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sexta-feira, 15 de setembro de 2023

A Mãe Terra possui surpresas desagradáveis

 Leonardo Boff

Desde a mais alta a


ntiguidade a Terra sempre foi tida com Mãe que junto com outras energias cósmicas, nos fornece tudo o que a vida sobre o planeta precisa. O gregos chamaram-na de Gaia ou Demeter,os romanos Magna Mater, os orientais Nana, os andinos de Pachamama. Todas as culturas a consideravam-na com um super Ente vivo que, por ser vivo, produz e reproduz vida.

Somente na modernidade europeia a partir do século XVII a Terra foi considerada com uma “mera coisa extensa”, sem propósito. A natureza que a cobre, não possui valor em si, somente quando for útil ao ser humano.Este não se considera parte da natureza ,mas seu “seu senhor e dono”.Fizeram de tudo com ela,sem qualquer respeito,umas boas e outras letais. Essa modernidade arrojada criou o princípio de sua própria autodestruição com armas de podem destruir totalmente a si mesmo e a vida.

Deixemos de lado este modo fúnebre de habitar a Terra ecocida e geocida, por mais ameaçador que possa ser em qualquer momento.Deixemo-nos desafiar (sem a pretensão de explicar) os últimos eventos extremos ocorridos:grandes enchentes no sul do  país e na Líbia, terremoto arrasador no Marrocos, fogos indomáveis no Canadá, nas Filipinas e alhures.

Em grande parte se está criando um consenso entre a comunidade científica (menos na política e nos grande oligopólios econômicos dominantes) de que a causa principal,não única, se deve à mudança do regime climático da Terra e os limites de insustentabilidade do planeta. É a famosa Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot Day):consumimos mais do que ele nos pode oferecer.E ele já não esquenta mais.

Como é um Super Ente vivo, reage, enviando-nos aquecimento global,ondas de eventos extremos, terremotos, furacões, vírus letais etc. Chegamos a um ponto de que se não trocarmos o modo devastador dos ecossistemas, podemos ir ao encontro de nosso extermínio como espécie humana. O últimos fatos são prenúncios.

De tudo deve-se tirar lições. Hoje conhecemos, o que era negado às gerações anteriores, como funcionam as placas tectônicas que compõem o solo da Terra.Conhecemos suas fendas perigosas, quais placas podem estar se movendo. A consequência é se construirmos nossas cidades e casas sobre estas fendas,poderá chegar um dia em que ocorre um deslocamento ou entrechoque de fendas,produzindo  um terremoto com sacrifícios humanos e culturais incalculáveis. Lá se vão obras da genialidade humana. A consequência que hoje devemos tirar: não podemos construir nossas habitações e cidades sobre estes lugares. Ou devemos desenvolver tecnologias, como os japoneses o fizeram, que edifícios tendo por base metais que equilibram todo o prédio a ponto de suportar os movimentos de terremotos.

Algo semelhante vale para as grandes enchentes de magnitude avassaladora. Sabemos que todo o rio tem seu leito por onde correm as águas. Mas a natureza previu que deve haver espaços suficientemente grandes em suas bordas que suportem alagamentos. Estes espaços são parte de se leito alargado. Neles em vão se edificam prédios e inteiras cidades. Ao chegar a enchente, as águas reclamam o seu espaço por onde elas escorrem.Então ocorrem as calamidades. Cientes destes dados, impõem-se medidas de contenção ou simplesmente não permitir que nesses lugares se construam casas, fábricas e bairros. Em termos mais radicais, estas partes da cidade devem encontrar um outro lugar seguro para não sofrerem sua danificação ou sua destruição.

Estes são conhecimentos que os governantes e operadores do  poder público devem tomar em conta. Caso contrário, por falta de conhecimento que beira à irresponsabilidade, deverão, de tempos em tempos, enfrentar catástrofes que matam pessoas, destroem casas e tornam certa região inabitável.

Estas catástrofes pertencem à história da Terra. Chegamos a conhecer 15 grandes extinções em massa. Uma das mais importantes ocorreu há 245 milhões de anos por ocasião da formação dos continentes (a partir do único Pangeia). Nela desapareceram 90% das espécies da vida animal,marinha e terrestre. A Terra precisou de alguns milhões de anos para refazer sua biodiversidade. A segunda maior extinção em massa ocorreu há 65 milhões de anos quando um asteroide de quase 10 km de extensão caiu em Yucatan, no sul do México. Isso provocou um  imenso maremoto,com grande volume de gás venenoso e uma treva imensa que obscureceu o sol e assim impediu a fotossíntese e 50% de todas as espécies pereceram.Os dinossauros que por 130 milhões de anos vagavam por parte da Terra foram as principais vítimas.

Curiosamente, depois de cada extinção em massa, a Terra conheceu uma floração fantástica de novas espécies. Depois da última, apareceram  especialmente os  mamíferos, dos quais nós mesmos descendemos.Mas misteriosamente começou também uma terceira extinção em massa. A atual não é como as duas anteriores que ocorreram de golpe. Ela se faz lentamente, por diversas fases, começando  na era glacial há 2,5 milhões de anos. Constata-se nos últimos tempos uma aceleração desta extinção. O regime climático está aumentando dia a dia  e eventos extremos se multiplicam como temos descrito. Entramos num alarme ecológico, pois, como disse severamente o Papa na Fratelli Tutti: “Estamos no mesmo barco,ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”.

Como diz Peter Ward, em seu livro “O fim da evolução”(Campus 1997):”Há 100 mil anos atrás, outro grande asteroide atingiu a Terra, dessa vez na África. Este asteroide chama-se homo sapiens”. Quer dizer, é o ser humano moderno que inaugurou o antropoceno,o necroceno e piroceno. Se grande é o risco,dizia um poeta alemão, grande também é a chance de salvação. É nessa que espero e confio,não obstante as calamidades descritas acima.

Leonardo Boff, escreveu O doloroso parto da Terra, Vozes  2021; Habitar a Terra  2022.

 

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

NOVO OLHAR SOBRE O UNIVERSO


 Frei Betto

 

       Carlos Mesters, o mais popular biblista do Brasil, sublinha que há no Antigo Testamento dois decálogos, o da Aliança e o da Criação. O da Aliança surgiu primeiro, embora o outro já existisse. Ocorre que o povo hebreu, por não levar a sério o Decálogo da Aliança, não tinha olhos para perceber o Decálogo da Criação.

       Ao longo dos 400 anos de monarquia em Israel (de 1000 a 600 a.C.), Javé, o Deus libertador do Êxodo, foi reduzido a um ídolo manipulado pelos poderes civil e religioso para legitimar a corrupção e a ganância dos reis. E ninguém dava ouvidos às denúncias dos profetas. Até que Nabucodonosor, rei da Babilônia, invadiu a Palestina em 587 a.C. e destruiu Jerusalém.

       O choque da dominação e do exílio abriu os olhos do povo hebreu para o Decálogo da Criação: “O ritmo da natureza, do sol, da lua, das estações, das chuvas, das estrelas, das plantas, revela o poder criador de Deus” – afirma Mesters. “É a expressão do bem-querer do Deus Criador, da pura gratuidade! É uma certeza que não falha. É a prova de que Deus não rejeitou seu povo. Nossa fraqueza pode levar-nos a romper com Deus (como de fato aconteceu), mas Deus não rompe conosco, pois cada manhã, através da sequência dos dias e das noites, ele nos fala ao coração”.

       A visão que temos do mundo interfere em nossa visão de Deus, assim como o modo de concebermos Deus influi em nossa visão da vida e do mundo. Ao longo de um milênio predominou no Ocidente a cosmovisão de Ptolomeu, que considerava a Terra centro do Universo. Isso favoreceu a hegemonia espiritual, cultural e econômica da Igreja, encarada pela fé como imagem da Jerusalém celeste. 

       Com o advento da Idade Moderna, graças à nova cosmovisão de Copérnico, logo completada por Galileu e Newton, constatou-se que a Terra é apenas um pequeno planeta que, qual mulata de escola de samba, dança em torno da própria cintura (24 horas, dia e noite) e do mestre-sala, o sol (365 dias, um ano). O paradigma da fé deu lugar à razão, a religião à ciência, Deus ao ser humano. Passou-se da visão geocêntrica à heliocêntrica, da teocêntrica à antropocêntrica.

       Agora, a modernidade cede lugar à pós-modernidade. Mais uma vez, a nossa visão do Universo sofre radicais mudanças. Newton cede lugar a Einstein, e o advento da astrofísica e da física quântica nos obriga a encarar o Universo de modo diferente e, portanto, também a ideia de Deus.

       Se na Idade Média Deus habitava “lá em cima” e, na Idade Moderna, “aqui embaixo”, dentro do coração humano, agora conhecemos melhor o que o apóstolo Paulo quis dizer ao afirmar: "Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dentre os poetas de vocês disseram: 'Somos da raça do próprio Deus'" (Atos dos Apóstolos 17, 27-28).

       A física quântica, que penetra a intimidade do átomo e descreve a dança das partículas subatômicas, nos ensina que toda matéria, em todo o Universo, não passa de energia condensada. No interior do átomo, a nossa lógica cartesiana não funciona, pois ali predomina o princípio da indeterminação, ou seja, não se pode prever com exatidão o movimento das partículas subatômicas. Essa imprevisibilidade só predomina em duas instâncias do Universo: no interior do átomo e na liberdade humana.

       Em que a física quântica modifica nossa visão do Universo? Ela nos livra dos conceitos de Newton, de que o Universo é um grande relógio montado pelo divino Relojoeiro e cujo funcionamento pode ser bem conhecido ao estudar cada uma de suas peças. A física quântica ensina que não há o sujeito observador (o ser humano) frente ao objeto observado (o Universo). Tudo está intimamente interligado. O bater de asas de uma borboleta no Japão desencadeia uma tempestade na América do Sul... Nosso modo de examinar as partículas que se movem no interior do átomo interfere no percurso delas... Tudo que existe coexiste, subsiste e preexiste. 

       Há uma inseparável interação entre o ser humano e a natureza. O que fazemos à Terra provoca uma reação da parte dela. Não estamos acima dela, somos parte e resultado dela; ela é Pacha Mama ou, como diziam os antigos gregos, Gaia, um ser vivo. Deveríamos manter com ela uma relação inteligente de sustentabilidade.

       Esse novo paradigma científico nos permite contemplar o Universo com novos olhos. Nem tudo é Deus, mas Deus se revela em tudo. Nossa visão religiosa é agora pananteísta. Não confundir com panteísta. O panteísmo diz que todas as coisas são Deus. O pananteísmo, que Deus está em todas as coisas. “Nele vivemos, nos movemos e existimos”, como disse Paulo. E Jesus nos ensina que Deus é amor, essa energia que atrai todas as coisas, desde as moléculas que estruturam uma pedra às pessoas que comungam um projeto de vida. 

       Como dizia Teilhard de Chardin, no amor tudo converge, de átomos, moléculas e células que formam os tecidos e órgãos do nosso corpo às galáxias que se aglomeram múltiplas nesta nossa Casa Comum que chamamos, não de Pluriverso, mas de Universo. 

 Frei Betto es escritor, autor de “A Obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio/Record), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 77 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

Copyright 2023 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 

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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

PALAVRAS DE PEDRO - Solidariedade


Dom Pedro Casaldáliga


#NÃOAOMARCOTEMPORAL


Solidariedade


Para acender a vossa espera.

Para ajudar-me a ajudar

Porque é a única maneira

que às vezes tenho de amar:

simplesmente ser e estar,

onde Sois e Estás agora.

Esse nenúfar cor de limão

debaixo da névoa que chora

não aposta meu coração

para dar fé da aurora?


Pedro Casaldáliga, O Tempo e a Espera 

#Casaldàliga! #PedroCasaldáligaPresente! #PereCasaldàliga #NãoQueremosGuerraQueremosPaz! #pl2903não #NãoAoMarcoTemporal #MarcoTemporalNão @fperecasaldaliga @irmandadedosmartires

terça-feira, 12 de setembro de 2023

No grito dos excluídos, o Mutirão da Profecia


Marcelo Barros


Nesta próxima semana, ao mesmo tempo que, por todo o Brasil,

acontecem cerimônias e eventos que recordam a independência do nosso

país, também as categorias mais pobres expressarão o seu grito por Vida e

por Libertação. Desde 1995, as comemorações da independência do Brasil

têm sido marcadas pelas manifestações populares que se chamam Grito dos

Excluídos. Esse evento teve origem em meio às pastorais sociais ligadas à

CNBB na realização da 2ª Semana Social Brasileira. E embora tenha sido

iniciativa das pastorais sociais, desde o começo, o Grito dos Excluídos e

excluídas se abriu à participação dos movimentos populares e de entidades

cristãs ecumênicas como o CONIC, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs.

Neste ano, o 29º Grito tem como sempre o tema: “Vida em

Primeiro Lugar” . O lema é a pergunta: “Você tem Fome e Sede de Quê?”.

A ideia é provocar entre o povo o diálogo baseado na escuta sobre essas

questões. O objetivo é responder quais as fomes e sedes que o nosso povo

sente. Assim, a partir dos anseios do povo mais empobrecido, poderemos

buscar soluções que acabem com toda forma de exclusão e violência.

Atualmente, de norte a sul, em todo o país, há mobilizações do

Grito dos Excluídos. Realiza-se como manifestação coletiva que se soma à

construção em processo da 6ª Semana Social Brasileira. Estão mobilizadas

as pastorais de Igrejas cristãs, movimentos populares e pessoas de boa

vontade sensíveis aos sofrimentos dos mais pobres para que possamos

defender e garantir os direitos dos pobres e marginalizados. Desde os seus

inícios, o Grito dos Excluídos e excluídas nos confirma que não há

verdadeira independência do país, se a imensa maioria do povo vive em

condições de pobreza injusta e de insegurança alimentar. Só poderemos

considerar o país independente no dia em que conseguirmos superar a

imensa desigualdade social e garantir os direitos fundamentais à Vida, à

alimentação, à educação, à moradia e à saúde para todos os brasileiros e

brasileiras.


Essa realidade que vivemos hoje tem profundas raízes no sistema

da colonização que se instalou em nosso continente há mais de 500 anos e

se fortaleceu através das tentativas de extermínio dos povos indígenas e da

escravização dos povos sequestrados na África. Infelizmente, ao legitimar

essa estrutura iníqua, a Igreja Católica e outras Igrejas cristãs contraíram

uma dívida histórica com as populações vítimas desse sistema. Cumpre

agora saldar essa dívida.


Desde tempos imemoriais, os impérios usaram as religiões e os

cultos para se perpetuarem no poder. Por isso, durante toda a história, em

diversas culturas e nas mais diferentes linguagens espirituais, surgiram


profetas e profetizas que protestaram contra a religião usada como

instrumento do poder para dominar as pessoas. Na Bíblia, os antigos

profetas e profetizas sempre insistiram que o nome de Deus é Justiça

libertadora. Maria, mãe de Jesus cantou que se Deus é Deus, derruba do

trono os poderosos e eleva os pequenos. Na sinagoga de Nazaré, Jesus

afirma que o Espírito Divino desceu sobre ele para realizar a libertação de

todas as pessoas oprimidas. Não foi por engano que os funcionários do

templo e da religião ritual o prenderam e o entregaram aos militares

romanos para ser condenado a morrer na cruz!


Atualmente, Francisco, bispo de Roma, propõe uma Igreja em

saída que cuida dos migrantes, dos pobres e das populações excluídas,

apesar de um grande número de padres e bispos se agarrarem a uma

religião autocentrada e tentarem reativar o Catolicismo barroco de tempos

passados.

Diante disso, cristãos de várias Igrejas têm sentido o chamado divino para

reafirmar o caráter profético da fé cristã e querem unir as suas vozes ao 29º

Grito dos Excluídos através do Mutirão da Profecia.


É preciso dizer claramente ao mundo que a fé e a espiritualidade

devem tornar as pessoas mais humanas e atentas ao cuidado dos pobres.

Para isso, temos os sacramentos da Igreja, que, ou são sinais de partilha e

comunhão de vida para todos e todas, ou não são de Jesus Cristo. Assim, a

fé no Evangelho que Jesus anunciou como boa nova de libertação para toda

a humanidade nos levará a clamar que ninguém passe fome nem sede.