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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

MUITO AMOR. MUITA FELICIDADE. UMA MENSAGEM DE NATAL



Por Juracy Andrade


“Mais de 2000 anos se passaram. A humanidade celebra, mais uma vez, o feliz nascimento de Jesus. Esta humanidade se tornou, após o primeiro Natal – sempre mais – humana? Os dias de dezembro são, cada ano de novo, uma oportunidade para refletirmos um pouco.

O Criador – Amor pleno – faz a mulher e o homem viverem em um belo paraíso, lugar certamente bem humano, pois repleto de paz, felicidade e bem-estar. Mas, o mal, o negativo, o egoísmo desviam o curso dos sonhos do Pai. As filhas e os filhos, na prática menos irmãs e menos irmãos, mergulham em dor e sofrimento. Os profetas gritam, denunciando o que está errado, e anunciando o que é bom e belo. Nasce Jesus, trazendo vida, e ‘vida em abundância’; vem Jesus para a humanidade se tornar novamente humana.

E, neste final do ano 2009? Todas e todos vivem, realmente, vida humana? As Instituições – de todos os matizes – permitem, de verdade, vida humana? Não se precisa de muito tempo para descobrir que a realidade nua e crua deixa muito a desejar.

Escravidões individuais e coletivas, em numerosas formas, freiam a possibilidade de a vida ser, cada vez mais, humana. Vegetar não é viver humanamente. Encontrar-se na ‘miséria que subumaniza’ e no ‘egoísmo que desumaniza’ – expressões de Helder Camara – não é viver humanamente. Estar rodeado por cercas que sufocam não tem muito a ver com vida humana. Por isso, Dom Pedro Casaldáliga sentencia: ‘Malditas todas as cercas que nos impedem de viver e amar!’. Vez por quando tem-se a impressão que temos pós-graduação em construir cercas! Cercas em torno de nós mesmos, cercas ao redor dos outros, cercas nas sociedades, cercas nas igrejas. Deste modo não se dá continuidade à vida que Jesus desejava trazer à terra no primeiro Natal.

A humanidade precisa de libertação. As sociedades, as igrejas, todos nós – também você e eu, irmãs e irmãos, - necessitamos de libertação. Libertação de tudo o que faz a vida, tanto individual como em comum, não ser a vida que o Criador sonha, nem parecer com a vida que Jesus veio anunciar e trazer”.

Aí acima um trecho de uma reflexão de Padre João Pubben, numa reunião do clero no final de 2009, por solicitação de Dom Fernando Saburido, nosso arcebispo. Muitos de vocês conhecem o querido Padre João, missionário holandês completamente abrasileirado, mas que teve de nos deixar e voltar à terra dele, por razões de saúde.

Padre João é irmão de congregação dos padres lazaristas (de São Vicente de Paulo) que dirigiram por alguns anos o Seminário de Mossoró (RN), onde fiz o chamado seminário menor, antes de viajar ao longínquo Rio Grande do Sul e à ainda mais longínqua Europa para concluir meus estudos de filosofia e teologia. Conheci-o, muitos anos depois, aqui no Recife quando ele sofria perseguição de um arcebispo completamente fora do prumo cristão que assolou Olinda e Recife por longos anos, após o pastoreio de Dom Helder.

Aqueles padres de Mossoró, onde estudei até 1949, também eram holandeses e eu cheguei a aprender um trecho do hino nacional deles, que sempre ouço de novo nas Copas do Mundo. No Rio Grande, aprendi a rezar, em meio a tantos descendentes de alemães, o Pai Nosso em alemão: Vater unser der du bist im Himmel ...
Prossegue Padre João, nestas reflexões que faço minhas, ao dirigir a vocês votos de felizes Natal e Ano Novo:

“Que o Espírito de Jesus de Nazaré mova nossos corações para construirmos um mundo verdadeiramente humano.

Formulo votos de um bom Natal para todas e para todos que tiveram a gentileza de me escutar, relembrando o que expressaram os bispos do Brasil há 46 anos, em 1963, no final da segunda sessão do Concílio Vaticano II:

Que possamos ‘ficar mais perto de Deus e morar numa terra mais habitável’”.

Feliz Natal!

Bom Ano Novo!

Muito obrigado!

Recife, 15 de dezembro de 2009
Confraternização do Clero
João Pubben



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

“E DEUS, SE VIER, QUE VENHA ARMADO”

por Marcelo Barros


Esse título não contém nenhuma referência ou alusão à bancada que se diz “evangélica” no Congresso Nacional. Nem aos deputados que pertencem à “bancada da bala”, que propõe facilitar a venda de armas para todo brasileiro que deseje. A expressão é de Guimarães Rosa no “Grande Sertão Veredas”. Ela cabe bem ao Brasil e ao mundo desse início de 2016. Em uma publicidade norte-americana, até Papai Noel tem uma arma na mão. Isso parece natural em um mundo no qual só se fala em terrorismo e necessidade de segurança.

É importante lembrar isso nesse começo de ano novo, quando ainda os nossos votos de “feliz ano novo” ecoam pelo ar. Infelizmente, para muitos brasileiros, esse ano não será feliz, principalmente por causa da facilidade com que se vendem e se compram armas e essas são usadas para matar. Como podemos pensar em um ano novo feliz para os brasileiros, se, conforme dados do Ministério da Saúde, entre 2013 e 2015, no Brasil, quase 750 mil pessoas foram assassinadas. E a maioria dessas mortes (74%) se deu com armas de fogo. Uma pesquisa nacional mostra uma estreita relação entre disponibilidade de armas de fogo e elevação das taxas de homicídio. Em números absolutos, em nenhum país do mundo, as pessoas matam mais do que no Brasil. 

A lei federal 10.286 de dezembro de 2003, também chamada de “Estatuto do Desarmamento”, estabeleceu controles rigorosos para o registro de armas de fogo e de munição. O cumprimento dessa lei teve como consequência uma boa diminuição no número de mortes violentas no país. No entanto, em outubro de 2015, inesperadamente, uma comissão especial da Câmara aprovou, de forma apressada, um texto que relaxa os controles estabelecidos pela lei. Essa comissão é composta, em sua maioria, por parlamentares que foram eleitos com campanhas financiadas pela indústria de armas e munições, Se esse novo texto for aprovado pelo plenário do Senado, teremos praticamente a revogação do Estatuto do Desarmamento. Mais ainda do que a redução da idade penal e do que outras medidas igualmente retrógradas e cruéis, aprovadas pelo atual Congresso, essa medida representará um retrocesso incalculável para a segurança e a defesa da vida em nosso país.

A cultura da violência e do uso de armas de fogo está em alta no mundo inteiro. De acordo com a ONU, o armamentismo é a indústria que mais rende no mundo, junto com o tráfico internacional de drogas e o mercado da pornografia e comercialização do sexo. A maioria dos países da África vive uma situação de pobreza e de desigualdade social que se agrava a cada dia, No entanto, nos últimos dez anos, as despesas militares na África foram de 50 bilhões de dólares.  Atualmente, nos mais de 50 países da África, o cálculo é que cem milhões de armas ligeiras estão nas mãos de qualquer pessoa que as compre ou as roube. Parece que esse é o ideal que esses deputados querem para o Brasil.

A indústria mundial de armas faz segredo sobre os seus lucros e opera quase clandestinamente. No entanto, sabe-se oficialmente que trinta grandes empresas fabricam armas e as vendem não apenas a governos, mas a grupos armados que praticam todo tipo de violência. Dessas 30 indústrias, mais da metade são norte-americanas e têm sua sede nos Estados Unidos, o maior vendedor de armas no mundo (Cf. Revista Nigrizia, dez 2015, p.49 ss). “Em 2014, essa venda atingiu 10 bilhões de dólares. O Brasil aparece como terceiro maior comprador de armas, sendo que somente em 2014, fechou contratos da importância de US# 6 bilhões com a Suécia, EUA e outros países vendedores” (Cf. Folha de São Paulo, 26/12/ 2015).

Ao contrário dessa cultura que vem apregoada pelo Cinema norte-americano desde os antigos filmes de faroeste, as antigas religiões orientais pregam que a vida é sagrada em si mesma. Todo ser vivo merece respeito, principalmente o ser humano. Algumas tradições o veem como jardineiro da criação divina, a serviço da vida e da fraternidade de todas as criaturas. A cultura judaico-cristã herdou essa visão. Infelizmente, ao se inserir na cultura greco-romana, o Cristianismo se tornou uma religião guerreira. Muitas vezes compactuou e mesmo promoveu armas e violência. Na segunda metade do século XX, a maioria das Igrejas cristãs se arrependeu dos erros do passado e se comprometeu em serem artífices da paz e da não violência. Junto ao Mahatma Gandhi e a pensadores de outras tradições religiosas, pastores cristãos como Martin Luther-King nos Estados Unidos, o bispo Desmond Tutu, na África do Sul e aqui no Brasil, um profeta como Dom Helder Camara e outros, consagraram-se a essa causa. Com eles somos chamados à urgente tarefa civilizatória de construir uma democracia de tipo novo, participativa e não violenta. É importante que as pessoas e grupos que buscam uma espiritualidade ligada à vida protestem contra essa nova proposta de lei, surgida na Câmara, a serviço das empresas de armas e de munições. As celebrações desse tempo do Natal nos fazem retomar nossa fé no ser humano e em sua capacidade de viver em paz e em uma sociedade não violenta. Assim, estaremos realizando a palavra de Jesus: “Bem-aventuradas as pessoas que promovem a paz porque serão chamadas de filhas de Deus”, isso é, elas realizam uma função divina.



Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O ANNUS NEFASTUS DE 2015 NÃO INVALIDA A ESPERANÇA DE UM ANNUS PROPICIUS


Por Leonardo Boff



O ano que acaba de 2015 merece esta qualificação latina: annus nefastus. Outros o chamam de annus horribilis. Ocorreram tantas calamidades que além de espanto nos causam preocupações. Não obstante tudo isso esperamos pelo irromper do annus propicius.

A primeira delas é o Dia da Sobrecarga ou da Ultrapassagem da Terra (Earth Overshoot Day) ocorrido no dia 13 de setembro. Isto significa: neste dia a Terra revelou que seu estoque de suprimentos para manter sistema-vida o sistema-Terra ultrapassou os limites. Ela perdeu sua biocapacidade. A Terra é o pressuposto de todos os nossos projetos. Como a Terra é um Super-ente vivo, os sinais que nos envia de que não aguenta mais, são as secas, as enchentes, os tufões e o aumento da violência no mundo. Tudo está ligado a tudo, como nos repete insistentemente o Papa Francisco em sua encíclica.

Associado a este fato, é ilusório o consenso alcançado no dia 12 de dezembro com a COP21 em Paris: o aquecimento deveria ficar abaixo de 2º Celsius rumando para 1,5º até o fim do século. Isso implica uma troca de paradigma de civilização não mais baseado em combustíveis fósseis, sabendo que todas as energias alternativas juntas não chegam a 30% do que precisamos. Essa conversão, as grandes  petroleiras e os fornecedores de gás e carvão não têm condições de fazer, nem a querem. A ideia é retórica e a promessa vazia.

O terceiro evento nefasto é a violência terrorista na Europa, na África, os milhares de refugiados e a guerra que as potências militaristas, todas juntas, movem contra o Estado Islâmico e contra outros grupos armados na Síria. Os médio-orientais as interpretam como prolongamento das antigas cruzadas. Fontes seguras nos atestam a vitimação de milhares de civis inocentes.

Outro evento nefasto é a transformação dos EUA, depois dos atentados contra as Torres Gêmeas, num estado terrorista. Com suas 800 bases militares distribuídas no mundo inteiro, intervêm, direta ou indiretamente, lá onde percebem seus interesses imperiais ameaçados. Internamente, o “ato patriótico” não foi abolido e representa a suspensão de direitos fundamentais. Não é sem razão que a polícia americana matou em 2015 cerca de mil pessoas desarmadas, 60% das quais eram negros ou latinos.

Outro fato horribilis é a corrupção na Petrobrás em altíssimo nível e em consequência o surgimento de uma onda de ódio, de raiva e de decepção especialmente depois das eleições presidenciais de 2014. Não é de se admirar, pois o Brasil é cheio de contrastes, como o viu bem Roger Bastide (Brésil, terre des contrastes, Hachette 1957) mas antes dele Gilberto Freyre que escreveu:”considerado em seu conjunto, a formação brasileira foi um processo de equilíbrio entre antagonismos”.

Esse antagonismo, quase sempre mantido sob o manto ideológico do “homem cordial”, saiu do armário agora e se mostra claramente de modo particular pela mídia social. A expressão “homem cordial” que Sergio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil, 21. Ed., 1989,p.101-112) tomou emprestado do escritor Ribeiro Couto, é geralmente muito mal compreendida. Não tem nada a ver com a civilidade e polidez. Tem a ver sim com a nossa aversão aos ritos sociais e aos salamaleques; somos pela informalidade e a proximidade.

Trata-se de um comportamento brasileiro que se rege antes pelo coração do que pela razão. Ora, do coração nasce a gentileza e a hospitalidade. Mas como bem acentua Buarque de Holanda: ”a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade nisto que uma e outra nascem do coração”(nota de rodapé 157 da p. 106-107).

Esse equilíbrio frágil se perdeu em 2015 e irrompeu a cordialidade negativa como ódio, preconceito e raiva contra militantes do PT, contra nordestinos e negros. Nem as figuras constitucionalmente respeitáveis como a Presidenta Dilma Rousseff foi poupada. A internet abriu as portas do inferno da injúria, do palavrão, da ofensa direta das pessoas, umas contra as outras.

Tais expressões apenas revelam nosso atraso educacional, a ausência de cultura democrática, a intolerância e a luta de classes. Não se pode negar que se verificou, em certos setores, raiva contra os pobres e contra os que ascenderam socialmente, graças às politicas sociais compensatórias (mas pouco emancipatórias) do governo do PT. Os antagonismos brasileiros se mostraram claramente, não harmonizados e agora de rédeas soltas, uns contra os outros, em verdadeira luta (chamem de classes, de interesses, de poder, não importa). Mas há uma ruptura social no Brasil que nos custará muito para costurá-la. No meu entendimento, só a partir de uma real democracia participativa que vá além da atual delegatícia e farsesca, pois representa antes os interesses dos grupos beneficiados do que os do povo como um todo.

O que nos vale é a nossa superabundância de esperança que supera o annus nefastus na direção de umannus propicius. Que Deus nos ouça.
Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

MISERICÓRDIA: PROJETO PARA 2016

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer


            Ao longo de todo o Advento e também agora no Natal, vimos refletindo sobre a misericórdia e procurando unir-nos à convocação do Papa Francisco para toda a Igreja com o Ano da misericórdia. Encontramo-nos agora às portas de 2016. E desejamos fazer da misericórdia nosso projeto, nossa resolução de ano novo.

            Já vimos que a misericórdia não é apenas emoção frente ao sofrimento alheio.  Isto é o movimento que a desencadeia, certamente, mas não é autêntica misericórdia se não se faz práxis e ética.  Tem que converter-se rapidamente em fatos concretos e transformadores, geradores de justiça, paz, perdão e alegria.

            No entanto, parece-nos também que o conceito e a categoria de misericórdia devem ter uma tradução cultural, a fim de poder ser melhor entendida e consequentemente praticada em nossos tempos secularizados e plurais.  Foi o que aconteceu também com o termo “caridade”, que se diz hoje muito mais como “amor”, entendendo esse amor como uma sensibilidade à vulnerabilidade do outro, do diferente.  Essa concepção de caridade é hermeneuticamente mais compreensível quando uma mensagem deseja ser bem recebida pelos que hoje escutam a Igreja, mas não manejam sua linguagem com intimidade e conhecimento.

            Ainda que ultrapasse a justiça, a misericórdia não existe sem ela.  Portanto, tem que sair do âmbito da pura subjetividade e lançar-se para o espaço público, provocando impactos políticos de transformação da realidade.  Não se pode conceber uma misericórdia que exista desconectada dos direitos fundamentais da pessoa humana, da comunidade humana como um todo. A hermenêutica da palavra o exige, a fim de que possa dar os frutos que o mundo deseja e espera.

            A conversão à misericórdia a que nos chama o Papa Francisco tem que ter diante dos olhos a materialidade da vida, das necessidades concretas do outro, do semelhante, do próximo.  Tem que impactar sobre o comer e o vestir, sobre a moradia como direito de todos, assim como o acesso geral à saúde.  Terá que ver com segurança no viver, sem medo que a violência e a morte interrompam a existência a cada passo e em cada esquina.  Dirá respeito à qualidade afetiva de uma existência que não se exime de consolar os tristes e aflitos através do dom da consolação e da esperança.  Exige abrir as portas das casas para acolher os estrangeiros que chegam e necessitam um lugar para ficar, dormir durante a noite, enquanto buscam trabalho em um país que não é o seu.  Trata-se, enfim, de reconstruir a dignidade de vidas inteiras afetadas pela falta de respeito e o descarte subjetivo, coletivo e sobretudo tristemente real.

            Assim, a misericórdia tem que abandonar a esfera do privado e chegar igualmente à esfera pública, influir sobre a polis e ganhar dimensões políticas.  E não se trata aqui de uma política meramente partidária, mas de política em sentido amplo que, ainda segundo Francisco de Roma, é uma das formas mais elevadas da caridade, uma vez que busca o bem comum.
            O amor que vem de Deus, inspira e converte os corações, enchendo-os da mesma misericórdia que enchia e se derramava do coração de Jesus.  E o que este amor faz é suscitar uma mística de olhos abertos, que olha em volta, vê, para e se compadece.  E busca atender as distintas situações onde a misericórdia se faz urgente e necessária.  A isso está chamada a Igreja de Cristo: a ser no mundo uma das forças vivas onde pulsa o dinamismo do amor suscitado pelo Espírito do próprio Jesus Cristo.  É um amor que sabe que ainda que as urgências materiais sejam prioritárias no atendimento misericordioso, uma vez que sem isso não há vida possível, tampouco tudo não se resume à materialidade para que haja plenitude de vida.  Nem só de pão vive o homem nem a mulher.  Ambos necessitam, além de alimento, moradia e vestuário, de tranquilidade, cuidado, liberdade, dignidade, reconhecimento.  Em suma, justiça e paz.

            Uma cultura da misericórdia, portanto, tem que estar sempre em movimento, tem que ser mais e mais dinâmica.  Inclusive porque a história não se detém e vão aparecendo novas situações de necessidade, pobreza e crise.  Se não há um olhar misericordioso, inspirado e movido pelo amor, essas situações podem não ser percebidas.  Como por exemplo, a depressão que ataca tanta gente a ponto de ser considerada a doença do século.  Ou a solidão abrumadora, que faz com que anciãos morram em casa e ninguém se dê conta, a não ser quando, dias depois, o cadáver entra em decomposição e chama a atenção pelo cheiro.  Tudo isso revela uma sociedade de exclusão, que glorifica o consumo e a produtividade, não olhando e sobretudo não cuidando dos aspectos mais dolorosos e, por isso, mais escondidos da vida. 
           
            No ano que se inicia, somos chamados a voltar-nos para o sofrimento dos mais fracos, mas também para os excessos dos mais ricos e do consumismo capitalista enquanto sistema.  Assim também somos convocados a combater a exploração indiscriminada e impenitente dos recursos do planeta, que está a ponto de lançar toda a vida em um abismo sem retorno.

            Assim, estaremos colaborando para uma ética global da compaixão e da misericórdia, onde a autoridade não é dos que mandam, ou dos governos que detêm poder, mas dos que sofrem de forma injusta e não merecida. Deles provém a verdadeira autoridade, pois são as vítimas de todas as violências e todas as exclusões e, portanto, os destinatários prioritários de toda a misericórdia. Que o compromisso com eles possa ser nossa resolução maior para 2016. 
Feliz Ano Novo para todos!

 Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio.

A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 

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