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segunda-feira, 6 de maio de 2013

CINEMANIA - Detona Ralph

Wreck it Ralph (2012) - Detona Ralph

por ROSSANA MENEZES

Diretor:

 Rich Moore

Roteiro:

 Rich Moore (story), Phil Johnston (story), 6 more credits »

A indústria dos desenhos mudou. Já faz alguns anos, mais precisamente dez, que eu notei uma diferença drástica nesse gênero.  Sem levar em consideração a questão visual, isso eu acredito que tenha começado com o primeiro Toy Story, lá nos idos de 1995. Mas foi em Procurando Nemo que eu percebi que esses desenhos estavam cada vez mais voltados para agradar o público adulto. Com piadas e referências sobre coisas que criança nenhuma no mundo poderia achar graça ou ver interesse. O  tema principal vai estar sempre ali. A lição de moral, ensinando as crianças a serem boas, a se comportarem... isso vai estar sempre ali... mas as piadas... 
Wreck it Ralph dá um passo adiante. Novamente a lição de moral está lá... o final feliz e cheio de mensagens fofinhas sobre respeito às diferenças e importância da amizade... estão ali. MAS dessa vez o tema foi diferente. Vilões de video games. 

E aí me jogam um desenho recheado de personagens dos jogos da minha infância. Atari, Nintendinho, Mega Drive, Master System e jogos de Fliperama. SIMPLESMENTE FANTÁSTICO! 

Senti falta de alguns personagens, como Mario Bros, que é apenas citado. Mas ouvi dizer que já está garantida a sua participação na continuação. Mas fora isso, o desenho é uma diversão só. Duvido que fora a explosão de cores e os bonecos fofinhos, alguma criança entenda 20% do desenho. Ele tem termos técnicos de jogos e programação que nem alguns adultos entenderiam, pelo menos em inglês, não sei como ficou a versão em português. Me recuso a ver filme dublado. 

Super recomendado. Principalmente se você foi criança nos anos 80 ou se, assim como meus pais, curtiu os games da época como seus filhos.

Rossana Menezes é jornalista, fotógrafa e designer gráfica.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Teologia e Trabalho: Relação a construir


Por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER

A  teologia cristã tem uma relação complexa com o trabalho e um entendimento  ambíguo deste. Por um lado, o apóstolo Paulo afirma que cada pessoa tem de  trabalhar, pois "quem não trabalha não tem o direito de comer".  O livro  do Gênesis, que relata a Criação feita por Deus do mundo e do cosmo, afirma  que o trabalho encontra sua fonte no próprio Deus que trabalhou para criar o  mundo.  E aqui o judaísmo se diferenciava do pensamento greco-romano,  para o qual o trabalho "braçal" era indigno dos cidadãos, devendo ser feito  apenas pelos escravos. Por outro lado, o trabalho está colocado debaixo de  maldição desde a  "Queda" de Adão e Eva - trabalho do homem com suor e  canseira; trabalho de parto da mulher com dores e suores. É o castigo pelo  pecado original e, portanto, tem muito mais uma dimensão de pena do que de  prazer.

            O  Novo Testamento confirma a visão da necessidade do trabalho que Paulo ratifica  com palavras do próprio Jesus: “Meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho”.  Afinal, de que trabalho se trata, este que o próprio Deus não cessa de  executar, e que seu Filho, encarnado e andando pelo mundo, também exerce  continuamente?  Pode tratar-se de um castigo algo que o próprio Criador  executa sem cessar, ao preço de afadigar-se divinamente?  Pode ser apenas  suplício e dor, algo que o Filho contempla como sendo a atividade constante de  seu amado  Pai?

            Neste  Dia do Trabalho, vale meditar em algumas implicações da fé cristã para uma  teologia do trabalho.  Sobretudo em tempos onde a presença de um trabalho  enobrecedor e criativo corre o risco de desaparecer, engolido por um ativismo  febricitante e louco, onde o emprego tomou o lugar do trabalho e é exercido  apenas para sobreviver, enriquecer e consumir, sem nenhuma conotação de  criatividade, gozo ou transcendência.  Há pessoas que são empurradas a  executar um trabalho que as embrutece porque senão morrem de fome.  E há  outras que trabalham cada dia mais para poder acumular os bens sem os quais  creem não poder viver.  O fim de umas e outras é uma morte prematura,  seja por infarto, hipertensão ou depressão e suicídio.

            A  filósofa francesa Simone Weil experimentou na carne as agruras do trabalho  operário em fábricas da primeira metade do século XX.  Ali sentiu que à  medida  que passava os dias em frente das máquinas, os pensamentos iam  fugindo e escapando de sua mente.  As cadências das máquinas e o ritmo da  produção eram muito rápidos. Simone  havia sido sempre lenta para os  trabalhos manuais e não estava habituada a agir sem pensar.  Ela fazia   a triste descoberta de que a sociedade moderna se edifica sobre  trabalhos para os quais o ser humano deve obrigar-se a não pensar. E constatou  que se não houvesse o repouso hebdomadário, que fazia com que as ideias  voltassem a circular em sua cabeça, ela estaria logo convertida em uma besta  de carga.

     No entanto, experimentava igualmente que em meio à dureza do  trabalho tão pesado para ela que jamais exercera um trabalho manual aconteciam  lampejos de solidariedade fraternal que a consolavam. Cada vez que sentia na  pele a mordida da queimadura do forno, o soldador que se encontrava à sua  frente lhe dirigia “um sorriso triste, cheio de simpatia fraterna”, que lhe  fazia “um bem indizível”. E quando, depois de uma hora e meia, o calor, a  fadiga e a dor a faziam perder o controle dos movimentos, impedindo-a de  baixar a tampa do forno, um metalúrgico se precipitava e baixava-o para ela.   Isso a inundava de gratidão e reconforto.

    E Simone então reflete  sobre esta dupla face do trabalho, de embrutecimento, mas igualmente do  exercício da solidariedade. Ela diz que  mesmo sofrendo tudo isso, está  feliz ali onde está.  Declara: “Tenho o sentimento, sobretudo, de haver  escapado de um mundo de abstrações e de me encontrar entre os homens reais –  bons ou maus, mas de uma bondade ou de uma maldade verdadeiras. A bondade em  uma fábrica é qualquer coisa de real quando ela existe; pois o mínimo ato de  benevolência... exige que se triunfe da fadiga, da obsessão do  salário.”

     Quando Simone Weil saiu da fábrica, após um ano de trabalho,  sentia que sua juventude havia ficado para trás e ela se encontrava marcada  pelo ferro em brasa da escravidão.  Escravidão essa que, segundo ela, é  “o trabalho sem luz de eternidade, sem poesia e sem religião.” Todo trabalho,  para ser criativo e realizador, deve ser ungido por essa transcendência que  nos diz que não somos animais nem bestas de carga, mas participantes ativos no  trabalho do Criador, que jamais abandona a obra de suas mãos.


Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora  do departamento de teologia da  PUC-Rio e é  autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas),  entre outros livros. (wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape)

Copyright 2013 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)
 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Maioridade penal e Estado Omisso

Por FREI BETTO

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), não consegue reduzir o  índice de violência no estado. Prefere então, como a raposa na fábula de La  Fontaine, dizer que as uvas estão verdes... Já que a polícia se mostra  incompetente para diminuir a criminalidade, reduzamos a idade penal dos  criminosos, propõe ele.

       O número  de homicídios na cidade de São Paulo cresceu 34% em 2012. Por cada 100 mil  habitantes, a taxa de assassinatos foi de 12,02. Em supostos confrontos com a  Polícia Militar, foram mortas 547 pessoas. Os casos de estupro subiram 24%;  roubo de veículos, 10%; e latrocínio, 8%. Assalto a banco teve  queda de  12%. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública, divulgados a 25 de  janeiro.

         O DataFolha  fez pesquisa de opinião na capital paulista e constatou que 93% dos  paulistanos querem a redução da maioridade penal, 6% são contra e 1% não soube  opinar. Vale ressaltar que 42% afirmaram que para reduzir a criminalidade é preciso criar políticas públicas para  jovens.

         “O problema do  menor é o maior”, já advertia o filósofo Carlito Maia. Se jovens com menos de  18 anos roubam e matam é porque, como constatam as investigações policiais,  são manipulados por adultos que conhecem bem a diferença entre prisão de quem  tem mais de 18 e de quem tem menos.

         Pesquisa da  Secretaria Nacional de Direitos Humanos verificou que, entre 53 países, 42  adotam a maioridade penal acima de 18 anos. Porém, suponhamos que seja  aprovada a redução da maioridade penal para 16 anos. Os bandidos adultos  passarão a induzir ao crime jovens de 15 e 14 anos. Aliás, em alguns estados  dos EUA jovens de 12 anos respondem criminalmente perante a lei.

       Sou contra a  redução da maioridade penal por entender que não irá resolver nem diminuir a  escalada da violência. A responsabilidade é do poder público, que sempre  investe nos efeitos e não nas causas. Deveria haver uma legislação capaz de  punir o descaso das autoridades quando se trata de inclusão de crianças e  jovens.

         Hoje, 19,2  milhões de brasileiros (10% de nossa população) não têm qualquer escolaridade  ou frequentaram a escola menos de um ano.
         Não sabem ler nem  escrever 12,9 milhões de brasileiros com mais de 7 anos de idade. E 20,4% da  população acima de 15 anos são  analfabetos funcionais – assinam o nome,  mas são incapazes de redigir uma carta ou interpretar um texto. Na população  entre 15 e 64 anos, em cada 3 brasileiros, apenas 1 consegue interpretar um  texto e fazer operações aritméticas  elementares.

         Em 2011,  22,6% das crianças de 4 a 5 anos estavam fora da escola. E, abaixo dessas  idades, 1,3 milhão não encontravam vagas em  creches.
         Este o dado  mais alarmante: há 27,3 milhões de jovens brasileiros entre 18 e 25 anos de  idade. Desse contingente, 5,3 se encontram fora da escola e sem trabalho. Mas  não fora do desejo de consumo, como calçar tênis de grife, portar um cellular  iPhone5, frequentar baladas, vestir-se segundo a moda  etc.
        De que vivem esses 5,3  milhões de jovens do segmento do “nem nem” (nem escola, nem emprego)? Muitos,  do crime. Crime maior, entretanto, é o Estado não assegurar a todos os  brasileiros educação de qualidade, em tempo integral.
         Se aprovada a redução  da maioridade penal, haverá que multiplicar os investimentos em construção e  manutenção de cadeias. Hoje, o Brasil abriga a quarta maior população  carcerária do mundo, 500 mil presos. Atrás dos EUA (2,2 milhões); China (1,6  milhão); e Rússia (740 mil).
       Segundo o Departamento  Penitenciário Nacional, o deficit é de 198 mil vagas, ou seja, muitos detentos  não dispõem dos seis metros quadrados de espaço previstos por lei. Muitos  contam com apenas 70 centímetros quadrados.
         Segundo o ministro da  Justiça, José Eduardo Cardozo, “é preferível morrer do que ficar preso no  Brasil”. Isso significa que o nosso sistema carcerário é meramente punitivo,  sem nenhuma metodologia corretiva que vise à reinserção  social.
         A Lei 12.433,  de 29 de junho de 2011, estabelece a remissão de um dia de pena a cada 12h de  frequência escolar, e 3 dias de trabalho reduzem 1 dia no cumprimento da pena.  Quais, entretanto, as cadeias com escolas de qualidade, profissionalizantes,  capazes de resgatar um marginal à  cidadania?
         Na verdade,  como analisou Michel Foucault, nossas elites políticas pouco interesse têm em  reeducar os presos. Prefere mantê-los como mortos-vivos e tratá-los como  dejetos humanos.     

         Mas o que  esperar de um país onde um ex-governador do mais rico estado da Federação,  Luiz Antonio Fleury Filho, justifica o massacre de 111 presos no Carandiru, em  1992, como uma ação “legítima e necessária”?
 Frei Betto é  escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar  brasileira” (Rocco), entre outros  livros.

  http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.


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quarta-feira, 1 de maio de 2013

A revalorização do trabalho




Por MARCELO BARROS

     Até os anos 70 ou 80, o 1º de maio era comemorado, no mundo todo, com passeatas e concentrações que reuniam, em cada cidade, milhares de trabalhadores. Hoje, quase não se veem mais essas manifestações e as poucas que ocorrem se reduzem a shows com artistas populares promovidos por sindicatos que fazem isso mais por tradição do que por espírito associativo. A maioria das pessoas percebe que tudo isso mudou e ninguém mais vê movimentos de trabalhadores. Antes, eles se reuniam para exigir melhores salários e condições de vida mais dignas. Hoje, diante da crise do desemprego estrutural, às vezes, são os próprios trabalhadores que propõem redução de trabalho para evitar demissões em massa. Na Europa, no início dos anos 80, analistas sociais escreviam que se a taxa de desemprego chegasse a 8%, a sociedade não aceitaria e haveria uma convulsão social grave. Hoje há países como a Grécia, a Espanha e mesmo a Itália, onde a parcela de desocupados  chega a quase 30% e não acontece nada. Na sociedade atual, quem perde o emprego sabe que não se trata de uma situação passageira e que daqui a alguns dias ou semanas ou meses, conseguirá outro. O desemprego é estrutural. As empresas são consideradas sadias e lucrativas quanto menos empregados contratarem. E o mais grave de tudo isso é que essa situação é vista por muitos como normal ou ao menos como inevitável. A maioria dos meios de comunicação apregoa o neoliberalismo como um dogma e a exclusão social da imensa maioria das pessoas como um sacrifício inevitável e positivo do progresso. 

     De fato, a forma mais atual do Capitalismo considera como seus três grandes inimigos, o Estado, a natureza e o trabalho. Mesmo as Igrejas e religiões não reagem a isso e muita gente que se considera espiritual se deixa cooptar por esse desumano modo de ser e viver. Mesmo em países nos quais o governo se diz popular ou até socialista, a regra é privatizar tudo o que é possível. Fala-se em desenvolvimento sustentável e em economia verde, mas contanto que o lucro dos patrões seja garantido.  Como a sociedade é da informação, o trabalho concreto é visto como coisa do passado.

     Como os profetas e profetizas da justiça e da paz são sempre minorias, mas nunca deixam de atuar, o 1º de maio continua sendo uma data simbólica. Em algumas cidades, movimentos de trabalhadores promovem encontros e reflexões sobre as péssimas condições de segurança e a precarização do mundo do trabalho, as ameaças de privatização dos hospitais públicos e o desafio da saúde dos trabalhadores, assim como outros desafios que o povo empobrecido enfrenta no Brasil. 

     Quem é cristão recorda que o evangelho chama Jesus de carpinteiro ou artesão, termo usado na época para qualquer trabalhador braçal. Assim, os homens e mulheres que hoje assumem a missão de participar da caminhada coletiva do mundo do trabalho sabem que ao lutar pacificamente para transformar esse mundo estão sendo testemunhas de que o reinado divino está vindo e Deus está presente na luta do povo pela justiça e pela paz
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  Marcelo Barros, monge beneditino e peregrino de Deus