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domingo, 25 de julho de 2021

MULHER NEGRA DE ONDE VEM?

 


Shirley Pinheiro 

 

Vem das lutas pela igualdade,

 das guerrilhas pela paridade.

Das lágrimas  contidas em busca de preservar sua vida.

Vem das fábricas, vem das lavouras, dos balcões, vem das escolas, das Universidades também.

Vem desbravando preconceito,

nunca teve outro  jeito!

Não  é  teu cabelo que te define,

Muito menos a cor escura da pele.

É  tua alma sonhadora,

Ferrenha  lutadora.

Buscando com unhas, dentes  e garras,

O espaço  que lhe  é  de direito.

Direito sim ,porque não!

Afinal antes de ser negra.

Você  e  eu ,somos seres  humanos.

Criado do mesmo barro e pelo mesmo Criador.

Viemos a este espaço  terrestre,

Pra ser feliz e,não  sentir dor.

No entanto vivemos na guerra insana e desumana,

Criado por aqueles  que se acham senhor.

A luta será  continua,  não nos deixaremos  ser vitimas,

Nem permitiremos  ter a vida ceifada.

Pois além  de sermos mulher,

 e ter a pele negra, carregamos

 nas nossas entranhas, a herança  das nossas ancestrais.

As negras, que nunca se deixaram morrer,

Lutaram para continuar a viver.

Através  de nós

através  de você.

Mulher negra!

 

Shirley Pinheiro  25/07/2019

 

Em homenagem a Mulher  Negra  e Caribenha através  de Tereza de Benguela.

 

*Arte Lana Furtado

terça-feira, 19 de novembro de 2019

UNIÃO E RESISTÊNCIA NEGRA




Por Marcelo Barros

No Brasil, essa semana é marcada pela memória do martírio do Zumbi dos Palmares no 20 de novembro de 1697 e pela comemoração dessa data que, em todo o país, se tornou “Dia da união e consciência negra”.  A comemoração anual da memória do Zumbi é importante em um Brasil que ainda mantém a herança de forte desigualdade social. Atualmente, o Brasil é o país com a segunda maior população negra do mundo (Só perde para a Nigéria). No entanto, essa população continua a ser majoritariamente pobre e explorada. No seu livro Escravidão, Laurentino Gomes afirma: “Negros e pardos representam 54% da população brasileira, mas sua participação entre os 10% mais pobres é muito maior de 78%. Na educação, enquanto 22% da população branca tem 12 anos de estudo ou mais, a taxa é de 9, 4% para a população negra. Em 2016, o índice de analfabetismo entre os negros era de 9, 9%, mais que o dobro do índice entre os brancos” . Isso mostra que, na realidade brasileira, ser negro é quase sinônimo de ser pobre e ter menos acesso à escolaridade e ás condições sociais de outros brasileiros.

O Brasil foi o último país da América Latina a abolir oficialmente a escravidão. No entanto, organismos da ONU reconhecem que, atualmente, existem no mundo milhões de pessoas em situação de escravidão. Em nosso país, há latifúndios no campo e fábricas nas periferias urbanas que exploram pessoas como se fossem escravas.

Para que, no decorrer da história, uma tragédia como a escravidão tenha se mantido durante tanto tempo, não bastaria a força de armas. A escravidão não se sustentaria se, além da estrutura econômica e da força das armas que a impunham, não houvesse uma cultura racista e discriminatória que a legitima. Infelizmente, até hoje, essa cultura ainda persiste em certos ambientes. Por isso, é importante lutarmos pela igualdade social e dignidade de todas as pessoas.

A unidade das raças e a igualdade entre os seres humanos supõe que cada cultura e cada povo tenha consciência de sua dignidade. Chama-se “consciência negra” o fato das pessoas afro-descendentes assumirem sua identidade cultural, conscientes do imenso valor de sua cultura, para contribuir com as outras na riqueza intercultural do Brasil.

Por isso, é preciso lutarmos para que, no Brasil, se mantenham ou sejam retomados  os programas que fomentam a igualdade de condições e a integração social de negros e brancos. Conforme a Constituição Brasileira, devem ser respeitadas e valorizadas as comunidades remanescentes de Quilombos. São grupos que, desde os tempos da escravidão, reúnem negros, seus aliados e descendentes, em uma comunidade com cultura e valores próprios. Eles devem ter direito à terra coletiva e merecem das autoridades públicas a proteção e o apoio necessários. Estas comunidades estão organizadas em quase todos os estados e somam mais de dois mil grupos e comunidades. Algumas delas mantêm elementos de idioma, de danças e costumes ancestrais que são de uma riqueza incalculável para todo o Brasil.    

Uma das mais profundas riquezas das culturas afro-descendentes é a espiritualidade viva e bela das comunidades negras. A Mãe África permanece viva e atuante na memória religiosa dos seus filhos e filhas. Para ser escravas nos diversos países da América, foram seqüestradas pessoas de diferentes áreas do continente africano. Apesar de todas as dificuldades e repressões, os afrodescendentes conseguiram manter as suas línguas, contar a seus filhos as histórias dos seus antepassados, guardar as canções da Mãe-África e reconstituir muitas expressões culturais e religiosas. Só podiam cultuar à noite, enquanto os brancos dormiam. Como objetos de culto, só possuíam seus corpos, suas vozes e os terreiros das senzalas, seus templos. Foram obrigados a adaptar antigos costumes da África às novas condições de clima, ao pouco tempo livre de que dispunham e à sua extrema pobreza. Fundiram costumes religiosos, adaptaram mitos e elaboraram oralmente uma explicação religiosa do mundo e da sua história. Esta teologia narrativa deu origem a religiões novas como o Candomblé, o Batuque, o Tambor de Minas, a Santeria cubana e o Vodu haitiano. Durante séculos, de geração em geração, se transmitiram ritos, cânticos e histórias ancestrais.

Infelizmente, por todo o Brasil, se espalham fenômenos de ataques e violências contra templos e cultos das religiões afrodescendentes. E o mais chocante é que essas expressões de ódio e intolerância são cometidas por cristãos que afirmam agir em nome de Jesus Cristo. É preciso deixar claro: Uma fé cristã  e uma Igreja, testemunha de que Deus é amor e inclusão, não pode deixar de respeitar e valorizar as outras religiões e tradições espirituais. Na história, as religiões afrodescendentes foram responsáveis pela resistência dos nossos irmãos e irmãs negras em meio a um sofrimento intenso e continuado. Por isso, apoiá-las e se solidarizar com elas é questão de justiça.

A base da fé cristã é que a Palavra divina se fez carne e se revelou no meio de nós através da pessoa de Jesus de Nazaré que assumiu toda a condição humana e todas as culturas com seus valores para revelar em tudo o que é humano a presença divina. Nós somos chamados a continuar este caminho de reverência amorosa e delicadeza no diálogo e na colaboração com as outras religiões e culturas.


 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br   


  

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Maria Aparecida Negra



Por FREI BETTO

       O papa Francisco passou a manhã de quarta-feira no santuário nacional de Aparecida. A liturgia da missa que celebrou girou em torno de três textos bíblicos “feministas”, extraídos do Livro de Ester (5, 1b-2; 7, 2b-3), do Apocalipse (12, 1 e 5 e 13a e 15-16a) e do Evangelho de João (2, 1-11).

     A escolha se explica por ser Aparecida um santuário mariano. Lembro de um encontro de Comunidade Eclesial de Base, na periferia de São Paulo, quando Tadeu, mecânico, comunicou que não participaria da próxima reunião porque iria com a família à Aparecida. Houve quem torcesse o nariz e estranhasse um adepto da Teologia da Libertação frequentar um santuário de religiosidade popular. Tadeu não se fez de rogado: “Sou devoto de Nossa Senhora Aparecida, porque ela é da cor de minha mãe, da minha, da minha mulher e de meus filhos.”

     Tadeu fez uma leitura libertadora da padroeira do Brasil, cuja imagem foi encontrada no Rio Paraíba, em 1717, por três pescadores. Em uma sociedade escravocrata colonizada pelo reino de Portugal, no qual reis e rainhas eram todos brancos, disseminar a devoção a uma negra, rainha do céu, mãe de Deus, constituía uma forma de afirmar a dignidade das escravas vítimas da luxúria e da crueldade de seus senhores.

     Os poderosos procuraram se “apropriar” de Nossa Senhora Aparecida. A 8 de setembro de 1822, um dia após a independência, D. Pedro I a declarou “padroeira do Brasil”. É curioso que o título tenha sido concedido pelo imperador, e não pela Igreja. E a 6 de novembro de 1888, a princesa Isabel ofertou à imagem a coroa de ouro cravejada de rubis e diamantes e o manto azul bordado em ouro e pedrarias.

     As autoridades eclesiásticas, que sempre relutam frente às devoções populares, apenas em 1894 enviaram ao santuário os padres redentoristas, 177 anos depois de a imagem de Maria “aparecer”.

     Quando Bergoglio visitou Aparecida pela última vez, em maio de 2007, para participar da reunião de todos os bispos da América Latina, ele foi o único prelado estrangeiro a comparecer à missa das Comunidades Eclesiais de Base, em um domingo pela manhã. 

       Não se pode afirmar que o novo papa é um adepto da Teologia da Libertação. Tudo indica, porém, que não fará objeção a ela, ao contrário de seus dois antecessores. Prova disso é que, em abril, tirou da gaveta o processo de canonização de Dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, assassinado pelo Esquadrão da Morte em 1980 e considerado um ícone da Teologia da Libertação.

     Logo após a homilia de Francisco na missa em Aparecida, veio a Oração dos Fiéis. A primeira reforçou a “opção pelos pobres”, tão enfatizada pelos católicos progressistas: “”Pela Igreja, para que seja sempre comprometida com a vida do nosso povo, especialmente dos mais fracos, pequenos e pobres.”

     Após a celebração, Francisco abençoou, no seminário de Aparecida, a imagem de frei Galvão (1739-1822), o primeiro brasileiro a ser declarado oficialmente santo, embora a devoção popular já tenha “canonizado” padre Cícero (1844-1934), que ainda hoje não é reconhecido por Roma como cristão exemplar. A imagem de frei Galvão seguiu posteriormente para Guaratinguetá, onde ele nasceu.

     De volta ao Rio, o papa visitou o Hospital São Francisco de Assis, onde teve contato com um projeto de recuperação de dependentes químicos.

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros. http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

 Copyright 2013 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)