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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A ESCRAVIDÃO. UMA REFLEXÃO HISTÓRICA POR OCASIÃO DA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL NO BRASIL EM 28 DE OUTUBRO DE 2018





Por Eduardo Hoornaert

Em seu livro ‘A elite do atraso, da escravidão à Lava Jato’ (Leya, Rio de Janeiro, 2017), o sociólogo e historiador Jessé Sousa faz uma impiedosa anatomia da história do Brasil, como comprova o subtítulo do trabalho: ‘um livro que analisa o pacto dos donos do poder para perpetuar uma sociedade cruel, forjada na escravidão’. Para muitos, imagino, as palavras de Jessé Sousa soam ofensivas e até brutais. Mas, será que elas são falsas e devem ser rejeitadas sem mais nem menos? Eis o que pretendo considerar com você no texto que se segue.

1. O modo em que Jessé Sousa se expressa pode ser chocante, mas se baseia em séria pesquisa histórica. Dizer que a sociedade brasileira continua fundamentalmente marcada pela escravidão é uma afirmação de inconfundível veracidade histórica. Durante quatro séculos, os colonizadores portugueses se apoderaram de milhões de habitantes da África e os transportaram ao Brasil (os números comumente avançados são de aproximadamente 4.000.000 de pessoas) para se aproveitar de seus serviços em diversos projetos econômicos (cana de açúcar, minas de ouro, café etc.) e serviços caseiros. Em consequência disso, a ‘escravidão’ (como Jessé Sousa costuma dizer) se tornou constitutiva do modo brasileiro de se viver em sociedade. Ela se perpetua até hoje, dos mais variados modos, malgrado determinados gestos formais como a Abolição da Escravatura no ano 1887, a Declaração dos Direitos Humanos em 1948 ou a mui tardia e ocultada condenação da escravatura pela Igreja Católica em 1965 (numa passagem nos documentos do Concílio Episcopal Vaticano II). Pode-se dizer que ela continua sendo a ‘marca registrada’ do Brasil. O que escrevo aqui pode parecer estranho, mas basta observar atentamente a vida diária para detectar comportamentos que só se explicam recorrendo à herança constitutiva da escravidão na formação do país. As empregadas domésticas, por exemplo, bem cedo de manhã, enchem os ônibus nas cidades brasileiras. Enfim, estamos diante de uma escravidão comumente ocultada e silenciada.

2. A história multimilenária da escravidão, desde os antigos impérios dos caldeus, assírios, babilônicos, persas, egípcios, helenistas e romanos, até os sistemas modernos oriundos da colonização europeia, demonstra que a escravidão tanto vitima os escravos quanto seus amos. É relativamente fácil detectar a vitimação dos primeiros na falta de autoestima, na obediência serviçal, na mentalidade de submissão e na quase impossibilidade de lutar por direitos humanos básicos. Resulta mais difícil perceber que os beneficiados pelo sistema igualmente atingidos em sua dignidade, autoestima e sua capacidade de encarar a realidade como ela é. Mesmo espíritos que, no passado, se destacaram por sua inteligência, experimentavam dificuldades em visualizar a escravidão com objetividade. Platão se limita a escrever que ‘uns nascem livres, outros escravos’, Aristóteles fala em ‘escravos por natureza’ e mesmo o grande teólogo cristão Agostinho afirma que a escravidão é ‘fruto do pecado’. Nos raros textos antigos alusivos à escravidão, o tema da inferioridade ‘congênita’ do escravo aparece invariavelmente. Aqui chamo a atenção, de passagem, para a originalidade da postura de Jesus de Nazaré que, vivendo numa sociedade escravocrata, não só toma partido pelos escravos mais os exorta a lutar por seus direitos (As ‘bem-aventuranças’).

3. É nessa história de longa duração que o Brasil se insere. Os ‘explicadores do Brasil’, desde os pioneiros dos anos 1930 (Gilberto Freyre) até os mestres professores dos anos 1950 (Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Prado e outros), abordam, como não podia deixar de ser, a temática da escravidão. Eles apresentam saídas, e vale a pena averiguar em que elas consistem. O primeiro grande explicador do Brasil é o pernambucano Gilberto Freyre, que em 1936 publica o livro ‘Casa Grande e Senzala’. O valor do livro consiste em confrontar o brasileiro com a identidade binária que caracteriza sociedades escravocratas: Casa Grande e Senzala. Esse brasileiro contempla o mundo a partir da Casa Grande ou a partir da Senzala. Não há meio termo. A narrativa de Freyre penetra fundo. Assim, por exemplo, o autor observa que o sistema só se sustenta por uma sutil combinação entre ‘bondade’ e crueldade. A paz, no domínio, só é garantida quando o Senhor da Casa Grande consegue, ao mesmo tempo, ostentar bondade e tranquilidade e reprimir impiedosamente qualquer sinal de revolta por parte da Senzala. A revolta na Senzala ameaça o desabamento do sistema todo. Daí se compreende que o ódio ao escravo é constitutivo da estrutura política e social do Brasil, como bem entendeu o abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco (final do século XIX) quando escreveu: ‘a bondade dos senhores não é outra coisa senão a submissão dos escravos’. A explicação de Gilberto Freyre ainda hoje é atual. Ela descreve a vida no país de modo simples e convincente.
De outro lado, o mestre pernambucano se embrulha quando pretende apontar uma saída no sentido de ‘conciliar’ Casa Grande e Senzala. Ele tira da manga o slogan ‘democracia racial’. O abismo entre senhores e escravos se elimina por meio de um modo originalmente brasileiro de ‘democracia’, uma democracia entre raças e culturas, uma ‘miscigenação’. Aqui, em contraste do que se observa nos Estados Unidos, brancos não convivem pacificamente com negros? O Brasil não é um país em que os conflitos sociais inexistem, por força da mestiçagem e da peculiaridade de uma ‘civilização luso-tropical’? O Brasil não é um país que desconhece revoluções e movimentos violentos? Um país pacífico por natureza?
Hoje, as tensões políticas e culturais desmentem a tese freyriana da ‘democracia racial’. O celebrado autor pernambucano, ao querer solucionar o dilema brasileiro, nada mais fez que varrer o potencial violento do pais em baixo do tapete.

Vinte anos após Gilberto Freyre surge em São Paulo uma nova escola de ‘explicadores do Brasil’, desta vez na prestigiosa Universidade de São Paulo (USP), modelo inconteste, durante décadas, do ensino superior brasileiro. O ponto de partida é a ideia do ‘desenvolvimento’, em franca ascensão por todo o Ocidente nos anos das descolonizações, cuja plausibilidade se assenta em duas premissas. De um lado, ela tranquiliza os antigos colonizadores (os europeus), e do outro lado apresenta uma saída plausível aos países que se libertaram da colonização e que agora se tornam ‘subdesenvolvidos’ ou, num linguajar mais elegante, ‘em vias de desenvolvimento’. A partir dos anos 1950 e por longas décadas, a ideologia desenvolvimentista ganha corações e mentes. Acolhido pelos intelectuais da USP, ele suscita uma nova geração de explicadores do Brasil, como Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Prado e outros, cujas ‘explicações’ entram que nem uma luva no modo em que 20 % dos brasileiros (os capacitados a se ‘desenvolver’) gostam de ver o mundo. Enquanto isso, não se tem nada a oferecer aos 80 % da população, a imensa maioria que não tem a mínima condição de participar da festa do desenvolvimento por falhas básicas em termos de conhecimento, condição financeira, capacidade de investir em algum negócio produtivo e lucrativo, etc.
Os professores da USP, afinal, terminam se metendo no mesmo impasse em que Gilberto Freyre já se meteu décadas antes, no momento em que procuram responder à pergunta: como se opera a convivência entre classes sociais tão divididas econômica e culturalmente? Sérgio Buarque de Holanda, autor do famoso livro ‘Raízes do Brasil’, avança a imagem do ‘homem cordial’, na realidade uma reedição e adaptação do tema da ‘democracia racial’ de Gilberto Freyre: o brasileiro é ‘cordial’, supera os problemas por sua capacidade de comunicação para além de fronteiras sociais, econômicas e culturais, sua empatia e simpatia. Como Gilberto Freyre nos anos 1930, Sérgio Buarque, nos anos 1950-1960, varre o problema em baixo do tapete, tapa o buraco por meio de uma expressão que não diz nada: ‘o homem cordial’.

4. A atual agitação em torno da eleição presidencial de 28 de outubro de 2018 demonstra que o brasileiro não é tão ‘cordial’ como Sérgio Buarque diz, nem tão ‘democrata’ como Gilberto Freyre supõe. Não há mais como varrer problemas não resolvidos em baixo do tapete. Eis o sentido histórico desta eleição. Hoje fica claro: há de se enfrentar os problemas que o país enfrenta, sem subterfúgios.
Talvez esteja na hora de aprender com a experiência de outras nações que, embora em situações bem diferentes das brasileiras, passaram ou passam por dificuldades de convivência.
O historiador alemão Eugen Rosenstock-Huessi (1888-1973, veja Internet) tirou uma importante conclusão dos sofrimentos que afetou inúmeras pessoas na época do surgimento do nazismo nos anos 1930. Ele chegou a afirmar que o sofrimento constitui um componente fundamental da aprendizagem humana. Numa conferência por ele pronunciada em 1967, ele afirmou de modo bastante radical: ’o ser humano aprende sofrendo. O sofrimento é a única fonte de sabedoria, não o cérebro’. E argumentou: ‘Descartes resolveu escrever por causa dos horrores da Guerra dos Trinta Anos, Kant se tornou filósofo sob o impacto da Guerra dos Sete Anos, Schopenhauer passou a refletir nos campos de batalha de Napoleão e Nietzsche emergiu como pensador durante a guerra entre a França e a Prússia’. A partir de considerações desse tipo, Rosenstock escreveu um ensaio intitulado ‘As revoluções europeias e o caráter das nações’, no qual defendeu a tese que um país só se torna um bom lugar para se viver após ter praticado ‘sua revolução’. Ele citou exemplos como o da Inglaterra do século XIV, quando se resolveu criar, ao lado da tradicional ‘House of Lords’ (parlamento dos donos das terras), a ‘House of Commons’ (parlamento de gente comum). A Inglaterra se tornou um país onde era bom viver a partir do momento em que os senhores das terras começaram a dialogar com seus trabalhadores. A França fez sua famosa revolução republicana no final do século XVIII, quando o ‘tiers état’ quebrou a tradicional hegemonia da nobreza aliada ao clero. Na Alemanha, a imensa catarse provocada pela Segunda Guerra Mundial fez com que o lema ‘Deutschland über alles’ (Alemanha acima de tudo) fosse substituído por ‘Wir schicken das’ (‘nós resolvemos isso’: palavras recentes de Ângela Merckel diante do problema da imigração). Hoje, a Alemanha é um dos países mais democráticos do mundo. Na Bélgica, os flamengos, de língua e cultura germânica, têm de conviver com os valões, de língua e cultura latina. Queiram ou não queiram, pois não há outro jeito. Na Espanha, Bascos e Catalães passam atualmente pela dura prova de uma convivência nacional em torno de Madrid, pois sabem que o separatismo não resolve nada. E assim por diante. Cada país tem seus problemas é só se torna um lugar bom de se viver quando enfrenta honestamente seus problemas e encaminha racionalmente uma solução, embora, diga-se de passagem, essa sempre seja de caráter provisório. Em outras palavras, segundo o modo de pensar de Rosenstock: há de se optar por sofrer menos, ou seja, por resolver os problemas do país com um mínimo possível de sofrimento. Infelizmente, a história demonstra que a humanidade nem sempre se mostra capaz de optar pelo menor sofrimento. A história da Europa, nos últimos trezentos anos, que o diga: após a Guerra dos Trinta Anos veio a Guerra dos Sete Anos, depois a Guerra franco-prussiana, a Primeira Guerra Mundial e logo em seguida a Segunda Guerra Mundial.

5. Hoje, no Brasil, não dá mais para ocultar o sol com a peneira. As fórmulas mágicas de um passado recente (‘homem cordial’, ‘democracia racial’, ‘Brasil não violento’, ‘Deus é brasileiro’, ‘país do futuro’) não funcionam mais. Os donos do poder, por meio de seus instrumentos comunicativos, espalham apreensões e temores, preconceitos e mentiras, ódios e repulsas, simpatias e antipatias, com o intuito de lançar as pessoas num labirinto de opiniões e sentimentos donde não conseguem mais sair. Um labirinto de mensagens confusas, frequentemente contraditórias, emanadas de sistemas de comunicação em massa que que têm como finalidade conseguir que as pessoas não consigam ver com seus próprios olhos e pensar com sua própria cabeça. Pessoas ingênuas, confusas, cheias de ‘verdades’.
De outro lado, a própria tensão política do momento parece indicar que o Brasil esteja iniciando um ‘processo civilizador’. Não escrevo ‘civilizatório’, que é coisa bem diferente, como se explica no livro ‘O Processo civilizador’, da autoria de Norbert Elias, cuja leitura aconselho vivamente. Para além de atitudes, opiniões e explicações tradicionais, esse processo repousa sobre uma dinâmica positiva na mente humana, que a impulsa à melhor convivência e vida mais satisfatória em sociedade. Uma dinâmica que, no caso do Brasil, impulsiona a convivência entre os 80 % e os 20 % dos quais falei acima.
Ora, processos civilizadores são demorados, pois não se muda um modo de pensar e de agir de um dia para o outro. Além disso, um processo civilizador procede na base da sociedade, pois passa inevitavelmente pela observação livre e desimpedida da cotidianidade. Uma observação capaz de mudar um determinado modo de se encarar o mundo e de libertar a pessoa do labirinto em que se encontra. Afinal, olhar livremente é só olhar, pensar livremente é só pensar.
Nesse sentido, penso que os anos vindouros, na sociedade brasileira, não serão fáceis, mas ao mesmo tempo podem abrir nova perspectivas. Uma sociedade tão dramaticamente dividida entre os que têm e os que não têm, não se transforma de um dia para outra, com vara de condão. Importa a vontade de sair do labirinto em que os grandes meios de comunicação teimam em nos meter e de adquirir uma postura livre e aberta diante do mundo em que vivemos. Na impossibilidade de invisibilizar, esquecer, reprimir ou mesmo eliminar (segundo um discurso brutal, em voga nos dias de hoje) a maioria da população, resta-nos a aprendizagem de uma convivência capaz de resultar numa vida mais satisfatória para muita gente.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

ROMPENDO O CASULO (por ocasião do falecimento de Dom José Maria Pires).


Por Eduardo Hoornaert


1. Quando o jovem bispo de Araçuaí viajou a Roma em 1959 para se encontrar com o papa João XXIII, atrapalhou-se com o ferraiolo (roupão cerimonial de um bispo) e o papa gentilmente ajeitou-lhe o apetrecho. Isso deve ter impressionado Dom José, pois 46 anos mais tarde, em 2005, ele contou esse episódio numa conferência em Recife[1]. Criado em um rígido casulo clerical, ele deve ter estranhado a ‘quebra do protocolo’ do papa. O seminário em que se formara era dirigido por padres lazaristas, convidados pelo bispo de Diamantina, Dom João Antônio dos Santos, no final do século XIX. Com esse convite, o bispo demonstrara sua adesão a um movimento proveniente de Mariana, onde o lazarista Dom Viçoso tinha aplicado com vigor, ao longo de 34 anos (entre 1844 e 1876), um modelo de formação sacerdotal diferente da tradição anterior e que cultivava o ‘amor à batina’, a disciplina e principalmente a seriedade nos estudos. Era a primeira romanização da igreja católica no Brasil. Os lazaristas difundiram um estilo de ‘ser padre’ que se destacava por meio de pequenos, mas significativos detalhes, como o cuidado com a boa pronúncia e articulação das palavras, a clareza na exposição do pensamento, a escrita aprimorada, a pontualidade nos horários, o rigor no comportamento e o hábito da leitura, como pude pessoalmente observar em Dom Helder, um dos mais destacados ex-alunos dos lazaristas (que soube ‘abrasileirar’ esse estilo, de cunho marcadamente francês). Quanto a Dom José, sempre me chamou atenção sua cuidadosa articulação das palavras e a clareza com que expõe seu pensamento, qualidades que dele fizeram um apreciado orador. Por esses e outros detalhes se verifica como foi grande a influência dos lazaristas na formação do clero brasileiro entre 1850 e 1960. O historiador americano Serbin escreve que ‘de meados do século XIX a meados do século XX, os lazaristas prepararam mais de mil padres seculares brasileiros. Até o ano 2000 tinham formado 158 bispos do Brasil moderno’[2].

Foi paradoxalmente por meio da ingerência de Roma na sua vida que Dom José recebeu o primeiro impulso para se libertar das idéias romanas recebidas no seminário. Com apenas 38 anos (em 1957), foi apontado como candidato a bispo por Armando Lombardi, núncio apostólico no Brasil entre 1954 e 1964. Naqueles tempos, o núncio tinha ampla liberdade para indicar bispos, pois a cúria romana não conhecia bem a América latina e não costumava interferir em nomeações episcopais. Monsenhor Armando Lombardi soube aproveitar dessa oportunidade e, num lapso relativamente curto de dez anos, indicou nada menos de 109 bispos, na maioria pessoas de espírito aberto e progressista, que geralmente não simpatizavam com o ideal de uma igreja romanizada. Aliás, ainda falta ser colocada em plena luz a influência de Lombardi sobre os rumos da igreja católica no Brasil entre 1950 e 1990, aépoca dos ‘grandes bispos’.

Um segundo impulso romano veio, é claro, do concílio Vaticano II. Três anos depois de ordenado bispo, com a idade de 42 anos, Dom José participou das quatro sessões do concílio, mais para aprender que para falar. Beozzo, que estudou a fundo o concílio, apenas menciona uma fala dele (em latim) no plenário[3] e nas circulares conciliares de Dom Helder seu nome só é mencionado de passagem, a respeito de um assunto que pouco tem a ver com o concílio[4]. O nome de Dom José não aparece tampouco entre os participantes do ‘grupo da pobreza’ que desembocou, no final do concílio, no famoso ‘pacto das catacumbas’[5]. Numa conferência pronunciada por ele em 2005 encontrei uma análise de sua parte que caracteriza bem seu modo de entender o concílio Vaticano II[6]. É uma análise de determinados temas intra-eclesiásticos tratados pelo concílio, referentes à liturgia atualizada, à missa em língua vernácula, ao abandono das pompas clericais. O espírito prático de Dom José enxerga em primeiro lugar as reformas internas. O tom dessa sua análise não é tão resolutamente mundano (no sentido de voltado para os problemas do mundo) como os posicionamentos de Dom Helder.



2. Uma nova página na vida de Dom José começa no domingo de páscoa de 1966, quando ele é acolhido em João Pessoa na qualidade de arcebispo da Paraíba. Armou-se um alto palanque na praça Dom Adauto, em frente ao palácio episcopal e aí estão as autoridades civis, militares e religiosas. Dom Helder veio de Recife e pronuncia um discurso tipicamente mundano: aborda temas como reforma agrária, ‘colonialismo interno’ e modelo de desenvolvimento (grande trunfo dos militares da época). Dom José, ao contrário, é simples e direto: ‘Tenho 47 anos de idade. Sou filho de uma doméstica e de um carpinteiro’[7]. É como se estivéssemos ouvindo o eco de sua apresentação ao papa João XXIII em 1959. Dom Helder sai satisfeito de João Pessoa e escreve: ‘Está formado o eixo Recife-João Pessoa. Estamos perfeitamente sintonizados (eu e Dom José)’[8].

Como arcebispo, Dom José sucede a Dom Mário de Villas Boas (arcebispo 1959-1965), um eclesiástico tradicional em sintonia com um clero igualmente tradicionalista em sua maioria. Sabendo disso, o novo arcebispo faz seus primeiros passos com circunspeção. Pois ele tem plena consciência de que ele mesmo necessita de tempo para assimilar as orientações do Vaticano II, principalmente do pacto das catacumbas. Ele sabe que doravante é representante oficial de um sistema sólido, construído por séculos e que não se abala facilmente e que, portanto, ele não pode brincar em serviço. Pressentindo oposição por parte de uma parcela do clero, dos poderosos usineiros da várzea paraibana e da própria instituição católica, Dom José avança devagar, ‘mineiramente’. O ex-ministro Bresser Pereira, que conheceu na época seu trabalho na Paraíba, o chama de ‘herói prudente’.

O primeiro ponto consiste em concretizar, em sua maneira de viver, o compromisso básico do ‘pacto das catacumbas’ que reza: ‘viver segundo o modo ordinário de nosso povo no que concerne a casa, a habitação, os alimentos, os meios de locomoção e o que daí decorre (Mt 5, 3; 6, 33-34; 7, 20)’[9]. Ele abandona o palácio episcopal e se muda para a ‘casa dos padres’ (perto da igreja São Francisco), dispensa motorista e doravante dirige pessoalmente seu fusquinha, veste roupa simples (sempre com colar romano e paletó), mantém uma vida despojada e alimentação frugal. Com o tempo ele assume explicitamente compromissos sociais e para tanto aprende com Dom Helder e outros colegas como exercer a não-violência ativa (também chamada ‘pressão moral libertadora’), ou seja, como enfrentar os grandes problemas sociais da Paraíba sem recorrer a métodos de força, quaisquer que sejam. Ao mesmo tempo, suas declarações se tornam sempre mais impregnadas de uma mundanidade característica da teologia da libertação. Assim me lembro que ele disse certa vez (não recordo as circunstâncias) que o pecado social é mais grave que o pecado sexual. Essa frase me impressionou e não me lembro de ter ouvido da boca de Dom Helder uma afirmação que defina de forma tão lapidar a passagem entre a moral católica tradicional e a moral da libertação. É por essa e outras manifestações que não se pode considerar Dom José um seguidor de Dom Helder. Ambos têm seu modo próprio de se posicionar e de se explicar, mas são ao mesmo tempo colegas de compromisso e pensamento. Ambos andam pela mesma estrada, o que todos sempre perceberam, pois Dom José é sempre lembrado quando se trata de falar em público para reanimar a memória de Dom Helder. Assim ele foi orador oficial nas comemorações dos 50 e dos 65 anos de sacerdócio do arcebispo de Recife (16/8/1981 e 15/8/1996).



3. A partir de 1971 vai diminuindo aos poucos a projeção de Dom Helder no Brasil[10] e vem surgindo uma nova geração de bispos a sustentar o compromisso dos pioneiros do Vaticano II, de Medellín e principalmente do pacto das catacumbas. Surgem lideranças como Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Aloísio Lorscheider, Dom Ivo Lorscheiter, Dom Tomás Balduino, Dom Pedro Casaldáliga e outros. Entre elas está Dom José Maria Pires, que toma iniciativas sempre mais ousadas, como a criação do primeiro centro de defesa dos direitos humanos do Brasil em João Pessoa, uma iniciativa que projeta o arcebispo da Paraíba a um nível latino-americano. Ele se torna responsável pelo setor social do Conselho episcopal latino-americano (CELAM). Em 1981, ele publica pela editora Vozes um livro com título significativo: ‘Do centro para a margem’. Um título que demonstra como Dom José sempre mais rompe o casulo eclesiástico e vê na sua função hierárquica um trampolim que possibilita o mergulho em questões relativas à vida na sociedade como um todo. No dizer de José Comblin, é esse tipo de bispo que o terceiro milênio vem solicitar: ‘Doravante, o lugar do bispo é o mundo. Ele encarna a presença da igreja no meio do mundo. É homem de relações públicas, é a visibilidade da igreja’[11]. Um sinal disso é a ‘missa dos quilombos’ (1981) que ele celebra em Recife com Dom Pedro Casaldáliga na frente da igreja do Carmo, onde a cabeça de Zumbi fora exposta séculos atrás. É, como todos observam na época, uma missa de dimensões antes societárias que eclesiásticas. Os sons dos tambores sinalizam um compromisso societário com o segmento negro da população. E a partir desse momento Dom Pedro Casaldáliga chama o bispo da Paraíba de ‘Dom Zumbi’, uma palavra bem mais carregada de simbolismo que o ‘Dom Pelé’ que lhe foi atribuído por Dom Helder em 1966 por ocasião da posse em João Pessoa. A partir de 1981, Dom José não é mais ‘moreno’, ele é ‘negro’, ou seja, assume a carga simbólica que o termo negro tem dentro da sociedade brasileira. Nos anos seguidos, ele celebra repetidamente missas negras, nas quais troca a mitra romana pela toca africana. Nos últimos anos de seu episcopado, ele alarga o leque de movimentos societários que resolve apoiar: indígenas, mulheres, presos, padres casados, mas principalmente negros.



4. Em 1995, Dom José volta à vida comum. Com o término das obrigações hierárquicas ele abandona definitivamente o casulo eclesiástico e abraça com entusiasmo a vida eclesial comum. Eu diria: a vida leiga. É verdade que em 2005 ele ainda declara em Recife, com uma pitada de humor: ‘Sou pároco de duas paróquias distantes’[12], mas ele quer dizer com isso que vai regularmente visitar seu ‘povo de Deus’ e celebrar missa para ele. Quem hoje visita Dom José em Belo Horizonte pode testemunhar que o termo ‘igreja, povo de Deus’ (núcleo da mensagem do concílio Vaticano II) não é uma palavra vazia para ele. Para todos e todas ele serve o vinho de sua simplicidade, cordialidade, simpatia e facilidade na comunicação. Entretempo, não deixa de cutucar de vez em quando a igreja eclesiástica com palavras incisivas: ‘A igreja será fiel ao evangelho quando for além da opção pelos pobres’ (palavras colhidas de sua boca no final do ano 2010)[13]. Dom José quer dizer que não basta falar em ‘opção pelos pobres’, é preciso agir. Aliás, numa conferência de 1998 ele já tinha mencionado alguns pontos dessa agenda: a libertação das mulheres do domínio machista, a coibição do poder da cúria romana, a formação dos leigos, a abertura diante dos padres casados[14]. Livre do casulo eclesiástico, Dom José ficou sendo um cidadão do mundo com rara capacidade de atuação. Faleceu em Belo Horizonte em 27 de agosto de 2017.



[1] A conferência fazia parte da oitava jornada teológica de Recife, organizada pelo movimento ‘igreja nova’. O título era: ’40 anos do concílio Vaticano II: ontem e hoje. Testemunho de um padre conciliar’. Veja Igreja Nova VIII, Oitava jornada teológica do Recife, 22-26/08/2005, Escola Don Bosco de Artes e Ofícios, Recife, s/d., pp. 17-33.
[2] Serbin, K. P., Padres, celibato e conflito social: uma história da igreja católica no Brasil, Companhia das Letras, São Paulo, 2008, 108.
[3] Beozzo, J.O., A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II (1959-1965), São Paulo, Paulinas, 2005, 255. O livro contém informações sobre Dom José nas páginas 23, 86, 106, 255, 356 e 474.
[4] Trata-se de uma eleição para o secretariado do ministério sacerdotal na CNBB, realizado em Roma, na qual ele apareceu como o candidato da esquerda e foi derrotado. Veja Câmara, H., Circulares conciliares I, III, 229. Beozzo 2005 menciona o mesmo fato na p. 356.
[5] Você pode encontrar informações sobre o ‘grupo da pobreza’ e o ‘pacto das catacumbas’ em: Câmara, H., Circulares conciliares, Companhia Editora de Pernambuco (CEPE), Recife, 2009, Tomo III, 20-21, 35-36, 64, 80, 90, 265, 301-302, 304-305. O pacto das catacumbas em 301-302 e 304-305.
[6] A referência a essa conferência encontra-se na nota 1.
[7] Piletti, N. & Praxedes, W., Dom Hélder Câmara, Entre o poder e a profecia, Editora Ática, São Paulo, 1997, 330. O livro menciona Dom José Maria nas páginas 323, 330, 374-75, 437-9, 448.
[8] Piletti, 331.
[9] Circulares conciliares I, III, 301-302 (veja também 304-305).
[10] Veja Comblin, J., Dom Helder e o novo modelo episcopal do Vaticano II, em: Vários, Dom Helder, pastor e profeta, Edições paulinas, São Paulo, 1983, 38.
[11] Comblin, J., Dom Helder, bispo do terceiro milênio, em: Rocha, Z. (org.), Helder, o Dom. Uma vida que marcou os rumos da igreja no Brasil, Vozes, Petrópolis, 1999, 91.
[12] Veja nota 1 (VIII jornada teológica), p. 32.
[13] Agradeço ao padre Mauro Passos a transmissão dessas palavras ditas por telefone.
[14] Veja a conferência ‘A igreja na América Latina a partir de Medellín’ em: Igreja Nova I, Primeira Jornada teológica do Recife, 03-07/08/1998, Editora Universitária UFPE, Recife, s/d, 31-44. Veja também: ‘Esta jornada teológica quebra um tabu e marca um tento significativo na caminhada do povo de Deus que vive em Recife’ (p. 44) e ‘Vocês são o futuro’ (ibidem).

 Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.


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