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segunda-feira, 18 de junho de 2018

AQUARIUS



Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Termômetro da crise de indiferentismo que assola nossa sociedade, a questão migratória continua a mostrar-se um sintoma terrível e de alta negatividade. O barco Aquarius, que transporta mais de 600 migrantes – entre eles sete mulheres grávidas e mais de cem menores desacompanhados – resgatados da costa líbia, permaneceu por vários dias parado no meio do mar. Esperava poder atracar em algum porto italiano ou na ilha mediterrânea de Malta.  Porém, ambos os países recusaram-se a abrir seus portos para acolhê-lo.  

O ministro do interior da Itália, Matteo Salvini, tuitou uma declaração seca e cortante: "Salvar vidas é um dever. Transformar a Itália em um enorme campo de refugiados, não. A Itália não vai mais ceder e obedecer. Desta vez, HÁ ALGUÉM QUE DIZ NÃO". Enquanto isso, os migrantes aguardavam, o sol queimava e as provisões escasseavam.  E o ministro seguia convicto de que naquela situação, acolher os migrantes do Aquarius não equivalia a salvar vidas. 

O exército de Malta não abriu os portos para o Aquarius, mas levou a bordo provisões para 24 horas.  Foi quando brilhou, como luz de esperança, a decisão do recém-eleito presidente da Espanha, Pedro Sánchez.  A Espanha acolheria o barco para “evitar uma tragédia humanitária” e abriria o porto de Valencia. 

Acompanhando a decisão de Pedro Sánchez, várias cidades e regiões do país se comprometeram a receber um determinado número de passageiros do Aquarius: o país basco, a cidade de Madrid, a região de Baleares, entre outras. Barcelona havia oferecido seu porto antes do pronunciamento do presidente, que acabou por escolher Valencia para o desembarque dos refugiados. 

Diante de uma Europa que parece criar um crescente bloqueio antimigrantes e uma mentalidade cada vez mais hostil ao acolhimento deles, a Espanha aparece como exceção de solidariedade e humanidade.  Mesmo nos tempos mais agudos da crise migratória, a política espanhola evitou voltar as costas aos refugiados e transformá-los em bodes expiatórios.  E o recém empossado presidente marca sem dúvida um ponto político e diplomático adotando uma posição de acolhimento diante do fechamento de seus dois vizinhos. 

Apesar dos insistentes apelos do Papa Francisco em favor dos migrantes, nem mesmo os católicos parecem sensibilizar-se para a grande tragédia que representa a rejeição dessa imensa massa de pessoas que fogem da violência, da fome, da morte, enfim em seus países de origem.

Na França, recente pesquisa feita pela revista L´Express mostrou que, entre os católicos ouvidos, menos da metade se declarou aberta à acolhida dos migrantes. E mesmo os que são mais lúcidos e positivos sobre essa questão revelam um alto nível de pessimismo em relação ao sucesso da integração dos estrangeiros que batem às portas de seu país.  A maioria crê que eles não conseguirão integrar-se.

Trata-se realmente de uma tragédia, mas de dupla dimensão.  Por um lado, a tragédia real dos migrantes que atravessam longuíssimas distâncias, enfrentam um sem número de dificuldades e perigos em busca de uma vida com um mínimo de decência para si e suas famílias.  Tantos encontraram a morte enquanto buscavam a vida.  

Não menos grave, porém, é outra tragédia, de igual senão maior peso. Trata-se da incapacidade crescente que se percebe nas sociedades ocidentais de abrir espaço para a hospitalidade e o acolhimento do outro que precisa de ajuda.  Rejeitar e mandar de volta pessoas que saíram de suas pátrias porque não têm outra opção para continuarem vivas é algo muito grave.  

Parece que o migrante é alguém que, por não ser cidadão do lugar onde procura a chance de uma nova vida, não é plenamente humano. A ética, os direitos humanos e todas as instâncias que regem o funcionamento de uma sociedade reconhecem ao estrangeiro e ao migrante os mesmos direitos permitidos a todo ser humano.  No entanto, por interesses econômicos e uma malsucedida política de fronteiras, os refugiados são cada vez mais considerados por muitos uma ameaça aos interesses dos países onde desejam se instalar. 

O “sintoma” do estrangeiro sublinha os limites dos estados-nação e a consciência política que os configura.  Interiorizamos essas limitações e tendemos a reagir com a convicção de que estrangeiros e migrantes não gozam dos mesmos direitos que nós. Porém, urge tomar consciência de que a dignidade humana pertence aos seres humanos, quaisquer que eles sejam, independentemente de seu reconhecimento pela lei, ou da posse de papéis que atestam sua cidadania.

Enquanto o Aquarius e seus passageiros distribuídos em embarcações auxiliares singram rumo à Espanha, esta grave questão se levanta sempre com mais força.  Está em jogo não a nossa cidadania, mas a nossa identidade de seres humanos. 


 Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora deTestemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial, entre outros livros.

 Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A CRISE BRASILEIRA PARTE DA CRISE GLOBAL


por Leonardo Boff

Não se pode analisar o Brasil só a partir do Brasil. Nenhum país está fora das conexões internacionais, nem a fechada Coréia Norte, que a planetização inevitavelmente criou. Ademais nosso país é a sexta economia do mundo, coisa que desperta a cobiça das grande corporações que querem vir para cá, não para ajudar no nosso desenvolvimento com inclusão, mas para poder acumular mais e mais, dada a extensão de nosso mercado interno e da superabundância de commodities e de bens e serviços naturais, cada vez mais necessários para sustentar o consumismo dos países opulentos.

Três nomes devem ser lembrados, pois configuraram o quadro atual da economia e da política mundial. O primeiro é sem dúvida Karl Polaniy que já em 1944 notou “A grande Transformação” que ocorria no mundo. De uma economia de mercado estávamos passando para uma sociedade de mercado. Vale dizer, tudo é comercializável, até as coisas mais sagradas. Com tudo podemos lucrar, coisa que Marx em sua Miséria da Filosofia chamou de a grande corrupção e de a venalidade geral. Até órgãos humanos, a verdade, a consciência, o saber se transformaram em meios de ganho. Tudo é feito na lógica do capital que é a concorrência e não a solidariedade, o que faz as socedades se esgarçarem em lutas ferrenhas entre as empresas.

Outros dois nomes cabem ser citados: Margareth Tachter e Ronald Reagan. Como consequência da erosão do socialismo real, entrou, vitorioso, o capitalismo agora sem peias, impostas antes pela contenção feita pelo modo de produção socialista. Agora o capitalismo pôde viver tranquilo sua lógica individualista, acumuladora e consumista. Tatscher era consequente ao afirmar que a sociedade não existe. Existem indivíduos que lutam por si contra todos. Reagan sustentou a total liberdade do mercado, a diminuição do Estado e o processo de privatização dos bens nacionais. Era o triunfo do neoliberalismo. Antes com o liberalismo, para usar uma metáfora, a mesa estava posta. Os endinheirados ocupavam os primeiros lugares e se serviam à tripa forra. Os demais encontravam seu lugar em alguma canto da mesa. Mas estavam à mesa. Com o neoliberalismo a mesa está posta. Mas somente podem participar quem tem condições de pagar. Os demais disputam os lugares ao pé da mesa com os cães, comendo restos.

Esta política neoliberal implantada no mundo inteiro, deu livre curso às grandes corporações de poderem acumular o mais que podem. O lema de Wall Street era e continua sendo:greed is good (a ganância é boa). Tal vontade de acumulação fez com que um pequeno número de pessoas controlassem grande parte da riqueza mundial, gestando um mar de pobres, miseráveis e famelicos. Como a cultura do capital não conhece a compaixão nem a solidariedade e somente a competição e a supremacia do mais forte, criou-se um mundo com um nível de barbárie raramente alcançado na história.

Do meu ponto de vista, o capitalismo como modo de produção e sua ideologia política o neoliberalismo atingiram o seu fim, num duplo sentido. Lograram seu fim, vale dizer, alcançaram o seu fim-objetivo: a suprema acumulação. E o seu fim como término e desaparecimento. Não porque o queiramos, mas porque a Terra limitada em bens e serviços, grande parte não renováveis, não aguenta um projeto ilimitado rumo ao infinito do futuro. A Terra mesma tornará esse projeto impossível. Ou ele muda de modo de produção e de consumo ou será condenado a desaparecer. Como não possui um sentido de pertença e trata a natureza como mera coisa a ser explorada incontrolavelmente, seguirá um caminho sem retorno, pondo em risco o sistema-vida e a própria Casa Comum que poderá se tornar inabitável.

Ora, no transfundo teórico de nossos neoliberais brasileiros, os que deram o golpe e elaboraram “A Ponte para o Futuro” (para o fracasso) vem imbuídos, sem o mínimo de consciência e de crítica, desse sonho mau neoliberal. Querem um Brasil só para eles, ou uma provincia secundária, agregada e dependente do grande Império do Capital. Eis a nossa ruína e a nossa desgraça. Eles prolongam a dependência e a logica colonial.

Um país que mal e mal estava dando os primeiros passoa rumo a sua refundação, sobre outras bases, valores e princípios, com os olhos abertos e as mãos operosas em políticas de desenvolvimento humano com inclusão social foi desvergonhadamente abortado. Aqui reside a nossa verdadeira crise que perpassa todas as instâncias.

Mas o que deve ser tem força. Ainda assim cremos e esperamos que superaremos essa travessia dolorossísima para as grandes maiorias, em fim, para todos. Iremos ainda brilhar. Cantou o poeta em tempos sombrios como o nosso: “faz escuro mas eu canto”. Eu imitando-o digo:”em meio às incertezas, ainda sonhamos e esse sonho é bom e antecipa uma realidade benfazeja”.

Leonardo Boff é filósofo e teologo e escreveu:Brasi: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

VISITA A LULA


 Por Frei Betto

               Fiquei ontem das 16h às 17h15 com o ex-presidente Lula na cela que ele ocupa na Superintendência da Policia Federal, em Curitiba. O recinto de 5 metros quadrados abriga a cama junto à janela, uma mesa no centro, esteira para exercícios físicos a um canto e o armário colado à divisória entre a cela e o banheiro. Na parede, uma única foto – ele com filhos, netos e bisneta.

               Encontrei-o vestido com um conjunto de moleton azul, muito animado, mais magro e bem penteado. Sobretudo, bem informado. Dispõe de TV aberta, pela qual acompanha o noticiário e se entretém com filmes. Prefere a TV Aparecida, devido à programação de música sertaneja e pela qual assiste diariamente à missa das 18h.

               Recebe todas as manhãs um clipping de notícias de jornais, blogs e agências internacionais, o que o ocupa na hora do café. Tem direito a duas horas diárias de banho de sol.

               Riu muito quando comentei que figurou como fake news que ele sofreu síndrome de abstenção alcoólica nos primeiros dias de prisão. Já na época das caravanas ele se privou de álcool para não prejudicar a voz. 

               Há uma relação respeitosa entre ele e os agentes penitenciários, sem, contudo, qualquer aproximação amigável. Dois deles permanecem de plantão do lado de fora da cela, e tivemos que bater na porta para que viessem abri-la para eu sair. 

               Lula reafirmou que não pensa em retirar sua candidatura a presidente nem apoiar nenhum dos concorrentes, embora confesse sua admiração por Guilherme Boulos, do PSOL. “Como me retirar de uma disputa eleitoral se as pesquisas comprovam que, sozinho, tenho mais votos que a soma de todos os concorrentes?”

                Admite não entender por que está preso em Curitiba se a peça da acusação – o triplex do Guarujá – fica em São Paulo... 

               Considera que a elite brasileira, que tanto o bajulou durante os 13 anos de governo do PT, hoje se posiciona contra por estar interessada na venda do Estado brasileiro e indignada com a ascensão social da maioria pobre graças às políticas de inclusão adotadas no período em que ele e Dilma governaram.

               Segundo ele, um novo golpe estaria sendo armado com a adoção do parlamentarismo via STF, sem consulta plebiscitária como prevê a Constituição.

               Disse não estar preocupado com a questão jurídica, e aguarda sereno o julgamento do mérito dos processos nos quais figura como réu. Tem plena consciência de que o caráter político das acusações que o levaram à prisão pesa muito mais. 

               Hoje, a mídia o mostrará de terno e gravata ao depor por videoconferência em processo que envolve Sérgio Cabral e as Olimpíadas do Rio. 

               Antes de me despedir, rezamos juntos a Oração do Espírito Santo.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
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terça-feira, 5 de junho de 2018

A PRIORIDADE DE SALVAR A VIDA NO PLANETA




Marcelo Barros

Durante essa semana, em torno ao 05 de junho, que a ONU consagra como “dia internacional do ambiente”, no mundo inteiro, se promovem discussões e eventos sobre a urgência de um maior cuidado com a Terra e a proteção da vida no planeta. "Cinco relatórios publicados em março pela Plataforma Intergovernamental científico-política sobre a Biodiversidade e os serviços eco-sistêmicos (Ipbes) confirmam: a situação atual é alarmante e exige uma resposta urgente dos governos e da sociedade civil internacional. A diminuição da água doce em todo o planeta é visível e muito grave. O aquecimento global afeta a fertilidade da terra e a própria vida marinha em todos os oceanos. Os venenos usados na agricultura estão provocando a extinção de diversas espécies de abelhas. Além disso, impedem a polinização de muitas espécies vegetais" (Cf. Revista Internazionale, n. 1249, abril 2018, p. 15).  

Na década passada, a Global Food Print Network e outras entidades científicas que seguem a situação de saúde do Planeta haviam falado do Earth Overshoot Day. Esse seria o dia em que os limites de sustentabilidade da Terra seriam ultrapassados e o equilíbrio da vida no planeta, totalmente ameaçado. Infelizmente, os dados revelam que já há dez anos, exatamente no dia 23 de setembro de 2008, a Terra superou em 30% sua capacidade de reposição dos recursos necessários para as demandas humanas. No momento atual, para atender às necessidades da humanidade, precisaríamos de mais de uma Terra. Garantir ainda o que resta dessa sustentabilidade da Terra é a premissa indispensável para resolver os outros aspectos da crise: social, alimentar, energética, econômica, cultural.

Infelizmente, governos e instituições internacionais continuam insistindo no modelo capitalista depredador. A cada ano, os governos destinam somas imensas para armamentos e guerras. O Banco Mundial faz qualquer coisa para salvar bancos e multinacionais irresponsáveis que perderam dinheiro no cassino financeiro da imprevisibilidade. Já há quase dez anos, a imprensa denunciava: "Esse dinheiro do povo, dado aos ricos, “é um valor 40 vezes maior do que os recursos destinados a combater as mudanças climáticas no mundo e a pobreza” (Le Monde Diplomatique Brasil, maio de 2009, p. 3).

Para quem vive a busca espiritual, o cuidado amoroso com a Mãe Terra, com a água e com todo ser vivo fazem parte do testemunho que Deus é amor, está presente e atuante no universo. Apesar de todas as agressões e crimes cometidos contra o Planeta, ainda podemos salvá-lo. Em 2003, a UNESCO assumiu a “Carta da Terra”, como instrumento educativo e referência ética para o desenvolvimento sustentável. Participaram ativamente de sua concepção humanistas e pensadores do mundo inteiro. É preciso que a ONU assuma e ponha em prática esse documento que qualquer pessoa pode ler e comentar na internet (basta consultar: “carta da terra”). É o esboço de uma “declaração dos direitos da Terra e da vida” e todos nós precisamos defendê-los. 

 Na encíclica sobre o cuidado com a Terra, nossa casa comum, o papa Francisco propõe uma aliança de toda a humanidade para cuidar mais e melhor da Terra. Ali, ele afirma que as religiões e tradições espirituais devem se unir para fortalecer essa aliança de todos pela vida. Em cada tradição espiritual, precisamos explicitar e desenvolver o mais profundamente possível uma verdadeira veneração pela Terra, pela Água e por todos os seres vivos, como sacrários ou ainda ícones vivos do Espírito Divino. Como diz uma oração que os cristãos das Igrejas mais antigas  cantam em cada celebração eucarística: "Os céus e a terra estão cheios da tua glória, ou seja, da tua presença amorosa".


 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.