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terça-feira, 19 de maio de 2015

UNIDADE NAS DIFERENÇAS

Por Marcelo Barros


Em meio a um mundo, cada vez mais diversificado, a unidade entre pessoas e a paz no mundo representam desafios sempre mais exigentes. O Conselho Mundial de Igrejas que reúne 345 confissões cristãs promove a cada ano uma Semana de Oração e Diálogo pela Unidade das Igrejas. No Brasil, essa semana acontece nesses dias, de 17 a 24 de maio, semana anterior à festa de Pentecostes, na qual os cristãos celebram a presença amorosa do Espírito de Deus em toda a criação e no mais íntimo de toda pessoa humana. No Brasil, a Semana de Oração pela Unidade tem seus subsídios preparados e coordenados pelo CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), com apoio da CNBB e de outros organismos católicos e evangélicos. Ao escrever sua carta sobre a alegria do evangelho, o papa Francisco insistiu que, como, há mais de 50 anos, o Concílio Vaticano II afirmou: “a divisão entre os cristãos é um contratestemunho que não colabora para a paz do mundo e se constitui como um obstáculo ao cumprimento da missão evangélica” (Cf. EG n. 244-246). Por isso, cristãos das mais diversas Igrejas, membros de outras religiões e mesmo pessoas de boa vontade, não ligadas a nenhuma tradição religiosa, estão convidadas/os a entrar em uma espécie de mutirão de diálogo e de busca da comunhão que supera a divisão, mas respeita a diversidade.

Cada vez mais, o Brasil se caracteriza por uma grande pluralidade de culturas e religiões. Há milhares de anos, por todo o nosso território, povos diversos viviam suas tradições próprias e tinham seu modo de adorar o Espírito presente na natureza. Há 500 anos, com a conquista, os portugueses trouxeram o Cristianismo e impuseram a todos a Igreja Católica. Com o decorrer dos tempos, esse quadro foi transformado. Tornou-se mais rico e diversificado. Atualmente, o Cristianismo  tem quatro grandes tipos de Igrejas: as Ortodoxas, a Católica, as Evangélicas e as Pentecostais. Entre as evangélicas, temos Igrejas Luteranas, Episcopais anglicanas, a Igreja Metodista, as presbiterianas, batistas e outras. Do Pentecostalismo clássico, temos as Assembleias de Deus, a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Congregação Cristã do Brasil e outras. Neopentecostais ou de um Pentecostalismo autônomo são a Igreja Universal do Reino de Deus, a Casa da Bênção, Renascer e outras.

Em meio a essa grande diversidade, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) é uma pequena fraternidade de Igrejas. Estas se reúnem para apoiar-se umas às outras na missão e no serviço à humanidade, assim como para estimular o respeito e o diálogo dos cristãos com as outras tradições religiosas presentes e atuantes no território nacional.

No decorrer da história, muitas vezes, em nome de Jesus, os missionários católicos e evangélicos perseguiram e condenaram as outras religiões. Aqui no Brasil, até hoje, infelizmente, há cristãos que discriminam e atacam as tradições religiosas indígenas e afrodescendentes. Esse modo de agir, além de ilegal e vergonhoso, dá um péssimo testemunho de Jesus que sempre valorizou a fé de pessoas de outras culturas e religiões, como a mulher samaritana, a sírio fenícia e o oficial romano, cujo filho, ele curou.

Nessa semana de oração pela unidade, o tema geral é tirado da conversa de Jesus com a mulher samaritana: “Dá-me um pouco da tua água” (Cf. João 4). À beira do poço, Jesus lhe havia pedido: “Dá-me de beber”. Ao saber que Jesus poderia lhe dar uma água viva que jorra para sempre, a mulher lhe pede: “Dá-me um pouco dessa água”. O evangelho mostra que a água representa tudo aquilo que cada um de nós pode compartilhar com o outro. No entanto, significa principalmente o dom do Espírito que Deus quer dar a todas as pessoas nas mais diversas culturas. Por sua ressurreição, Jesus nos comunica esse presente divino (Jo 7, 37). Com Jesus, queremos aprender o que Deus quer nos dizer através das outras expressões de fé. Respeitar as outras religiões e com elas entrar em diálogo é uma forma de testemunhar que Deus é amor e que o seu Espírito se manifesta de mil maneiras no mundo. Ele não assinou contrato de exclusividade com nenhuma religião, ou tradição espiritual. No próximo domingo, festa de Pentecostes, no mundo inteiro, as Igrejas de tradição latina iniciarão a celebração da Ceia do Senhor com uma palavra do livro da Sabedoria: “O Espírito do Senhor, o universo todo encheu. Tudo abarca em seu saber, tudo enlaça em seu amor, aleluia” (Sb 1, 7).  

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países






sexta-feira, 15 de maio de 2015

HUMILDADE: UMA VIRTUDE COM MÁ REPUTAÇÃO

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio.



      A humildade é uma virtude incontestável, que anda meio esquecida, mas se faz sempre mais necessária.  O cristianismo fez dela uma das mais importantes virtudes, condição mesma para viver sua proposta. Pois para reconhecer a majestade e a infinitude de Deus e reconhecer-se criatura finita, pobre e limitada, é preciso ser humilde, ou seja, ter noção exata da própria  envergadura e dos próprios condicionamentos.

      Realmente, o que vem a humildade, com seu conteúdo de verdade e modéstia, de simplicidade e verdade, fazer num mundo que canoniza o poder, que vive de aparências, supervaloriza o ter em detrimento do ser e constrói a cada minuto ídolos e fetiches que o possam guindar sempre mais alto nas escalas social e profissional, à frente, nunca atrás, ainda que seja usando os outros para conseguir seu intento?

      Uma pessoa humilde é malvista em nossa sociedade.  Dela diz-se que não tem ambição nem garra, é fraca de personalidade, que não sabe se impor.  Mais: é tida como boba, idiota, que não sabe aproveitar as oportunidades e chances que a vida lhe dá e se deixa ultrapassar pelos outros. Não se apega às conquistas conseguidas, não se agarra ao prestígio e ao poder dela emanados, mas deles se afasta, deixando o caminho livre para os adversários e concorrentes.


      Apesar de o Cristianismo raramente ter sido considerado uma religião humilde, quase sempre associado à arrogância religiosa e ao triunfalismo, e com uma confiança absoluta na verdade superior de seus próprios ensinamentos, a virtude da humildade desempenhou papel central na tradição cristã desde suas origens.

    Santo Antão a ela se refere como “a primeira de todas as virtudes” e, para Santo Agostinho, consiste na “soma total do remédio que nos cura”. Dentro da tradição monástica do Ocidente, o caminho de subida para Deus foi desenvolvido em termos de doze degraus de humildade.  E sua importância é tema central na reflexão e nos escritos da maioria dos místicos cristãos, desde Gregório o Grande até o anônimo autor inglês da “Nuvem do não saber” do século XIV; passando pela grande mística carmelita Teresa de Ávila e por João da Cruz até os diálogos espirituais entre Francisco de Sales e Joana de Chantal.

      Mesmo em tempos em que a importância da humildade possa ter parecido ser virtualmente eclipsada pelo triunfalismo e o poder eclesiástico, continuou a encontrar seu lugar central e inequívoco na obra de grandes teólogos como Tomás de Aquino e fundadores e espirituais do porte de Inácio de Loyola, que propõe em seus Exercícios Espirituais levar o retirante ao terceiro grau de humildade, desejando antes a pobreza e a loucura por Cristo do que o prestígio que o mundo dá.

      E embora a noção de humildade tenha sido olhada como profundamente oposta à ênfase moderna na autonomia humana e na excelência individual, ainda figura com proeminência nos escritos de autores espirituais mais contemporâneos como Simone Weil, Emmanuel Mounier e Jean-Louis Chrétien.  Este último chega a afirmar: “É bonito que a mais profunda das virtudes tenha uma reputação tão negativa. “

  A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco.  

 Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>
     


quinta-feira, 14 de maio de 2015

TRÊS PAPAS EM CUBA

por Frei Betto


      O Vaticano acaba de anunciar que, a caminho dos EUA, no final de setembro, o papa Francisco visitará Cuba. O único país socialista da história do Ocidente divide com o Brasil o privilégio de merecer a visita dos três últimos pontífices.
      Assessorei o governo cubano no decorrer das viagens de João Paulo II (janeiro de 1998) e Bento XVI (março de 2012), e testemunhei o entusiasmo com que foram acolhidos pela população.
      Quando Bento XVI anunciou que iria à ilha, os bispos da América Latina se queixaram, pois ele havia visitado, no Continente, apenas o Brasil, e não reservara agenda para outros países majoritariamente católicos, como México, Colômbia e Argentina. A queixa obrigou Bento XVI a fazer escala no México, onde recebeu os bispos do Conselho Episcopal Latino-Americano.
      Em Cuba, apenas 5% da população de quase 12 milhões de habitantes se declaram católicos.
      A Casa Branca (George W. Bush) pressionou João Paulo II, de todas as formas, para que ele não fosse a Cuba. Se fosse, condenasse o regime revolucionário. Wojtyla foi, permaneceu ali cinco dias, mais do que o tempo habitual dedicado a outros países, estreitou seus laços de amizade com Fidel, e ainda elogiou os avanços sociais da Revolução, como a saúde e a educação.
      Bento XVI esteve em Cuba por apenas três dias, e também nada expressou que contrariasse as autoridades do país.
      Na visita de João Paulo II, Fidel quebrou o protocolo e, todas as noites, esteve na nunciatura, onde o pontífice se hospedou. Mantiveram longas conversas regadas a sucos tropicais.


      Raúl, em 2012, teve a sorte de um forte temporal impedir que a aeronave de Bento XVI decolasse na hora prevista, o que possibilitou longa conversa entre os dois.
      Tanto Fidel quanto Raúl foram alunos internos de colégios jesuítas por longos anos, e consideram muito positivo esse período de suas vidas. Aliás, para entender suas personalidades há que conhecer como os jesuítas forjavam o caráter de seus alunos na primeira metade do século XX.
      Após a visita de João Paulo II, o teólogo italiano Giulio Girardi, em almoço com Fidel, comentou considerar exorbitante o papa presentear a Virgem da Caridade, a Aparecida de Cuba, com uma coroa de ouro. Fidel reagiu bravo: “A Virgem da Caridade não é apenas padroeira dos católicos. É padroeira de Cuba.”
      O papa Francisco fez a ponte (daí pontífice) para Cuba e EUA se reaproximarem, como admitiram Raúl e Obama nos discursos de retomada da boa vizinhança, a 17 de dezembro de 2014.
      Em 1959, a vitória da Revolução contou com a reação contrária da Igreja Católica, marcada pelo franquismo espanhol. Embora nenhum sacerdote tenha sido perseguido e nenhum templo fechado, o diálogo entre Estado e Igreja na ilha se resumia à amizade de Fidel com os núncios papais. A relação com o Vaticano jamais se rompeu.
      Em 1981, por solicitação de Fidel, e anuência dos bispos cubanos, iniciei no país o trabalho de reaproximação entre Igreja Católica e Estado. A publicação do livro “Fidel e a Religião”, em 1985, reduziu significativamente o preconceito comunista à religião e o temor dos católicos frente à Revolução.
      Fidel retomou o diálogo com os bispos. Suprimiu-se o caráter ateu do Estado e do Partido Comunista de Cuba, hoje oficialmente laicos. Agora, são excelentes as relações do governo cubano com a Igreja Católica, para tristeza dos anticastristas de Miami, que insistem em demonizar a Revolução.
      Ao desembarcar em Havana, o papa Francisco não encontrará uma nação católica. E muito menos ateia. Será acolhido calorosamente por um povo imbuído de religiosidade sincrética, na qual se mesclam, como na Bahia, espiritualidade animista de origem africana e tradições cristãs. Um povo que, como nenhum outro do Continente americano, reparte entre si e com outros povos o pão da vida.  

Frei Betto é escritor, autor de “Oito vias para ser feliz” (Planeta), entre outros livros.
     
 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
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terça-feira, 12 de maio de 2015

MEIOS DE COMUNICAÇÃO E DEMOCRACIA

Por Marcelo Barros


Na semana passada, a ONU comemorou o “dia internacional pela liberdade dos meios de comunicação” e no próximo domingo, 17, celebra o “dia das telecomunicações”. Atualmente, o telefone celular e a internet nos ligam, em tempo real, ao mundo inteiro. No entanto, são ainda os noticiários da televisão e do rádio que mais formam a opinião pública.

De um lado, os proprietários das redes de rádio, televisão e jornal veem qualquer tentativa de regulação desses meios como censura e ataque à liberdade de imprensa. Do outro lado, cada dia fica mais claro que as grandes agências de comunicação servem aos interesses das elites econômicas, até porque em quase todos os países, poucas famílias possuem os meios de comunicação e sempre têm grandes interesses comerciais. As grandes agências de notícias norte-americanas são propriedades das mesmas empresas que possuem  as companhias de petróleo e indústrias de armamento.  

No Brasil e em outros países do continente, as televisões privilegiam programas que investem em preconceitos sociais, ridicularizam direitos humanos e fazem propaganda subliminar a favor da pena de morte. Sob a direção do presidente da Câmara Federal, pregam a diminuição da idade penal, como se colocar adolescentes em prisões resolvesse o problema da violência nas cidades. Além disso, criminalizam os movimentos populares e atacam de todos os modos qualquer governo que, na América Latina, pretenda transformar a sociedade. As pessoas que têm sua opinião formada através desses meios de comunicação chegam a pensar que, no Brasil, só existem corrupção política e violência e essa situação é culpa do governo federal. De fato, esse tem cometido erros e tem sua parcela de culpa, mas de um modo e por fatores contrários  a aqueles que os meios de comunicação apontam.

 Há exatamente um mês, nos dias 11 e 12 de abril, em Belo Horizonte, ocorreu o 2o Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação. Ali mais de 700 pessoas ligadas ao trabalho da comunicação e aos movimentos sociais se reuniram e reafirmaram a necessidade urgente do Brasil ter instrumentos de regulação democrática dos meios de comunicação. Em sua carta de conclusão, os/as participantes desse encontro pedem ao governo de abrir oficialmente esse debate na sociedade e concluem: “A defesa da democracia é uma das principais bandeiras de luta da sociedade brasileira. E a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática só se realiza se houver liberdade de expressão para todos e todas. Isso pressupõe a garantia do direito à comunicação” (Cf. Brasil de Fato, 16/04/2015, p. 08).

De fato, a sociedade brasileira nunca deveria aceitar que pais de família, apenas acusados de corrupção, mas não condenados por nenhum tribunal, tenham sua fotografia em capas de revista e cartazes com seu nome estampado e embaixo a legenda: “Dez anos de corrupção”. E isso é feito sem que nenhuma defesa real possa ser apresentada. É um linchamento público no estilo do velho oeste norte-americano, sem respeitar as famílias envolvidas, filhos de menor idade, apenas para saciar o ódio de classe da velha elite que não se conforma em ter sido derrotada nas últimas eleições presidenciais.  

Para os cristãos, o termo evangelho significa boa notícia no sentido do anúncio de que Deus tem um programa para o mundo. Todos nós somos chamados a testemunhar e colaborar com essa novidade. Por isso, atualmente, muitas vezes, são os/as jornalistas verdadeiramente éticos/as e profissionais de comunicação que assumem a função de verdadeiros evangelizadores, não de doutrinas religiosas e sim do projeto divino de justiça e paz para o mundo. Através desses profissionais, os meios de comunicação podem cumprir sua função de fazer desse mundo um planeta de paz e de convivência amorosa entre todos os seres humanos e em comunhão com a Terra e toda a natureza.   

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países