, era finalmente preso e condenado. Executado na cruz fora dos muros da cidade como acontecia com os malfeitores.

 O silêncio pesava sobre Jerusalém, grávido de tristeza com a morte do profeta que amou os pobres e os pequenos, e falou de Deus como nunca ninguém o tinha feito. E, de repente, o rumor rompeu o silêncio e o mal-estar, falando não de morte, mas de vida.    A vida, as palavras e os gestos do carpinteiro de Nazaré eram semente de vida nova e sua morte dolorosa era força que reunia os dispersos e animava para a luta. A morte não teve a última palavra sobre sua vida santa e fecunda. O amor foi mais forte e venceu a morte pelo poder de Deus. 

El Salvador ano 1980. O arcebispo Oscar Arnulfo Romero se preparava para celebrar sua última missa. Dias antes fizera um retiro onde sentira claramente que a morte o rondava.  Tinha medo.  Mas sabia não poder afastar-se do caminho pelo qual andava. Fora por muito tempo um homem de Igreja piedoso, tranquilo e cheio de bondade. A realidade, porém, o convertera.  E ele sentiu que não poderia mais ser o mesmo.

Começou a denunciar as injustiças e violências cometidas cruelmente em seu país.  Ao mesmo tempo em que os pobres e as lideranças da base eram massacradas, sua voz se levantava.  Suas homilias, ouvidas em todo El Salvador e para fora de suas fronteiras ressoavam fortes e destemidas.  Os pobres se sentiam apoiados e os poderosos tremiam. Ali havia um subversivo que era preciso eliminar.

Em 24 de março de 1980, o coração do arcebispo foi atingido em plena celebração da Eucaristia.  Porém não havia ainda acontecido seu funeral e já multidões acorriam ao seu redor para celebrar a vida que brotava de sua morte.  Figura emblemática e catalizadora de todo o sentir da Igreja latino-americana, Oscar Romero é, hoje, um símbolo e uma testemunha de que a fé e a justiça não podem separar-se.

O Papa Francisco, que já o beatificou, o canonizará como santo da Igreja Católica.  Porém, o salvadorenho arcebispo ultrapassa as fronteiras de sua Igreja e se torna sempre mais inspiração e testemunho para todos aqueles e aquelas que não se conformam com este mundo e dão suas vidas para transformá-lo. 

Após a morte de Monsenhor Oscar Romero, as palavras que pronunciou em vida se faziam realidade: “Se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho”. “Que meu sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança será logo uma realidade.“ O arcebispo assassinado era semente de vida nova.  Ninguém mais poderia calá-lo.

Rio de Janeiro, ano 2018. A vereadora Marielle Franco, após um dia de trabalho e reuniões, preparava-se para voltar para casa.  Dias antes havia denunciado pelas redes sociais o massacre de que estavam sendo vítimas os jovens negros de Acari, bairro da periferia da cidade. Mulher, negra, favelada, a voz de Marielle era cada vez mais ouvida defendendo os direitos humanos e denunciando as injustiças cometidas contra todas as categorias oprimidas em sua cidade e seu país.

Nove balas foram disparadas certeiramente dirigidas à cabeça da jovem vereadora.  Ela morreu na hora assim como seu motorista Anderson. A notícia correu na mídia e nas redes, e parecia apenas mais um assassinato dos que povoam diária e tristemente a agenda carioca.  No entanto, as ruas começaram a encher-se, a ponto de não mais darem conta de tanta gente. O povo chorava a mulher de coragem e fazia apelo a seu exemplo de vida para animá-lo na luta. 

Do Rio, o movimento ganhou o Brasil inteiro e as páginas da mídia estrangeira.  A morte daquela bela e sorridente mulher sacudiu letargias e mobilizou as consciências.  E o lema que se lia e ouvia por toda parte era um só: “Marielle vive”.

Três figuras, intra e extramuros, falam do que é a Páscoa que em poucos dias os cristãos do mundo inteiro celebrarão.  É vida que vence a morte, é morte que dá vida, é amor que faz viver a partir da entrega e da doação ao outro.  Os cristãos veem e creem que em Jesus de Nazaré vivo, morto e ressuscitado, Deus proferiu sua palavra definitiva sobre a humanidade, declarando-a destinada à vida e não à morte.

Muitos mártires cristãos, a exemplo do mestre, seguiram e seguem hoje o gesto de entrega de Jesus.  Experimentam em suas vidas o poder da opressão e da morte que os esmaga.  Tornam-se, porém, mais eloquentes e fecundos depois de mortos. São sementes de vida nova plantadas e frutificadas. Oscar Romero é apenas um deles.

Há, porém, figuras que, de fora dos muros institucionais da Igreja ou da religião, levam em si a luminosidade pascal.  Suas vidas são entregues pelas causas que são da humanidade inteira. E a morte, em vez de ser fim, deslancha um novo começo de esperança e futuro. Assim foi com Marielle Franco, que deu ao desalentado povo brasileiro novo ânimo para seguir lutando pela justiça e os direitos humanos. 

Dentro ou fora dos muros, a Páscoa continua acontecendo. E por isso deve continuar a ser celebrada, já que a vida é que tem a última palavra na dramática e bela aventura humana. 


A teóloga Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de  “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc), entre outros livros.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

CORPUS CHRISTI, O CORPO DENTRO DO CORPO 



Frei Betto



      Na festa de Corpus Christi convém lembrar que há um corpo dentro de um corpo dentro de um corpo. O Universo surgiu há 13,7 bilhões de anos, da explosão inicial, o Big Bang, e continua a se expandir em velocidade constante.
      Há 10 bilhões de anos uma estrela chamada supernova deu origem ao nosso sistema solar. Um fragmento dela, sem calor suficiente para ser considerado estrela, resfriou. Hoje é conhecido como planeta Terra, embora nele haja mais água que terra.

      Sutis combinações ambientais se somaram para permitir, na Terra, o surgimento da vida, há 3,5 bilhões de anos. Em seu processo evolutivo, o pai-universo, que gerou no berço de uma galáxia a ninhada de filhos conhecida como sistema solar, e no qual se destaca a filha Terra, viu irromper, no seio de nosso planeta, o fenômeno vida. Este fenômeno gerou, entre suas variadas manifestações, um ser dotado de inteligência e sede de transcendência conhecido como humano.

      Milênios após o aparecimento do homem e da mulher – olhos e consciência do Cosmo – aparece no Oriente Médio um pregador ambulante que, herdeiro da tradição religiosa hebraica, nos revela que Deus é amor e habita os nossos corpos, templos divinos dotados de irredutível sacralidade.

      Muitos não prestam atenção nas palavras de Jesus. Continuam a procurar a semente fora da árvore. Não percebem que Deus se incorporou nesse nosso corpo, que vive e se alimenta do corpo da Terra, que rodopia em torno do corpo do sistema solar, situado na extremidade do corpo de uma galáxia conhecida pelo belo nome de Via Láctea - uma entre bilhões de colares estelares a se expandir pelo incomensurável corpo do Universo.

      Não perceber que somos todos o corpo místico de Cristo fez a fé equivocada exilar Deus para fora de sua Criação, confundindo transcendência com deslocamento espacial. Essa visão distorcida favorece a perplexidade causada pela notícia de que Craig Venter, cientista estadunidense, criou vida artificial no seio de uma bactéria. Como se Deus fosse o Grande Relojoeiro definido por Isaac Newton.

      Somos dotados de inteligência para desvendar todos os mistérios da natureza - do Big Bang, testado no superacelerador construído entre as fronteiras da Suíça e da França, ao DNA computadorizado da bactéria de Craig Venter. A confusão em que se atola a fé reside no conceito pagão, grego, que valoriza Deus mais como poderoso do que amoroso, mais criador que redentor, mais origem de todas as coisas do que fim para o qual tudo converge, inclusive nossas vidas.

      Os antigos acreditavam que só Deus poderia mudar a noite em dia; até que se inventou a luz elétrica. Só Deus era onipresente; até que se inventou a comunicação eletrônica. Só Deus poderia provocar o apocalipse; até que se inventaram as ogivas nucleares.

      Deixemos de lado a concepção mecanicista de Deus. Ainda que seja criada vida humana em laboratório, a questão permanece a mesma que perturbou a mente de Alfred Nobel quando inventou a dinamite para quebrar pedreiras e viu seu artefato ser usado como arma de guerra: qual o grau de egoísmo ou amor com que lidamos com os bens da Terra e os frutos do trabalho humano?

      Somos como a velha que, no mercado indiano, abaixou a cabeça para procurar algo no chão repleto de lixo. Outros passaram a imitá-la. Até que um jovem indagou: “O que a senhora procura?” “Uma agulha.” “Uma agulha!” “Ora, aqui no mercado há milhões de agulhas à venda e não custam nada.” Muitos já desistiam da busca quando ela acrescentou: “Uma agulha de ouro.” Então, voltaram a abaixar a cabeça e procurar o precioso objeto. O rapaz fez outra pergunta: “A senhora não tem mais ou menos ideia onde a perdeu?” “Tenho sim”, disse ela, “perdi-a em casa.” “Em casa?” retrucou o rapaz. “E nos faz de bobos procurando-a aqui no mercado?” A velha concluiu: “Sim, procuro aqui o que perdi em casa como vocês procuram fora a felicidade que está dentro.”


Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.




Copyright 2016 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. SCORPUS CHRISTI, O CORPO DENTRO DO CORPO  




sexta-feira, 25 de março de 2016

DENTRO DA SEXTA-FEIRA SANTA POLÍTICA UM VISLUMBRE DE RESSURREIÇÃO

por Leonardo Boff

Vivemos politicamente no país uma situação de sexta-feira da paixão: há ódio, dilaceração das relações sociais, riscos de ruptura da ordem democrática e de passagem de uma democracia do direito e das leis para uma democracia da direita e sem leis. Há sinais inequívocos de que este cenário não seja impossível.

É neste contexto que celebramos a festa maior do cristianismo, a páscoa. Ela significa em hebraico, a “passagem” do cativeiro egípcio para a liberdade da terra prometida; metaforicamente, passagem dos turbilhões de uma crise para a paz serena de um Estado democrático de direito.

Foi refletindo sobre o significado profundo da sexta-feira santa   que o jovem estudante de teologia e depois um dos maiores filósofos da história F. Hegel tirou a sua famosa chave de leitura da história e da vida humana: a dialética. Ele via realizada na saga de Jesus a realização destes três passos: vida-morte-ressurreição.

A vida é a tese da positividade. A morte é a antítese da negatividade. A ressurreição é a síntese que incorpora a tese e a antítese numa síntese superior. A ressurreição é mais que a reanimação de um cadáver, como o de Lázaro, pois significaria a volta à vida anterior. A ressurreição é a introdução de algo novo, nascido das afirmações e contradições do passado. Esse “insight” sempre lembrado por ele, foi chamado de a “sexta-feira santa teórica”.

Se bem reparamos, a semana santa, para além de seu caráter religioso, representa um paradigma do processo histórico e da própria evolução. Tudo no universo, nos processos biológicos, humanos e biográficos se estrutura na forma da dialética. O primeiro momento é a tranquila serenidade e paz infinita daquele pontozinho quase infinito de onde viemos (tese). De repente, sem sabermos por quê, ele explode. Produz um incomensurável caos(antítese). A evolução do universo significa um processo de criar ordens cada vez mais altas e complexas que culminam com a emergência do espírito e da consciência (síntese).

Dentro desta síntese, transformada agora em nova tese, carrega sua antítese que desemboca numa nova síntese mais fecunda. E assim corre o devenir da história do universo, das sociedades e de cada pessoa.

Concretizando para a nossa situação atual. O Brasil entrou num processo de crise, cujas causas não cabe aqui referir. De uma situação tranquila( tese) entrou em processo de caos (antítse). Deste caos deve irromper uma nova ordem que possa dar horizonte e esperança ao país (síntese). Precisa-se definir novas estrelas-guia que nos orientem face à crise atual. A crise tem a função de acrisolar, purificar e tornar a todos mais maduros.

A questão toda se resume: quem possui a proposta político-social que supere a crise e crie uma convivência minimamente pacífica? Não será através de fórmulas já testadas e gastas que virá a superação da crise dando centralidade a políticas e a grupos de poder à custa do sacrifício da maioria da população.

Promissora é aquela que realiza para o maior número possível de pessoas um bem-estar mínimo, que lhe garanta trabalho, uma moradia modesta mas digna e lhe crie possibilidades de desenvolvimento e crescimento através da saúde e da educação sustentáveis. Em todo esse processo dialético há a experiência de vida, de morte e de transfiguração; de ordem, desordem e nova ordem; de tese, antítese e síntese. A complexidade segundo E. Morin se estrutura nesta dialética que é a da semente: ”se o grão de trigo, caindo na terra não morrer, ficará só, mas se morrer, produzirá muito fruto”, como disse o Mestre.

Hoje a natureza, a humanidade e nossa sociedade vivem sob pesada sexta-feira santa ameaçadora.

A nossa esperança é que este padecimento se ordene a uma radiante transformação. O corrupto seja punido e o que politicamente se fez errado seja corrigido. Importa definir um rumo que de certa forma já foi apontado. Se o rumo estiver certo, o caminho pode conhecer subidas e descidas mas ele nos leva ao destino certo: a uma nova ordem de convivência onde não seja tão difícil tratarmos a natureza com compaixão e nossos próximos com humanidade e com cuidado.

Leonardo Boff é autor de Paixão de Cristo-paixão do mundo. Vozes 2002.