O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador olhos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador olhos. Mostrar todas as postagens

sábado, 12 de dezembro de 2020

ELA CHEGOU BEM PERTO DE MIM, OLHOU BEM DENTRO DE MEUS OLHOS, NO CAROÇO DOS MEUS OLHOS

 Pe Fabio Potiguar dos Santos

Ela chegou bem perto de mim, olhou bem dentro de meus olhos, no caroço dos meus olhos – aquela parte onde tem um frecha, uma brecha, uma janela, uma porta para alma- e disse, bem baixinho, quase sussurrando, mas como se fosse um grito: “Não, Deus não existe! É somente uma poesia para suportar esta vida de muita dor.

 Seja o Tupã ou Guaracy dos índios, seu padre! Também o Montubá ou Olorum dos orixás trazidos pelo sofrido povo da África é também só poesia. O senhor gosta de poesia, não é mesmo, seu padre? Tão pouco esse Deus de Abraão em que creem os judeus, cristãos e muçulmanos. Odeio esse seu Deus cristão católico, só menos perverso ao das seitas fundamentalistas dos pentecostais. 

Seu Deus, seu padre, é uma droga, uma maconha, um ópio. Acreditar nele é dá um atestado de que não passa de um sarcástico, um impotente, um malvado assistindo de sua mais alta tecnologia celestial o drama, a tragédia e a comédia da existência humana. Professar minha fé em qualquer um deles, seja daqui do Ocidente ou as deidades hindus ou a mística budista é o mesmo que confessar que ele matou meu filho com os tiros de balas perdidas. 

Então deixa-o de fora. Assim não terá mérito nem culpa. Ainda quando cria não pedia nem agradecia pelas chuvas. Se não chovesse, sabendo Deus o que isso significa para um sertanejo, então ele é muito mau. Se chovesse, então ele é bom? Decidi que era uma questão climática e não religiosa e pronto. Fale alguma coisa, padre! Fale alguma coisa, desde que não seja essa outra poesia sua de que Deus é um Deus Humilde e Sofredor de suas homilias, dos seus artigos, do seu livro. 

No começo até que gostei da ideia, dessas suas palavras de um Deus não caricato nas missas e cultos cheios de ostentação mundana, profana, pagã, luxuosa, cafona. No começo até gostei desse Deus na terra com jarra, bacia e o toalhas nas mãos e nos céus de bandeja e avental.  Sim, no começo até gostei de ouvir o senhor   falar de um Deus que sofre conosco e em nós, carne de nossa carne de agonia e prazer. Um Deus mais solidário do que poderoso. Também era interessante a vitória desse Deus depois de crucificado e morto, vencer sem revanches, de triunfar sem triunfalismos. Ria quando o senhor dizia que se fosse um de nós seria bem provável que fôssemos tirar onda com a cara dos sumos sacerdotes Anás e Caifás numa visita de supressa a casa deles ou numa reunião do Sinédrio inteiro, sem não antes passar por Pilatos e Herodes quando fosse se exibir para todo mundo no templo de Jerusalém. Sim, por um tempo essa vitória discreta e com sobriedade tinha todo a ver com quem se dizia manso e humilde do coração. 

Mas, até nisso também não creio mais. Meu filho morreu! E para não ter problemas comigo   nem com ele, de crente que era, já não creio mais. Não sou ateia nem agnóstica. O ateísmo é uma profissão de fé ao inverso e pelo avesso. Eu não professo nem de um jeito nem de outro. Não afirmo nem nego. O agnosticismo, seu padre, é aquela indiferença onde tanto faz deus existir ou não. Pronto, seu padre, não sou ateia nem agnóstica. Não creio e pronto, seu padre, entendeu? Ela perguntou se havia entendido e nem me esperou responder. Foi embora. 

O que posso dizer sobre tudo que ouvi? Essa mulher tem mais fé do que muita gente aí, inclusive eu. Seu relacionamento com Deus é honesto. Talvez tenha sido a pessoa mais crente que já encontrei ou aquela que perdeu a fé e se encontrou de outro modo. Quanto a mim, vou por aqui, na alegria e na agonia da fé. Na consolação e desolação da fé. Nas certezas e nas dúvidas da fé. Nas vias teológicas afirmativa e negativa. 

A via   catafática da revelação, da afirmação e, a via apofática do mistério, da negação. Luz e escuridão. Trevas Luminosas. Essa fé que me enche de força, de amor, de paz, de alegria e de esperança.  Essa fé que me enche de fé. Vou por aqui. As vezes minha fé é tão pequena e tão sofrida, menor do que um grão de areia, que não move montanhas, mas contudo, é a minha fé. Andar com fé eu vou e com todo sentimento e razão, cantar e dançar com Gilberto Gil “Andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá ... a fé tá na maré, na luz, na escuridão ...a fé tá na manhã, a fé tá no anoitecer. Oh, oh, no calor do verão”.

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

quarta-feira, 18 de julho de 2018

08 DE JULHO de 2018: OS OLHOS DE MILHÕES SE ABRIRAM NESTE DOMINGO



Por Artur Peregrino*

Acabo de chegar de uma peregrinação (de 01 a 08 de julho) no Baixo São Francisco, Estado de Sergipe. Éramos 10 peregrinas e peregrinos que caminhamos em um raio de 100 quilômetros em direção a foz do Rio São Francisco. Escutamos muito a população. No que toca a questão da prisão de Lula é impressionante. Ainda na estrada percebi uma vibração do povão, pé no chão, que vibrou com a possibilidade de Lula ser solto. A vibração não vinha de estudantes universitários ou militantes. Mas vinha do povo “lascado”. Vimos claramente que os pobres não abandonaram Lula.

Com o episódio que assistimos nesse domingo percebemos que no Brasil, a Justiça e o direito perderam muito neste processo. Tivemos mais um abusivo desrespeito ao devido processo legal e aos direitos e garantias individuais. Ficou escancarada a manipulação do sistema judicial contra um cidadão. Lula não saiu, mas está maior ainda na sua luta contra o arbítrio e a injustiça.

Alguns juízes abandonaram todos os princípios da magistratura, rasgaram a toga e golpearam fortemente e mais uma vez o frágil estado democrático de direito no país. E isso tudo acontecendo com o STF assistindo de camarote. Se alguém, das pessoas que acompanha minimamente a política, tinha dúvida que estamos vivendo o reino da mais completa arbitrariedade agora não tem mais dúvida. Fica muito claro que estamos vivendo um golpe sem máscaras. O golpe é um ato de violação aos direitos básicos do povo. E que está se concentrando    em um dos maiores líderes populares da história do Brasil.

O país se incendiou nesse domingo com a decisão do desembargador Rogério Favreto. As elites não aguentam ver Lula solto. Foi ficando claro que a decisão do desembargador não se concluiu por questão política. O caso do juiz Moro (juiz de primeiro piso) é de insubordinação judicial. É um claro descumprimento de regras judiciais. É algo profundamente escandaloso. Aprofundou-se uma fissura histórica no âmbito das instituições.

Hoje há uma anarquia do poder judiciário no Brasil. Isso porque um juiz de primeira instância manda no país, manda no judiciário e manda na polícia federal. Manda desobedecer uma ordem de hierarquia superior. Estão brincando de atirar fogo no país.

Estamos vivendo uma violenta ilegalidade jurídica. A constituição brasileira está sendo pisoteada. Pisotearam o que restava do sistema de justiça. Claramente o Brasil vive sobre um regime de exceção. O regime de exceção numa ditadura aberta está em curso no Brasil. Estamos vivendo um tipo de ditadura do século XXI. O golpe de 2016 arrebentou a Carta Magna de 1988 e está destruindo o estado democrático de direito que já se encontra em um estado avançado de destruição.

O que percebemos é que as condições políticas que determinam a hegemonia das forças conservadoras, seja no aparato do Estado ou seja no sistema de justiça, estão se deteriorando com muita rapidez. O que é o Partido do Golpe?

O Partido do Golpe é formado de cinco fatores: a. pelos partidos tradicionais de direita, sobretudo o DEM e o PSDB; b. pelo capital financeiro; c. pelos meios monopolistas de comunicação (da grande mídia opressiva); d. pelo sistema de justiça; e. pelo imperialismo norte americano. A confluência desses cinco fatores é clara: tem que tirar Lula do páreo eleitoral. Por isso é correto não abrir mão da candidatura do Lula em quaisquer circunstâncias.

Quais são as forças que querem manter Lula preso? Até que ponto o sistema jurídico brasileiro pode suportar a sua completa desmoralização? O medo do Lula não é outra coisa a não ser ver o Brasil, de novo, ser governado para os menos favorecidos, para os miseráveis, para os invisíveis.

Importante destacar que a Fundação Internacional dos Direitos Humanos, organismo não-governamental sediado em Madri (Espanha) com presença em 15 países, emitiu uma declaração no domingo (8) em que diz que passa a considerar o ex-presidente Lula como “prisioneiro de consciência” em razão do não cumprimento do habeas corpus concedido pelo desembargador. Essa percepção já se alarga no mundo: Lula é um prisioneiro político. A farsa foi descoberta: o caráter político da prisão de Lula que não tem nenhuma base jurídica. Esse acontecimento ajudou milhões de pessoas abrirem os olhos. No Brasil, a democracia precisa ser reinventada. O Papa Francisco ao reunir-se com os movimentos sociais latino-americanos em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia, lançou um desafio: não esperem nada de cima pois virá sempre mais do mesmo; sejam vocês mesmos os profetas do novo, organizem a produção solidária, especialmente a orgânica, reinventem a democracia.



* Doutorando em Ciências da Religião pela UNICAP e Mestre em Antropologia pela UFPE; Licenciado em Filosofia pela UNICAP; Bacharelado em Filosofia pela UNICAP e Bacharelado em Teologia pelo Instituto de Teologia do Recife - ITER; Especialista (SENAC) e docente (UNICAP) em EaD; prof. do Curso de Teologia na UNICAP e integrante do Instituto Humanitas - IHU UNICAP; prof. Extensionista; pesquisador do Grupo de pesquisa UNICAP/CNPq Religiões, identidades e diálogos, na linha de pesquisa Diálogos inter-religiosos; membro do Grupo de Peregrinas e Peregrinos do Nordeste – GPPN. Email: arturperegrino@gmail.com

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Os olhos da mulher amada

Por Assuero Gomes
 
São como lagos. Transparentes mas profundos. Refletem, um, a luz do sol mais luminoso, outro, a lua misteriosa e algumas estrelas fugidias.

Ao primeiro olhar, descuidado talvez, possa parecer sua plena beleza como sendo esta, apenas o brilho emprestado do sol ou roubado de algumas estrelas e da lua. Mas, os olhos da amada são mais profundos.

... mas, os olhos da amada são mais profundos. Eles externam a alma guardada em segredo, à espera do viajante definitivo, aquele que desvendará esses lagos, abaixo da superfície.

Verá que ora transbordam ora secam, conforme as marés interiores, com seus fluidos e ritmos próprios, pulsantes.

O amante perceberá, apenas olhando, que mares navegar ou respeitar, quando atracar sua embarcação fugindo da tormenta ou quando se aventurar em busca da noite mais serena.

Os olhos da mulher amada podem mostrar a mais bela das auroras ou o por do sol suave, e ainda assim guardar segredos, podem ainda, deixar se ouvir a melodia dos anjos ou o silêncio de uma oração.

Quanta ternura poderá derramar esses lagos, em lágrimas delicadas ou quanta dor poderão guardar numa aridez intrigante? Se a boca detém o véu mais inexpugnável de uma mulher, seus olhos são traiçoeiros para si mesma, pois revelam seu espírito, impudicamente.

Os olhos da mulher amada carregarão a imagem do seu amado, submersa nas águas profundas dos seus lagos, para que, mesmo que reflitam lugares distantes, países diversos, estações outonais, ele, seu amado, esteja guardado junto a si.

Quem mais perscrutou os olhos das mulheres, numa busca infinita por tesouros submersos, foi Amedeo Modigliani. Encontrou-os nos olhos de Jeanne Hébuterne, e nunca mais se perdeu; mas foi ela, e somente ela, quem encarnou a alma dos olhos da mulher amada à perfeição, na louca radicalidade de um amor total, vivido às últimas consequências. Um amor cego, sem concessões ou dúvidas. Um amor trágico como um vendaval. Como um punhal em brasa penetrando a carne branca e dilacerando um coração escafandro, submerso nas lágrimas de um lago inexpugnável.

Os olhos da mulher amada são ainda como faróis resplandecentes, que emprestam à luz da lua, uma beleza suave e estejam onde estiverem, irradiam sua claridade aos olhos do amado.

Espelhos de cristais de açúcar, são escudos de desventuras e tristezas, filtros insones de imagens náufragas, íntimas imagens náufragas.

Olhos de ver por dentro, olhos de oásis e tempestade. Olhos de vida.

Assuero Gomes


Médico e escritor

 ARQUIVO DE TEXTOS - CLIQUE PARA ACESSAR TEXTOS ANTERIORES AO BLOG