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quinta-feira, 7 de maio de 2015

APRENDER A PENSAR


 por Frei Betto

     
      Nosso olhar está impregnado de preconceitos. Uma das miopias que carregamos é considerar criança ignorante. Nós, adultos, sabemos; as crianças não sabem.

      O educador e cientista Glenn Doman se colocou a pergunta: em que fase da vida aprendemos as coisas mais importante que sabemos?

      As coisas mais importantes que todos sabemos é falar, andar, movimentar-se, distinguir olfatos, cores, fatores que representam perigo, diferentes sabores etc. Quando aprendemos isso? Ora, 90% de tudo que é importante para fazer de nós seres humanos, aprendemos entre zero e seis anos, período que Doman considera “a idade do gênio”.

      Ocorre que a educação não investe nessa idade. Nascemos com 86 bilhões de neurônios em nosso cérebro. As sinapses, as conexões cerebrais, se dão de maneira acelerada nos primeiros anos da vida.

      Glenn Doman tratou crianças com deformações esqueléticas incorrigíveis, porém de cérebro sadio. Hoje são adultos que falam diversos idiomas, dominam música, computação etc. São pessoas felizes, com boa  autoestima. Ao conhecer no Japão um professor que adotou o método dele, foi recebido por uma orquestra de crianças; todas tocavam violino. A mais velha tinha quatro anos...

      Ele ensina em seus livros como se faz uma criança, de três ou quatro anos, aprender um instrumento musical ou se autoalfabetizar sem curso específico de alfabetização. Isso foi testado na minha família e deu certo. Tenho um sobrinho-neto alfabetizado através de fichas. A mãe lia para ele histórias infantis e, em seguida, fazia fichas de palavras e as repetia. De repente, o menino começou a ler antes de ir para a escola.

      Se me perguntassem: para o Brasil dar certo, que reformas precisariam ser feitas? Eu diria: uma objetiva, e outra subjetiva. A objetiva é a reforma agrária. Brasil e Argentina são os únicos países das três Américas que nunca passaram por uma reforma agrária. O detalhe é que somos o único país das Américas com área cultivável de 600 milhões de hectares, e com enorme potencial de produção extrativa, como é o caso da Amazônia. No Continente, nenhum outro país se iguala ao nosso em possibilidade produtiva.

      A reforma subjetiva seria a da educação. Todo o potencial da nossa vida depende da educação recebida. A educação no Brasil nunca foi suficientemente valorizada. E sofreu um trauma durante a ditadura militar, ao adotar o método usamericano de não qualificação dos conteúdos, e sim de quantificação.

      Sobretudo suprimiu do currículo disciplinas que nos ajudam a pensar, como filosofia e sociologia, agora reintroduzidas em algumas escolas de ensino médio. Durante décadas foram proibidas, tanto que em Belo Horizonte um professor, aos sábados, resolveu, por conta própria, dar aula de filosofia para alunos que se interessassem. O êxito foi tamanho, que a escola teve que introduzi-la no currículo.

Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto – Autobiografia Escolar” (Ática), entre outros livros.

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

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quarta-feira, 6 de maio de 2015

VIDA (VIDA?, SÓ SE FOR SEVERINA) NA PALESTINA OCUPADA


  por  Juracy Andrade



Quando ocorre uma catástrofe como a que acaba de atingir o Nepal, pequenino e pacífico país espremido entre a Índia e a China, há geralmente uma grande mobilização de ajuda de países abastados. É como se dissessem: a gente ajuda vocês desde que não saiam daí nem queiram invadir nossos paraísos. Depois de anos de tragédias no Mediterrâneo, com barcos precários traficando milhares de migrantes do Oriente Médio e da África para a Europa, somente agora os governos da União Europeia começam a tomar conhecimento do grave problema. E só depois que o papa Francisco visitou a ilha de Lampedusa e exigiu soluções para tanta desumanidade. Foi um pontifício esporro.

Tragédia e catástrofe por todo o mundo é o que não falta. Durante anos, na época de chamada guerra fria, os “democratas” e os governos do “mundo livre” ciscaram e reclamaram contra o Muro de Berlim. Era visto por essa gente como o símbolo máximo dos males do comunismo. Até hoje, mais de 20 anos depois, tem quem fale emocionado da derrubada do tal muro. Só não se lembram de tantos muros espalhados aí pelo “mundo livre”. Onde mais há é entre Israel e a Palestina; pior, dentro do que restou da própria Palestina, na qual o governo sionista espalha colônias judias. É muro pra lá, muro pra cá. Entre regiões do México e os Estados Unidos também há possantes muros. Mas como há, para o governo de Washington, ditaduras do bem e do mal, também há muros do bem e do mal. Os que cercam os palestinos e impedem mexicanos pobres e mestiços de terem acesso ao mercado de trabalho estadunidense seriam os “muros do bem”.

Cinismo é isso. Um exemplo: em 1993, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, líderes de Israel e da Palestina, assinaram os Acordos de Oslo, um excelente guia para uma paz justa e definitiva entre os dois povos. Do lado de Israel, tudo indica que era só para Rabin ganhar o Prêmio Nobel junto com Arafat. Um ano depois, ele foi assassinado por um fanático judeu e teve início a gloriosa (!?) Era Natanyahu.

Estou tratando de um assunto eminentemente político. Mas também profundamente religioso, o que não me afasta da temática deste Porta-Voz. Os cristãos primitivos e o próprio Jesus Cristo eram judeus. Há controvérsias sobre se havia uma intenção de criar uma nova religião, tanto o cristianismo mergulha na religião e na cultura judaicas. O certo é que Paulo, após brigar com Pedro, foi pregar o Evangelho no mundo greco-romano e, de equívoco em equívoco (não esquecer a adoção do cristianismo como religião oficial do Império; uma heresia abençoada por Roma), judeus e cristãos foram se afastando cada vez mais uns dos outros. Há facções cristãs que se dizem sionistas cristãos. E o soi-disant bispo Edir Macedo ergueu, em São Paulo, uma réplica suntuosa do Templo de Salomão.

Há, na questão Palestina-Israel, uma grande mistificação que é preciso derrubar para se poder chegar a uma plena unidade. Creio que já me referi, neste espaço, ao livro The ethnic cleansing of Palestine (que li em tradução francesa), do historiador Ilan Pappe, que é judeu e cidadão israelense. Ele diz e prova como a criação do Estado de Israel obedeceu a um projeto sionista fundamentalista, que incluía e continua incluindo a limpeza étnica dos antigos habitantes da chamada Terra Santa. Definida a partilha do território submetido anteriormente a mandato britânico, judeus treinados e apoiados inclusive pelos líderes do Partido Trabalhista (tido como de esquerda) partiram para destruir centenas de vilas palestinas delas expulsando seus proprietários e habitantes, que até hoje não podem para ali retornar.

Sob lideranças incompetentes, o que sobrou para os palestinos foi sendo comido pelas beiradas em sucessivas guerras movidas pelo Egito, Jordânia, Síria. E mais recentemente por colônias judias que fazem da Palestina uma colcha de retalhos. Tudo ilegalmente, mas com a proteção e apoio dos Estados Unidos e tolerância acovardada da ONU. O Líbano, que não fez nenhuma guerra e era a Suíça do Oriente Médio, foi completamente desmantelado por Israel, que se julgou no direito de invadi-lo para caçar refugiados palestinos, aproveitando para destruir as estruturas e a credibilidade do país. De quebra, acabaram também com a tolerância religiosa entre muçulmanos e cristãos que era sua marca.

Ano passado, foi publicado, por professores da Universidae do Havaí (EUA) um excerto de artigos da revista Biography, daquela universidade, sob o título Life in occupied Palestine. Nele diz a professora Cynthia Franklin: “A ocupação militar israelense e a colonização da Palestina são ilegais e imorais”. Pronto. Ponto. Do ponto de vista político, os sionistas querem vingar o Holocausto nas costas dos palestinos. Do ponto de vista religioso, as ações do Estado judaico afastam cada vez mais o Evangelho da Torá.

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Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

terça-feira, 5 de maio de 2015

UM SANTO HUMANO DEMAIS


Marcelo Barros


Nesse momento, sob a inspiração do papa Francisco, o Vaticano aceitou abrir os processos de canonização para reconhecer como exemplos de santidade figuras como Dom Oscar Romero, Dom Helder Camara e Dom Luciano Mendes de Almeida. Em um encontro de teólogos, alguém comentava que valeria a pena abrir também esse processo em relação a Dom Tomás Balduíno, cujo primeiro aniversário de falecimento comemoramos agora no dia 02  de maio.

De fato, qualquer pessoa que, como eu, conheceu esses personagens aqui citados, pode testemunhar que todos eles foram, ao longo de suas vidas, tanto em suas ações, como nas palavras, exemplos de santidade, justamente por terem realizado de modo exemplar sua vocação humana. Tanto Dom Romero, como Dom Helder, Dom Luciano e Dom Tomás foram antes de tudo pessoas de profunda humanidade. Tiveram todos como critério de vida ser humanos como o seu mestre,  o profeta Jesus de Nazaré. Souberam ligar fé e vida, missão evangelizadora e dedicação às mais nobres causas do povo empobrecido na caminhada da libertação. Dom Oscar Romero recebeu a graça do martírio e deu a vida pelo evangelho vivido na defesa dos mais pobres de El Salvador. Os outros três viveram o martírio, não tanto pelo modo como morreram, mais pela sua forma de viver o testemunho do projeto divino no mundo.

Dom Tomás viveu isso como frade dominicano,  missionário no sul do Pará e depois como um bispo que orientou não somente a diocese de Goiás, mas a Igreja Católica de todo o mundo a se consagrar inteiramente ao serviço da libertação e promoção humana dos povos indígenas,  dos lavradores e de todos os oprimidos do campo e da cidade. E fazia isso com tal entusiasmo e convicção que só podiam vir de uma profunda adesão interior ao Evangelho de Jesus.

Tornou-se bispo em 1967, logo depois do Concílio Vaticano II e em plena preparação para a 2a Conferência do episcopado latino-americano em Medellín (1968). Ali, os bispos latino-americanos e caribenhos traduziram o projeto de renovação de toda a Igreja, proposto pelo Concílio Vaticano II, para a América Latina. Ali, decidiram avançar mais para fazer da Igreja um serviço à causa dos mais empobrecidos. Dom Tomás tornou essa proposta a motivação fundamental de todo o seu ministério. Lutou por isso, desde que era prelado em Conceição do Araguaia até o seu último suspiro, no ano passado, em Goiânia.

Com essa energia, junto com Dom Pedro Casaldáliga, em 1973, em plena ditadura militar, Dom Tomás liderou os bispos do Centro-oeste para redigirem e assinarem o documento profético: “Marginalização, grito de um povo”. Na mesma época, foi um dos fundadores e pioneiros do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e poucos anos depois da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Sempre apoiou o Centro de Estudos Bíblico (CEBI) que tem um excelente trabalho no Estado de Goiás.

Era o bispo brasileiro de referência para o movimento Fé e Política, do qual nunca perdia nenhuma assembleia. Também se entusiasmava pelas reuniões anuais que um grupo informal de bispos, coordenados pelo CESEP (Centro de Ecumênico de Serviços à Evangelização e à Pastoral), realiza uma vez por ano para estudar e aprofundar uma linha de ação comum a várias Igrejas.

Já idoso e com saúde abalada, esteve duas vezes comigo na Venezuela para apoiar o processo bolivariano. Ele queria dar testemunho de que a fé cristã nos leva a apoiar todo percurso que favorece a justiça e promove os mais pobres. Era a continuidade de um caminho que, em 2007, o fez participar da peregrinação que nos levou a Valle Grande e ao coração da Bolívia, onde havia 40 anos, o comandante Che Guevara havia dado a sua vida para transformar o mundo. 

Quem conheceu mais profundamente Tomás sabe que toda essa incansável dedicação às causas sociais e políticas era alicerçada em uma espiritualidade alimentada pela oração e pelo gosto dos salmos. Já nos anos de juventude, ele adaptou alguns cânticos bíblicos como o Cântico das Criaturas para serem cantados em uma velha melodia das santas missões populares. E já no leito de morte, prefaciou com amor um livrinho sobre 50 salmos traduzidos de forma a serem saboreados melhor pela juventude de hoje.

De acordo com o modelo de Igreja definido pelo Concílio Vaticano II e por Medellín, a santidade é vocação de todo o povo cristão e esse sempre sabe, independentemente de processos canônicos, discernir os santos e santas que lhe servem como exemplo. Nesse domingo passado, na Catedral de Santana, na Cidade de Goiás, a eucaristia que uniu a memória de Dom Tomás à Páscoa de Jesus reuniu o povo ao qual ele servia, os pequenos agricultores com suas produções e os índios que, em seu velório, dançaram em volta do seu corpo e o coroaram com o cocar de penas. Um ano depois da sua páscoa, sentimos a presença de Dom Tomás entre nós, como um santo do povo, doutor da Igreja, movido pelo amor solidário e que, com a força de sua profecia a serviço da vida dos mais empobrecidos, nos arrebata consigo para os caminhos do Espírito.


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países 

sábado, 2 de maio de 2015

VIOLÊNCIA E RELIGIÃO: QUESTÃO PRIORITÁRIA

por Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

  
    Um dos maiores problemas para a humanidade neste primeiro quartel do século XXI é a relação entre a religião e a violência. Todos os observadores dos fatos e grupos sociais o reconhecem. Basta mencionar os recentes massacres perpetrados contra cristãos em vários países, além de perseguições concretas a indivíduos ou grupos devidos exclusivamente à religião que professam, como é o caso da Universidade de Garissa, na Nigéria.
O êxodo incessante de africanos que aportam às costas da Europa e o de latinos que cruzam as fronteiras dos Estados Unidos, sendo violentamente reprimidos pelas polícias locais, também carregam dentro de si uma conotação religiosa não disfarçável. A violência cobre o planeta em muitos de seus pontos importantes, muitas vezes relacionada de perto com a religião e seus fanatismos e subprodutos, tais como os fundamentalismos de toda espécie, as guerras santas, as "limpezas étnicas" e outros. As análises feitas sobre este fenômeno, no entanto, permanecem, na maior parte das vezes, na superfície. Não retêm nada além da emergência sempre mais forte dos “integrismos” de toda espécie, focalizando suas reflexões preferentemente sobre o fundamentalismo muçulmano.
Ora, parece-nos que a questão é, na verdade, muito mais ampla e profunda. Não atinge apenas os integrismos, mas muitas práticas religiosas e até mesmo as religiões, inclusive as grandes religiões do Ocidente e as religiões monoteístas. E isso em termos de compreensão e de prática. A questão da violência e do mal - e, por contraste, também da não violência - está, portanto, no centro da reflexão hodierna sobre a religião e o fenômeno religioso. E mostra com clareza que é inseparável das repercussões políticas que podem ter sua administração e reflexão em todos os níveis.
Por isso, parece-nos que tem de estar no centro do pensamento teológico cristão ocidental, assim como das ciências que se ocupam do estudo das religiões. Através dessas áreas de estudo e pesquisa podem surgir iluminações verdadeiramente primordiais e - ousaríamos dizer - definitivas - para todo o pensamento ético e religioso que se elabora em torno desta questão.

       É inevitável a constatação de que a violência permeia toda a história da humanidade, desde a antiguidade, chegando aos nossos dias, e apresenta um rosto multifacetado, onde cabem desde os jogos do circo romano, a tortura, passando pelo genocídio, o terrorismo, o infanticídio e outras variadas formas. Por outro lado, é importante situar a violência no horizonte que lhe é próprio, ou seja: para além dos limites do que é lógico e pensável, no campo do irracional e, por isso mesmo, do perturbador. Neste sentido, o tema da violência faz fronteira com algo que também é impensável racional e filosoficamente. Algo que também e igualmente releva do ilógico e do perturbador: o amor, o desejo, a bondade, a fé, a comunicação com o Transcendente.
 Para encontrar a interface entre violência, religião e política, há que situar-se nesta raiz mais profunda da violência, reconhecendo a contribuição indispensável das ciências sociais na análise de suas causas remotas e imediatas, mas nelas não se detendo, e procurando ir mais longe, até onde a análise da realidade cede lugar à reflexão sobre os fundamentos do que é o humano. Para a teologia e as ciências da religião, interessa sobretudo a possibilidade real de uma ética fundada na articulação de coisas tão verdadeiras e, no entanto, tão pouco palpáveis pelas ciências empíricas, como o amor e a verdade, criadores de liberdade e possibilitadores de um ethos da paz e da não violência. Importa contribuir modestamente para a descoberta dos caminhos de uma ética construtiva, de respeito a direitos individuais e coletivos, e para o levantamento de elementos para a crítica de uma ética destrutiva e suicida.
Importa erigir uma ética que abra caminho para o ethos do amor e deixe livre caminho à palavra da teologia. Esse caminho aberto tem a ver com a compreensão do ser humano como ser provisório e de passagem. Ser “pático” (de paixão) e ser pascal (de passagem), o ser humano não é chamado a construir sua sabedoria e sua ética enquanto “ciência do mal”. E a violência que aflige e dizima nossas sociedades, hoje, é convocada a se defrontar, para decifrar seus próprios enigmas, com uma “ontologia relacional” que inverte as equações e cria, a partir do ilógico do amor, uma nova lógica.
A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco. 
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